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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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dezembro 2017 Archives

João, o algoz do João

separador Por Fernando Molica em 30 de dezembro de 2017 | Link | Comentários (0)

João Gilberto é vítima de sua busca pela perfeição, de sua luta obsessiva pela perfeita combinação de voz com instrumento; tornou-se refém da missão de subverter o óbvio.

Entregou-se tanto que perdeu contato com a música possível de ser feita, isolou-se, gravou acompanhado apenas do próprio violão, o único admissível pelo seu grau de exigência. Chegou ao ponto de sequer autorizar o relançamento de seus antigos discos.

Há alguns anos, a Companhia das Letras lançou o livro 'Ho-ba-la-lá', em que o jornalista alemão Marc Fischer narra sua busca por João Gilberto, suas tentativas de aproximação, de entrevistá-lo. No texto, ele conta ter recebido conselhos para não chegar perto demais do ídolo, muitos lhe alertaram do risco que corria, tratava-se de uma órbita perigosa, que vitimara algumas pessoas. Fischer suicidou-se antes da publicação do livro.

Que João tenha paz nesses seus últimos anos de vida. E que 2018 nos chegue leve, que tenhamos ciência e mesmo orgulho de nossas limitações. Viva João Gilberto!


"Romance muito recomendável" - resenha da edição francesa de 'Notícias do Mirandão'

separador Por Fernando Molica em 30 de dezembro de 2017 | Link | Comentários (0)

O blog francês Bob Polar Express publicou esta resenha sobre o 'Notícias do MIrandão' ('Révolution au Mirandão').


Quando o acaso faz as coisas corretas. Nós descobrimos esta editora participando da massa crítica do Babelio. Para aqueles que não sabem, é simplesmente escolher um livro em uma longa lista e aguardar. Caso você receba uma exemplar, é necessário publicar uma crítica no site. O título deste romance nos atraiu, bem como o resumo. E descobrir um novo editor parecia interessante, especialmente pelo que oferece - "literatura mista, brasileira, regionalista, soco poético". Mas por que essa escolha do nome Anacaona? Ela era uma princesa haitiana que lutou contra os invasores espanhóis quando chegaram à América - e se tornou, por extensão, um símbolo de mulheres guerreiras e resistentes. As escolhas editoriais confirmaram o nosso interesse: a chamada literatura "minoritária", bem como as diferentes coleções Urbana, Terra, Epoca: "Escrever é uma arma", "Uma terra e suas raízes", "A diversidade das vozes contemporâneas". Escolha agradável, não é?
 
Nós entramos nesta favela fictícia - mas muito perto da realidade - nos passos de um jovem estudante branco - é possível notar que ele não passar por necessidades de sobrevivência - que decidiu parar de estudar para para se envolver em uma luta ideológica. Com uma predisposição oratória, ele é notado pelo chefe da organização de extrema-esquerda Conexão Revolucionária. Assim, irá se engajar numa trama, que faz fronteira com o documentário-ficção, que nos conduzirá de reuniões a debates, deliberações plenas de controvérsias para finalmente chegar a uma decisão final. A revolução está em andamento. Mas os argumentos e os meios de sua implementação parecem um tanto excessivos: esse processo supõe uma luta armada, uma guerra de guerrilha. Uma ONG se instala na favela, que servirá de posto avançado do grupo. Contatos essenciais são criados com um dos líderes da comunidade e com ... o chefe do tráfico de drogas da comunidade. Os primeiros efeitos são sentidos, geram uma mudança favorável. É essa iniciativa louca que descreverá o autor com um realismo mais convincente - ele é um jornalista - tanto por seu quadro como por seus personagens e pelo papel a eles atribuído.
 
