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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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novembro 2016 Archives

A escolha da Lamia

separador Por Fernando Molica em 29 de novembro de 2016 | Link | Comentários (0)

Importante apurar a razão de a Chapecoense ter optado por um voo fretado de uma pequena empresa quando poderia ter optado por voos regulares, de companhias mais sólidas. Foi por conta do preço? Não havia disponibilidade de lugares para tantas pessoas em outras empresas?
Segundo o 'El País', a Lamia, Línea Aérea Mérida Internacional de Aviación, tinha apenas dois aviões, não fazia voos regulares e, nos últimos dois anos, "sua especialidade vinha sendo o transporte, em voos fretados, de times de futebol sul-americanos e da própria Bolívia".

Também de acordo com o 'El País', a Lamia "já transportou vários times de futebol latino-americanos, devido ao seu custo baixo e à flexibilidade de voos fretados". Vários sites informam que a seleção argentina que jogou no início do mês em Belo Horizonte viajou no mesmo avião acidentado na noite de ontem. A Latam, a Copa e a Avianca têm voos regulares para Medellin - todos têm duração semelhante à jornada que seria cumprida pela delegação do time catarinense.

Matéria do Globoesporte.com informa que o voo comercial que decolou de São Paulo com o time da Chapecoense decolou às 15h45 em direção a Santa Cruz de la Sierra. Lá, a delegação embarcaria no avião fretado - a chegada a Medellin estava prevista para as 21h, hora local (meia-noite no horário de Brasília, o que daria quase nove horas de voo), mas o acidente ocorreu por volta das 22h15. O voo, portanto, duraria mais do que o previsto.

A julgar pela programação de companhias aéreas para a próxima segunda-feira, ontem houve voos regulares de São Paulo para Medellin. O site da Latam informa que, na próxima segunda-feira, há um voo para Medellin que sai às 15h50 de São Paulo e chega às 21h59 (hora local) em Medellin (há conexão em Bogotá), um total de nove horas e nove minutos.

Sites de viagens mostram que, na próxima segunda, um voo da Copa Airlines sairá às 13h15 de São Paulo; haverá conexão na Cidade do Panamá, e chegará às 20h14 em Medellin, um total de nove horas e cinquenta e nove minutos de viagem. A Avianca também oferece voo de São Paulo para Medellin com escala em Bogotá - duração de nove horas e catorze minutos.


Os jornais e os sambistas "desoccupados"

separador Por Fernando Molica em 28 de novembro de 2016 | Link | Comentários (0)

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Esta nota, publicada em reportagem do Chico Alves sobre os cem anos do samba, é da edição de 9/8/1920 do 'Correio da Manhã'. Mais do que relatar a repressão policial a um grupo de sambistas, a notícia reforça o preconceito contra "o pessoal do batuque", os "desoccupados".

Serve também para ilustrar mais uma das muitas contradições presentes na trajetória do samba, marcada pela convivência entre a importância de afirmação de uma cultura e a necessidade de diálogo com os poderes institucionais - a busca de legitimação é algo muito presente na história na nossa mais importante forma de expressão cultural.

O paradoxo está presente também nos jornais. A imprensa criticava os sambistas, mas, naquele mesmo início do século 20, jornais expunham, em suas sedes, estardantes de entidades carnavalescas. Em 1932, o jornal 'O Mundo Sportivo', de Mário Filho, organizou uma disputa entre escolas de samba.

No mais, os sambistas detidos estavam reunidos na Rua Visconde de Niterói, em frente ao morro onde, em 1928, seria fundada a Estação Primeira de Mangueira.


As angústias narrativas do feto de McEwan

separador Por Fernando Molica em 23 de novembro de 2016 | Link | Comentários (0)

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No seu ótimo romance 'Enclausurado', o camisa 10 Ian McEwan faz mais do que conferir uma improvável verossimilhança a uma história contada por um feto na barriga da mãe. O livro é também metáfora do processo de uma gestação literária: o inglês brinca com a lógica do narrador-deus, onipresente, onipotente e onisciente, algo questionado por alguns escritores.

Narradores improváveis não chegam a ser novidade. No fim do século 19, Machado de Assis deu voz - e que voz! - a um defunto, o sujeito que dedica o livro ao primeiro verme que degustara suas carnes. Mas Brás Cubas trata de memórias, de situações já vividas. O quase bebê de McEwan é, como o repórter Esso, testemunha de uma história, de fatos em tempo real que ocorrem diante de sua casca de noz (o título original do livro é 'Nutshell').

