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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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fevereiro 2018 Archives

Chuva no mar

separador Por Fernando Molica em 24 de fevereiro de 2018 | Link | Comentários (0)

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Nascido e criado num bairro distante do mar, sempre associei praia ao ir à praia, ao sol, à areia apinhada de gente. Mais do que paisagem que ficava tão longe, praia era programa, passeio dominical que começava bem cedo, com despertar por volta das 7h - na lógica doméstica suburbana, até o lazer tinha algo de trabalho, de dever, de sacrifício. Não havia tempo a ser desperdiçado com mar em dia de chuva, a beleza não bastava em si, tinha que ser útil.

Daí talvez meu fascínio pela praia em dias chuvosos, pela praia que esnoba frequentadores, que abandona a condição de animal domesticado por banhistas, vendedores, exposto à urina, ao lixo, à gritaria, às brigas.

A chuva liberta a praia, devolve o mar a si mesmo, à sua imponência, à sua brutalidade, mistério que assusta, que mata, que nos impõe respeito e medo. Água que descarta muito do azul ou verde, que reassume o peso do seu chumbo. Em dias de chuva, de praia quase deserta, o mar mostra quem é que manda por ali.


Intervenção no Rio: uma coabitação complicada

separador Por Fernando Molica em 16 de fevereiro de 2018 | Link | Comentários (0)

Salvo melhor juízo, esse decreto de intervenção parcial é muito complicado - a Constituição fala em intervenção, e ponto. Na prática, o governo do Rio foi fatiado, haverá um comando duplo, um para a segurança, o outro para o resto. Mas, no dia a dia, é impossível separar uma área da outra.

Se o interventor mandar suspender aulas em determinada área, o secretário de Educação será obrigado a concordar? O governador tem o direito de remanejar 20% das verbas orçamentárias - e se ele decidir retirar grana da segurança para cobrir um buraco na saúde? Como é que fica?

O decreto fala que o interventor poderá "requisitar, se necessário, os recursos financeiros, tecnológicos, estruturais e humanos do Estado do Rio de Janeiro afetos ao objeto e necessários à consecução do objetivo da intervenção." E se o governo estadual negar as requisições? Fica por isso mesmo?

A medida assinada por Temer deixa claro o limite do interventor, mas, ao mesmo tempo, dá poderes para o sujeito chutar o balde: "O Interventor fica subordinado ao Presidente da República e não está sujeito às normas estaduais que conflitarem com as medidas necessárias à execução da intervenção." Ou seja, em caso de conflito, valerá a palavra do interventor?

Para justificar a intervenção setorizada, o decreto cita "o disposto no Capítulo III do Título V da Constituição e no Título V da Constituição do Estado do Rio de Janeiro." Só que esses artigos capítulos não falam na possibilidade de intervenção parcial, tratam de definir segurança pública e os mecanismos para implementá-la.

Além disso, achei esquisito um decreto federal citar também a Constituição Estadual. Enfim, essa coabitação tende a ser muito complicada.


MDB-RJ tem novo dono - o nome dele é Moreira

separador Por Fernando Molica em 16 de fevereiro de 2018 | Link | Comentários (0)

A intervenção no Rio acaba de vez com o governo Pezão e representa um último golpe do governo federal no MDB fluminense. Preso desde novembro, Jorge Picciani, o presidente do partido no estado, nutria muitas diferenças com o grupo liderado por Michel Temer e Moreira Franco, ex-prefeito de Niterói e ex-governador do Rio de Janeiro. Em conversas com amigos, Picciani não economizava nas críticas ao hoje presidente.

A situação mudou apenas quando Picciani passou a apoiar o impeachment de Dilma Rousseff e a consequente ascensão de Temer - uma decisão que se revelaria decisiva para a derrubada da petista. A articulação rendeu a Leonardo Picciani, deputado federal e filho do cacique Jorge, um cargo de ministro no novo governo..

Com Cabral e Jorge Picciani presos e com Pezão liquidado politicamente, o MDB-RJ passa a ter um novo dono. O nome dele é Moreira.


RJ: responsáveis pela crise não estão nas favelas

separador Por Fernando Molica em 16 de fevereiro de 2018 | Link | Comentários (0)

O que faliu não foi apenas a segurança pública do Rio de Janeiro, mas toda a estrutura política-institucional do estado. A crise nacional, a queda do preço do petróleo, a prisão de lideranças do MDB, a divulgação da roubalheira comandada por Cabral, o fim das pedaladas financeiras do governo, os atrasos de salários do funcionalismo, a quebra dos serviços públicos e a inapetência administrativa de Pezão permitiram que todas as comportas fossem arrombadas.