Dizer que esta revolução pode ser condenada ao fracasso não representa um spoiler porque tudo sugere - através dos vários eventos - que não se derruba um regime estabelecido sem um exército de combatentes. Mas a intenção de Molica é menos compor um enredo do que usá-lo para nos permitir observar as flagrantes desigualdades sociais que são acompanhadas por corrupção generalizada - polícia, líderes - e exploração de soluções ilícitas. Claro, há descontentamento nas favelas, que ocupam 280 hectares do Rio, mas, se as pessoas conseguem sobreviver, elas também enfrentam uma guerra entre policiais e traficantes de drogas com várias mortes por semana. Isso impõe sua lei. É essa violência física e social que acontece entre cada linha. Considerar a possibilidade de uma revolução socialista pode não ser apenas o retrato fictício de um autor engajado, já que o Brasil já experimentou uma série de revoltas coletivas - especialmente em 2013, mas os manifestantes eram da classe média.
 
'Notícias do Mirandão' é uma novela social onde a obscuridade é imposta por uma violência latente - que servirá para desencadear o processo. O pivô da história é político. Seguir a vida cotidiana das pessoas desta favela é tão enriquecedor quanto emocionante. A questão do uso da violência contra a violência persiste na história. O da aproximação utópica entre ricos e pobres, brancos e negros, encontra uma resposta. A melhoria das condições de vida permanece sem solução. Molica escreve com sua caneta de repórter, mas não negligencia o ritmo e a intensidade das relações, das relações de poder. E então, há esta breve história de amor ... Romance muito recomendável.
 
Menção: as edições de Anacaona, lembre-se deste nome.

 
"Revolução Mirandao", Fernando Molica, edições Anacaona, coleção Urbana, traduzido do português por Sandra Assunçao e Isabelle Delatouche, publicado em 26/10/2017, 200 páginas.


Ano Novo

separador Por Fernando Molica em 29 de dezembro de 2017 | Link | Comentários (0)

A Andréa Pachá lembrou hoje deste texto que publiquei há três anos em O DIA. Com base em seu livro 'Segredo de justiça', tratei de expectativas trazidas por um ano novo. Vale republicá-lo, acho.

Comecei a ler semana passada, em pleno período de Natal e Ano Novo, 'Segredo de justiça', escrito por Andréa Pachá a partir de casos que vivenciou como juíza em varas de família. Foi bom ter iniciado a leitura nesta época em que somos meio instados a fazer um balanço do que se passou e a planejar o ano seguinte. Tendemos a achar que os fogos do Réveillon vão apertar um botão capaz de fazer uma faxina em nós mesmos e, ao mesmo tempo, acionar uma espécie de GPS que ao longo de 365 dias nos guiará por caminhos seguros, cheios de paz, amor e prosperidade.

Mas nada é garantido. Como é frisado num dos primeiros contos, é simples decidir a vida pelo retrovisor, detectar erros anos depois de cometidos -- há algumas décadas, um jogador de futebol declarou que só fazia prognósticos depois dos jogos. As histórias do livro envolvem dramas comuns, nem por isso banais: traições, divórcios, amores transformados em ódio, disputas por pensões alimentícias e pelos filhos.

Mesmo obrigada por ofício a decidir, Andréa não se coloca no papel de Deus, escapa do maniqueísmo de definir o certo e o errado. Compreensiva, busca alternativas, acordos que levem em conta as razões de cada uma das partes. "Maíra, não existe sonho errado. Sonhamos os sonhos possíveis. E nos esforçamos para acertar", diz a narradora -- uma juíza -- à mulher que, depois de forçar a separação, usava os filhos para provocar o retorno do ex-marido.

Espantada com a rapidez que temos para julgar a partir da leitura dos jornais, Andréa consegue entender a mãe que, depois de anos, optou por viver longe do filho esquizofrênico, deixado com o ex-marido. A autora se diz incapaz de condenar aquele comportamento: "(...) não existe um modelo que possa ser imposto a todas as mães naquelas circunstâncias", explica.

