<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?>
<rss version="2.0">
    <channel>
        <title>Páginas Amarelas - Fernando Molica</title>
        <link>http://www.fernandomolica.com.br/paginasamarelas/</link>
        <description>Artigos e textos de Fernando Molica. Parte integrante do site www.fernandomolica.com.br</description>
        <language>pt</language>
        <copyright>Copyright 2008</copyright>
        <lastBuildDate>Thu, 31 Jul 2008 09:11:01 -0300</lastBuildDate>
        <generator>http://www.sixapart.com/movabletype/</generator>
        <docs>http://www.rssboard.org/rss-specification</docs>
        
        <item>
            <title>Os assassinos de João</title>
            <description><![CDATA[<p>     <br />
   <br />
 <br />
 <br />
9/7/2008 - jornal "O Dia"</p>

<p>Rio - Enganam-se os que atribuem apenas aos dois PMs a responsabilidade pelo absurdo assassinato do menino João. As imagens reveladas na edição de ontem de O DIA não mostram, mas, naquela rua, escondidas atrás de postes, armadas, havia muitas outras pessoas. Gente que encontramos nas ruas, no trabalho, em palácios legislativos e de governo.</p>

<p>Pessoas que forjaram sua cumplicidade com incontáveis crimes, que sempre defendem a violência policial e o desrespeito à civilidade e à lei, que enchem a boca para dizer que na nossa sociedade só há direitos humanos para bandidos.</p>

<p>Pessoas que não se cansam de alardear que policiais têm direito de matar. Que nunca se curvaram a uma realidade óbvia: nos últimos anos, a polícia matou como nunca e a criminalidade não parou de crescer. </p>

<p>Estas pessoas - desculpe, leitor, se você é uma delas - nunca conseguiram atentar para algumas questões: 1. policial que pode matar pode também cometer qualquer outro tipo de crime e ter quase certeza da impunidade; 2. policial que pode matar supostos bandidos pode matar qualquer um de nós. Só há um jeito de impedir que matem inocentes: é impedir que eles matem qualquer um. </p>

<p>O menino João é apenas mais uma vítima da política que, para a alegria de tantos governantes, joga para fuzis e pistolas a solução de graves problemas econômicos, sociais e, claro, de segurança pública. Os que defenderam o direito de a polícia atirar primeiro e perguntar depois devem, agora, apresentar-se à delegacia que investiga o assassinato de João e declararem-se cúmplices dos dois PMs cujo comportamento tanto estimularam. Todos ajudaram a apertar os gatilhos das armas daqueles policiais.</p>

<p> <br />
 </p>]]></description>
            <link>http://www.fernandomolica.com.br/paginasamarelas/2008/07/os-assassinos-de-joao.php</link>
            <guid>http://www.fernandomolica.com.br/paginasamarelas/2008/07/os-assassinos-de-joao.php</guid>
            
                <category domain="http://www.sixapart.com/ns/types#category">O Dia</category>
            
            
            <pubDate>Thu, 31 Jul 2008 09:11:01 -0300</pubDate>
        </item>
        
        <item>
            <title>A perfeição é amarela </title>
            <description><![CDATA[<p>Caros jogadores da seleção brasileira. Acho que a essa hora vocês devem estar se perguntando algo como "caramba, quatro jogos, quatro vitórias, recordes coletivos e pessoais batidos, e os caras ainda reclamam?" Pois é, nós ainda reclamamos - eu mesmo tenho xingado alguns de vocês. Creio não ser o caso de pedir desculpas pelo destempero, pelo excesso de exigência: jogar bem, dar espetáculo, não falhar, e, claro, ganhar sempre e conquistar o hexa. Talvez seja melhor tentar entender o que nos faz assim.</p>

<p>Com nossos clubes de coração não somos tão exigentes. De alguma forma aprendemos a absorver algumas das características de nossos times, a considerar como nossas qualidades e, vá lá, alguns defeitos dessa nossa paixão primordial, a única que não pode ser trocada, que admite todo o tipo de desfeita e traição - o amor por um clube é eterno e sempre dura. Como escreveu Paulo Mendes Campos: "Nos meus torneios, quando mais preciso manter os números do placar, bobeio num lance, faço gol contra, comprometo, tal qual o Botafogo, uma difícil campanha". É ele também que diz: "O Botafogo, às vezes, se maltrata, como eu; o Botafogo é meio boêmio, como eu;(...) o Botafogo é mais surpreendente do que conseqüente, como eu (...)". </p>

<p>Há quase dez anos a jornalista Cláudia Mattos lançou "Cem anos de paixão", livro em que tenta rastrear o que há por trás das relações entre os quatro principais times cariocas e suas torcidas. Acabou fazendo um livro sobre o Rio, tamanha a identificação entre a cidade, seus clubes e seus apaixonados torcedores. De alguma forma, todos somos ou achamos que somos parecidos com nossos clubes, para o bem e para o mal.</p>

<p>Mas com a seleção é diferente. Com a seleção, nossa relação é outra. Com os clubes, somos o que somos, com a seleção, somos aquilo que desejamos ser: bonitos, elegantes, eficentes, eternamente vencedores. O time é como um amor cotidiano, apaixonado, mas com cara de dia-a-dia. Daqueles que admitem uma ausência, uma falha, uma camisa meio desbotada, uma barriguinha, uma celulite, uma noite de amor assim-assim. De vez quando, um dia dos namorados, um aniversário, rola um jogo especial, um jantar com vinho, uma viagem, uma decisão de campeonato (gloriosa, mesmo que contra o Madureira). Seleção é diferente. Seleção, ainda mais em Copa do Mundo, é sempre dia de festa, de roupas novas, Copacabana Palace, corpo malhado, performances impecáveis em noites cheias de gols de placa.</p>