Ao se responsabilizar pela narrativa, o feto se depara com problemas conhecidos pelos ficcionistas. Em tese, ele é o dono da bola, sabe de tudo, poderia mudar os rumos da trama, redigir a versão preferida de uma história 'real', que afirma ter vivenciado - ele nos contou uma possibilidade dos fatos, poderia, como romancista, optar por outra.

Mas, isolado em seu escritório apertado e desconfortável - o ventre materno -, o colega acaba se dando conta de como é relativo o poder de quem inventa e/ou relata uma história. Apesar de saber de tudo o que acontece, de poder mexer na narrativa, de criar alguns incidentes (não abre mão de dar uns chutes voluntários na barriga da mãe), ele não tem o domínio absoluto de seus personagens.

Antes de sentar para escrever meu primeiro romance, duvidava de escritores que se diziam reféns de seus personagens, que, em palestras e entrevistas, contavam que se viram obrigados a seguir os caminhos determinados por suas criaturas. Sempre achei que isso não passava de uma tentativa de conferir mistério e valor ao ato de escrever.

Há tempos que admito meu erro de julgamento. Os poderes do autor diminuem muito depois que ele escala seu time e o coloca pra jogar - não dá pra inventar um pênalti quando a jogada se passa no meio do campo. Em apresentações do Teatro do Oprimido, em que incentivava a intervenção do público nas peças, Augusto Boal reprimia soluções mágicas, que considerava desconectadas do enredo. Ao perceber este tipo de tentativa, ele gritava 'Stop, c'est magique' - a ficção não deve abrir mão de alguma lógica.

Lembro também de uma novela em que o personagem do Mário Lago escrevia e publicava livros com novos finais para antigos clássicos - nada de mortes trágicas de protagonistas, de desfechos tristes (se não me engano, Capitu e Betinho terminavam felizes para sempre). As recriações acabavam encalhadas, ninguém comprava os livros, leitores desprezam falsidades no reino da invenção.

Confinado à barriga da mãe, o feto fica sabendo de tudo o que está sendo dito e tramado, quer dar um jeito de mudar a sequência da história, pensa em soluções mágicas e até em abandonar de maneira trágica sua participação naquele enredo, como um autor que apagasse tudo o que havia escrito ou queimasse a única versão de seu manuscrito.

Revoltado com o que se passa, com o que escuta, o feto se revolta, mas, bom escritor que é, acaba admitindo suas limitações, percebe a impossibilidade de produzir um novo fim para aquela trama. Dá para mexer aqui e ali, criar algumas armadilhas para os personagens, mas não é viável mudar o que estava escrito antes mesmo de ser digitado ou impresso. Ele descobre, como confessa na penúltima frase do romance, que o significado chega depois da história.


Os chinelos que ressaltam a tragédia

separador Por Fernando Molica em 21 de novembro de 2016 | Link | Comentários (0)

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Publicada na edição de hoje de 'O Globo', a foto de Pablo Jacob mostra mais do que o desespero de um pai ao encontrar o corpo do filho, um dos sete moradores da Cidade de Deus mortos no fim de semana.

A imagem que documenta a dor do homem é emoldurada pelos pés de seus vizinhos, pés - pretos ou quase pretos - calçados com os chinelos que traduzem a pobreza da Cidade de Deus.

A cabeça enfiada no chão e os pés e as mãos suspensos no ar transmitem o tamanho do sofrimento do personagem; os pares de chinelos dispostos em semicírculo dão o contexto, situam o drama, identificam vivos e mortos.

Os chinelos são quase um denominador comum em favelas - não o chinelo que virou moda aqui e no exterior, símbolo de conforto, informalidade e descontração, mas o que indica falta de sapatos, de tênis, de emprego, de dinheiro, de esperança.

Chinelo sinônimo de pobreza, substantivo que passou a integrar o adjetivo - pés de chinelo - que tão bem define os mais pobres. Chinelos que, nos pés daqueles que portam armas caríssimas e fazem a cidade de refém, ironizam tanta ostentação de poder - do chinelo vieram e do chinelo não se livrarão.

Relatos da barbárie na CDD citam abuso de poder, tortura e assassinatos ao mesmo tempo que admitem ligações de algumas das vítimas com o tráfico de drogas. Uma retaliação de PMs relacionada às mortes de quatro colegas na queda do helicóptero é a hipótese mais citada para as prováveis execuções.

