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        <title>Blog Pontos de Partida - Fernando Molica</title>
        <link>http://www.fernandomolica.com.br/blog/</link>
        <description>Blog Pontos de Partida escrito por Fernando Molica. Parte integrante do site www.fernandomolica.com.br</description>
        <language>pt</language>
        <copyright>Copyright 2012</copyright>
        <lastBuildDate>Fri, 03 Feb 2012 21:12:16 -0300</lastBuildDate>
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            <title>Nosso grande parquinho mambembe</title>
            <description><![CDATA[<p>Coluna <em>Estação Carioca</em>, jornal <strong>O DIA</strong>, 01/02.</p>

<p>O Rio começa a ficar parecido com o Glória Center, aquele parquinho mambembe de diversões onde duas pessoas morreram no ano passado. É impressionante a sucessão de tragédias que, em diferentes graus, combinam irresponsabilidade particular com inoperância ou cumplicidade do poder público. Parece que, de uma hora para outra, vieram à ...tona todas as consequências de anos e anos de descaso.</p>

<p>Os exemplos são muitos: o restaurante da Praça Tiradentes usava botijões de gás que não poderiam ser instalados lá. O dono deve ter achado que a proibição era uma frescura, uma dessas besteiras que políticos inventam para azucrinar o cidadão. Pelo visto, bombeiros e a prefeitura concordavam, tanto que não fizeram nada para prevenir o acidente.</p>

<p>Ao longo de décadas, o Edifício Liberdade ganhou janelas e anexos, perdeu paredes, pedaços de laje e, talvez, uma ou outra coluna. Ao que tudo indica, a estrutura sucumbiu aos ataques. A insensatez representada pelas obras realizadas sem a devida assistência pode ser traduzida em frases que estamos acostumados a ouvir: "Na minha casa, eu faço o que eu quero!", "O carro é meu, paro onde bem entender", "Os incomodados que se mudem", "Lei Seca é pra arrumar grana" -- todas são expressões de uma irresponsabilidade egoísta e assustadora.</p>

<p>No caso da explosão de um bueiro no Porto, é provável que houvesse óleo combustível dentro de galeria destinada ao escoamento da chuva. Óleo que deve ter ido parar lá da mesma forma com que casas e prédios jogam esgoto na mesma rede. É mais simples, é mais barato -- algo tão banal quanto arremessar uma lata de cerveja da janela de um ônibus ou de um carro. Uma superprodução teatral também não escapou: os cabos que deveriam sustentar o voo dos atores Thiago Fragoso e Danielle Winits foram instalados sem a assistência de um engenheiro. Nem os deuses gregos de 'Xanadu' ficaram livres de nossa bagunça.</p>

<p>Nós, cariocas, sempre nos vangloriamos da nossa capacidade de adaptação, do nosso jogo de cintura. Já passou da hora de admitirmos que os limites foram ultrapassados. É razoável quebrar um galho numa situação pontual, mas não dá para fazer com que o desvio vire norma. Não se constrói uma sociedade na base do improviso e do "deixa comigo". De jeitinho em jeitinho, corremos o risco de ver a cidade transformada em versão ampliada do tal Glória Center.</p>]]></description>
            <link>http://www.fernandomolica.com.br/blog/2012/02/nosso-grande-parquinho-mambemb.php</link>
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            <pubDate>Fri, 03 Feb 2012 21:12:16 -0300</pubDate>
        </item>
        
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            <title>Esclarecimento, caso Hospital Pedro II</title>
            <description><![CDATA[<p>Tenho recebido várias mensagens de pessoas que se dizem interessadas em trabalhar no Hospital Municipal Pedro II, cuja administração foi terceirizada pela prefeitura do Rio. As mensagens têm sido enviadas em forma de comentários para o post em que reproduzi, aqui no blog, diversas notas sobre o Pedro II que eu publicara na coluna <strong>Informe do Dia</strong>. As notas levantavam questões relacionadas a supostas irregularidades na escolha da Biotech para administrar o hospital. Ou seja: as notas não têm qualquer relação com ofertas de emprego no Pedro II - esta relação é absurda, até porque o tom das notas era de crítica ao processo de escolha da Biotech.</p>

<p>Na semana passada eu coloquei, nos comentários do post sobre o caso, uma nota sobre o assunto. Não adiantou: pessoas continuam a mandar mensagens oferecendo seus serviços. Sugiro que procurem a Biotech. Vou retirar da caixa de comentários todas as mensagens enviadas sobre o caso. O blog, afinal, não serve de emprego nem para seu titular.</p>]]></description>
            <link>http://www.fernandomolica.com.br/blog/2012/02/esclarecimento-caso-hospital-p.php</link>
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            <pubDate>Fri, 03 Feb 2012 20:57:58 -0300</pubDate>
        </item>
        
        <item>
            <title>O tempo de um velho Francisco</title>
            <description><![CDATA[<p>Coluna <em>Estação Carioca</em>, jornal <strong>O DIA</strong>, 25/01:</p>

<p>A dica vem logo na primeira música. Ao abrir seu ótimo show com 'O velho Francisco', Chico Buarque, que em junho completará 68 anos, faz uma autoironia -- ele, um Francisco, está chegando aos 70 -- e inicia uma deliciosa conversa sobre o tempo. Isto, no momento em que o discreto compositor assume seu namoro com a cantora Thaís Gulin, 31 anos, que inspirou 'Essa pequena', uma das músicas de seu novo CD. A palavra 'pequena' revela outra brincadeira: só os mais velhos a utilizam como sinônimo de jovem. O mesmo Chico que, na canção, admite ser curto o seu tempo demonstra tranquilidade ao encarar a passagem de tantos anos quando apresenta uma nova versão para o infinito enquanto dure de Vinicius de Moraes: "Temo que não dure muito a nossa novela, mas / Eu sou tão feliz com ela." </p>