<p>No clube, erguemos as mãos aos céus para agradecer o amor que sabemos merecer - ainda que o goleiro seja meio frangueiro; a zaga, inconfiável; o meio-campo, pouco criativo; o ataque, sonolento. No Maracanã de cada dia, admitimos o gol de canela, o chutão, não nos envergonhamos do erro do juiz que nos ajuda. Sabemos que seria impossível cobrar perfeição de nossos times, de nós mesmos. Perfeição não é para todo dia, só acontece de vez em quando; para ser exato, de quatro em quatro anos. É quando temos chance de reafirmar que somos os melhores. Na seleção não cabe todo mundo, não é para qualquer um: nenhum jogador do Rio foi convocado mas torcida alguma reclamou, sabemos das nossas limitações. Nesse nosso olimpo canarinho, os deuses têm que ser perfeitos. Na seleção, fazemos restrição a gol de bico - mesmo que ele seja salvador, como o do Ronaldo, na Copa passada, contra a Turquia. Na seleção não se pode dar cotovelada, Leonardo; não se perde pênalti, Zico. A condenação à falha pode ser perpétua, como a que experimentou Barbosa. </p>

<p>Então, meus caros, entendam que não é bem de vocês que estamos cobrando tanto. Estamos cobrando de nós mesmos, uma cobrança cruel, absurda, irracional, que nos levaria ao suicídio coletivo caso exigida no cotidiano. Por favor, compreendam: vocês, queiram ou não queiram, são o que temos e somos de melhor. E não fica bem, Ronaldo, aparecer em público com aquela barriga; não dá, Roberto Carlos, para mandar a bola para a arquibanca; é ridículo errar o drible e simular pênalti, Adriano; Ronaldinho, você tem que ser genial sempre; Cafu, não é admissível envelhecer. É desumano pedir tanto? É claro que é. Por isso que a gente só pede de quatro em quatro anos, quando todos ficamos infalíveis, bonitos, imbatíveis; é por isso nunca ficamos satisfeitos. Nosso desejo de perfeição veste amarelo.</p>]]></description>
            <link>http://www.fernandomolica.com.br/paginasamarelas/2006/06/a-perfeicao-e-amarela.php</link>
            <guid>http://www.fernandomolica.com.br/paginasamarelas/2006/06/a-perfeicao-e-amarela.php</guid>
            
                <category domain="http://www.sixapart.com/ns/types#category">O Globo</category>
            
            
            <pubDate>Thu, 29 Jun 2006 12:00:00 -0300</pubDate>
        </item>
        
        <item>
            <title>Feios, tristes e desimportantes</title>
            <description><![CDATA[<p>Um dos prazeres proporcionados pela leitura de um jornal é a possibilidade que nós leitores temos de fazer a nossa própria edição: ou seja, o folhear meio aleatório, meio sem sentido das diferentes páginas nos permite, quase sem querer, formar um outro todo, que reúne as informações que mais nos chamaram a atenção.</p>

<p>E foi assim, na manhã de sábado, que, pulando de uma página a outra, acabei fazendo a minha edição.</p>

<p>Ainda sonolento, li a notícia sobre a confusão armada na Avenida Atlântica por um grupo de pessoas que deixara uma festa para não permitir que o carro de uma das convidadas, estacionado sobre a calçada, fosse rebocado.</p>

<p>Para ficarmos apenas no fato gerador do bafafá: segundo a reportagem do GLOBO, a dona do carro, Nacyr de Carvalho, tentou impedir o reboque utilizando um argumento singelo, uma releitura do velho sabe-com-quem-está-falando: "Eu estava num jantar de uma pessoa boa, alegre, importante, do governo, e peço a gentileza de os senhores liberarem o carro." Bem, ela pediu "por gentileza". Já é um avanço. Mas, enfim, meio sem querer, d. Nacyr deu uma bela contribuição para que se diminua a hipocrisia na relação entre a sociedade brasileira e as leis que esta mesma sociedade, de um jeito ou de outro, aprova.</p>

<p>É simples: trata-se apenas de incluir um adendo no código de trânsito. Algo como "as punições aqui previstas não serão aplicadas quando a infração tiver sido praticada para permitir ao motorista a participação em eventos sociais promovidos por pessoas boas, alegres, importantes e do governo".</p>

<p>Claro que haveria aí o perigo de subjetividade na hora de aplicação do adendo, por exemplo, a dificuldade de se definir quem é bom, alegre, importante e - claro - do governo (federal? estadual? municipal?). Mas a proposta é boa, representaria mesmo o atendimento a uma espécie de anseio popular em uma sociedade cuja maioria parece menos interessada no respeito à lei do que na possibilidade de conquistar um jeito de ficar imune a ela.</p>

<p>Logo depois de ler a reportagem sobre o carro da d. Nacyr, dei com o artigo de Roni Lima sobre a barbárie de Santa Teresa. No artigo, Roni relacionava crimes hediondos com uma sociedade igualmente perversa. Ele cita alguns sinais desta perversão: "A falta de respeito ao próximo, a falta de culto ao trabalho decente como forma de subir na vida". Fala também na valorização do jeitinho brasileiro, do sexo sem sentido e da violência sem limites - seja do criminoso, seja do policial.<br />
Pronto, com o artigo do Roni fechei (para usar um jargão jornalístico) a minha edição particular. Lembrei que na véspera um colega de redação dissera ter visto na TV uma entrevista de uma das, vá lá, personalidades presentes na tal festa do reboque. Segundo ele, a senhora contou, rindo, que quando criança adorava jogar ovos nos "paraíbas" que passavam pela calçada. Uma loucura, não?</p>

<p>Anos se passaram, nordestinos não costumam mais levar ovo nas calçadas. Talvez porque as calçadas tenham hoje habitantes mais nobres. Haveria sempre o risco de mirar num paraíba e acertar num Mercedes ou num Audi (não se respeita mais nada hoje em dia, não é mesmo?). Uma lógica que, quando ampliada e acumulada ao longo de tantos e tantos anos, fomenta tragédias como a que foi comentada pelo Roni e por ele associada à falta de respeito ao próximo e à desconsideração do trabalho decente.<br />
A sociedade, o grande espaço público, virou calçada. Serve apenas de estacionamento para carros e de banheiro para cachorros. Este tipo de desprezo não é privilégio apenas dos "bons, alegres etc" mas é mais chocante quando por eles praticado. Talvez por, nestes casos, ganhar o peso de exemplo de boa vida, de objetivo a ser alcançado pelos feios, tristes e desimportantes. O exemplo de que o interesse pessoal deve ser sempre colocado acima do social.</p>

<p>"Onde meus convidados iam estacionar seus carros?", perguntou a anfitriã da festa. Uma libertária que propõe o desrespeito a leis opressoras? Não, uma defensora, involuntária talvez, daquilo que o senador Roberto Freire chamou de lógica de privatização do Estado.</p>

