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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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janeiro 2018 Archives

Agressões no fim do desfile

separador Por Fernando Molica em 28 de janeiro de 2018 | Link | Comentários (0)

Este país está muito doente. Hoje, por volta das 18h, fui constrangido por guardas municipais e xingado por duas ou três pessoas, cidadãos que, antigamente, eram chamados de "populares" pelos jornais.

Aos fatos: depois de acompanhar o ensaio da Beija-Flor na Avenida Atlântica, notei uma movimentação na esquina da Rua Paula Freitas. Um homem com cerca de 70/75 anos, vestido com uma camisa da escola de Nilópolis, reclamava do furto de seu cordão, apontava para dois suspeitos - jovens negros, que teriam, arrisco, em torno de 16/19 anos.

Guardas municipais - uns oito - fizeram seu trabalho, seguraram os dois suspeitos, um deles estava com o cordão, que foi entregue ao homem que havia sido furtado. Até aí, tudo certo. Só que, na Paula Freitas, a caminho do carro da GM, guardas começaram a agredir os dois detidos com golpes de cassetete. Os caras não tentaram fugir, eram magrinhos, estavam dominados. Mesmo assim, apanharam.

Corri então na direção dos guardas e reclamei. Eles estavam certos em prender os dois caras, mas não poderiam agredi-los, cheguei a me identificar como jornalista. Foi o que bastou para um dos guardas - L. Santos, cito de memória - começar a gritar comigo. Disse que a agressão aos detidos fora motivada por desacato: "Eu fui desacatado!", repetiu. Eu frisei que o fato, condenável, claro, não lhe dava o direito de agredir os dois sujeitos.

Foi quando outros dois GMs - um deles, uma mulher - entraram na discussão, deram razão ao colega. Tentei parabenizá-los pela recuperação do cordão e detenção dos acusados (estava sendo sincero), eles pareceram não me ouvir. O L. Santos, aos gritos, perguntou se eu tinha visto o ocorrido (sim, confirmei), se ficaria feliz se um parente tivesse sido furtado (não, respondi). Perguntou o que eu fizera para resolver o caso (nada, retruquei). Ele ressaltou que estava trabalhando, enquanto que eu estava me divertindo (tentei dizer que este era o trabalho dele, acho que ele não ouvi). O cara me culpou por eu estar me divertindo e, ele, trabalhando.

O guarda falava tão alto (afirmou que eu também usara um tom acima do razoável) que chamou a atenção de outras pessoas (reivindiquei, como cidadão, que ele falasse mais baixo, não adiantou muito). Um homem de uns 30 anos, um dos populares, começou a me xingar, disse que eu era um filho da puta, que deveria levar os bandidos para casa. Comentei com o guarda Santos que o cara estava me desacatando, ele me ignorou.

No fim das contas, fiquei com um certo medo de apanhar dos tais populares (um deles me filmava, como se eu tivesse feito algo errado). Tratei então de ficar perto dos GMs, eles, acreditei, não me agrediriam. Foi quando surgiu um anjo, um ex-colega da 'Folha de S.Paulo, que, acompanhado de sua mulher, me reconheceu, ficou ao meu lado. Fui com eles até a esquina, agradeci o apoio, fui embora.

Em meio a tantas tragédias, o fato pode parecer desimportante, mas não é assim. O caso demonstra a brutalidade que existe entre nós, o hábito do desrespeito à lei, a força da cultura do linchamento, a lógica dos fins que justificam quaisquer meios. Características que ajudam a explicar a popularidade daquele que, até a semana passada, era o segundo colocado nas pesquisas para presidente da República. Não ficarei surpreso ser ele for eleito.


Funk, samba e representatividade

separador Por Fernando Molica em 19 de janeiro de 2018 | Link | Comentários (0)

Mais do que condenar o funk por músicas que reforçam o machismo, elogiam setores da bandidagem e naturalizam e mesmo estimulam a violência - aí incluída a sexual -, seria interessante ver nessas letras sintomas de uma realidade que não se resolve com a retirada de uma canção do Spotify. A censura não resolve nada.