<p>Protagonista e parceiro de jornadas que se estendem por cinco décadas da vida brasileira, Chico faz no show uma espécie de balanço de tantas histórias. Histórias perenes, ligadas aos amores de cada um; histórias mutantes -- o 'Cálice' lapidado com Milton Nascimento em protesto contra a ditadura derrama, nos versos do rapper Criolo, o apelo da periferia paulistana, pois "na quebrada escorre sangue". Em 'Anos dourados', confessa dúvidas sobre um amor passado, em 'Desalento' (composta com Vinicius), admite ter rodado, bebido, caído, que só sabe ter cansado dos seus desencontros. Isso, antes de concluir: "Corre e diz a ela / Que eu entrego os pontos".</p>

<p>Na espetacular 'Todo sentimento' (com Cristóvão Bastos), as dúvidas sobre o fim de uma relação fazem com que a palavra "tempo" seja citada cinco vezes. Ele passa da urgência de descobrir um tempo de amar à placidez da busca de um "tempo da delicadeza", "Onde não diremos nada / Nada aconteceu / Apenas seguirei, como encantado / Ao lado teu".</p>

<p>No fim das contas, Chico mostra o quanto é inútil brigar com o tempo. Ao lado de sua pequena, 36 anos mais nova, não canta 'Apesar de você', mas é como, se a cada música, ressaltasse que, mesmo que nada dê muito certo hoje, amanhã será sempre outro dia. No bis, diz para a amada não se afobar, pois futuros amantes poderão se aproveitar daquele amor deixado num fundo de algum armário, na posta-restante. Palmas para o artista que, ao encerrar o show com 'Na carreira' (com Edu Lobo), aposta no incerto tempo que vem pela frente: "Arte de deixar algum lugar / Quando não se tem pra onde ir".</p>]]></description>
            <link>http://www.fernandomolica.com.br/blog/2012/01/o-tempo-de-um-velho-francisco.php</link>
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            <pubDate>Fri, 27 Jan 2012 15:56:34 -0300</pubDate>
        </item>
        
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            <title>O caso Beltrami e a briga das polícias</title>
            <description><![CDATA[<p>Coluna <em>Estação Carioca</em>, jornal <strong>O DIA</strong>, 18/01</p>

<p>Até onde sei, o coronel PM Djalma Beltrami cometeu graves e comprovados erros apenas como árbitro de futebol. Os piores foram a marcação de um impedimento inexistente de Dodô na final do Carioca de 2007 e a expulsão do jogador a poucos minutos do fim do jogo. Sua atuação foi decisiva para impedir que o Botafogo chegasse ao título. Mas a desastrosa e, para os alvinegros, imperdoável participação de Beltrami naquele jogo não justifica, claro, suas duas prisões determinadas pela Justiça. </p>

<p>O oficial foi acusado pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de associação com o tráfico de drogas. Qualquer que seja seu desfecho, o caso não é simples. Se Beltrami for considerado culpado, a investigação terá contribuído para, mais uma vez, revelar o grau de corrupção na polícia. Implicará a necessidade de se reforçar a vigilância sobre os policiais e de se encarar a importância de uma política salarial digna para os que têm a obrigação de arriscar suas vidas por todos nós. </p>

<p>Baixos salários não justificam a corrupção, mas abrem caminho para atividades paralelas que, aos poucos, se revelam mais interessantes e lucrativas que o trabalho principal. O salário de um agente policial não pode ser tão absurdamente inferior ao poder que lhe é concedido pelo Estado. Ainda mais um Estado -- e aqui falo do País como um todo -- que se mostra pouco interessado em punir casos de corrupção explícita que se manifestam em instâncias superiores. O exemplo, para o bem e para o mal, vem de cima. Se a culpa do coronel não for comprovada, todo este episódio servirá para reiterar os problemas na condução de inquéritos policiais: não dá para medir o tamanho do dano provocado pela exposição pública de um inocente. </p>

<p>Mas, de cara, o prende-solta do oficial escancarou de vez a crise entre as polícias Civil e Militar. Para boa parte da PM, Beltrami é apenas a bola da vez nas infindáveis escaramuças entre as duas instituições. A disputa de poder leva a uma permanente tensão e a frequentes casos de sobreposição de funções -- os perrengues são bons apenas para os que lucram com a disputa, aí incluídos os bandidos. A divisão de funções policiais, algo raro no mundo, apenas contribui para aumentar nossos problemas de segurança. O caso Beltrami, o Fla-Flu criado entre os que o acusam e o defendem, pode servir, ao menos, para o País estudar a derrubada de interesses corporativos e a trabalhar pela unificação das polícias.</p>]]></description>
            <link>http://www.fernandomolica.com.br/blog/2012/01/o-caso-beltrami-e-a-briga-das.php</link>
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            <pubDate>Wed, 18 Jan 2012 19:30:08 -0300</pubDate>
        </item>
        
        <item>
            <title>Eles não são haitianos</title>
            <description><![CDATA[<p>Coluna <em>Estação Carioca</em>, <strong>jornal O DIA</strong>, 11/01:</p>

<p>País formado pela imigração -- forçada ou voluntária --, o Brasil, nos anos 80 do século 20, virou exportador de gente. No fim de 2011, o governo estimou em 3 milhões o número de brasileiros que morava em outros países, pessoas que foram em busca de uma vida melhor. Um dos centros de emissão de brasucas, a cidade mineira de Governador Valadares chegou a ser conhecida como 'Valadólares', tamanha a dependência do dinheiro enviado dos Estados Unidos.</p>