Botafoguense, acostumada, portanto, aos altos e baixos, ciente de nossas limitações, à quase certeza de que a euforia traz alguma dor, a autora, ao revisar tantos dramas, não insinua que a vida nos condena a uma segunda divisão; o livro é até otimista. Como afirmavam os palmeirenses e, agora, repetem os alvinegros, amor não tem divisão -- um jeito de dizer que o bom mesmo é jogar. Criança, percebi, depois de uma passagem de ano, que nada havia mudado; apesar da barulheira e da festa, o céu continuava igual. Mais tarde entendi a importância do ritual, da necessidade de um marco para o recomeço. Ao revelar dúvidas, ao buscar saídas, Andréa nos fornece uma espécie de habeas corpus que ajuda a sarar feridas e a abrir caminhos nesta virada de ano.


Chegaram!

separador Por Fernando Molica em 29 de dezembro de 2017 | Link | Comentários (0)

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Depois de 73 dias de viagem(!), chegaram, finalmente, os exemplares da edição francesa do 'Notícias do Mirandão'. A editora é a Anacaona.


Blocódromo: a exclusão cultivada

separador Por Fernando Molica em 28 de dezembro de 2017 | Link | Comentários (0)

O tal local fechado para a apresentação de blocos a ser criado pela prefeitura corre o risco de reunir muita gente, afinal de contas, a iniciativa segue a lógica da separação que tanto sucesso tem feito entre nós. Mais, reforça a tendência - estimulada pelo prefeito - de retirada de simbolismo das tradições culturais cariocas. Higienizada, domesticada, apartada de seu contexto e de suas origens, a manifestação vira evento.

Para o blocódromo irão todos aqueles que temem as ruas, que detestam o que chamam de 'mistura', uma característica fundamental do Rio, responsável, entre outras, pela criação, pelo crescimento e pela consolidação do samba. Por lá, não haverá camelôs no meio do bloco, será menor o risco de furtos - vai vigorar a ideia de um Rio cenário, exclusivo, limitado, chegou a hora dessa gente que se acha diferenciada mostrar seu valor (e seu temor). Uma gente que, divorciada da cidade, quer uma cidade paralela, um feudo controlado e vigiado.

Mas a lógica de segregação no carnaval vem de longe, tem também como porta-estandartes blocos da Zona Sul e do Centro que há muito cultivam a prática de não revelar o horário de seus desfiles, estratégia para afastar indesejáveis, pessoas que moram longe, nos subúrbios, que não integram aqueles grupos de bem-nascidos. Na ânsia de exclusividade, esses blocos adotam a linha de condomínios fechados, de privatização de espaço público, querem a rua, que é de todos, apenas para eles - deveriam desfilar em seus playgrounds.

As atitudes do governo Crivella que atentam contra a cultura popular e o carnaval têm que ser criticadas, mas é preciso reconhecer que ele sabe onde pisa. Não teria comprado briga com as escolas de samba se não soubesse o quanto essas agremiações se afastaram de suas bases, perderam boa parte de seus vínculos com as comunidades que deveriam legitimá-las.

O prefeito sabe também que, até por conta de suas atividades ilícitas, muitos dos históricos patronos de escolas evitam brigar com o poder público - historicamente, tentam algum tipo de parceria, cumplicidade ou associação com aqueles que mandam no Estado. É a exclusão tão desejada e cultivada por tantos setores da sociedade é que permite ao prefeito pôr corda nos blocos e minar as bases de manifestações ligadas à festa e à contestação.


Carnaval com roleta

separador Por Fernando Molica em 27 de dezembro de 2017 | Link | Comentários (0)

Essa história de blocódromo chega a ser patética, uma demonstração de desconhecimento da cidade, de seu povo e das suas tradições. Brincar num bloco tem a ver com ocupação da rua, com a (perdão pela palavra) ressignificação do espaço público - entra a fantasia, saem o trabalho, a gravata, a obrigação.

Trata-se de um desafogo temporário que só faz sentido se realizado em lugares abertos. Algo semelhante a outros tipos de manifestações públicas, como políticas ou religiosas. Todos - foliões, políticos e religiosos - precisam da rua, para brincar, mostrar força ou fé. Não dá pra fazer procissões católicas ou megaeventos evangélicos em igrejas. Não dá pra homenagear Iemanjá numa piscina, né mesmo, Luiz Antonio Simas?