Uma situação caótica como a vivida no RJ só é possível com a parceria de agentes públicos - e não falo apenas de policiais e de políticos. O caso da deputada Cristiane Brasil - suspeita de ter feito acordos eleitorais com traficantes - não é isolado. Esta cumplicidade é fundamental para garantir, por exemplo, o fluxo contínuo de armas e munição para bandidos e a imunidade dos territórios por eles controlados. Ou será que alguém acha que os chamados traficantes de favelas são capazes de negociar esse tipo de contrabando no exterior? Não haverá possibilidade de melhoria da situação sem que seja quebrada esta associação entre bandidos-bandidos e bandidos-agentes do Estado.

Os atrasos nos pagamentos de gratificações a policiais, o achatamento salarial, a redução de efetivo das corporações, os muitos problemas de estrutura (instalações precárias, falta de combustível, carros quebrados) e a sucessão de assassinatos de policiais militares e civis colaboraram para um afrouxamento do trabalho de repressão/investigação. Fica também difícil arriscar a própria vida para combater o crime num estado em que o ex-governador está na cadeia. A polícia ficou mais violenta, menos obediente, mais vulnerável em todos os aspectos. Violência policial está, quase sempre, não à eficiência, mas à corrupção.

Não é difícil também perceber o quanto as crises - econômica e moral - influenciam no comportamento de tantos jovens que acreditaram em promessas do governo. Jovens que viram falir o processo de pacificação de favelas, que testemunharam o abandono de seus bairros, que viram minguar as chances de emprego, que sofreram as consequências de atrasos de salários e aposentadorias de seus pais e avós, que lamentaram o fim de iniciativas como as bibliotecas comunitárias, que são tratados como inimigos pela polícia. Não dá pra exigir que todos esses adolescentes tenham respeito pelo Estado e esperança de uma vida melhor dentro dos caminhos institucionais - alguns perdem a paciência e partem pro confronto.

O Estado ficou uma bagunça, os assassinatos ocorridos nos últimos dias e a proliferação de arrastões comprovam. Mas a tragédia nas ruas é consequência direta da bagunça, da roubalheira, da cumplicidade e da incompetência de agentes do Estado. Eles é que começaram.


Uma vitória que não deveria ter ocorrido

separador Por Fernando Molica em 15 de fevereiro de 2018 | Link | Comentários (0)

Vamos lá, com um pouco mais de calma. Adoraria, como fez o querido e competentíssimo Leonardo Bruno hoje, no Globo, enxergar na vitória da (grande) Beija-Flor um triunfo da emoção sobre a frieza dos critérios técnicos que balizam o julgamento do desfile. Mas não consigo: a história do Carnaval revela o poder institucional da escola e a dificuldade que julgadores têm para puni-la. Duvido que o mesmo desfile seria vencedor caso fosse apresentado por qualquer outra agremiação.

Seria absurdo tirar pontos da Beija-Flor em quesitos como evolução, harmonia, mestre-sala e porta-bandeira, samba enredo - seu 'chão' é espetacular, nunca deixei de reconhecer. Mas foi absurdo que muitos pontos não tenham sido tirados em fantasias, alegorias e enredo (a própria- sinopse é confusa, fala num Frankestein vítima de preconceito - pelo que entendi, nós, povo brasileiro, é que seríamos o monstro repudiado e discriminado. Mas a realização do enredo foi ainda pior, indecifrável, uma mera colagem de mazelas não carnavalizadas, não interpretadas, o Frankestein não deve ter entendido nada).

Vi o desfile da entrada da pista, fiquei espantado com as alegorias (feias, nada criativas) e com as fantasias, óbvias, baseadas em lugares-comuns como ratos, gatunos, políticos engravatados com dinheiro saindo dos bolsos. A fantasia de barril de petróleo era constrangedoramente feia; a de dirigentes de futebol (figurantes que levavam símbolos de times em suas cartolas), patética de tão rasteira. E, como frisei em outro texto, não dá para levar caixão de estudante em alegoria. Não dá.

E há também uma questão fundamental: desfile de escola de samba, como qualquer outra criação artística, não é passeata. Arte é criação, interpretação, apresentação de leituras diferenciadas sobre diferentes temas. A Beija-Flor não fez nada disso, apenas enfileirou problemas, fez uma retrospectiva jornalística de fim de ano. O camarada Anderson Baltar desenvolveu muito bem o tema em artigo publicado antes da apuração.

Como frisou a amiga e pesquisadora de Carnaval Rachel Valença, a euforia despertada pelos desfiles da Beija-Flor e da Tuiuti revela também uma falta de canais de expressão política. As grandes manifestações que abriram caminho para o impeachment de Dilma Rousseff minguaram, os desmandos e escândalos do governo Temer não geraram protestos semelhantes.