<p>Lá pelos anos 90 começamos a, constrangidos, ver na TV e ler nos jornais casos de patrícios barrados em fronteiras; trabalhadores que eram caçados, humilhados, presos, despachados de volta para o Brasil. As histórias vividas por brasileiros -- o José, a Maria, o Carlos, a Cristina -- eram de cortar o coração. Alguns tiveram fim trágico, como o mineiro Jean, assassinado pela polícia britânica. A nova ordem mundial era clara: apenas o capital poderia circular livremente.</p>

<p>Os tempos mudaram e, apesar de suas indecentes desigualdades, o Brasil cresceu: na sexta economia do mundo há falta de engenheiros e de mão de obra para a construção civil. A boa notícia circulou e, agora, somos surpreendidos pela chegada de haitianos ao Acre, gente que -- a exemplo de nossos avós ou bisavós ou como os vizinhos ou parentes que partiram há alguns anos -- está em busca de trabalho. Os governos têm ajudado os imigrantes, mas já dá pra ouvir o coro dos que querem o fechamento das fronteiras.</p>

<p>Não é simples acolher tantas pessoas, mas pior seria não recebê-las. Há até um viés racista na reação negativa aos imigrantes: muitos seriam mais receptivos se os haitianos tivessem cabelos louros. Em 1929, um importante jornal brasileiro subiu nas tamancas diante da chegada de negros americanos ao Pará, todos trazidos pela Ford. O matutino ressalvou não ter "preconceito de cor", mas afirmou: "Não é desejável a contribuição dos pretos americanos para o caldeamento de raças no Brasil." Segundo o editorial, "um contingente preto", naquele momento, seria "mais nocivo do que útil à obra de civilização que estamos empenhados". O Brasil e suas elites mudaram, mas não duvido se, pelos cantos, muita gente não estiver resmungando palavras parecidas.</p>

<p>Quem está chegando não são haitianos, são apenas pessoas como nós, que tentam uma vida melhor. Têm nomes, pais, filhos, histórias e sonhos. Não são eles -- são o Jean, a Marie, o Charles e a Christine. Que sejam felizes por aqui.</p>]]></description>
            <link>http://www.fernandomolica.com.br/blog/2012/01/eles-nao-sao-haitianos.php</link>
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            <pubDate>Wed, 11 Jan 2012 15:06:39 -0300</pubDate>
        </item>
        
        <item>
            <title>Ai, que delícia de dança na guerra</title>
            <description><![CDATA[<p>Coluna <em>Estação Carioca</em>, jornal <strong></strong>O DIA, 04/01:</p>

<p>Ao improvisarem uma coreografia para 'Ai, se eu te pego', aqueles soldados israelenses deram uma inusitada contribuição à paz no Oriente Médio. Eles queriam apenas se divertir um pouco, mas, ao transformarem em dança uma simulação de exercício de guerra, lembraram a todos que, antes de mais nada, são jovens; garotos que, como todos nós, amaram ou amam os Beatles e os Rolling Stones -- ou a Madonna, o Franz Ferdinand, a Amy Winehouse, o Chico Buarque ou o Michel Teló.</p>

<p>Naquele momento, os soldados vivenciaram uma frase que marcou os protestos contra o conflito no Vietnã: fizeram o amor e não a guerra. É até provável que, naquele mesmo instante, jovens palestinos -- que vivem em condições precárias, num país não reconhecido, cercados por um dos exércitos mais poderosos do mundo -- estivessem ouvindo e dançando o mesmo hit brasileiro.</p>

<p>Em Israel, o serviço militar é obrigatório para homens e mulheres -- 36 meses para eles; 24 meses pela elas (judeus ortodoxos estão livres da obrigação). Desde crianças, os israelenses e seus vizinhos palestinos sabem que vão participar de uma guerra que parece sem fim. Não é lá uma perspectiva muito tranquila para pais e filhos, tanto que movimentos pacifistas e esforços de convivência ganham cada vez mais espaço por aquelas bandas.</p>

<p>Com seus passos desajeitados, os soldados israelenses fizeram um novo e involuntário apelo de paz. Como se gritassem que são apenas jovens, tão jovens. Eles, assim como os palestinos, têm o direito de não serem mandados para matar ou morrer na guerra. Anteontem, numa ótima entrevista ao 'Roda Viva', o escritor israelense Amós Oz citou que sua literatura não trata de conflitos entre o certo e o errado, mas de embates entre o certo e o certo -- ou seja, do que cada personagem considera ser o certo. Palestinos e israelenses têm seus motivos para a guerra e, principalmente, para a paz. Paz que só será possível quando cada lado entender o que há de justo nas reivindicações do outro.</p>

<p>Como também disse Oz, a maioria dos dois povos admite as concessões necessárias, o complicado é fazer com que suas lideranças tenham a coragem de formalizá-las. Enquanto os políticos não se resolvem, os soldados cansados de guerra brincaram com a delícia do sonho de paz -- e, assim, não matam ninguém. Como disse um sujeito no Facebook, Michel Teló até merece uma indicação ao Prêmio Nobel da Paz.</p>

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            <link>http://www.fernandomolica.com.br/blog/2012/01/ai-que-delicia-de-danca-na-gue.php</link>
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            <pubDate>Wed, 04 Jan 2012 10:31:09 -0300</pubDate>
        </item>
        