Um relato parecido com o de tantas outras tragédias: no fim das contas, ficamos com, pelo menos, mais onze cadáveres, saldo negativo da guerra que, como frisou a Flávia Oliveira, não tem vencedores, mas apenas derrotados.

Uma guerra em que pés de chinelo são vítimas e algozes. Guerra que só poderá ter expectativa de solução quando a maior parte da sociedade perceber que a violência é algo sério demais para ser resolvida apenas pela polícia e que a ilegalidade do uso de drogas merece, pelo menos, ser discutida. É preciso que todos tenhamos coragem de olhar além dos nossos próprios chinelos.


Garotinho, Cabral e os direitos de todos nós

separador Por Fernando Molica em 18 de novembro de 2016 | Link | Comentários (0)

Pressionada pela crise, revoltada com a roubalheira, ameaçada pelo arrocho do governo estadual, irritada com a tradicional impunidade de políticos e empresários, boa parte da população comemora o desespero da família Garotinho e as fotos de Cabral de cabelo cortado e uniforme de preso.

A reação é compreensível, mas não custa tentar baixar um pouco a bola. Garotinho tinha motivos para reclamar de uma transferência (decisão agora revogada pelo TSE) que contrariava decisões médicas. Era também razoável o medo de uma eventual retaliação de bandidos encarcerados quando ele era secretário de Segurança - vale lembrar que, para evitar casos de vingança, policiais presos são mantidos separados de criminosos comuns.

Cabral, que, como preso, também está sob a proteção do Estado, tem o direito de se queixar da divulgação (feita por funcionários do governo Pezão!) das fotos no presídio. Em tese, as fotos nem deveriam ter sido feitas. A Lei 12.037/2009 regulamenta um artigo da Constituição e determina que o cidadão (qualquer cidadão) que tenha documento civil válido não será identificado criminalmente - é razoável supor que pelo menos o passaporte do Cabral esteja atualizado.

Não se trata de defender Garotinho e Cabral, as evidências contra ambos são muito relevantes, ainda que possa ser questionada a necessidade de decretação das prisões antes do julgamento - a medida, extrema, tem sido um tanto quanto banalizada. Mas, insisto, mas é preciso ter cuidado para não desprezarmos a legislação feita para nos proteger do Estado.

É absurdo que um delegado da Polícia Federal declare que Garotinho e Cabral ficaram em presídios separados por pertencerem a diferentes facções. A piada é ótima, mas não poderia ter sido dita por um funcionário público, integrante de polícia judiciária. Pior, a informação não é verdadeira: Cabral está numa cadeia reservada para pessoas que têm curso superior, um privilégio - sem dúvida -, mas que é assegurado por lei. Garotinho estava numa UPA que fica dentro do Complexo de Bangu.

É bom ressaltar que os dois políticos, quando ocupavam cargos de poder, também violaram direitos de presos. Quando era secretário de Segurança, Garotinho conduziu diante de jornalistas uma espécie de interrogatório do suspeito de matar um casal de estrangeiros, promoveu um espetáculo como os que hoje tanto critica. Nos últimos anos, fotos de presos de uniforme e cabeça raspada foram divulgadas com frequência pelo governo estadual. Agora, os ex-governadores amargam as consequências da omissão.

Não podemos festejar uma espécie de democratização da barbárie, o fato de dois políticos importantes passarem por abusos historicamente cometidos contra presos comuns, pobres, anônimos. Temos que buscar o respeito ao direito de todos. É até provável que as sucessivas prisões de representantes do que Elio Gaspari chama de andar de cima tenham efeitos benéficos na melhoria das condições carcerárias e no respeito à lei.

Por último, insisto. Não defendo políticos suspeitos de roubar (muito) dinheiro público ou de fraudar eleições. Exigir que os direitos de todos - inclusive os das pessoas que detestamos - sejam respeitados é a única forma de tentar garantir que nossos próprios direitos não sejam violados.


Prisão de Cabral inviabiliza governo do Estado do Rio

separador Por Fernando Molica em 17 de novembro de 2016 | Link | Comentários (0)

A prisão de Sérgio Cabral e o detalhamento de seu suposto esquema de propina agravam ainda mais a situação do Estado do Rio, complicam muito a aprovação do pacote de maldades enviado para a Alerj e ameaçam inviabilizar a continuidade do atual governo, que ainda tem pouco mais de dois anos de mandato. Não deve ser descartada a possibilidade de renúncia de Pezão e de Dornelles e a eleição, direta ou indireta, de um novo governador.