<p>A apropriação do que deveria ser público é uma espécie de tradição brasileira que se manifesta por todos os lados, nas calçadas da Avenida Atlântica, nos gabinetes da Sudam ou da Sudene.</p>

<p>Bom e educativo jornal, o de sábado passado (e olha que ainda não li outras notícias que vi na primeira página e que certamente irão enriquecer minha edição particular: os desdobramentos da história da CPI da Corrupção e a informação de que 7,3% das crianças do Rio estão fora da escola).</p>]]></description>
            <link>http://www.fernandomolica.com.br/paginasamarelas/2001/05/feios-tristes-e-desimportantes.php</link>
            <guid>http://www.fernandomolica.com.br/paginasamarelas/2001/05/feios-tristes-e-desimportantes.php</guid>
            
                <category domain="http://www.sixapart.com/ns/types#category">O Globo</category>
            
            
            <pubDate>Tue, 15 May 2001 12:00:00 -0300</pubDate>
        </item>
        
        <item>
            <title>Uma cidade maior que os Jogos</title>
            <description><![CDATA[<p>Nada como um olhar estrangeiro para nos revelar aquilo que, por costume ou conveniência, nos recusamos a ver. Os integrantes da missão do Comitê Olímpico Internacional que analisaram a candidatura do Rio aos Jogos de 2004 cumpriram um pouco o papel daqueles antigos visitantes que, na época da colônia, passaram por aqui e que até hoje nos ajudam a ver o Brasil. </p>

<p>Chega a ser espantoso que alguns manifestem surpresa com algumas observações negativas feitas no relatório do COI sobre a candidatura carioca. Pelo que dizem os jornais, os autores do documento registraram a festa, o nosso desejo de sediar as Olimpíadas. Mas deixaram claro que boas intenções não bastam - e eles têm justificadas dúvidas sobre nossa vontade de, em sete anos, equacionarmos problemas sociais que, ao longo de quase cinco séculos, vêm sendo .despachados para o fim da fila.</p>

<p>Não se pode acusar os patrocinadores da candidatura de tentarem esconder nossas mazelas: inspirados por Betinho, souberam transformar a desvantagem em um gol que se espera de placa: o miserê crônico não representaria um obstáculo aos Jogos; ao contrário, estes se constituiriam em um grande catalisador de soluções para os nossos problemas. De tão bom, o argumento acabou sendo registrado no tal relatório do COI. Já é meio-gol.</p>

<p>Por vias mais ou menos tortas, a argumentação acaba revelando o constrangimento de um país que, em busca dos Jogos, é obrigado a admitir que ainda não se esforçou em oferecer o mínimo de dignidade para a maioria de seus habitantes. O raciocínio de que as Olimpíadas é que acenderão esta chama redentora não deixa de ser uma nova versão para a tese do país do futuro (lembram?); uma conclamação na, linha do "desta vez vai".</p>

<p>Nisto tudo,,porém, há algo a comemorar. De olho nas Olimpíadas, estamos descobrindo o óbvio: que a pobreza, a falta de saneamento básico e de transporte coletivo, a poluição, a criminalidade, o grau de desigualdade social por aqui verificado - enfim, todas estas formas de violência - são incompatíveis com um projeto de uma convivência social mais harmônica e saudável.</p>

<p>Vá lá que esta descoberta foi meio assim por acaso. O objetivo primeiro é o de se conquistar as Olimpíadas. A melhoria das condições de vida da população entra como uma espécie de subproduto, mas isto já é um grande avanço.</p>

<p>Resta esperar que - independentemente da decisão do COI sobre a cidade olímpica - frutifique entre nós uma lição que, de tão velha, não mereceria ser aqui repetida: a de que não é possível se perpetuar uma situação social como a nossa.</p>

<p>O problema não é a eventual inviabilidade de sediarmos uma Olimpíada, mas a impossibilidade de continuarmos a viver em uma cidade e em um país com tantas mazelas. O que está em jogo não é uma Olimpíada, mas a nossa sobrevivência. Uma eventual derrota da candidatura do Rio não deve ser encarada como uma tragédia, mas como um estímulo para que, enfim, passemos a encarar nossos velhos problemas.</p>

<p>Uma cidade que seja boa para a maioria de seus habitantes será excelente para abrigar uma Olimpíada. Um Rio mais justo e humano seria quase que imbatível na disputa por qualquer evento internacional. O que é bom para nós também seria bom para eles.<br />
Mesmo que os Jogos não venham, a luta por uma cidade melhor - inspirada pela candidatura - já seria uma espécie de milagre a ser creditado na conta do tal espírito que, além de Olímpico, neste caso, mereceria também o direito de ser chamado de Santo.</p>]]></description>
            <link>http://www.fernandomolica.com.br/paginasamarelas/1997/02/uma-cidade-maior-que-os-jogos.php</link>
            <guid>http://www.fernandomolica.com.br/paginasamarelas/1997/02/uma-cidade-maior-que-os-jogos.php</guid>
            
                <category domain="http://www.sixapart.com/ns/types#category">O Globo</category>
            
            
            <pubDate>Thu, 27 Feb 1997 12:00:00 -0300</pubDate>
        </item>
        
        <item>
            <title>Túlio &amp; Télvio</title>
            <description><![CDATA[<p>RIO DE JANEIRO - A contratação do atacante Télvio pelo Botafogo tem a cara do Brasil. Ah, que Télvio é esse? É o irmão gêmeo de Túlio.</p>

<p>Ao contrário do irmão, artilheiro do campeão brasileiro, Télvio é dono de um currículo limitado. Foi parar no Botafogo graças a Túlio, que incluiu a contratação do irmão no pacote que impediu sua suposta venda para o Japão.</p>

<p>Túlio agiu de acordo com uma das mais fortes tradições brasileiras: a de arrumar um emprego público para um parente. Os clubes não são repartições públicas ou empresas estatais, mas têm lá suas semelhanças. Assim como acontece com as instituições públicas, a propriedade de um clube é meio difusa.</p>

<p>Esses clubes são geralmente administrados de forma amadora: ao contrário do que ocorre em empresas privadas, seus dirigentes não são punidos pelos eventuais prejuízos por eles gerados.</p>

