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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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fevereiro 2019 Archives

No futebol, a compra e venda de meninos

separador Por Fernando Molica em 17 de fevereiro de 2019 | Link | Comentários (0)

Matéria do Globo de hoje sobre meninos que sonham em jogar futebol fala de um garoto de 11 anos que, há dois anos veio de Palmas (TO) para treinar no Fluminense - está agora no Vasco. Ele tem um empresário, que banca a estada de sua família no Rio. Ou seja, desde os nove anos que ele tem um empresário, o dono de sua vida profissional. Construído com base na escravidão, o Brasil mantém a tradição de compra e venda de gente. No caso, de compra e venda de crianças, algo que só prospera por conta da miséria, da dificuldade que famílias pobres têm de ascender pelos mecanismos que deveriam ser acessíveis a todos
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Nada contra um garoto bom de bola querer ser jogador de futebol (todos já sonhamos com isso), mas não dá para jogar tanta responsabilidade nas contas de uma criança, submetê-la a uma lógica de treinamento pesada, não dá para que ela seja obrigada a ser adulta tão cedo.- esse menino sabe que o futuro de sua família depende dele. E, principalmente, não dá para que crianças e adolescentes tenham suas vidas presas a contratos que sequer poderiam ter sido assinados com menores de 16 anos.


A perversão e o prazer de matar

separador Por Fernando Molica em 15 de fevereiro de 2019 | Link | Comentários (0)

As imagens que mostram o assassinato do jovem Pedro Gonzaga por Davi Ricardo Moreira Amâncio, segurança do supermercado Extra, revelam o absurdo grau de perversidade em que vivemos. Já seria imperdoável se o assassino "por escusável medo, surpresa ou violenta emoção" (reproduzo as palavras usadas em projeto apresentado pelo governo federal) tivesse matado o rapaz com um tiro, ou com um soco. Mas não, ele comete o homicídio de forma lenta, pensada, brutal, mesmo estando diante de dezenas de pessoas. Parece ter prazer ao se deitar sobre o corpo de sua vítima enquanto aperta seu pescoço. Atua de maneira tão natural que, enquanto mata, chega a discutir com uma mulher que tenta impedir o crime.

Seus colegas de trabalho, seguranças como ele, nada fazem para evitar o crime - um deles, chega a tentar impedir a filmagem da cena. O comportamento dos outros seguranças mostra que perversidade não é apenas do assassino, está generalizada entre nós. Poucas vezes vi alto tão absurdo, tão correspondente à hoje clássica expressão banalidade do mal cunhada por Hannah Arendt. O cara mata porque se acha no dever - mais do que no direito - de matar. Mata, mata, mata é o que ouve todos os dias, é o grito que vem das ruas e dos palácios. Tem que matar, tem que matar, é o que ele repete, é o que ele faz.

Ele está do lado da maioria, dos que gritam, dos que aplaudem chacinas, do lado daqueles que, no lugar de fazer cumprir a lei, registraram seu crime como algo menor, culposo, não intencional. É possível que sequer fosse indiciado se não houvesse imagens de seu crime. Afinal, a vítima era mais uma daquelas que, por sua cor e por sua classe social, precisam provar o tempo todo que são inocentes - muitas vezes, são mortas antes disso. Pouco depois do homicídio já havia a versão, contestada pelas imagens de câmera do supermercado, de que o rapaz teria tentado roubar a arma do segurança (como se isso justificasse seu assassinato). Estamos nos transformando numa sociedade de assassinos, num país que mata por perversão, que tem prazer em matar.Todos que gritam pela morte são cúmplices daquele segurança.

Obs: o site do Globo publicou na noite desta sexta a que Pedro Gonzaga, o jovem morto, morava na Barra, era de uma família de classe média e sofria com a dependência química. Isto apenas reforça que nenhum de nós está livre também da violência praticada por agentes de segurança, públicos ou privados. O grito de morte atrai mais mortes, é óbvio.