O renascimento dos blocos de rua no Rio está também ligado à elitização e ao excesso de organização das escolas de samba. O espetáculo ficou tão certinho que perdeu muito de sua capacidade de expressar o sentido libertário do carnaval, ganhou outra dimensão. Num processo (perdão de novo) dialético, o engessamento dos desfiles - desde 1984 emoldurados pela dureza do concreto armado - abriu caminho para os blocos, com dinheiro ou sem dinheiro a gente brinca.

Claro que, numa cidade grande como o Rio, o crescimento dos blocos geraria problemas, provocaria transtornos. Ao longo dos últimos anos, essas questões vinham sendo mais ou menos equacionadas, a quantidade de banheiros químicos aumentou, os blocos maiores foram retirados da Zona Sul e levados para o Centro. O caminho da negociação é o único possível, não dá pra retirar o carnaval do Rio assim como não é possível aterrar nossas praias ou acabar com nossas montanhas.

O Rio já viveu a fase de remoção de favelas, volta e meia há quem proponha limites à circulação de ônibus que levam suburbanos às praias da Zona Sul. A tentativa de enquadramento dos blocos faz parte do mesmo processo de separação, de manutenção de privilégios, de criação de feudos, O morador de Bangu é tão dono da praia de Ipanema como qualquer proprietário de cobertura da Vieira Souto. Espaços públicos são de todos.

No primeiro parágrafo falei em desconhecimento da cidade, mas a criação do blocódromo pode ser também o contrário, uma medida pensada por gente que conhece tanto a cidade que prefere vê-la enquadrada, domesticada, desprovida de sua força criativa e contestadora. Um Rio que tenha favelas cercadas, praias de acesso controlado e carnaval com roleta.


Brincar com o bumbum

separador Por Fernando Molica em 19 de dezembro de 2017 | Link | Comentários (0)

Concordo com aqueles que destacam, no novo clipe da Anitta, a presença do universo da favela e uma postura feminista. Mas friso um outro ponto, uma apenas aparente contradição entre os universos infantil (presente na melodia e no arranjo) e o adulto (representado pela letra e pelas imagens).

Ouvida sem as palavras, a canção lembra as compostas para um público infantil - melodia simples e repetitiva, marcação insistente, feita por som semelhante ao de instrumento de sopro e que faz lembrar o uso da tuba em bandas do interior.

Ao "pom, pom, pom" da marcação foram acrescentadas imagens e letra forte insinuação sexual ("Desce, rebola gostoso/ Empina me olhando/ Te pego de jeito"). Uma combinação que apenas parece não fazer muito sentido.

Mas o verso que fala em brincar com o bumbum indica que não há contradição. Embora não haja crianças nas imagens, a união entre os universos adulto e infantil não foi por acaso. Brincadeira e bumbum remetem ao imaginário de crianças, mas brincar com bumbum é para adultos.

'Vai malandra', como produto cultural representativo do seu tempo e do seu lugar, ressalta, entre outras características do país, uma realidade de adultos presos a uma estética musical infantil e de crianças que se acham adultas. Fará sucesso nas festas de todas as faixas etárias.


Chico com ágio

separador Por Fernando Molica em 17 de dezembro de 2017 | Link | Comentários (0)

O site Viagogo (https://www.viagogo.com/) está vendendo, com ágio, ingressos para a temporada carioca de Chico Buarque, que começa no próximo dia 4.

Uma meia entrada para o setor 1, diante do palco, que custa R$ 245,00 na tabela oficial, estava sendo oferecida, neste domingo, por R$ 657,00, um valor 2,68 vezes superior.

Para o setor 3, a meia entrada, que sai por R$ 170,00 na tabela oficial, estava disponível no site por R$ 333,00.

Na bilheteria, a inteira para o setor 2 custa R$ 420,00 - no site, sai por R$ 756,00.

A alta procura pelos ingressos - quase todos foram vendidos - fez com que fossem programadas oito apresentações extras.