<p>Assim, os clubes acabam vítimas de um fenômeno semelhante ao que atinge repartições públicas ou estatais: o que deveria pertencer a todos acaba sendo considerando como não sendo de ninguém. Logo, não há nada de errado em patrocinar uma sangriazinha aqui ou ali.<br />
Ao longo dos séculos, o Estado brasileiro foi transformado em um empregador irresponsável. Isso com o incentivo da maioria da população, ávida por um emprego público, uma colocação.</p>

<p>A conta do empreguismo, que era paga pela sociedade, hoje desaba também sobre os outrora beneficiados, punidos com a retração de salários e com a falta de perspectivas profissionais.<br />
Apesar de todas as discussões sobre nepotismo e empreguismo, para muita gente político bom continua a ser aquele que garante o futuro de seus eleitores na forma de um emprego público.</p>

<p>Túlio brilhou no campeonato do Botafogo, agora ajuda a transformar o clube em uma Botafogobras ou, como diria o deputado Roberto Campos, uma Botafogossauro. Nenhuma novidade: na lógica nacional, empreguismo ruim é aquele que beneficia apenas aos outros.</p>

<p>* Por último: deu na Folha que 67% dos cariocas têm mais medo do que confiança na Polícia Militar. É impossível não recorrer ao apelo de Chico Buarque: ''Chame o ladrão''!</p>]]></description>
            <link>http://www.fernandomolica.com.br/paginasamarelas/1996/01/tulio-telvio.php</link>
            <guid>http://www.fernandomolica.com.br/paginasamarelas/1996/01/tulio-telvio.php</guid>
            
                <category domain="http://www.sixapart.com/ns/types#category">Folha de S.Paulo</category>
            
            
            <pubDate>Mon, 15 Jan 1996 12:00:00 -0300</pubDate>
        </item>
        
        <item>
            <title>Pacto da Rocinha</title>
            <description><![CDATA[<p>RIO DE JANEIRO _ Mesmo os defensores da solução policial para o problema da violência admitem que a raiz da situação de conflito está plantada no solo das carências e desigualdades sociais. </p>

<p>Já há algum tempo, estudiosos da situação carioca detectaram que, em muitas favelas, o poder formal perdeu a batalha para outro _um poder real, de fato, exercido pelo tráfico de drogas e construído com base no medo e em uma espécie de senso difuso que identifica no Estado uma espécie de inimigo, uma entidade que só aparece por ali metido em uniforme de polícia.</p>

<p>Há alguns anos falava-se no Brasil em um pacto social, um acordo inspirado no Pacto de Moncloa (o que viabilizou a transição democrática na Espanha) e que permitiria à sociedade administrar as liberdades recém-conquistadas.</p>

<p>Bem ou mal, o Brasil institucionalizou-se. Esse processo deixou de fora, porém, milhões de pessoas. Muitas dessas, como os sem-terra, continuam dispostos a participar da brincadeira: para isso chegam a arranhar a legalidade, mas seu objetivo final é o de integração na sociedade.</p>

<p>Outros, como os jovens que vivem armados em favelas cariocas, já perderam essa expectativa de integração: seu horizonte institucional aponta apenas para a cadeia.<br />
A reversão desse quadro exigiria atitudes mais corajosas. O pressuposto seria o Estado e a sociedade admitirem sua responsabilidade na criação das condições que permitiram a expansão da miséria e da violência.</p>

<p>Dessa constatação e da vontade de mudança surgiria uma espécie de ''Pacto da Rocinha'' _isso para citar uma das mais célebres favelas cariocas. Seria um acordo pelo qual o Estado, em seus diferentes níveis, se comprometeria a resgatar a tal dívida social, expressa hoje na falta de empregos, saneamento básico, escolas, transporte e atendimento médico.</p>

<p>Seria também necessário desarmar os grupos marginais. Para isso seria possível até pensar em uma solução que incluísse uma anistia em troca das armas. Anistia que viria acompanhada de oportunidades reais de integração social. É uma proposta arriscada, mas que, se bem-sucedida, proporcionaria ganhos para os dois lados. Seria, talvez, o início de uma sociedade mais justa e menos violenta.</p>]]></description>
            <link>http://www.fernandomolica.com.br/paginasamarelas/1996/01/pacto-da-rocinha.php</link>
            <guid>http://www.fernandomolica.com.br/paginasamarelas/1996/01/pacto-da-rocinha.php</guid>
            
                <category domain="http://www.sixapart.com/ns/types#category">Folha de S.Paulo</category>
            
            
            <pubDate>Sat, 13 Jan 1996 12:00:00 -0300</pubDate>
        </item>
        
        <item>
            <title>Tortura</title>
            <description><![CDATA[<p>RIO DE JANEIRO _ Há 20 anos, em janeiro de 1976, o presidente Ernesto Geisel substituiu o comandante do então 2º Exército, em São Paulo. A decisão foi motivada pelas mortes, em dependências da força, do jornalista Wladimir Herzog e do operário Manuel Fiel Filho.</p>

<p>A atitude de Geisel foi um recado: o governo não admitiria mais nem sequer a acusação de conivência com torturas a presos políticos.</p>

<p>Hoje, a eventual execração pública de um suposto torturador revela que foi criada uma espécie de jurisprudência: a sociedade demonstra, nessas ocasiões, não mais suportar torturas a presos políticos (nem mesmo admite a existência de presos políticos).<br />
A condenação não é, porém, ampla, geral e irrestrita. Afinal, a tortura continua a ser praticada em instituições policiais brasileiras.</p>

<p>Na semana passada, policiais do Rio foram acusados de bater e dar choques elétricos em presos que tentaram fugir de uma delegacia. Os policiais são também acusados de obrigar os presos a praticar sexo oral entre si.</p>

<p>As acusações tiveram repercussão bem menor que a gerada pelas violências contra presos políticos. Talvez porque estes eram, em sua maioria, integrantes de famílias de classe média. Filhos de arquitetos, médicos, jornalistas e mesmo de militares. </p>

<p>Eram gente como a gente: moravam nos nossos bairros, frequentavam lugares semelhantes, haviam estudado nos mesmos bons colégios. A violência contra eles nos revoltava e assustava _poderia ser cometida contra qualquer um de nós.</p>

<p>Os chamados presos comuns são geralmente pobres, acusados de crimes tão comuns quanto eles. Essa violência não nos atinge tanto assim: é contra o outro, contra um eventual inimigo até. Ao torturá-los, o policial não é bem um violador de direitos humanos, mas um herdeiro do capataz que açoitava escravos com a devida aprovação social.</p>