        <item>
            <title>A missa no reino de Roberto Carlos</title>
            <description><![CDATA[<p>Coluna <em>Estação Carioca</em>, jornal <strong>O DIA</strong>, 28/12</p>

<p>Roberto Carlos transformou seus shows numa espécie de missa. Todos sabemos o que será dito/cantado no palco/púlpito e, mesmo assim, saímos de lá felizes e emocionados. O ritual transmite segurança, revela que nem tudo mudou: o Rei parece estar ali desde sempre. Cheguei a tremer ao entrevistá-lo nos bastidores do primeiro Rock in Rio; afinal, era seu fã desde os anos 60. No último Carnaval, graças a um encontro com Léa Penteado, assessora de RC, fui um dos três jornalistas convidados ao seu camarote. Trocamos muitos sorrisos e algumas palavras: desconfiado, ele pensa muito antes de falar.</p>

<p>Uma vez, no meu blog, tentei entender como o 'Rei da Juventude' virou 'o Rei' (Pelé reina apenas no futebol). Arrisquei dizer que, mesmo hoje, um rei representa ideais, compromissos e expectativas. Reis são protetores, estão acima dos partidos, refletem e personalizam supostos sentimentos de seus povos. Chico Buarque é o que gostaríamos de ser; Roberto Carlos é parecido com o que somos -- meio bregas, sentimentais, pouco politizados, mais ligados aos valores familiares do que aos comunitários. Ele traduz nossas contradições: mandou tudo pro inferno e pede para Nossa Senhora cuidar de seu coração. Suas canções ajudam a integrar um país desigual, passam por cima de contradições sociais. RC não disse uma palavra contra a ditadura mas, comovido com o exílio de Caetano Veloso, exerceu sua nobreza ao compor 'Debaixo dos caracóis de seus cabelos'.</p>

<p>Episódios de sofrimento -- o acidente na infância, a quase cegueira do filho, a paixão e morte de Maria Rita -- reforçaram sua ligação com um povo que se vê solidário, que tem dificuldade com estruturas impessoais. As tragédias serviram para aproximá-lo ainda mais de seus súditos/fãs. Gostamos tanto de RC que respeitamos seu silêncio em relação a pessoas que, como ele, têm algum tipo de deficiência. Bastaria uma palavra dele para que o País se tornasse mais amigável em relação aos que, por exemplo, usam cadeira de rodas; é só ver o peso que ele tirou dos ombros de muita gente ao admitir o TOC. Mas o Rei tem lá suas fraquezas e evita o tema. Ao abordar, no ótimo 'Roberto Carlos em detalhes', o acidente que causou a amputação da perna de RC, Paulo Cesar de Araújo despertou a fúria real. Absolutista, Roberto Carlos conseguiu impedir a circulação do livro, um absurdo apenas compreensível pela lógica monárquica. RC acha que um rei não pode ser tratado de acordo com os valores republicanos.</p>]]></description>
            <link>http://www.fernandomolica.com.br/blog/2011/12/a-missa-no-reino-de-roberto-ca.php</link>
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            <pubDate>Wed, 28 Dec 2011 11:23:02 -0300</pubDate>
        </item>
        
        <item>
            <title>Caso Biotech/Pedro II </title>
            <description><![CDATA[<p>Na última quarta, o <strong>Informe do Dia</strong> começou a publicar notas sobre a disputa pela gestão do Hospital Pedro II - o hospital era estadual, pegou fogo no ano passado e passou para o município, que decidiu entregar sua administração a uma Organização Social. O resultado deveria ter saído na semana passada, mas duas das OSs concorrentes entraram com recursos contra a comissão que deu à Biotech a maior pontuação. A seguir, as notas publicadas.</p>

<p></p>

<p><strong>Informe do Dia</strong>, 21/12:</p>

<p><em>Pedro II sob suspeita</em></p>

<p>Rio - A escolha da Organização Social (OS) que vai gerir o Hospital Pedro II, em Santa Cruz, foi adiada: duas das concorrentes (a Marca e a SPDM) recorreram de decisões da comissão criada pela Secretaria Municipal de Saúde.</p>

<p>A Marca questionou as boas notas atribuídas à Biotech, outra concorrente. Qualificada pela prefeitura como OS há menos de dois meses, a Biotech não demonstrou ter atuado na direção de unidades de saúde: nos documentos, citou apenas a experiência de seu responsável técnico, Valter Pelegrine Junior, na gestão de hospitais. </p>

<p><em>Experiência alheia</em><br />
A Biotech ressaltou a atuação de Pelegrine Junior na GPS Total, responsável pelo Hospital de Acari, e na GPM Saúde, que foi gestora do Pedro II: este contrato foi rompido pelo então governador Garotinho. A GPS Total e a GPM pertecem à família Pelegrine.</p>

<p><em>Sem experiência</em></p>

<p>No último dia 9, a Biotech ficou em sétimo lugar na escolha da OS responsável por um novo hospital municipal na Ilha do Governador. A comissão concluiu que seu convênio com a GPS Total não comprovava "a experiência solicitada".</p>

<p><br />
<strong>Informe do Dia</strong>, 22/12:</p>

<p><em>O mistério Biotech</em></p>

<p>Rio - O vereador Paulo Pinheiro (PSOL) decidiu solicitar à Secretaria Municipal de Saúde informações sobre a Biotech, Organização Social (OS) que mais pontos conquistou na disputa pela administração do Hospital Pedro II: como duas concorrentes protestaram, o resultado da escolha foi adiado pela prefeitura.</p>

<p>"Precisamos saber qual é a experiência dessa OS na gestão de hospitais", afirmou. Na disputa pelo Pedro II, a Biotech anexou apenas documentos sobre as atividades, em gestão hospitalar, de seu responsável técnico, Valter Pelegrine Junior.</p>