MC Diguinho, autor de 'Surubinha de leve', diz que a música revela a realidade em que ele e muitos brasileiros vivem. O problema, no caso, não está em abordar uma dada realidade, a questão é outra: o incentivo e a exaltação de condutas criminosas - a letra é bem imperativa: "Taca a bebida/ taca a pica/ E abandona na rua".

Mas, sim. 'Surubinha' também ilustra uma realidade violenta, desumana, machista, cruel, um cotidiano presente na vida de milhões de jovens - no lugar da tríade sal-sol-sul entra a tiro-porrada-bomba. São jovens que nascem e crescem em áreas de urbanização precária, dominadas por vendedores de drogas ou milicianos e que veem no Estado um outro inimigo - amigos não disparam tiros a esmo de um helicóptero, não humilham, não torturam e matam. Seria patético cobrar desses jovens que tratassem de barquinhos que vão, de tardinhas que caem. A mesma sociedade que nega direitos básicos a moradores de favelas não pode querer determinar o que essas pessoas vão compor e cantar.

Com ou sem apologia a atividades criminosas, o funk exerce, já há algum tempo, o papel de cronista de áreas da cidade que só costumam ser notícia em caso de tiroteios. Um papel reconhecido por muitos e muitos jovens que se identificam com aquela realidade gritada por vozes esganiçadas, duras, fora do tom. A própria lógica de produção do funk, que dispensa o domínio de instrumentos musicais, reforça o papel do gênero como porta-voz da exclusão, de arte de subsistência.

E não vale falar em pressão da mídia, das rádios. Funk é música de pobre, demorou a ser reconhecido como gênero, ralou muito para encontrar espaço nos veículos tradicionais. Quem vive do comércio da música quer ganhar dinheiro, pode ser com samba, rock, ópera ou funk. Quem gosta de funk gosta porque gosta, não por ter sido obrigado.

A queridíssima Flavia Oliveira postou, nesta sexta, um misto de desabafo e lamento pelo fato do ensaio de sua Beija-Flor ter sido interrompido - e logo depois, encerrado - por uma cantora de funk. O protesto e a tristeza são legítimos (também fiquei chocado) mas permitem uma reflexão sobre a identidade que o samba vem assumindo nos últimos anos e seu progressivo distanciamento das comunidades que o embalaram.

Narcisistas, as escolas de samba parecem ter sido seduzidas pelo brilho que criaram para conquistar corações alheios ao seu mundo. Cultivaram tanto a relação com poderes externos (bicheiros, políticos, musas, rainhas) que fecharam os olhos para os responsáveis por seu nascimento e crescimento.

A perspectiva do show fez com que, aos poucos, muitos dos elementos que constituem o desfile fossem terceirizados, entregues a pessoas de fora, fenômeno que começou com o aspecto visual, com a chegada de carnavalescos com formação em belas artes. Alas de compositores perderam importância - hoje, qualquer pessoa pode inscrever samba nas escolas -, os ensaios passaram a ser feitos longe das comunidades - no grupo especial, a Mangueira é a única que ensaia em quadra que fica dentro de favela.

Este diálogo com setores externos vem desde o início das escolas cariocas, que sempre negociaram com poder e buscaram legitimação social. Mas esta porta aberta que viabilizou seu crescimento é a mesma que, agora, ameaça sua legitimidade. Os protestos contra a decisão do prefeito de reduzir a verba para as escolas foram tímidos e localizados. Um dos líderes de igreja entranhada em áreas populares, Marcelo Crivella sabia que seu gesto não teria consequências maiores.

O problema maior não é a existência de uma 'Surubinha de leve', mas o fato de a canção ter virado hit, ser admirada por milhões de pessoas, algo que demonstra insensibilidade, desumanização, desrespeito a direitos básicos. Mas demonstra também a irresponsabilidade social daqueles que deveriam gerar melhores condições de vida para a população. A surubinha é também consequência da grande suruba nacional, da violência em larga escala cometida e permitida pelo Estado.