<p>O silêncio diante da tortura colabora para perpetuá-la e reforça a divisão de uma sociedade na qual cidadania é privilégio de poucos. Essa conivência se equivale à que admite a permanência da fome, da miséria e do analfabetismo _mazelas que, como a tortura aos presos comuns, não nos atingem de forma direta e que acabaram incorporadas ao nosso cotidiano.</p>]]></description>
            <link>http://www.fernandomolica.com.br/paginasamarelas/1996/01/tortura.php</link>
            <guid>http://www.fernandomolica.com.br/paginasamarelas/1996/01/tortura.php</guid>
            
                <category domain="http://www.sixapart.com/ns/types#category">Folha de S.Paulo</category>
            
            
            <pubDate>Thu, 11 Jan 1996 12:00:00 -0300</pubDate>
        </item>
        
        <item>
            <title>Coisas do mercado, Paulinho</title>
            <description><![CDATA[<p>RIO DE JANEIRO _ Seis artistas foram chamados para protagonizar o show em homenagem a Tom Jobim que marcou o réveillon na praia de Copacabana: Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Chico Buarque, Gal Costa, Milton Nascimento e Gilberto Gil.</p>

<p>Cada um recebeu R$ 128 mil. Menos Paulinho, que ficou com R$ 35 mil. Convidados para encerrar a festa, Jamelão e integrantes da Mangueira receberam R$ 48 mil.</p>

<p>O cachê de R$ 128 mil é até exagerado para um show coletivo, em que cada um cantaria poucas músicas. Mas a polêmica ficou em torno da diferença entre os valores.</p>

<p>Triste, Paulinho alega ter sido informado de que todos receberiam o mesmo cachê. Pragmático, Gil falou sobre ''política de preço'' e existência de um mercado que ''infelizmente'' diferencia o valor de cada artista.</p>

<p>Entre os organizadores, ninguém assumiu a razão da diferença. Fica então a suspeita de que Paulinho recebeu uma quantia proporcional ao seu valor de mercado. Afinal, seu último disco foi lançado há mais de cinco anos.</p>

<p>Tá legal, mas é meio difícil aceitar o argumento: os outros cinco protagonistas têm o mesmo preço? Pela repercussão de seus últimos shows e discos, Caetano e Gal teriam direito de receber mais que Milton.</p>

<p>Outro problema: todos _inclusive Tom Jobim_ celebrizaram-se pela qualidade de seus trabalhos, não pela capacidade de vender discos. Se os cachês fossem baseados apenas nesse critério, os Mamomas Assassinas deveriam cobrar mais de R$ 1 milhão por show.</p>

<p>Não tem jeito: vai ser difícil apagar a deselegância com Paulinho e a impressão de que, como ele mesmo já cantou, sambista não tem muito valor nesta terra de doutor.</p>

<p>Mais chato ainda foi isso ter acontecido com um artista que sempre viu seu nome ser associado à palavra elegância. Herdeiro direto de sambistas como Cartola e Nelson Cavaquinho, ele, ao longo de sua carreira, soube resistir aos modismos do mercado que agora, vingativo, tenta colocá-lo em seu suposto devido lugar.</p>

<p>Por último, não dá para resistir à tentação de, mais uma vez, citar o próprio Paulinho: durante o nevoeiro, o negócio é levar o barco devagar. Ou melhor: o jeito é criar um novo samba, sem rasgar a velha fantasia.</p>]]></description>
            <link>http://www.fernandomolica.com.br/paginasamarelas/1996/01/coisas-do-mercado-paulinho.php</link>
            <guid>http://www.fernandomolica.com.br/paginasamarelas/1996/01/coisas-do-mercado-paulinho.php</guid>
            
                <category domain="http://www.sixapart.com/ns/types#category">Folha de S.Paulo</category>
            
            
            <pubDate>Fri, 05 Jan 1996 12:00:00 -0300</pubDate>
        </item>
        
        <item>
            <title>Esperança à beira-mar</title>
            <description><![CDATA[<p>RIO DE JANEIRO _ A maior manifestação pela paz na cidade ocorreu na praia de Copacabana, entre a noite de domingo e a madrugada de segunda-feira.</p>

<p>Poderia parecer uma loucura reunir mais de 2 milhões de pessoas em uma cidade que virou paradigma de violência. Pior: a reunião ocorreria durante o réveillon, festa marcada pelo consumo excessivo de álcool, o que ajuda a aumentar a taxa de risco do evento.</p>

<p>O resultado, porém, foi o mais tranquilo possível: a exemplo do ocorrido em anos anteriores, as comemorações de fim de ano transcorreram em paz. O que teria acontecido? Afinal, a cidade é a mesma, seus habitantes e problemas, idem. O bom policiamento ajudou, mas não é suficiente para explicar a tranquilidade da festa.</p>

<p>Anteontem, ouvi uma opinião interessante: para a calma teria contribuído a esperança que marca o início de cada ano. Não seria hora de violência, mas de sonhos. Segundo a autora do diagnóstico, ''até os traficantes de drogas devem ter ido para a festa''.</p>

<p>Pode ser que eles não tenham ido. Mas a associação entre paz e esperança não deve ser desprezada. Aqui e em qualquer outro lugar, a falta de perspectivas acaba arrastando muitos jovens para atividades ilegais.</p>

<p>O assalto ou o tráfico de drogas acabam sendo alternativas para aqueles que, descrentes dos caminhos institucionais _em particular das possibilidades oferecidas pelo sistema educacional_, buscam outras maneiras de fugir da pobreza.</p>

<p>Assim, recuperar a esperança de uma vida melhor seria uma grande conquista na área de segurança pública. O fundamental seria criar condições que fizessem crianças e jovens acreditarem na existência de alternativas capazes de lhes oferecer um bom futuro.</p>