<p><em>A gestora de Acari</em></p>

<p>A família de Pelegrine é dona da GPS Total, que administra o Hospital Municipal de Acari. Como é uma empresa, a GPS não poderia disputar a gestão de novas unidades de saúde, reservadas para OSs. A Biotech foi qualificada pela prefeitura em 4 de novembro.</p>

<p><em>FGTS devido</em></p>

<p>Pelegrine Junior está registrado na prefeitura como presidente da Biotech. Segundo Pinheiro, relatório da Delegacia Regional do Trabalho mostra que a GPS não recolhe FGTS de funcionários há três anos. A dívida é de R$ 866 mil. </p>

<p><br />
<strong>Informe do Dia</strong>, 23/12:</p>

<p><em>Infrações em Acari </em></p>

<p>Rio - A GPS Total Saúde, que administra o Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, em Acari, recebeu, no dia 23 de novembro, nove autos de infração do Ministério do Trabalho. De acordo com o Relatório de Fiscalização, a empresa desrespeita o contrato com a prefeitura que determina o registro de seus funcionários pela CLT: segundo o documento, entre janeiro de 2008 e outubro de 2011, 707 pessoas trabalharam no hospital sem carteira assinada. Médicos e enfermeiros entrevistados pelos fiscais declararam ter vínculos com cooperativas de trabalho cujos nomes e endereços não souberam revelar.<br />
Secretário municipal de Saúde, Hans Dohmann disse ontem que a experiência da GPS na gestão do Ronaldo Gazolla permitiu à Organização Social (OS) Biotech garantir a maior pontuação na disputa pela gestão do Hospital Pedro II, em Santa Cruz. O presidente da Biotech, Valter Pelegrine Junior, é um dos proprietários da GPS. </p>

<p><em>Dados omitidos</em></p>

<p>A fiscalização, solicitada pelo vereador Paulo Pinheiro (PSOL), registrou que a GPS não apresentou documentos relacionados aos seus funcionários. Como o Informe revelou, os fiscais cobram o recolhimento de R$ 866.209,84 relativo ao FGTS dos empregados não registrados.</p>

<p><em>Recursos</em></p>

<p>Dohmann disse que a GPS recorreu das infrações. Segundo ele, só depois do julgamento do recurso é que a prefeitura poderá tomar alguma atitude no caso. O secretário negou qualquer influência de políticos na escolha da OS que administrará o Pedro II: a licitação está sendo contestada por duas concorrentes.</p>

<p><br />
<strong>Informe do Dia</strong>, 25/12</p>

<p><em>Amigos e parceiros </em></p>

<p>Papéis da Biotech, favorita para vencer a disputa pelo Hospital Municipal Pedro II, mostram que esta organização social (OS) funciona graças a uma espécie de ação entre amigos.<br />
O processo de qualificação da OS na prefeitura revela: a Biotech (que até março chamava-se Associação Médico Gratuito) existe em torno da GPS Total, empresa que administra o Hospital Municipal de Acari. A experiência da antiga associação na área de saúde foi atestada apenas pela Cooperativa de Serviços de Saúde Total Saúde, que também tem ligações com a GPS Total.</p>

<p><em>Mesmo endereço</em></p>

<p>Quem assina, pela cooperativa, o documento sobre a especialização da associação é Maurilio Turatti, gestor da GPS. O CNPJ da GPS e o certificado de quitação do FGTS da cooperativa mostram que elas funcionam no mesmo endereço.</p>

<p><em>Experiência pessoal</em></p>

<p>Na disputa pelo Pedro II, a boa pontuação concedida à Biotech foi obtida graças à experiência em gestão de saúde do presidente da OS, Valter Pelegrine Junior, um dos donos da GPS. Duas concorrentes recorreram da avaliação.</p>

<p><em>A sede da Organização Social</em></p>

<p>A Biotech informou funcionar no imóvel que fica neste terreno da Estrada do Catonho, em Sulacap: um cartaz diz que a OS está em recesso. Se vencer a licitação, a Biotech receberá R$ 227 milhões da prefeitura para gerir o Pedro II, que fica em Santa Cruz.</p>]]></description>
            <link>http://www.fernandomolica.com.br/blog/2011/12/caso-biotechpedro-ii.php</link>
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            <pubDate>Tue, 27 Dec 2011 15:09:09 -0300</pubDate>
        </item>
        
        <item>
            <title>O Barcelona e seus profissionais da bola</title>
            <description><![CDATA[<p>Coluna <em>Estação Carioca</em>, jornal <strong>O DIA</strong>, 21/12:</p>

<p>Os elogios ao Barcelona nem sempre ressaltam algo fundamental. Além de ter jogadores excepcionais e um esquema ousado e criativo, o time é resultado de muito trabalho. Se não fossem atletas, seus craques não conseguiriam correr daquele jeito, marcar o campo inteiro, se multiplicar pelo gramado. É comum ver Messi voltar até seu campo para cercar um adversário ou começar uma jogada.</p>

<p>Tanto fôlego é resultado de muita preparação física. Não acompanho o dia a dia do Barcelona, mas não me lembro de ter ouvido falar de algum jogador do atual elenco que tenha deixado de treinar por ter chegado tarde em casa. Não foi necessário criar por lá um Disque-Baixinho para controlar eventuais excessos noturnos do Messi. Na equipe catalã, ninguém acha que o talento livra qualquer jogador -- qualquer um -- de cumprir com seus deveres. Ninguém abandona treino ou desrespeita obrigações acertadas com o patrocinador. O profissionalismo tem duas mãos: por lá, todos recebem em dia.</p>