O bloco do seu Jair

separador Por Fernando Molica em 14 de fevereiro de 2019 | Link | Comentários (0)

Os mandatos de Jair Bolsonaro na Câmara foram marcados pelo isolamento. Até para conseguir se destacar em meio ao anonimato do baixo clero, ele tratou de vestir apenas a camisa do próprio bloco, o do Eu Sozinho. Desfilava opiniões que, pelo inusitado, provocavam horror em muitos eleitores e gozo em tantos outros, não buscava alianças, não participava de articulações. Ficou na confortável posição de radical que, sem amarras, podia apontar o dedo para qualquer um. Um sambista de raiz. Com isso, cultivou a imagem de independência e de honestidade - não se metia em tramoias, não fazia o velho do jogo do toma lá-dá cá, ficou à margem dos bicheiros e patronos que costumam mandar em nossos carnavais.

O figurino lhe foi essencial para, na campanha, apresentar-se como o candidato "contra tudo o que está aí". Presidente, ele parece não ter abandonado a marca de folião solitário. Seu bloco ganhou filhos-puxadores de samba, alguns ritmistas de confiança, dois esforçados diretores de harmonia (Guedes e Moro) e diversos foliões que desfilam apenas para chamar a atenção para seus egos e fantasias ("Olha ali aquela de Menina-Rosa", "E aquele de Caçador de Comunistas", "Que original o folião vestido de Eu lavo meu carvalho"). Há também os seguranças, aqueles fortões de patentes altas e bigodes grossos que sustentam as cordas e tentam manter tudo nos conformes - caras que já demonstram um certo cansaço pela trabalheira.

Mas o bloco gira em torno do presidente, que manda e desmanda: reclama da bateria, diante de um escorregão, manda o mestre-sala voltar para suas origens. Levado para o alto do carro de som por dezenas de milhões de votos, Bolsonaro continua a agir isolado, como nos tempos de parlamentar. O problema é que, agora, não dá pra fazer tudo sozinho, ele precisa do apoio dos demais componentes - todos têm direito a voto nas assembleias do bloco, eles é que vão decidir o rumo do cortejo; no limite podem até interromper o desfile, como fizeram com Collor e Dilma. Jair fala grosso, não vacila ao expulsar parceiros de folia, mas corre o risco de mandar todo mundo pra casa e acabar isolado, sem samba e sem enredo, tendo sobre os ombros apenas as cinzas da quarta-feira.


Mortes que causam mortes

separador Por Fernando Molica em 11 de fevereiro de 2019 | Link | Comentários (0)

Comemorada por muita gente, a execução de bandidos como a que provavelmente ocorreu semana passada em Santa Teresa, no Rio, serve apenas de mais combustível para a violência. Ano passado, entrevistei o comandante da PM de Brusque, Santa Catarina, a cidade com menor índice de homicídios do país. Entre outros pontos, ele frisou: 1. polícia violenta não é uma boa polícia; 2. o bandido precisa ter a chance de se render e de ter esta rendição respeitada. Ele explicou que quando bandidos percebem que não têm chance de rendição, eles atiram mais, lutam mais. A lógica é simples: já que vou morrer mesmo, tento levar um (um policial) comigo. Quem aplaude policiais que executam bandidos apoia a barbárie e estimula novos confrontos, novas mortes - não apenas de bandidos, mas também de policiais e de pessoas inocentes.


A profissão de todos nós

separador Por Fernando Molica em 08 de fevereiro de 2019 | Link | Comentários (0)

Eu e quase todos os meninos que conheço queríamos ser jogadores de futebol. Podemos gostar muito de nossos ofícios, mas sabemos que, limitados, exercermos uma segunda opção profissional. O que desejávamos mesmo era jogar bola, vestir a camisa de nossos times, fazer gol no Maracanã, erguer taças, dar voltas olímpicas, correr para os abraços, mandar beijo pra menina bonita da escola que estaria nos vendo na TV ou na arquibancada. Os meninos que morreram hoje estavam quase realizando também o nosso sonho. O sonho de viver para jogar bola, nosso primeiro e inesquecível brinquedo, o único que nos acompanha por toda a vida.


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