Os procuradores deixaram claro que os delatores não fizeram qualquer citação ao governador Pezão, mas ele, ligadíssimo ao antecessor, teve uma atuação fundamental em sua gestão, participou de todas as obras que, segundo o MP e a PF, geraram propina: Maracanã, PAC das Favelas e Arco Metropolitano.

Seria irresponsável dizer que outras lideranças do PMDB estadual estariam, de alguma forma, ligadas aos esquemas de corrupção. Mas é impossível negar que todos, de alguma forma, gravitavam politicamente em torno de Cabral, que, mesmo fora do governo, continuava exercer uma liderança entre eles.

A questão é saber o que vai acontecer, o estado está quebrado e não pode depender de um governo capenga. A situação é muito mais grave do que a verificada no governo Dilma - as muitas denúncias contra o PT não comprovaram até agora uma responsabilidade direta dela ou de Lula nos esquemas de corrupção. As acusações de hoje atingem o núcleo do poder estadual.

A construção de uma saída também é mais complicada. Ao contrário do que ocorreu no caso da Dilma, Dornelles, o vice-governador, integra o grupo político de Cabral e Pezão, sua ascensão ao governo não representaria qualquer mudança política. O presidente da Alerj, Jorge Picciani, que, como Pezão e Dornelles, também não foi citado pela PF ou pelo MP, é aliado de todos eles. Nenhum tem condições de pedir mais sacrifícios aos servidores e à população.

A Constituição estadual repete o que prevê a federal. O artigo 141 prevê que, em caso de impedimento do Governador e do Vice-Governador, ou de vacância dos
respectivos cargos, "serão sucessivamente chamados ao exercício da chefia do Poder Executivo o Presidente da Assembleia Legislativa e o Presidente do Tribunal de Justiça."

O artigo seguinte prevê que, com a saída do governador e do vice, haverá eleição em noventa dias "depois de aberta a última vaga". Mas, caso a vacância ocorra nos últimos dois anos do mandato, a eleição será indireta, feita pela Assembleia Legislativa - uma assembleia dominada por aliados de Cabral.

Ou seja, para que haja eleição direta para o governo, Pezão e Dornelles têm que deixar seus cargos até 31 de dezembro.

Art. 141 - Em caso de impedimento do Governador e do Vice-Governador, ou de vacância dos respectivos cargos, serão sucessivamente chamados ao exercício da chefia do Poder Executivo o Presidente da Assembléia Legislativa e o Presidente do Tribunal de Justiça.

Art. 142 - Vagando os cargos de Governador e de Vice-Governador do Estado, far-se-á eleição noventa dias depois de aberta a última vaga.

§ 1º Ocorrendo a vacância nos últimos dois anos do período governamental, a eleição para ambos os cargos será feita trinta dias depois da última vaga, pela Assembleia Legislativa, na forma da lei.
§ 2º - Em qualquer dos casos, os eleitos deverão completar o período de seus antecessores.

http://download.rj.gov.br/documentos/10112/2940000/DLFE-89639.pdf/CONSTITUICAODOESTADODORIODEJANEIRO.pdf


Invasores da Câmara e a lei que trata da segurança nacional

separador Por Fernando Molica em 16 de novembro de 2016 | Link | Comentários (0)

Vejo na TV que os caras que invadiram o plenário da Câmara e defenderam uma intervenção militar serão autuados por danos ao patrimônio públicos. O que eles fizeram vai além disso. Vejo no site do Palácio do Planalto que está em vigor a lei 7.170, de 1983, sancionada pelo Figueiredo e que trata dos crimes contra a segurança nacional .

Entre os crimes previstos estão:

Art. 18 - Tentar impedir, com emprego de violência ou grave ameaça, o livre exercício de qualquer dos Poderes da União ou dos Estados.
Pena: reclusão, de 2 a 6 anos.

Art. 22 - Fazer, em público, propaganda:
I - de processos violentos ou ilegais para alteração da ordem política ou social;
(...)
IV - de qualquer dos crimes previstos nesta Lei.
Pena: detenção, de 1 a 4 anos.

A lei tem que ser revista, contém artigos incompatíveis com a democracia. Mas é lei.


