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Blocódromo: a exclusão cultivada

separador Por Fernando Molica em 28 de dezembro de 2017 | Link | Comentários (0)

O tal local fechado para a apresentação de blocos a ser criado pela prefeitura corre o risco de reunir muita gente, afinal de contas, a iniciativa segue a lógica da separação que tanto sucesso tem feito entre nós. Mais, reforça a tendência - estimulada pelo prefeito - de retirada de simbolismo das tradições culturais cariocas. Higienizada, domesticada, apartada de seu contexto e de suas origens, a manifestação vira evento.

Para o blocódromo irão todos aqueles que temem as ruas, que detestam o que chamam de 'mistura', uma característica fundamental do Rio, responsável, entre outras, pela criação, pelo crescimento e pela consolidação do samba. Por lá, não haverá camelôs no meio do bloco, será menor o risco de furtos - vai vigorar a ideia de um Rio cenário, exclusivo, limitado, chegou a hora dessa gente que se acha diferenciada mostrar seu valor (e seu temor). Uma gente que, divorciada da cidade, quer uma cidade paralela, um feudo controlado e vigiado.

Mas a lógica de segregação no carnaval vem de longe, tem também como porta-estandartes blocos da Zona Sul e do Centro que há muito cultivam a prática de não revelar o horário de seus desfiles, estratégia para afastar indesejáveis, pessoas que moram longe, nos subúrbios, que não integram aqueles grupos de bem-nascidos. Na ânsia de exclusividade, esses blocos adotam a linha de condomínios fechados, de privatização de espaço público, querem a rua, que é de todos, apenas para eles - deveriam desfilar em seus playgrounds.

As atitudes do governo Crivella que atentam contra a cultura popular e o carnaval têm que ser criticadas, mas é preciso reconhecer que ele sabe onde pisa. Não teria comprado briga com as escolas de samba se não soubesse o quanto essas agremiações se afastaram de suas bases, perderam boa parte de seus vínculos com as comunidades que deveriam legitimá-las.

O prefeito sabe também que, até por conta de suas atividades ilícitas, muitos dos históricos patronos de escolas evitam brigar com o poder público - historicamente, tentam algum tipo de parceria, cumplicidade ou associação com aqueles que mandam no Estado. É a exclusão tão desejada e cultivada por tantos setores da sociedade é que permite ao prefeito pôr corda nos blocos e minar as bases de manifestações ligadas à festa e à contestação.


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