<p>Montar um esquema tático como aquele, baseado na constante movimentação e coordenação, também dá trabalho. É preciso estudar futebol, analisar equipes do passado, treinar de forma exaustiva todos aqueles craques. Mais que isso: é preciso convencê-los de que devem trabalhar para o time, que mesmo seus lances geniais estão subordinados ao objetivo da equipe. O encantador futebol do Barcelona não é feito para ressaltar a genialidade de ninguém -- todos jogam para a equipe. Posso estar errado, mas a relação entre técnico e jogadores parece ser mais baseada no diálogo e na troca do que na subordinação e na submissão. Duvido que algum daqueles sujeitos chame o Guardiola de "professor".</p>

<p>Antes de olharem para o campo e de se perguntarem o que podem fazer para melhorar seus times, dirigentes e técnicos brasileiros poderiam prestar mais atenção na estrutura de seus clubes, na administração amadora que predomina por aqui, nas complicadas relações com jogadores e empresários. Já seria um bom começo.</p>

<p>                                                             *</p>

<p>Semana passada, todos que amamos o Rio perdemos André Urani, ex-titular deste espaço às segundas-feiras. Economista, este carioca nascido em Turim enfrentou os pessimistas e apostou na capacidade da cidade de se reinventar. Fica, então, uma dica: na hora do sufoco, vale seguir a trilha do otimismo afetuoso e responsável aberta pelo grande Urani.</p>]]></description>
            <link>http://www.fernandomolica.com.br/blog/2011/12/o-barcelona-e-seus-profissiona.php</link>
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            <pubDate>Wed, 21 Dec 2011 10:32:53 -0300</pubDate>
        </item>
        
        <item>
            <title>Os meninos do Barcelona</title>
            <description><![CDATA[<p>Colua <em>Estação Carioca</em>, jornal <strong>O DIA</strong>, 14/12/11</p>

<p>Se eu tivesse uns nove anos e fosse bom de bola, sonharia com La Masia, a incubadora de craques do Barcelona. Desejaria virar um Xavi, um Iniesta, um Messi. Diante dos velhos problemas do futebol brasileiro, La Masia surge como uma espécie de paraíso para todo garoto peladeiro. Lá, os jovens candidatos a craques têm toda a estrutura necessária para desenvolver seu talento.</p>

<p>Mas, para citar um livro do André Sant'Anna, será que o paraíso é assim tão bacana? Sábado, depois de me deslumbrar com mais uma vitória do Barça, vi, no 'Jornal Nacional', uma reportagem sobre a nova La Masia, um prédio de cinco andares que é residência e escola para meninos a partir dos 12 anos. Aos poucos, comecei a perder meu encanto com toda aquela organização. Em que pese a paixão que vive em cada um de nós, torcedores, a máquina do Barcelona tem o objetivo principal de gerar e movimentar dinheiro. Tanto que, volta e meia, nomes de dirigentes ligados ao clube aparecem publicados ao lado de palavras como 'acusado' ou 'suspeito'. O futebol celestial do time catalão também tem seus demônios. </p>

<p>Os meninos de La Masia são bem tratados para que tornem a indústria ainda mais lucrativa. O centro de treinamento e de concentração lembra aqueles requintados haras, locais onde cavalos são confinados para treinar e gerar lucros. Recebem todos os cuidados, têm direito a uma farta e equilibrada alimentação, aos melhores veterinários. Assim como os cavalos, os tais jovens viram peças da fábrica de craques -- por sinal, a palavra peças, tão comum no futebol, já foi usada no Brasil para designar escravos.</p>

<p>Os garotos do La Masia deixam de ser meninos, são transformados em capital, em fonte de futuros lucros. Acabam afastados de suas famílias, de suas amizades, de seus países, de suas referências. Não frequentam escolas convencionais, têm como amigos apenas os colegas/rivais do Barcelona -- até suas primeiras paixões serão subordinadas à lógica da vida em La Masia. Aos 12 anos, não têm direito a dúvidas quanto ao futuro; seus destinos estão traçados, há um dever a ser cumprido. Em muitos casos, passam a carregar expectativas de prosperidade de toda a família: e ai dos que não corresponderem aos planos alheios. Em eventuais momentos de fraqueza, ouvirão que são ingratos, que não dão valor à sorte, à oportunidade que receberam. Sei não, mas tenho alguma pena dos privilegiados meninos do Barça.</p>]]></description>
            <link>http://www.fernandomolica.com.br/blog/2011/12/os-meninos-do-barcelona.php</link>
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            <pubDate>Thu, 15 Dec 2011 12:12:11 -0300</pubDate>
        </item>
        
        <item>
            <title>27/6/1971: O dia em que conheci a injustiça</title>
            <description><![CDATA[<p>Coluna <em>Estação Carioca</em>, jornal <strong>O DIA</strong>, 9/12</p>

<p><br />
O lançamento de um livro sobre o Campeonato Carioca de 1971 reabriu uma ferida que jamais cicatrizou. Aquele 27 de junho foi o dia em que eu, aos 10 anos de idade, perdi a inocência. Diante da passividade do árbitro do jogo -- um sujeito cujo nome até hoje não pronuncio -- percebi o que era a injustiça. Ao contrário do que era pregado nos quadrinhos e nos desenhos animados, nem sempre o bem vencia o mal.</p>