Os mortos distantes

separador Por Fernando Molica em 17 de dezembro de 2017 | Link | Comentários (0)

Os dados sobre homicídios dissecados no ótimo material publicado por 'O Globo' revelam também a falta de iniciativas para tentar interromper a barbárie. Um imobilismo relacionado ao perfil da grande maioria das vítimas, pessoas pobres e negras, brasileiros que em boa parte da sociedade geram tanta empatia quanto aqueles assassinados na Síria, na Faixa de Gaza ou em algum país africano cujo nome esquecemos entre uma tragédia e outra. Não são encarados como vizinhos, mas como invasores que sequer deveriam ter nascido.

Muitos dos homicídios entre nós são festejados; na dúvida, morador de favela é sempre suspeito, sua inocência tem que ser provada até depois da morte - a frase "Ele era trabalhador" virou chavão em coberturas de crimes, uma espécie de atestado de bons antecedentes apresentado por parentes e amigos da vítima.

A simples suspeita, geralmente lançada pela polícia, de que o morto tinha algum tipo de ligação com atividades criminosas serve de justificativa para casos evidentes de assassinato. A violência policial - que tem vítimas e endereços bem definidos - é estimulada, quem defende o respeito à lei é chamado de defensor de bandidos, a expressão direitos humanos ganhou conotação negativa entre nós. Mesmo a eficiência na apuração de homicídios está ligada ao CEP das vítimas, o que estimula a impunidade e mantém o processo seletivo de escolha dos futuros cadáveres.

Não custa repetir que somos herdeiros de uma sociedade em que seres humanos eram donos de outros seres humanos, em que a tortura e o assassinato de pessoas escravizadas eram encarados como necessários à manutenção da ordem e das instituições. Uma lógica que não foi de todo abandonada, o trabalho escravo permanece, a violência continua seletiva (é só comparar índices de criminalidade em áreas ricas e pobres de nossas cidades), ainda é grande a resistência a mudanças que permitam a diminuição de uma desigualdade absurda e que se mantém intacta na vida e na morte. Só haverá queda significativa no número de homicídios quando os mortos passarem a ser vistos como nossos.


Sobre fotos, selfies e esquecimento

separador Por Fernando Molica em 09 de dezembro de 2017 | Link | Comentários (0)


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"Como ouvir hoje uma fita de rolo, ver um filme em Super 8, um vídeo VHS? Como abrir um arquivo gravado em algum disquete? O caminho será o mesmo para as nossas fotos, nossas selfies, nossos vídeos. O esquecimento passivo não servirá apenas para os amores, a morte física dos fotografados fará com que sumam os registros de seus rostos, de seus corpos, de suas expressões. Hoje ainda é simples deixar no fundo de alguma gaveta as fotos de avós, de bisavôs. Quem, no futuro, ou seja, daqui a três ou quatro anos, terá saco para ficar transferindo as imagens dos velhinhos de cá para lá, quem vai tratar de atualizar o armazenamento daqueles registros? Aos poucos, tudo se perderá, sem drama, sem cerimônias de despedida. Como são fotos virtuais, fluidas, desprovidas do suporte do papel, serão esquecidas, abandonadas em algum cemitério de computadores. Não ficarão nem como registro de época, a ausência delas é que marcará uma época que independe do tempo, onde não haverá passado, um mundo radicalmente contemporâneo, em que fotos servirão apenas para lembrar do ato de se bater uma foto. Ninguém mais suporta baixar tantas e tantas imagens, o relevante é o clique, o instante, o ato de conferir, na hora, o resultado. Não é preciso rever a foto, recordá-la. Vale, no máximo, postá-la em alguma rede social. (...) Criamos a foto sem memória, veja só, a foto que não cobra, que não apresenta qualquer fatura. Uma não foto, incapaz de nos encarar, de jogar na nossa cara o que fizemos de nossas vidas. Inventou-se -- tem certeza de que você não participou disso? Seria ideal para limpar o currículo/folha corrida de seus assessorados -- um passado que não retorna, que fica confinado numa ausência de memória, um desafio à psicanálise, eu, eu, eu, doutor Freud sifudeu."

