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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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outubro 2016 Archives

Selfie em Berlim

separador Por Fernando Molica em 31 de outubro de 2016 | Link | Comentários (0)

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Participar de leituras e conversas em Berlim sobre 'Uma selfie com Lenin' terá uma característica especial. A capital alemã está entre as cidades citadas pelo narrador do livro, o autor da longa carta/romance. Aí vai um dos trechos em que a cidade é citada:


"Memórias doem, né? É óbvio dizer isto, mas nem sempre nos damos conta do tamanho de nossa dor. Há uns meses, em Berlim, consegui visitar o Reichstag. Eu sabia vagamente da história, do incêndio atribuído a um comunista desvairado que se tornou pretexto para que os nazistas fechassem o parlamento, meus conhecimentos não iam além do enciclopédico. Assim, tomei um susto quando a guia do meu grupo começou a destacar as inscrições em paredes internas do prédio deixadas pelos soldados soviéticos nos momentos finais da Segunda Guerra. Muitas e muitas paredes foram pichadas com ofensas aos alemães, palavrões que só não se tornavam explícitos porque escritos no alfabeto cirílico. Mas era possível imaginar as considerações dos invasores -- libertadores -- em relação às mães dos nazistas, dos caras que haviam provocado uma das maiores tragédias da humanidade. Para minha surpresa, as reformas ocorridas depois da guerra não apagaram todos os xingamentos. Durante algumas décadas, as inscrições ficaram atrás de divisórias, protegidas dos olhos do público. Com a reunificação alemã, houve nova reforma para que o Reichstag voltasse a sediar o parlamento -- e foi aí que os caras decidiram expor as ofensas. Nem todas ficaram, mas há muitas, por todos os lados, algumas bem próximas à sala ocupada pelo chanceler federal, a Angela Merkel é obrigada a vê-las sempre que vai para seu gabinete. Lembrei de uma professora da faculdade, ela sempre dizia que, depois da expulsão dos ingleses, chineses discutiram o que fazer com uma enorme estátua de São Jorge plantada em Pequim. "Foi derrubada?", perguntei. "Não, ganhou iluminação especial, feérica, para que ninguém se esquecesse do invasor, da ocupação", respondeu. Os alemães fizeram mais ou menos isso. Ao expor os xingamentos soviéticos em seu próprio parlamento, na sede de seu poder, lembram aos cidadãos o tamanho da merda feita por seus antepassados, os crimes, o genocídio. Ressaltam que, por conta das cagadas pretéritas, todos são obrigados a conviver com as palavras para lá de duras pichadas pelos soldados soviéticos, os mesmos que comandariam o estupro de não sei quantos milhões de mulheres alemãs. Melhor conviver com dores pretéritas do que correr o risco de revivê-las, é importante lembrar para não repetir.

Talvez por isso eu lembre tanto, Eloísa. Talvez por isso eu precise escrever para você, necessite, depois de tanto tempo de viagem, deixar, nestas folhas de papel, meus garranchos, meus desabafos, minhas ofensas. Embarquei com a ideia de
esquecer, de deixar para trás você, a agência, nossos clientes, a Amanda, minha vida de jornalista. E, no entanto, não consigo parar de lembrar, de me torturar. É como se vocês todos estivessem ao meu lado, falando, cantando, cobrando,
pichando minhas paredes."


Pitacos municipais 25 - Derrota da esquerda no primeiro turno não mudou discurso de Freixo

separador Por Fernando Molica em 31 de outubro de 2016 | Link | Comentários (0)

O resultado do primeiro turno mostrou que uma vitória de Marcelo Freixo no mata-mata seria muito improvável: ele e os demais candidatos de esquerda tiveram, somados, 23,22% dos votos válidos. Marcelo Crivella e os demais representantes da direita e da centro-direita ficaram com a preferência de 76,78% dos eleitores que optaram por algum dos concorrentes.