OK, artes também podem ser canais de protesto (vale lembrar o papel da MPB durante a ditadura), mas é estranho que, no caso das escolas de samba, isso ocorra num regime democrático, que, com raras exceções, preserva o direito de manifestação. O furor causado pela Beija-Flor revela inconformismo de boa parte da população, mas também sua paralisia e incapacidade de organização, de protesto.

E, insisto, a escola apresentou um enredo conservador, que atribui todos os nossos males a um grupo de políticos ladrões: nós, que os elegemos, que eventualmente os derrubamos, não temos nada a ver com isso. Nós somos todos limpos, puros, nenhum de nós suborna guardas, nenhum de nós sonega impostos, nenhum de nós vende voto, nenhum de nós apoia polícia corrupta e violenta, nenhum de nós discursa contra os direitos humanos, nenhum de nós reclama de cotas, nenhum de nós ficou irritado ao ver negros em aviões, ninguém comparou aeroporto a rodoviária. Nenhum de nós apoia candidato à presidência que propõe bombardear favelas. A culpa é sempre dos outros - neste sentido, a Beija-Flor lavou a alma de muita gente, perdoou todos os seus pecados.

(Ah, achei justo a Mangueira, minha escola, perder pontos em comissão de frente e em bateria. Mereceria até ser punida pela alegoria que passou apagada. Mas queria apenas que tivesse havido o mesmo rigor com a escola declarada campeã).


Aniversário verde e rosa

separador Por Fernando Molica em 11 de fevereiro de 2018 | Link | Comentários (0)

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Aniversário é como um réveillon particular, data que marca o encerramento de um ciclo e o início de outro. Daí a festa, as comemorações, os parabéns, os desejos de felicidades - o aniversário mostra que ultrapassamos 365 dias e temos outros tantos pela frente.

Nasci à 0h15 de um domingo de Carnaval, foi uma espécie de indicação, de alerta. Mais uma vez, o 12 de fevereiro vai cair durante a maior de nossas festas, e meu melhor presente veio meio por acaso, a possibilidade de substituir um amigo no carro da Mangueira que homenageará os blocos de rua - estarei entre os representantes do querido Imprensa Que Eu Gamo.

Nem gosto tanto assim de desfilar, prefiro o papel de espectador. Mas, depois de um 2017 tão difícil, achei que não dava pra recusar a possibilidade de comemorar meu aniversário no meio da escola que tanto amo, que me escolheu, que me seduziu com sua improvável e linda combinação de verde com rosa. Não dava pra dispensar esse jeito tão espetacular de marcar o fim de um ciclo e o início de outro - o desfile ocorrerá já na madrugada do dia 12.

É hora de, como na linda canção do Sidney Miller, reacender alegrias e salões. Momento de vestir a fantasia e de seguir o que diz o ótimo samba da Mangueira: pra ser feliz, irei - do meu jeito, meio desajeitado, vou como posso - no meio da multidão. Viva a Estação Primeira!


Bandidos que não são os de sempre

separador Por Fernando Molica em 07 de fevereiro de 2018 | Link | Comentários (0)

Seriado que trata de um grande traficante mexicano, 'El Chapo' mostra desde os primeiros capítulos que uma organização criminosa só é capaz de sobreviver e prosperar com o apoio/cumplicidade do aparelho estatal. Na hora em que choramos a morte de mais duas crianças cariocas é fundamental criticar o sistema de segurança e também ressaltar questões ligadas à desigualdade, à precariedade de serviços como saúde e educação; é importante citar a falta de esperança de milhares de jovens, sentimento gerado por condições de vida tão degradantes.

É impossível ignorar a óbvia parceria de setores do Estado com a criminalidade, algo que não esgota na tradicional associação entre bandidos-bandidos e bandidos-policiais, convênios que prosperam ainda mais na crise. O episódio da suposta ligação da deputada Cristiane Brasil com um grupo de traficantes é exemplar dos laços mais profundos de casos em que uma mão suja a outra.

Não dá pra dizer que a deputada é culpada, o caso ainda está sendo investigado, mas é lícito dizer que esse tipo de acordo - que envolve proteção institucional e garantia de domínio de território - é mais do que comum, sem ele a situação no Rio não teria chegado a um ponto tão absurdo.

Basta olhar para os bandidos que tanto nos assustam. São quase todos muito pobres, iletrados, incapazes de negociar importação de armas/drogas/munição. Muita gente faz isso por eles, gente que, de um modo geral, defende a violência da polícia e que não admite qualquer discussão sobre temas relevantes para a segurança pública, como a descriminalização do uso de drogas - os caras não querem tratar do fim de um negócio que gera lucros financeiros e políticos. Não podemos nos limitar a focar apenas nos bandidos de sempre.


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