Meu defeito de cor

separador Por Fernando Molica em 13 de novembro de 2016 | Link | Comentários (0)

Engraçado que agora, tanto tempo depois de lançado, meu 'Bandeira negra, amor' gere discussões em torno de algo que eu jamais imaginara, a minha legitimidade/capacidade de escrever um romance que tem, entre os protagonistas, um negro (Frederico, advogado, militante de direitos humanos que cultiva um romance clandestino com uma oficial da PM, branca). O problema, segundo alguns, estaria na cor da minha pele - para os padrões brasileiros, eu sou branco.

O primeiro questionamento, mais suave, ocorreu no Rio, há uns dois meses, num evento da Flupp, quando houve uma pergunta sobre eventuais críticas de setores de movimentos negros ao fato de eu ter escrito o livro. Não, não soube de nenhuma reação negativa, pelo contrário. Há alguns dias, em Berlim, no lançamento da edição alemã impressa do livro, a conversa foi um pouco mais séria e partiu de duas brasileiras negras que estavam na plateia do evento que fiz n'A Livraria - livraria especializada em autores de língua portuguesa.

Não houve por parte delas qualquer hostilidade, o tema foi levantado com firmeza, ainda de maneira muito cordial. Mas a pergunta era incisiva: até que ponto um homem branco poderia entender o que se passa na cabeça de um negro? Uma das mulheres chegou a citar, como exemplos positivos, romances do querido Nei Lopes - por ser negro, ele teria uma perspectiva mais real do universo de outros negros. Sim, jamais contestaria esta afirmação, mas afirmei que qualquer crítica ao meu livro teria que ser feita depois de sua leitura.

Fã de carteirinha do Nei (que, com o Luiz Antônio Simas, acaba de vencer o Jabuti com o 'Dicionário da história social do samba'), ainda comentei que eu dera o livro para ele, quando ainda não nos conhecíamos (fui meio de penetra num aniversário dele).
O engraçado é que ninguém questionou minha capacidade/legitimidade conceber personagens femininos ou policiais (Beatriz, a PM namorada de Frederico, é também protagonista do livro). Em meus cinco romances tive, como protagonistas, jornalistas brancos, integrantes de organização armada de esquerda, compositor de óperas e sinfonias, traficantes. Nenhum representante dessas, digamos, categorias reclamou comigo.

Na conversa lá em Berlim ressaltei que não escrevi sobre a situação genérica dos negros brasileiros, tratei de um personagem, não tinha qualquer pretensão de transformá-lo numa espécie de síntese dos problemas enfrentados por pessoas da mesma etnia. Até porque a tentativa reducionista seria um fracasso, pessoas e personagens - independentemente de cor, origem, situação social, orientação sexual - são diferentes entre si. Lembrei que nós três envolvidos na discussão éramos brasileiros, mas a coincidência não nos fazia iguais.

Frisei também que a criação de uma relação direta entre características do autor e de seus personagens seria uma limitação absurda e praticamente inviabilizaria um dos pontos fundamentais da literatura e das outras artes, a possibilidade de entendimento do outro, do diferente. O que se busca é a diversidade, não uma confluência de visões de mundo; quanto mais vozes, melhor.

Além do mais, o fato de não ser considerado negro no Brasil não me impede de ter sido vítima de algum preconceito por alguma outra razão, por ser nascido e criado em subúrbio, por ser brasileiro - tive que dar muitas explicações sobre o que iria fazer na Alemanha ao guarda da imigração para poder entrar no país. Para o policial alemão, eu não era escritor ou jornalista, mas apenas um terceiro-mundista talvez interessado em virar imigrante clandestino. Preconceitos costumam ser dinâmicos, têm a ver com referenciais de quem vê.

Uma redução dessa tentativa de compreensão e entendimento do outro poderia transformar a ficção num quase espelho de redes sociais, onde o diálogo muitas vezes se dá entre os que pensam da mesma forma. Além disso, seria absurdo negar a possibilidade de qualquer ser humano, ficcionista ou não, de ver o mundo com seu próprio olhar e de ser capaz de entender a perspectiva do outro, de ser solidário com suas dores. Apelei: pelo critério da exclusividade, Chico Buarque não teria feito suas tantas e belas canções com perspectiva feminina. Ressaltei que o 'Bandeira negra' é uma história de amor que, pelas características dos personagens, esbarra em questões como o racismo. Não o racismo-crime, o do xingamento ou da proibição de acesso, mas aquele que se manifesta em pequenos gestos, em olhares.