O campo conservador teve, na primeira rodada eleitoral, 3,3 vezes mais votos que o chamado progressista. A esquerda, abalada com os escândalos que envolvem o PT, tomou uma goleada no dia 2 de outubro e só chegou ao segundo turno carioca graças à divisão de votos dos adversários ideológicos e à teimosia do prefeito Eduardo Paes de escalar um jogador, Pedro Paulo, que, por conta da acusação de ter agredido a então mulher, entrou em campo mancando, sem condições de jogo.

Beneficiado pela pulverização de votos conservadores, Freixo entrou no segundo turno meio que por acidente e, num primeiro momento, comportou-se como um time pequeno que chega à final de um campeonato e que se dá por satisfeito com a façanha. No primeiro debate, na Band, chamou Crivella de "senhor" e disse que o respeitava.

Enquanto isso, o candidato do Psol era vítima de boatos espalhados pelas redes sociais que enfatizavam suas supostas propostas relacionada a questões comportamentais - legalização das drogas e do aborto, estímulo ao casamento gay. Todos temas que fazem parte da esfera federal ou estadual.

Além de não ter conseguido responder aos ataques, Freixo, animado com a ida para o segundo turno, não atentou para a óbvia derrota da esquerda na primeira fase e insistiu em discursar para os já convertidos. Demorou a tentar seduzir o eleitor mais conservador, fundamental para quem precisa de maioria para ser eleito.

Fazer aliança com setores mais conservadores não significa, necessariamente, entregar a chave dos cofres públicos. Na campanha, o candidato falou muito em diversidade, mas não abriu mão da ortodoxia política-ideológica. Certo de sua verdade, Freixo não conseguiu falar para o eleitor mais pobre, que vai à Praça São Salvador apenas para vender cerveja.

Os ataques mais diretos ao adversário, que permitiram a busca de um voto ético, só começaram depois de a imprensa revelar fatos comprometedores do passado de Crivella. Só na última semana de campanha, assustado com a tendência de crescimento de abstenções e de votos nulos, Freixo procurou se mover em direção ao centro - divulgou seu 'Compromisso com o Rio', carta em que dizia que respeitaria contratos e o equilíbrio fiscal. Era tarde demais.

Pesou também contra o canditado do Psol a dificuldade que teve, num passado recente, de condenar a violência provocada pelos black blocs, como se o repúdio aos excessos de manifestantes representasse um apoio à atuação da PM. Preocupado, na época, em não criar arestas com setores do partido e da esquerda que apoiavam os gestos mais radicais, Freixo se esqueceu que, em dois ou três anos, enfrentaria uma eleição majoritária. Violência é uma forma de luta política, mas é contraditória com a via institucional. Quem opta por ambas tende a perder as duas batalhas.

Hoje, teóricos que em 2013 diziam que a atuação dos black blocs servia para questionar o "monopólio da violência pelo Estado" e que era "inútil e simplista" dividir manifestantes entre pacíficos , vândalos e mascarados, publicam textos em que exaltam a beleza da campanha de Freixo e demonstram orgulho e alegria com a derrota que ajudaram a construir.


O Bolsa Hímen, a Taxa Chifre e outras sugestões para a defesa da família

separador Por Fernando Molica em 29 de outubro de 2016 | Link | Comentários (0)

Já acompanhei e cobri muitas e muitas campanhas eleitorais, mas nunca consegui entender direito essa história de um candidato se apresentar como representante dos "valores da família". O que seria isso, afinal? Suponho que, no aspecto propositivo, o sujeito possa, para estimular casamentos, criar algo como o programa 'Meu casório, minha vida', que daria bônus para casais - héteros, claro - que topassem formalizar suas uniões.

Poderia também ser criado o Bolsa Hímen, que bancaria o vestido de noiva das jovens que preservassem a virgindade até o casamento, um prêmio à invencibilidade. Cintos de castidade high tech e com design arrojado - conhecidos popularmente como Espanta Pinto e Perereca na Gaiiola - seriam distribuídos em postos de saúde.

Em nome da família, prefeitos teriam à sua disposição medidas punitivas, como o aumento progressivo do IPTU de imóveis registrados em nome de homens e mulheres flagrados em adultério, algo que poderia ser chamado de Taxa Chifre ou de Contribuição Extraordinária Sobre a Pulada de Cerca.