('Uma selfie com Lenin', Record, 2016).


A tragédia da Boate Kiss

separador Por Fernando Molica em 09 de dezembro de 2017 | Link | Comentários (0)
Na manhã do domingo, 27 de janeiro de 2013, fui acordado por uma ligação de meu filho mais velho, Júlio, repórter da Globonews. Ele precisava pegar um documento aqui em casa para poder viajar para Santa Maria, foi dos profissionais designados para cobrir o incêndio na boate Kiss, fato que eu - que virara a noite num ensaio da Unidos da Tijuca - até então desconhecia. Ao saber da tragédia, não consegui voltar a dormir. Pouco depois, foi a vez do Ramiro Alves, então publisher do DIA, a me ligar - queria que eu fosse para a cidade gaúcha, propôs que eu focasse menos na investigação do caso e mais nas histórias de famílias devastadas. Horas depois, eu e o fotógrafo Ernesto Carriço embarcamos.

Foi uma das coberturas mais terríveis de que participei. Fomos de velório em velório, de enterro em enterro, havia casos de irmãos sendo velados juntos. Apesar da absurda tristeza, nunca me arrependi de ter ido; nessas horas, encarar a tragédia ajuda a suportá-la, como repórter, eu tinha que estar lá.

Passados quase cinco anos, não dá para admitir a decisão da justiça gaúcha de não submeter os acusados pela chacina ao júri popular. Eles não tinham a intenção de matar, mas assumiram este risco, caso típico de dolo eventual.

Aí vão duas reportagens (a outra está aqui) - que, na época, preferi não compartilhar por aqui. Acho que vale recuperá-las agora, até para lembrar de um sofrimento que ameaça ficar impune.


Às 4h30 da madrugada de ontem, acompanhados de mais seis pessoas, o pintor Cezar Augusto Madruga Neves e sua mulher, a dona de casa Maria Aparecida Neves, velavam, na Igreja Quadrangular do Tuiuti, o corpo de seu único filho, o estudante Augusto Cezar Neves, de 19 anos, aluno de Ciências da Computação da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

A exemplo da maioria de parentes de vítimas da tragédia da boate Kiss, eles abriram mão do velório coletivo e fizeram com que o corpo fosse levado para sua igreja, uma casa térrea pintada de bege no Centro da cidade. Maria Aparecida repetia a última conversa que, sábado à noite, teve com Augusto: o pedido para que trocasse a festa na boate pelo aniversário de um colega de louvores -- o filho tocava guitarra no culto para jovens, realizado aos sábados. "Mas ele me disse que precisava andar com os próprios pés", dizia mãe, olhos inchados.

Cerca de uma hora antes, num canto da quadra do Centro Desportivo Municipal (CDM), onde 15 corpos eram velados, Lidia de Melo escrevia mensagem em uma das bandeiras do Grêmio colocadas sobre o caixão do militar Leandro Nunes da Silva. "Escrevi em nome do meu filho, que era amigo do Leandro", explicou. Àquela hora da madrugada, já eram dezenas as mensagens que decoravam a bandeira tricolor: "A mana te ama muito"; "Meu primo querido, descansa em paz, guerreiro, sou tua eterna fã, te amo"; "Vai com Deus, meu sorriso de cada dia".

No outro extremo da quadra, uma jovem de nome Yasmim registrou, sobre a foto de Lucas Dias Oliveira, o quanto o amava. "Meu amor, minha vida. Te amo tanto, tanto. E nunca, nunca, vou te deixar. Tu já foi tudo para mim. Mais que um amigo, companheiro, namorado, amante."

Outros 25 textos preenchiam uma folha de papel grudada à bandeira do Rio Grande do Sul sobre o caixão. "Sobrinho querido. Agora tu és livre, realmente feliz!" Cartolinas dispostas pelo ginásio traziam ofertas a parentes de vítimas de outras cidades. "Ofereço hospedagem", "Ofereço banho e repouso", "Ofereço: repouso, banho e desjejum".