<p>Obs: depois de proibir a venda de livros como ''Estrela Solitária'', a Justiça fluminense ameaça interferir na vida sexual de personagens de novela. O juiz Gilberto Dutra Moreira concedeu liminar _decisão provisória, passível de cassação_ para impedir a rede Globo de colocar no ar a cena em que a cigana Dara, personagem de ''Explode Coração'', seria desvirginada. No início da noite de ontem, a Globo tentava cassar a liminar que é, talvez, o primeiro caso de tentativa de preservação de um hímen virtual.</p>]]></description>
            <link>http://www.fernandomolica.com.br/paginasamarelas/1996/01/esperanca-a-beiramar.php</link>
            <guid>http://www.fernandomolica.com.br/paginasamarelas/1996/01/esperanca-a-beiramar.php</guid>
            
                <category domain="http://www.sixapart.com/ns/types#category">Folha de S.Paulo</category>
            
            
            <pubDate>Wed, 03 Jan 1996 12:00:00 -0300</pubDate>
        </item>
        
        <item>
            <title>Promessas</title>
            <description><![CDATA[<p>RIO DE JANEIRO _ Não foi exatamente uma dessas promessas de fim de ano: seu autor não estava pensando em 1996 ao fazê-la. Enfática, ela dispensa a necessidade de um marco, de uma data.</p>

<p>Nada a ver com dieta ou ginástica. A promessa, registrada no jornal "O Globo", é a seguinte: "Quando eu sair daqui vou matar um PM, o Jesus Gordo, do 22º BPM, e o traficante Cabeça". O autor da frase tem 13 anos e é acusado de participação no tiroteio que matou e feriu torcedores que vieram assistir ao jogo entre Botafogo e Santos.</p>

<p>No jornal, ele foi identificado apenas como M. A reportagem informava que o garoto é analfabeto e que disse ter matado _com uma escopeta calibre 12_ pelo menos duas pessoas.<br />
Ao contrário do que costuma acontecer com promessas de ano novo, a de M. corre o risco de ser cumprida. Ele está detido, mas, de volta às ruas, vai fazer o que sabe: vender drogas e, eventualmente, matar uma ou outra pessoa que tente impedir seu trabalho. Numa dessas, pode sobrar para o Jesus Gordo e para o Cabeça.</p>

<p>M. não é um extraterrestre. Faz parte de uma sociedade em que garotos de 13 anos podem ter acesso mais fácil a uma escopeta do que a um lápis.</p>

<p>A situação de M. é uma espécie de atestado de óbito social. Dessa constatação poderiam surgir outras promessas, todas com o objetivo de acabar com a permanência das condições que geraram M. e outros tantos meninos do Brasil.</p>

<p>Há poucos anos decidimos que um presidente acusado de corrupção não poderia continuar no cargo. A pressão social fez com que ele caísse.</p>

<p>Até hoje, porém, não houve o mesmo consenso em torno da necessidade de se acabar com a miséria e com o analfabetismo. Talvez porque isso implique uma eventual perda de renda ou de privilégios. Derrubar Collor não nos custou tanto.</p>

<p>Obs: segundo uma entidade baiana, o Brasil "não aceita mais conviver com a exploração sexual das crianças". Falta agora acabar com a miséria. Do contrário, vamos proibir a prostituição e manter a tolerância com a fome.</p>]]></description>
            <link>http://www.fernandomolica.com.br/paginasamarelas/1995/12/promessas.php</link>
            <guid>http://www.fernandomolica.com.br/paginasamarelas/1995/12/promessas.php</guid>
            
                <category domain="http://www.sixapart.com/ns/types#category">Folha de S.Paulo</category>
            
            
            <pubDate>Sat, 30 Dec 1995 12:00:00 -0300</pubDate>
        </item>
        
        <item>
            <title>Internet Cidadã</title>
            <description><![CDATA[<p>RIO DE JANEIRO _ Não faz assim tanto tempo, o presidente Fernando Henrique Cardoso e o governador do Rio, Marcello Alencar, posaram diante de terminais de computadores. De acordo com os jornais, eles estavam navegando na Internet, rede que permite a comunicação entre usuários de computadores de todo o mundo.</p>

<p>Até aí, ótimo. Esperamos que estejam fazendo agradáveis jornadas pelos mares virtuais da rede.<br />
Mas ambos, assim como outros governantes, poderiam dar mostras concretas de maior apego e entusiasmo pelas potencialidades tecnológicas oferecidas pelo computador. Talvez a melhor maneira de demonstrar essa adesão seria colocar à disposição do público, via Internet, informações que hoje apenas em tese são públicas.</p>

<p>Informações relacionadas, por exemplo, à liberação de verbas para este ou aquele programa, para o ministério X ou para o banco Y.</p>

<p>A necessidade profissional faz do jornalista um caçador compulsório desse tipo de informação: volta e meia batemos às portas de órgãos públicos em busca de dados sobre concessões de TV, homicídios, arrecadação de impostos, resultados de licitações.</p>

<p>São informações que deveriam estar disponíveis para qualquer cidadão. A prática mostra que, de um modo geral, nada é assim tão simples: muitas vezes o fornecimento de uma informação é protelado e mesmo negado.</p>

<p>O que se discute não é a criação de melhores condições de trabalho para os jornalistas. O que se quer é garantir ao cidadão o exercício de um direito básico: o de saber, de maneira objetiva, como está sendo gerido um negócio do qual ele é sócio.</p>

<p>Obs: por falar em liberdade de informação, já passou do razoável essa onda de apreensões de livros que estariam detratando fulano ou beltrano. A lógica deve ser simples: cada um é responsável por aquilo que fala ou escreve. Quem se sentir atingido deve apresentar sua versão para os fatos e/ou buscar uma reparação na Justiça. Impedir a circulação de um livro não passa de censura.</p>]]></description>
            <link>http://www.fernandomolica.com.br/paginasamarelas/1995/12/internet-cidada.php</link>
            <guid>http://www.fernandomolica.com.br/paginasamarelas/1995/12/internet-cidada.php</guid>
            
                <category domain="http://www.sixapart.com/ns/types#category">Folha de S.Paulo</category>
            
            
            <pubDate>Thu, 28 Dec 1995 12:00:00 -0300</pubDate>
        </item>
        
        <item>
            <title>Entre apitos e balas </title>
            <description><![CDATA[<p>RIO DE JANEIRO _ O Congresso Nacional discute uma proposta que elimina a possibilidade de cadeia para o usuário de drogas e aperfeiçoa a repressão ao tráfico.</p>