Há também a possibilidade de fazer com que a Guarda Municipal passe a reprimir travestis e prostitutas que se oferecem nas ruas. A Secretaria de Fazenda poderia passar a cobrar, de termas e casas de prostituição, o Imforca, Imposto Sobre a Fornicação Aleatória. Já a Secretaria de Educação teria como implantar a disciplina Educação Assexuada.

Gays e solteirões passariam a pagar o dobro em cinemas, teatros e transportes públicos. Filhos gerados fora do casamento teriam complicações na vida civil por conta da aprovação do programa Basta de Bastardos.

Como até hoje ninguém propôs nenhuma das medidas acima - espero não ter dado ideia -, é razoável admitir que, em prol das famílias, de qualquer família, governantes teriam que garantir saúde, educação, transportes, saneamento, itens que deveriam fazer parte da agenda de qualquer político. Soluções para esses problemas facilitariam muito a vida de cidadãos de qualquer tipo de família.

O tema de defesa da família costuma ser usado apenas para driblar o descompromisso com o que deve ser feito e, com frequência, traduz apenas uma verdade: a volúpia com que muitos sujeitos entram na vida pública apenas para defender os interesses de suas próprias famílias.


Meus livros e seus novos vizinhos

separador Por Fernando Molica em 28 de outubro de 2016 | Link | Comentários (0)

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Na infrutífera busca por um determinado livro, acabei tomando, esta semana, a decisão radical de mudar o critério de arrumação da principal estante de casa, que reúne ficção, livros jornalísticos e obras que tratam da história recente do país.

O maior problema foi com a ficção, estrangeira e nacional. Eu havia desenvolvido um critério absolutamente maluco que me permitia organizar os volumes de acordo com minhas idiossincrasias.

Começava as prateleiras dos estrangeiros com os autores portugueses e daí para angolanos, moçambicanos, espanhóis (aqui incluídos os de países vizinhos, da América Latina), russos, franceses, norte-americanos, britânicos etc. Só que já não conseguia encontrar muitos livros. Fiz um mix: mantive separados os escritores lusófonos, os que escrevem em espanhol e em russo. Depois, ordem alfabética para todos.

Graças à decisão de isolar algumas nacionalidades e idiomas, consegui manter algumas brincadeiras como a de colocar lado a lado autores que haviam cultivado rixas entre si - Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa, Saramago e Lobo Antunes vão poder, assim, continuar a brigar pelas madrugadas.

No setor nacional, a confusão era maior ainda, já que costumava priorizar clássicos e autores contemporâneos de minha preferência, entre eles, diversos amigos. Mas cadê que eu conseguia achar o título X ou o Y; desorganizado desde sempre, sequer conseguia mais juntar livros de um mesmo autor.

Então, parti pra caretice, e tome, aqui também, de aplicar a ordem alfabética. Foram dois dias insanos, com poeira e livros para todo o lado, mas o resultado ficou divertido. Há autores que devem estar irritadíssimos com os novos vizinhos, mas, em outros casos, surgiram boas coincidências.

João Antônio e Marçal Aquino certamente terão longos colóquios sobre personagens que vivem nos cantos escuros das grandes cidades; o mineiro Paulo Mendes Campos falará de carioquices com Antonio Callado, Flávio Carneiro gostará da companhia do Rafael Cardoso e do Bernardo Carvalho. Cony e Flávio Moreira da Costa também terão bons diálogos. Marcelino Freire e Daniel Galera discorrerão sobre paulistas. gaúchos e muitas memórias da infância e juventude.

O animado e extrovertido Jaguar vai elogiar os livros e brincar com os personagens que, criados por Flávio Izhaki, giram em torno de tantas dúvidas. Como livro não sofre efeitos do álcool, poderão beber muito na conversa (nesta disputa, sou mais Jaguar e dou vários copos de vantagem para ele). 'Rio bandido', do amigo Ronie Lima, puxará conversa com a 'Cidade de Deus', de Paulo Lins. E manifestações culturais populares serão tema dos camaradas Nei Lopes e Júlio Ludemir.