Rafael Ávila está no quarto semestre de Medicina; Adriana Volpo, no quinto. Passados os momentos mais tensos, em que colaboraram na triagem de quem precisava de atendimento, resolveram ajudar de outra forma e começaram a distribuir sanduíches na quadra. Já a psicóloga Camila Bevilacqua estava prestes a completar uma jornada de 24 horas -- chegara às 6h ao CDM. Pela manhã, acompanhara um dos piores momentos da vigília, o reconhecimento dos 200 corpos estendidos no chão de outra quadra do complexo esportivo. Homens e mulheres circulavam entre os cadáveres esperando não encontrar seus filhos. Isto, em meio a toques de celulares das vítimas; desesperados, alguns pais, mães e irmãos insistiam em telefonar à espera de uma improvável resposta
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A cerca de oito quilômetros dali, as capelas do Cemitério Parque Santa Rita estavam lotadas, alguns velórios ocorreram no saguão; entre eles, os dos irmãos Marcelo de Freitas Salla Filho e Pedro de Oliveira Salla, que seriam sepultados pela manhã. Os enterros em sequência -- de 25 a 30 seriam realizados até o fim do dia -- dificultaram os trabalhos dos funcionários. No início da tarde, Aldoer Christo tentava organizar um bolo de ordens de serviço que trazia amarfanhadas. Debaixo de sol forte, um trator não parava de abrir covas no gramado.

Ali na frente, um grupo de umas cem pessoas se despedia de Carlos Alexandre dos Santos Machado, 26 anos, formado em Administração. A 60 metros de distância, amigos e parentes de Luiz Eduardo Flores, recém-formado em Ciências da Computação, rezavam a Ave-Maria. Entre eles estavam ex-professores na UFSM -- terminado o enterro, eles aguardariam a chegada do corpo de Augusto Cezar, aquele velado na Igreja Quadrangular.

Poucas horas antes, o templo ficara lotado em torno do caixão do filho de Maria Aparecida e Cezar Augusto. O salão, com cerca de 140 metros quadrados, recebeu mais de cem pessoas que participaram de um culto iniciado às 10h. Um dos celebrantes, o pastor Isidoro Lélis dos Santos, citou Jesus: "Vocês vão passar por grandes aflições, mas, nos momentos de dor, vocês precisam estar alicerçados em Deus".

Cântico emociona

Sentada ao lado do marido, diante do caixão e do púlpito, Maria Aparecida não resistiu quando amigos da igreja entoaram cânticos e precisou ser atendida por enfermeiros.
"Se as águas do mar da vida quiserem te afogar/Segura na mão de Deus e vai". O conhecido hino cristão fez com que muitos chorassem. A fé garantia apoio mesmo diante das tristezas da vida e do peso da jornada. Mas não era suficiente para eliminar o efeito devastador da morte do rapaz.

Uma parente de Augusto, empregada doméstica, revelava que, cedo, recebera uma ligação dos patrões. Eles não ofereceram ajuda nem manifestaram solidariedade. Apenas questionaram se ela era assim tão ligada ao jovem a ponto de precisar faltar ao trabalho.

Corrida de voluntários da área da saúde

Profissionais de saúde que vivem em outras cidades gaúchas se apresentaram como voluntários assim que souberam das mortes na Kiss. O enfermeiro Leonardo Rodrigues Piovesan trabalha num posto do Programa Saúde da Família em Sapucaia do Sul, na Região Metropolitana de Porto Alegre, a 280 quilômetros de Santa Maria.

Ele estava de férias desde sexta-feira passada, mas se comoveu com o drama de moradores da cidade onde vive sua família. Na madrugada de ontem, disse ter tido muito trabalho durante a identificação dos corpos. Muitos parentes de vítimas não resistiram e tiveram quedas abruptas na pressão arterial.


BG
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