<p>Ontem, aqui neste mesmo espaço, foram citados dois grupos de jovens que, em comum, têm apenas o universo das drogas: uns fumam maconha na praia de Ipanema; outros fazem tráfico em favelas.<br />
Os primeiros brincam com a polícia que tenta reprimir a prática: usam apitos para avisar o resto do grupo que está na hora de apagar o baseado.</p>

<p>Os outros não têm lá muito tempo para brincadeiras. Entre eles, as drogas são, em primeiro lugar, produtos que devem ser comercializados. Na falta de outras opções, é um trabalho. Só que, por aqui, a polícia não é recebida com apitos, mas com balas.</p>

<p>Os primeiros vivem na mesma órbita dos legisladores. Ao deixar de punir o consumo, nossos parlamentares atendem a um certo clamor social e previnem eventuais problemas domésticos.<br />
O projeto é um avanço: permite, ainda que de forma tímida e indireta, abrir caminhos para uma discussão que reconheça diferenças entre dependentes e simples consumidores de drogas.</p>

<p>A sociedade, afinal, há muito diferencia alcoólatras dos que apenas bebem com alguma frequência. Isso em país em que o tolerado e até incentivado consumo de cachaça supera o de cocaína em quantidade e em geração de problemas.</p>

<p>O projeto carrega uma contradição: na prática, o consumo de drogas será liberado, mas a repressão ao abastecimento desse mercado deverá ser aperfeiçoada.</p>

<p>Mas o objetivo da repressão ao tráfico não é dificultar o consumo? Se não há maiores problemas no consumo não seria mais lógico partir para a descriminação total?</p>

<p>Se aprovada, a lei vai ser boa para o primeiro grupo e péssima para os integrantes do segundo: estes deverão ter maiores dificuldades para abastecer seus clientes, inclusive os da galera do apito.</p>

<p>Pior: se a polícia chegar na hora da transação, os primeiros ficarão sem as drogas; os outros irão para a cadeia.</p>

<p>Não dá para negar que, apesar de suas boas intenções, a lei honra uma tradição brasileira: alivia os mais ricos e dificulta a vida dos mais pobres.</p>]]></description>
            <link>http://www.fernandomolica.com.br/paginasamarelas/1995/12/entre-apitos-e-balas.php</link>
            <guid>http://www.fernandomolica.com.br/paginasamarelas/1995/12/entre-apitos-e-balas.php</guid>
            
                <category domain="http://www.sixapart.com/ns/types#category">Folha de S.Paulo</category>
            
            
            <pubDate>Fri, 22 Dec 1995 12:00:00 -0300</pubDate>
        </item>
        
        <item>
            <title>Elogios Biográficos</title>
            <description><![CDATA[<p>RIO DE JANEIRO _ O lançamento de mais uma leva de biografias ajuda a enriquecer a discussão sobre as formas de exercitar o gênero. Ao optar por uma espécie de abordagem jornalística de seu personagem, Ruy Castro, autor de "Estrela Solitária _Um Brasileiro Chamado Garrincha", ofereceu uma visão ampla e plural do jogador do Botafogo.</p>

<p>A crônica por vezes cruel da decadência do ídolo está longe de macular a imagem do biografado: o relato dos dramas do alcoólatra acaba por ressaltar o talento do craque.</p>

<p>Duas outras biografias vão na direção oposta. "Geisel, do Tenente ao Presidente", de Armando Falcão, e "Homenagem ao Pastor", do monsenhor Raymundo Brasil, tratam de homens que emergem perfeitos das páginas: o ex-presidente Ernesto Geisel e o arcebispo do Rio, d. Eugenio Sales.</p>

<p>Em "Homenagem ao Pastor", monsenhor Brasil até ameaça uma discussão ao detalhar o trabalho de d. Eugenio em prol da organização de trabalhadores rurais do Nordeste. Isso entre os anos 40 e 60.</p>

<p>Ao tratar da atuação do bispo a partir de sua chegada ao Rio, em 1971, o autor ressalta apenas ações de caráter administrativo e aquelas que seriam úteis na destruição do rótulo de conservador que acabou grudado à batina do cardeal.</p>

<p>Nada é dito sobre os atos de d. Eugenio que geraram o rótulo. Ao optar pela omissão, o biógrafo parece concordar com os que criticaram tais gestos. É como se admitisse a existência neles de algo condenável.</p>

<p>O livro sobre Geisel é ainda mais pródigo nos elogios e econômico em fatos.</p>

<p>Nos dois casos, a necessidade de colocar os personagens a salvo de intempéries é injusta com os biografados. Deixa a impressão de que eles não seriam capazes de resistir a uma gota de chuva.</p>

<p>E, pior, gera no leitor a suspeita de que há muito a ser ocultado.</p>]]></description>
            <link>http://www.fernandomolica.com.br/paginasamarelas/1995/12/elogios-biograficos.php</link>
            <guid>http://www.fernandomolica.com.br/paginasamarelas/1995/12/elogios-biograficos.php</guid>
            
                <category domain="http://www.sixapart.com/ns/types#category">Folha de S.Paulo</category>
            
            
            <pubDate>Tue, 19 Dec 1995 12:00:00 -0300</pubDate>
        </item>
        
        <item>
            <title>Bairro histórico lembra antigo pelourinho</title>
            <description><![CDATA[<p>Cuba mudou mito. De singular tentativa socialista, transformou-se em uma ilha plural. Há o país oficial e o paralelo, o do peso e o do dólar, o do cubano e o do turista. O melhor desta esquizofrenia político-social-econômica é que se pode visitar ambos ou apenas um, ver o que restou do socialismo ou simplesmente ir à praia.</p>

<p>Cuba é possivelmente o único país do mundo em que funcionárias públicas trabalham com as nádegas de fora. Não se trata de mais uma tara daqueles comunistas barbudos. As tais funcionárias são bailarinas de algumas das mais animadas repartições do mundo: os cabarés cubanos.</p>

<p>Em uma quase metáfora das dificuldades do país, os há até poucos anos imensos biquínis revelam hoje escassez de tecido e exaltação de ousadia e liberalização.<br />
Fora o socialismo, as duas Cubas - a do turista e a do cubano - continuam muito parecidas com a nossa Salvador: na ilha não há a miséria baiana. Em compensação, as construções do "novo" Pelourinho dão um banho nos mal conservados casarões e palácios de Havana Velha, bairro histórico da capital cubana.</p>

