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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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julho 2017 Archives

A Flip de Lima Barreto e dos leitores

separador Por Fernando Molica em 31 de julho de 2017 | Link | Comentários (0)

O protagonismo de autores brasileiros nesta Flip é outro ponto que merece ser ressaltado. Um fato relacionado à ausência de nomes estrangeiros mais consagrados (lembro de uma edição em que havia dois vencedores do Nobel de Literatura), à qualidade dos brasileiros convidados e ao tema geral do evento. Lima Barreto não foi apenas um homenageado, foi uma referência para quase todos os debates.

Ao tratar de temas tão presentes no nosso cotidiano - racismo, periferias, exclusão, machismo -, a Flip colaborou para ressaltar a produção contemporânea brasileira e para aproximá-la dos leitores. Estes são fundamentais - é tão óbvio dizer isto - para que livros façam algum sentido na vida de um país, não é razoável que o universo literário fique restrito ao clube de autores, editores, agentes, divulgadores e jornalistas.

Em outras Flips, as festas mais comentadas eram as promovidas por editoras. Desta vez, o bom foi ficar na rua, dançar na praia, cantar na roda de samba. Um movimento que promoveu uma integração tão necessária para um mercado que não pode se conformar em viver numa espécie de condomínio fechado.


As estátuas de Budapeste

separador Por Fernando Molica em 16 de julho de 2017 | Link | Comentários (0)

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"Estátuas mais divertidas estão nos arredores de Budapeste. Com o fim do comunismo, muitas das representações do poder soviético foram destruídas, mas sobraram algumas dezenas delas. O que fazer com aquele lixo estético-ideológico que representava o invasor? Você mandaria jogar tudo no lixo -- imagina, aquela velharia de mau gosto, que exaltava o comunismo, os pobres, o proletariado, a revolução, tudo o que você mais detesta. Mas os caras foram mais criativos. Reuniram aqueles monstrengos, os despacharam para a periferia da cidade e criaram o Memento Park, um Jurassic Park do socialismo, o nome remete, veja só, a preces que tratam da lembrança dos vivos e dos mortos. Entre os mortos-vivos de lá estão Marx, Lenin, Engels e, personagem principal, o povo. Este, representado por homens e mulheres altivos, olhares fixos no horizonte, para o futuro da libertação proletária. Dá para imaginá-los cantando a "Internacional", o apelo aos famélicos da Terra. Antes vetustos, temidos e compenetrados, os personagens mumificados em bronze ficaram apenas ridículos, testemunhos de uma religião acabada. São como sombras de tempos em que havia certeza do destino comum, da redenção dos povos, da pátria sem amos. (...) Do lado direito, ainda na área externa, sobre um pedestal, cópia das botas de uma gigantesca estátua de Stálin destruída na revolução de 1956. Ao lado do portão, somos observados por Marx, Engels e Lenin -- como se nos perguntassem se vamos mesmo entrar, se queremos mesmo abandonar qualquer eventual esperança no socialismo."

Trecho do romance 'Uma selfie com Lenin'.

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A raiva de São Januário

separador Por Fernando Molica em 09 de julho de 2017 | Link | Comentários (0)

Pode ser um certo delírio, mas não consigo deixar de associar a confusão de ontem em São Januário a uma explosão que tem, em suas raízes, questões que superam o campo de jogo e a derrota para o Flamengo.

Há pouco mais de um ano, a raiva com o governo petista era canalizada para as grandes manifestações - rolava um ódio um tanto quanto irracional e pipocavam tiroteios virtuais nas redes sociais, mas tudo isso era levado para as ruas, que abrigavam o desejo de mudança de boa parte da população.

Os que eram contra o impeachment também se organizaram e promoveram grandes manifestações, ainda que menores que as da oposição. Havia revolta e indignação dos dois lados, mas todos tinham alguma esperança. As raivas foram levadas para o campo institucional, que tratou de desalojar a então presidente.

Hoje, mesmo diante de tantas evidências que envolvem o Temer e seus principais auxiliares, as ruas estão quietas, há poucas e esvaziadas manifestações, as panelas parecem ter voltado para o fogão. Há uma uma perigosa apatia no ar.

Em 1998, quando estava no 'Fantástico', eu e o cinegrafista Lucio Rodrigues aproveitamos uma viagem à Colômbia para, sem qualquer produção prévia, entrar na selva e mostrar um acampamento das FARC, chegamos a entrevistar um importante comandante da guerrilha, o Joaquín Gómez.

Naqueles poucos dias, apuramos que a esquerda institucional sequer era representada no Congresso boliviano, reflexo do 'Bogotazo', revolta ocorrida no fim dos anos 1940 e que ainda marca o país. Décadas depois, a direita estava no poder; a esquerda, armada, na selva, aliada ao narcotráfico.

Voltei para o Rio assustado com a Colômbia e um pouco aliviado com a realidade brasileira. Apesar dos pesares, a situação institucional por aqui era bem melhor. O PSDB estava no governo e as reivindicações da esquerda eram representadas pelo PT e por entidades como a CUT e o MST. Apesar de um ou outro arranhão, todos jogavam o jogo dentro da legalidade.

O ódio gerado em 2014, o inconformismo com a nova vitória petista, a derrubada da Dilma e a ascensão de Temer e de seu novíssimo programa de governo abriram uma brecha na nossa tranquilidade institucional. Tudo foi feito dentro das regras constitucionais, mas, como o TSE acabou de nos mostrar, há diversas maneiras de se aplicar as regras, algo que aumenta a desconfiança em relação às tão propaladas instituições. O pau que dá em Chico pode não ser o mesmo que dá em Francisco.

No fim das contas, a recessão, o desemprego e a violência aumentaram, os cortes no orçamento começam a mostrar suas consequências, estamos diante da possibilidade de encararmos o terceiro presidente em pouco mais de um ano, quase todos os partidos têm envolvimento com alguma forma de corrupção.

As ruas, violentas, povoadas de miseráveis e de consumidores de crack, estão quietas, mas acumulam muita raiva. Uma raiva que, como ocorreu ontem no estádio do Vasco, pode voltar a explodir pontualmente, estimulada por qualquer pretexto, por uma simples derrota em casa. No meio do caos, não vai dar pra ficar berrando algo como "Acreditem nas instituições!".


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