Alberto Mussa não vai reclamar da companhia - este senhor passou a ter, do lado direito, a companhia do Marcelo Moutinho. O vizinho da esquerda é Raduan Nassar. Vou esconder um gravador por ali e, assim, registrar as conversas entre Moutinho e Mussa pontuadas pelos silêncios do Raduan. O pobre do Antônio Prata vai ter que se virar para arrancar palavras do sintético Gracialiano Ramos, mas haverá de seduzir o alagoano com seus textos e tiradas.

Sérgio Rodrigues ficará feliz da vida, poderá, enfim, discutir futebol com os primos Henrique e Nelson. Para ajudar a quebrar o gelo, coloquei 'O drible', do primeiro, ao lado de 'À sombra das chuteiras imortais'. De vez em quando, Sérgio poderá se virar para a esquerda e dar alguns conselhos para Guimarães Rosa. Logo ali ao lado, LYgia Fagundes Telles e Antônio Torres, grandes conversadores, trocarão histórias e vidas.

Xico Sá exultará ao saber que ficou grudadinho com Carola Saavedra. Luiz Antônio Simas falará de encatarias com Edney Silvestre; Márcio Souza e Cristóvão Tezza protagonizarão um delicioso diálogo Norte-Sul. Ali perto, Verissimo rirá baixinho na direção do paranaense e dirá, me dei bem, fiquei com a Paloma Vidal (terá que, porém, disputar sua atenção com o Luiz Vilela).

E, caramba, onde ficaram os meus livros? Como quem manda aqui sou eu, tratei de arrumar lugar numa cobertura que remete aos altos do Cosme Velho. Sim, é isso mesmo que você pensou, tratei de me colar no Machado de Assis, que nos observa e, espero, abençoa. Temo apenas, dia desses, ouvir o Bruxo, irônico, sussurrar um "passe aqui em casa, leia mais, e vê se aprende".


Pitacos municipais 24 - O voto com fé: religião divide eleitor carioca

separador Por Fernando Molica em 27 de outubro de 2016 | Link | Comentários (0)

Os contrastes nas intenções de voto entre fieis de diversas crenças mostra que a questão religiosa é um fator fundamental nesta eleição carioca - a divisão entre os segmentos é muito explícita. A vantagem de Marcelo Crivella (PRB) sobre Marcelo Freixo (Psol) na última pesquisa Datafolha (46% a 27%) seria bem menor se os evangélicos não tivessem aderido em massa à campanha do senador. Estes fieis demonstram que não têm qualquer problema em misturar religião e política.

Kardecistas e umbandistas confirmam a divisão. Adeptos de religiões mais frequentemente atacadas pela Igreja Universal do Reino de Deus, são os que mais rejeitam o bispo Crivella. O problema de Freixo é que o número de adeptos destas crenças é bem menor que o de evangélicos. Dividido, o voto católico deixa de ter um peso fundamental na disputa, o que favorece a candidatura do senador.

Segundo o Datafolha, os evangélicos representam 33% do eleitorado carioca. Entre os pentecostais, Crivella ganha de 79% a 8%; entre os evangélicos não pentecostais (ligados a igrejas mais tradicionais, como a Batista e a Metodista), a diferença também é menor, mas também grande: 70% a 12%.

No grupo de católicos (40% dos eleitores), a vantagem do bispo licenciado da Igreja Universal fica na margem de erro: 33% a 32%. Os kardecistas/espiritualistas (6% dos eleitores) dão a maior vantagem relativa a Freixo: 51% a 22%; entre os umbandistas (4% do total), o placar é de 43% a 22% (brancos e nulos chegam a 31% neste universo).

Os 11% dos eleitores que declaram não ter religião também ajudam a desequilibrar o jogo pró-Crivella: entre eles, o senador recebeu 43% de intenções de voto, contra 34%.de Freixo.


Pitacos municipais 23 - A elite nem-nem

separador Por Fernando Molica em 26 de outubro de 2016 | Link | Comentários (0)

O tiroteio virtual entre as campanhas de Crivella (PRB) e Freixo (Psol) parece ter atingido, principalmente, os eleitores de renda mais alta que, no primeiro turno, votaram em Carlos Osorio (PSDB) e Indio da Costa (PSD). Os dois candidatos tiveram mais votos em áreas nobres da Zona Sul.