<p>O Botafogo era conhecido como 'Selefogo', reunia craques que, no ano anterior, haviam sido fundamentais na conquista da Copa do Mundo: Jairzinho, Paulo César, Brito e Carlos Alberto Torres. Havia disparado no campeonato, houve até quem propusesse o fim antecipado da competição, tamanha a vantagem alvinegra. Mas o time caiu de produção, perdeu um jogo e empatou dois. Mesmo assim, seria campeão se ao menos empatasse com o Fluminense.</p>

<p>O jogo seguia no 0 a 0 até os 43 minutos do segundo tempo, quando -- como dói lembrar -- uma bola foi lançada na área do Botafogo, o goleiro Ubirajara Motta pulou para fazer a defesa e recebeu um empurrão escandaloso do Marco Antônio. Livre, Lula não teve trabalho para pegar a sobra e fazer o gol, um gol confirmado pelo inominável juiz. Vale lembrar que o Fluminense era, na época, conhecido como o time que melhor atuava no Tapetão -- referência aos gabinetes dos que dirigiam e julgavam o futebol.</p>

<p>Revi o gol diversas vezes; criança, contava com a possibilidade de ouvir um apito retardatário e salvador, som que restabeleceria a justiça sobre a Terra. Nada. As imagens se repetiam, mostravam o empurrão, a queda do Ubirajara, o chute, o gol. E nada do tal apito. É possível que a ausência do gesto que anularia o gol tenha me preparado para encarar os episódios que se sucedem na vida brasileira. Sobras de campanha, desvio de merenda escolar, aprovação da reeleição, compra de votos, superfaturamento em obras públicas, nepotismo, consultorias suspeitas, absolvição de culpados. Não me conformo com nada disso, mas admito que tudo faz parte da mesma lógica que nos tirou o título -- as evidências têm valor apenas relativo, o mundo não é justo.</p>

<p>De lá pra cá, o Botafogo já foi prejudicado e beneficiado pela arbitragem, mas nada foi tão marcante quanto aquele escândalo da final do campeonato de 71. A ausência do apito revelou que eu não deveria me espantar com nada, o ser humano era capaz de tudo, não havia lugar para a inocência.</p>]]></description>
            <link>http://www.fernandomolica.com.br/blog/2011/12/2761971-o-dia-em-que-conheci-a.php</link>
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            <pubDate>Wed, 07 Dec 2011 16:54:04 -0300</pubDate>
        </item>
        
        <item>
            <title>Um barulhinho nada bom nos cinemas</title>
            <description><![CDATA[<p>Coluna <em>Estação Carioca</em>, jornal <strong>O DIA</strong>, 23/11</p>

<p>Os gigantescos aparelhos de TV devem ser os grandes culpados da transformação. Há algum tempo, filmes passaram a ser assistidos, principalmente, em nossas casas. O escurinho do cinema perdeu lugar para a claridade de salas de estar, onde as vozes dos atores e a trilha sonora enfrentam a concorrência dos telefones, gritos de crianças, latidos de cachorros, ruído do liquidificador e toque de campainha.</p>

<p>As rotinas domésticas não são completamente interrompidas quando a TV está ligada. Como estamos em casa, nos sentimos mais livres para falar, para comentar esta ou aquela cena. Afinal, ao nosso lado estão pessoas próximas, parentes ou amigos. Até aí, tudo bem: em nossa casa, temos toda a liberdade possível. </p>

<p>O chato é quando o comportamento doméstico é transplantado para lugares públicos; no caso, para as salas de cinema. Pode ser implicância ou excesso de mau humor, mas acho que, nos últimos anos, os cinemas têm ficado mais barulhentos. Parte do público parece se sentir obrigada a falar quando os atores estão calados. É como se momentos de silêncio ou de simples execução da trilha sonora não fizessem parte do filme, não passassem de uma espécie de intervalo concedido pelo diretor para que a plateia troque algumas palavras. Não há silêncio dramático que resista à profusão de conversas entre os espectadores.</p>

<p>Quem vai ao cinema preocupado em ver o filme enfrenta outros obstáculos, como a percussão provocada pelo chacoalhar de pipocas. Não basta comê-las, é preciso agitá-las, fazer com que elas fiquem mais salgadinhas. Para isso, o jeito é transformar aqueles baldes de papelão em chocalhos. Pouco importa se, na tela, a mocinha estiver se esvaindo em sangue ou se o bandido prepara a mira para arrebentar com os miolos do herói. Os suspiros da quase finada ou clact do engatilhar da arma ganham a companhia do chic-chic das pipocas sendo agitadas na caixa.</p>

<p>O xis do problema é a confusão entre espaços privados e públicos. Vá lá que essa história de privacidade ficou fora de moda -- supostas celebridades detalham aspectos de sua vida sexual com a naturalidade de quem revela como escova os dentes. Mesmo assim, não custa tentar preservar as características de cada espaço. Ao contrário do que pode ocorrer no quarto ou na sala, nem tudo é ou deveria ser permitido entre as quatro paredes de um cinema.</p>

<p><br />
</p>]]></description>
            <link>http://www.fernandomolica.com.br/blog/2011/11/um-barulhinho-nada-bom-nos-cin.php</link>
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            <pubDate>Wed, 23 Nov 2011 16:49:24 -0300</pubDate>
        </item>
        
        <item>
            <title>A saída do Luiz Carlos Saroli, o tal do Caio Junior</title>
            <description><![CDATA[<p>O Luiz Carlos Saroli (vulgo Caio Junior) foi demitido. Já vai tarde. No início, até gostei dele - o time ficou mais corajoso, ofensivo. Depois, ele se revelou prisioneiro de sua arrogância e de sua vaidade. O sujeito que não usa o próprio nome via uma série de culpados para a derrota - incluiu até a torcida neste rol -, mas nunca admitiu seus próprios erros. Parecia menos interessado em ganhar jogos do que em mostrar sua suposta genialidade, demonstrava sonhar com o dia em que ouviria dos comentaristas o elogio de que ele dera "um nó tático" no adversário. </p>