MC Diguinho errou feio ao criar a tal canção, mas não dá pra negar que ele se inspirou no que vive, no que vê. Não dá para tratar o sintoma como causa de uma doença. Funk-exaltação da brutalidade e da violência sexual, 'Surubinha' é um alerta, um grito, um tiro como tantos outros. É fundamental entender que tiros são esses para tentar ao menos diminuir as condições que estimulam seus disparos.

Para encerrar: sempre lembro daquele suposto diálogo entre Picasso e um oficial nazista que tinha acabado de conhecer 'Guernica', quadro que denuncia os horrores do bombardeio à cidade feito, durante a Guerra Civil, por caças alemães. O sujeito teria perguntado ao pintor: "Foi você que fez isto?". Ele respondeu: "Não, foram vocês."


A surubinha e a bolsonarização

separador Por Fernando Molica em 17 de janeiro de 2018 | Link | Comentários (0)

A música 'Só surubinha de leve' é absurda, incentiva o estupro e, no limite, o homicídio de mulheres. Mas o mais espantoso e revelador sobre o Brasil é o fato de ter se transformado em sucesso. Melhor seria se tivesse sido banida pelos ouvintes, não pelo Spotify.

Vivemos numa sociedade em que muita gente acha legal e até engraçado ouvir/curtir uma canção que chama mulheres de "filhas da puta" e que ensina: "Taca a bebida/ Depois taca a pica/ E abandona na rua".

Ainda vamos sofrer muitas consequências desse processo de desumanização, de sistemática demonização dos direitos humanos, de naturalização da violência, de propagação da intolerância e de exaltação da brutalidade e do machismo.

Uma lógica que tem a ver com a exclusão, com a ignorância, com descaso com a educação - os tiros são esses, nós somos o alvo. Ninguém fica impune ao processo de bolsonarização.


O menino e a foto do réveillon

separador Por Fernando Molica em 02 de janeiro de 2018 | Link | Comentários (1)

Por conta daquela linda e já famosa foto do menino no réveillon, muita gente questiona o direito de se fotografar e vender a imagem de uma criança. Na boa, o fotógrafo não fez nada errado. Pelo contrário, fez a foto que marcou a festa, uma imagem que, de tão boa, permite tantas e várias interpretações.

A foto foi feita em local público e a imagem não tem nada de degradante, não se poderia acionar o ECA para impedir sua divulgação. Trata-se apenas do registro de um menino (é negro, mas poderia ser branco) fascinado pelo brilho dos fogos. Aquele olhar poderia ser meu, eu poderia ser aquele menino.

No mais: se fosse necessário pedir autorização do fotografado para divulgar imagens captadas em locais públicos ninguém poderia mais publicar fotos de violência policial. Até bandidos flagrados em suas atividades teriam que autorizar a divulgação de suas imagens.

Será que deveria ter sido proibida a imagem da menina que, no Vietnam, foi vítima do napalm? Trata-se de uma foto bem mais delicada, a menina estava nua. Mas foi uma foto fundamental, que traduziu o horror daquela guerra absurda. E as imagens de vítimas de campos de concentração? Deveriam ser censuradas, o mundo deveria ser impedido de constatar aquele martírio coletivo?

Não podemos cair na lógica da censura, da proibição. Como frisou a Andréa Pachá num comentário sobre a mesma foto do réveillon, é preciso ter cuidado com a criminalização das artes. Já tivemos bons exemplos dessa maluquice no ano passado.

E, sim, o cara pode vender a foto, A foto pertence ao fotógrafo, ele foi o único sujeito que, entre milhões de pessoas, teve a sensibilidade e a técnica de registrar aquela cena. Ele, Lucas Landau, é o autor da obra, parabéns pra ele.


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