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Os mortos distantes

separador Por Fernando Molica em 17 de dezembro de 2017 | Link | Comentários (0)

Os dados sobre homicídios dissecados no ótimo material publicado por 'O Globo' revelam também a falta de iniciativas para tentar interromper a barbárie. Um imobilismo relacionado ao perfil da grande maioria das vítimas, pessoas pobres e negras, brasileiros que em boa parte da sociedade geram tanta empatia quanto aqueles assassinados na Síria, na Faixa de Gaza ou em algum país africano cujo nome esquecemos entre uma tragédia e outra. Não são encarados como vizinhos, mas como invasores que sequer deveriam ter nascido.

Muitos dos homicídios entre nós são festejados; na dúvida, morador de favela é sempre suspeito, sua inocência tem que ser provada até depois da morte - a frase "Ele era trabalhador" virou chavão em coberturas de crimes, uma espécie de atestado de bons antecedentes apresentado por parentes e amigos da vítima.

A simples suspeita, geralmente lançada pela polícia, de que o morto tinha algum tipo de ligação com atividades criminosas serve de justificativa para casos evidentes de assassinato. A violência policial - que tem vítimas e endereços bem definidos - é estimulada, quem defende o respeito à lei é chamado de defensor de bandidos, a expressão direitos humanos ganhou conotação negativa entre nós. Mesmo a eficiência na apuração de homicídios está ligada ao CEP das vítimas, o que estimula a impunidade e mantém o processo seletivo de escolha dos futuros cadáveres.

Não custa repetir que somos herdeiros de uma sociedade em que seres humanos eram donos de outros seres humanos, em que a tortura e o assassinato de pessoas escravizadas eram encarados como necessários à manutenção da ordem e das instituições. Uma lógica que não foi de todo abandonada, o trabalho escravo permanece, a violência continua seletiva (é só comparar índices de criminalidade em áreas ricas e pobres de nossas cidades), ainda é grande a resistência a mudanças que permitam a diminuição de uma desigualdade absurda e que se mantém intacta na vida e na morte. Só haverá queda significativa no número de homicídios quando os mortos passarem a ser vistos como nossos.


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