<p>Com tantas invenções - ontem, barrou um atacante e, em seu lugar, colocou um zagueiro! - conseguiu apenas amarrar o Botafogo. O Herrera vinha mal - ainda mais, jogando de ponta-direita, que nunca foi sua posição. Mas o Luiz Carlos nunca o substituiu por um outro atacante, preferia alterar toda a estrutura do time. Cometia erros que geravam insegurança no time. Pior é quanto cismou de dizer, publicamente, que o time era inseguro - claro que isso só gera mais insegurança. Ainda bem que a diretoria, desta vez, rompeu um de seus dogmas e tirou o técnico antes de o campeonato acabar. Insisto na proposta que lancei ontem, durante o jogo. Loco Abreu deve assumir o time nesses últimos três jogos.</p>]]></description>
            <link>http://www.fernandomolica.com.br/blog/2011/11/a-saida-do-luiz-carlos-saroli.php</link>
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            <pubDate>Thu, 17 Nov 2011 11:09:01 -0300</pubDate>
        </item>
        
        <item>
            <title>O bassê do tráfico fez piu-pui</title>
            <description><![CDATA[<p>Coluna <em>Estação Carioca</em>, jornal <strong>O DIA</strong>,16/11</p>

<p>A relativa facilidade com que o poder público tem ocupado favelas dominadas por traficantes reforça que esta atitude deveria ter sido tomada há muito mais tempo. Não é simples montar operações como as implementadas no Alemão e na Rocinha, mas organizá-las não era impossível. A criação das UPPs mostrou que a inviabilidade de se expulsar o tráfico armado das favelas era apenas um mito propagado pela preguiça de alguns e pelo interesse dos muitos que lucravam com a situação. As operações comprovam: era impossível que um domínio como aquele pudesse ser conquistado e mantido sem a conivência e participação de agentes públicos.</p>

<p>Traficantes -- na grande maioria, varejistas sem contatos com o narcotráfico internacional -- tiveram força enquanto foram úteis para setores do poder. E aí não dá para falar apenas da polícia. Políticos também souberam usufruir da situação nas favelas, foram cúmplices no estabelecimento de uma nova versão de um sistema baseado no clientelismo, no toma lá, dá cá -- isto vale, inclusive, para áreas controladas por milicianos. As relações com os tais poderes paralelos podiam, ao menos, ser intuídas em cada campanha eleitoral.Bastava observar candidatos autorizados a fazer campanha e estender faixas em determinadas favelas. Não é absurdo crer na existência prévia de algum tipo de negociação com os traficantes locais: o jabuti do tráfico armado não subiria sozinho em todas aquelas árvores.</p>

<p>Não dava pra acreditar que o Estado brasileiro fosse incapaz de desalojar dezenas ou centenas de bandidos de um pedaço do território nacional. A admissão de um absurdo como esse implicaria na decretação da falência de todo o nosso sistema de segurança, aí incluídas as Forças Armadas. Um país sem capacidade de retirar bandidos de uma favela não resistiria a uma guerra com o Paraguai. </p>

<p>A ocupação demorou a ocorrer porque não interessava a muita gente, mas o poder dos bandidos chegou a tal ponto que ameaçava inviabilizar nossa cidade. A Copa e as Olimpíadas deram a senha para que um governo, enfim, fizesse o que vinha sendo protelado havia décadas. Tomada a correta decisão política, o resto foi mais simples, a ação se baseou num princípio muito difundido por militares -- confrontado com uma força muito superior, o inimigo tende a se render. Ou, para citar Aldir Blanc num samba que fez com João Bosco, "Quando o pastor late forte/o bassê faz piu-piu".</p>]]></description>
            <link>http://www.fernandomolica.com.br/blog/2011/11/o-basse-do-trafico-fez-piupui.php</link>
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            <pubDate>Wed, 16 Nov 2011 08:39:49 -0300</pubDate>
        </item>
        
        <item>
            <title>A ambição de Pelé</title>
            <description><![CDATA[<p>Algumas pessoas insistem em desafiar os desígnios do Criador. O Pelé, por exemplo: o cara jogou a bola que jogou, foi três vezes campeão do mundo (quando se machucou, o Garrincha ganhou a Copa pra ele), ficou rico, pegou todas as mulheres que teve tempo de pegar (dizem que a agenda tá lotada até as Olimpíadas do Rio). Tem tanta sorte que, até hoje, a imprensa e a opinião pública evitam lembrar a história dos US$ 700 mil da Unicef e o não-reconhecimento da filha. Como diria o Wilson das Neves, ô sorte! Mesmo assim, o sujeito insiste em ser ator e em cantar - ele é tão bom nessas atividades quanto eu sou jogando bola. Pior, não falta quem o convide para atuar e para cantar. Em campo, como já observou o Verissimo, Pelé sempre foi um primor de objetividade, ia sempre na direção do gol. Fora das tais quatro linhas, não para de jogar bola fora. Sei não, se eu fosse ele segurava a onda, o sujeito lá de cima pode perder a paciência. Se der mole, na próxima encarnação ele acaba voltando no papel de Lúcio Flávio.</p>]]></description>
            <link>http://www.fernandomolica.com.br/blog/2011/11/a-ambicao-de-pele.php</link>
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            <pubDate>Sat, 12 Nov 2011 13:04:29 -0300</pubDate>
        </item>
        
    </channel>
</rss>