Há anos que insisto numa questão que considero fundamental: um livro deve ser lido pelo que tem entre suas capas, tem que valer o que está escrito. O que importa é o que está no texto, onde poderão ser apontados erros e/ou acertos. O julgamento baseado em características do ficcionista levaria a um determinismo absurdo, incompatível com a liberdade e com a sensibilidade de autores e leitores.

O curioso é que, já no fim do debate, mediado pelo caríssimo Rafael Cardoso, surgiu a informação de que militantes de extrema direita estavam fazendo uma manifestação contra imigrantes ali perto da livraria. Aproveitei para comentar que aqueles sujeitos não teriam a menor dúvida em me ver como estrangeiro, resultado de tantas misturas. Sou branco só no Brasil.

E, já que Nei Lopes foi citado, vale dizer que ele fez questão de mandar um e-mail para a editora, a Objetiva, com muitos elogios ao livro, por ele classificado de "magnífico". Disse que terminara sua leitura "maravilhado". Fiquei, claro, muito feliz. O Nei é compositor, romancista e pesquisador fundamental de tradições culturais e religiosas de matrizes africanas. Um cara que leu o livro sem se importar com a cor da pele de seu autor.

Em tempo: a ausência de autores e personagens negros na literatura brasileira contemporânea é o tema de do ensaio 'Quando o preconceito se faz silêncio: relações raciais na literatura brasileira contemporânea', da a professora Regina Dalcastagnè, publicado em 2008 na Gragoatá, revista dos Programas de Pós-graduação Instituto de Letras da UFF.

No texto, em que ela cita o 'Bandeira negra', ela frisa que o protagonista "(...) é apenas um sujeito honesto, que trabalha o dia inteiro e ama uma mulher chamada Beatriz. Mas ele é negro. E, sendo negro no Brasil de hoje, sua história começa pela dificuldade de assumir a própria cor".

Cita um estudo em que Antonio Cândido trata da poetização, por Castro Alves, da vida afetiva do negro. Construção que assim dava aos negros o direito à humanização, à dor e ao amor. Segundo ela, "colocar em cena personagens negras envoltas em sua subjetividade, amando e sofrendo, talvez não devesse mais ser novidade em nossa literatura, mas pouco se evoluiu desde então".

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Lenin em Berlim 2

separador Por Fernando Molica em 08 de novembro de 2016 | Link | Comentários (0)

Na manhã desta terça tive uma conversa muito legal com estudantes do lnstituto de Estudos Latino Americanos da Universidade Livre de Berlim. O encontro, organizado pela professora Zinka Ziebell, gaúcha radicada na Alemanha, foi ótimo, houve muitas perguntas sobre literatura e o Brasil.

Ontem à noite participei, n'A Livraria, de uma leitura e de um debate com o público em torno de 'Uma selfie com Lenin' e 'Bandeira negra, amor'. Foi também uma conversa bem interessante (publico fotos assim que o Edney Meirelles me enviá-las...). A mediação foi do amigo e escritor Rafael Cardoso, que bateu um bolão.

A programação começou na sexta passada, na Embaixada Brasileira, onde puxei um bate-bola sobre os 100 anos do samba.

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Lenin em Berlim 2

separador Por Fernando Molica em 08 de novembro de 2016 | Link | Comentários (0)

Na manhã desta terça tive uma conversa muito legal com estudantes do lnstituto de Estudos Latino Americanos da Universidade Livre de Berlim. O encontro, organizado pela professora Zinka Ziebell, gaúcha radicada na Alemanha, foi ótimo, houve muitas perguntas sobre literatura e o Brasil.

Ontem à noite participei, n'A Livraria, de uma leitura e de um debate com o público em torno de 'Uma selfie com Lenin' e 'Bandeira negra, amor'. Foi também uma conversa bem interessante (publico fotos assim que o Edney Meirelles me enviá-las...).

A programação começou na sexta passada, na Embaixada Brasileira, onde puxei um bate-bola sobre os 100 anos do samba.

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Lenin em Berlim

separador Por Fernando Molica em 07 de novembro de 2016 | Link | Comentários (0)

Hoje, às 19h, participarei de uma conversa sobre 'Uma selfie com Lenin' e 'Bandeira negra, amor' (a edição alemã deste livro está sendo lançada agora). O encontro, que será n'A Livraria e terá mediação do Rafael Cardoso, faz parte da série de eventos Brasilien Triftt Berlin (Brasil encontra Berlim), que acontece desde o mês passado. A Livraria fica na Torstrasse 159. (O cartaz do evento tem uma barraca de praia que estampa o escudo do Botafogo!).

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