<p>Lá, como aqui, Iemanjá é Iemanjá. Ogum é Ogum etc. Herança iorubá: nação africana de onde foram levados escravos que serviram às então colônias espanhola e portuguesa. Cubano é parecido com baiano até no desrespeito aos horários - e o pior é que lá todo mundo é funcionário público.</p>

<p>A fronteira das duas Cubas é marcada por uma linha imaginária formada por notas de dólares. Na ilha há os com-dólares e os sem-dólares. Os primeiros podem até dizer que o paraíso não é algo assim tão distante e não fica necessariamente a menos de 200 km ao norte, na Flórida.</p>

<p>Já os sem-dólares são obrigados a viver com o peso, moeda que, se ainda oferece alguma garantia contra o inferno da fome, serve, no máximo, para comprar um lugar nas arquibancadas do purgatório.</p>

<p>Para o turista não há opção: ele está entre os que têm dólares. O peso fica ainda mais leve para o estrangeiro e tem apenas a discutível utilidade de servir como recordação.<br />
Com algum jeito, dá até para se sentir um milionário norte-americano em Copacabana. Isto, até na desvantagem de ser assediado por: 1) meninos (e velhos) pedindo dinheiro (dólar, claro, Fidel Castro já disse que "o real não cheira bem"); 2) funcionários públicos oferecendo rum e charutos a preços que, garantem, ser de ocasião; 3) dezenas de pessoas querendo saber detalhes dos próximos capítulos da novela "Felicidade".<br />
A parte pobre do país, que inclui Havana Velha, é uma mistura de subúrbio carioca com Pelourinho pré-reforma. Apesar da pobreza, do mau estado de conservação dos prédios, dos pedintes, dos traficantes de rum e dos noveleiros, ir a Havana Velha é tão fundamental quanto beber mojitos ou daiquiris, drinques feitos com rum.<br />
Para quem saiu do Brasil disposto a ficar distante de pobres e novelas, o melhor é correr para Varadero, a 140 km da capital, e ficar de molho no mar com águas a 25ºC.</p>]]></description>
            <link>http://www.fernandomolica.com.br/paginasamarelas/1994/11/bairro-historico-lembra-antigo.php</link>
            <guid>http://www.fernandomolica.com.br/paginasamarelas/1994/11/bairro-historico-lembra-antigo.php</guid>
            
                <category domain="http://www.sixapart.com/ns/types#category">Folha de S.Paulo</category>
            
            
            <pubDate>Thu, 17 Nov 1994 12:00:00 -0300</pubDate>
        </item>
        
        <item>
            <title>Escolas cariocas viram cordão de turista</title>
            <description><![CDATA[<p>Talvez sem querer, Gilberto Gil forneceu régua e compasso para a discussão em torno da eventual presença excessiva nas escolas, em especial, na Mangueira, de pessoas de fora do mundo do samba. Ele foi ao ponto ao detectar o que chamou de "caráter devocional" do desfile e ao citar o aspecto ritualístico da manifestação.Este rito e esta devoção estão, como ele também citou, ligados à luta das comunidades onde as escolas foram geradas. Estas características é que definem os limites da expansão do desfile. As escolas podem fazer tudo, mas não podem perder a fonte que as alimenta e legitima. O fundamental é manter o desejo de uma comunidade em se fazer representar com dignidade.A Beija-Flor, a Mocidade e a Imperatriz - os melhores exemplos de escolas que desabrocharam a partir da atuação de bicheiros/patronos - já existiam muito antes de serem adotadas. Os bicheiros não criaram estas escolas de samba. Foram em busca delas para tentar absorver um pouco da legitimidade que expressavam.Alguns bicheiros, como "Capitão Guimarães", foram menos sutis e acabaram rejeitados. Guimarães entupiu a Vila Isabel de dinheiro, mas acabou perdendo o poder na escola, campeã em 88 já sem a incômoda presença do patrono. Assim como os bicheiros, as iniciativas que visam dar um suporte empresarial às escolas têm de saber respeitar seus limites. Não podem se arvorar em substituir os poderes acumulados ao longo de - no caso da Mangueira - quase 60 anos.Mesmo que as agremiações tenham crescido e transcendido os limites de suas comunidades originais, a presença majoritária no desfile de pessoas a elas ligadas é fundamental para manter este elo que garante a sobrevivência da agremiação. Os bicheiros mais esclarecidos sabem disto: tanto que, para garantir um bom padrão de desfile e manter sua popularidade passaram, cada vez mais, a investir na compra de fantasias para os componentes que não teriam como adquirí-las - os antigos integantes das escolas estavam engrossando apenas uma ala, a "da força", eufemismo que caracteriza os empurradores de carros alegóricos.Uma escola perde sua função se não for mais vista como representante daqueles que a construíram e sim como um play-ground de aluguel ao alcance de quem tenha dinheiro para comprar uma fantasia. Escolas que são, não sobrevivem com um número excessivo de alunos que comparece apenas na festa de formatura com um diploma comprado nas mãos exibindo o ar bobo de quem enche a boca para dizer que é Mangueira ou Portela, mas que sobe ao morro apenas na condição de sequestrado.O ritual do desfile se completa com a presença, entre o público, de pessoas que cresceram aprendendo a gostar daquele espetáculo e que não tem vergonha de ouvir samba fora do carnaval. Fruto do crescimento e institucionalização dos desfiles, o sambódromo não pode ser um gueto para cariocas, mas, ao contrário do que afirmou o presidente da Riotur, José Eduardo Guinle, não foi feito principalmente para os turistas. Gil falou em devoção e ritual. As religiões criaram, ao longo de milênios, cerimônias bélissimas que atraem e fascinam o mais renitente ateu. Estas religiões, porém, morreriam se transformadas em macumba para turista. Elas precisam de fiéis que não apenas vejam, mas que compartilhem seu ritual.</p>]]></description>
            <link>http://www.fernandomolica.com.br/paginasamarelas/1994/02/escolas-cariocas-viram-cordao.php</link>
            <guid>http://www.fernandomolica.com.br/paginasamarelas/1994/02/escolas-cariocas-viram-cordao.php</guid>
            
                <category domain="http://www.sixapart.com/ns/types#category">Folha de S.Paulo</category>
            
            
            <pubDate>Sun, 20 Feb 1994 12:00:00 -0300</pubDate>
        </item>
        
    </channel>
</rss>