Seus eleitores formam o principal contingente dos nem-nem, aqueles que, entre Crivella e Freixo, preferem o voto branco ou nulo. Entre os que no primeiro turno optaram por Osorio, 38% disseram que não votarão em nenhum dos dois que foram para o mata-mata. O percentual chega a 33% entre os cidadãos que haviam escolhido Indio. No dado geral da pesquisa, o índice de intenções de nulos/brancos é de 19%.

Entre os eleitores com renda familiar acima de dez salários mínimos, a única em que Freixo bate Crivella (38% a 35%), a intenção de não-voto chega a 24%. Entre os mais pobres, onde o candidato do PRB goleia de 57% a 17% o do Psol, os nulos e brancos ficam em 12%.

Pelo que indica a pesquisa, muitos eleitores, especialmente os mais ricos, parecem cansados de denúncias e carentes de esperança. Piscar o olho para quem gosta de votar com mais amor do que ódio parece ser o grande desafio neste finalzinho de campanha.

Outro viés curioso é a comprovação daquela história de irmão votar em irmão. Entre os evangélicos pentecostais, 79% ficam com Crivella e apenas 8% com Freixo; entre os evangélicos não pentecostais, a diferença é menor, mas bem ampla: 70% a 12%. Pela amostragem do Datafolha, os dois grupos representam 33% do eleitorado.

Católicos, de acordo com os critérios do instituto, são 40% dos eleitores - e, entre eles, a divisão é grande: Crivella tem 33% e, Freixo, 32%. Pelo jeito, a indignação com atos de Crivella - música em que ironiza o chute em imagem de Nossa Senhora Aparecida e com a afirmação de que a Igreja Católica é demoníaca - não foi suficiente para superar o temor inspirado pela candidatura de Freixo.


Ao negar entrevistas, Crivella sai do palanque e volta para o púlpito

separador Por Fernando Molica em 26 de outubro de 2016 | Link | Comentários (0)

Ao descumprir o compromisso de participar de encontros com jornalistas, Marcelo Crivella, candidato do PRB à prefeitura, nega o que publicou em seu site (lá está escrito que ele irá a todas as "sabatinas e entrevistas marcadas") e demonstra que, como homem público, continua a adotar a lógica do líder religioso.

Ao contrário de governantes ou parlamentares, religiosos não são obrigados a justificar todos os seus gestos. Afinal, seus atos e falas estão relacionados com o processo de diálogo com o divino. Quem professa uma religião tende a aceitar o que lhe diz o padre, o pastor, o rabino, o babalaô, todos vistos como intérpretes do sagrado, autorizados por suas comunidades religiosas a transmitir verdades, ensinamentos e orientações.

Uma relação que manterá enquanto o fiel acreditar e/ou confiar naquele porta-voz do sagrado. Afinal, Deus não pode ser questionado, quem acredita se propõe a aceitar seus desígnios, por mais incompreensíveis e terríveis que sejam para os mortais.

Às voltas com seu passado - livros, música e o ato que lhe gerou inquérito e prisão -, Crivella, num primeiro momento, procurou se justificar. Alegou que o livro 'Evangelizando a África' era fruto de excessos da juventude (ele tinha 42 anos quando a edição brasileira foi publicada; a em inglês saíra três anos antes) e ainda pediu perdão.

O pedido de desculpas - que, na prática, representaria um rompimento com o ideário de sua Igreja Universal do Reino de Deus - pode até ser sincero, mas só ocorreu depois que o livro foi descoberto pela imprensa. Ao falar da canção em que ironizava a fé católica em Nossa Senhora, Crivella negou o óbvio, disse que a música não está relacionada com o chute numa imagem de Nossa Senhora Aparecida dado por um então bispo da Igreja Universal.

Exposto a fotos feitas numa delegacia, o senador, inicialmente, disse que forçara a entrada num terreno de sua igreja para desalojar invasores e que chegara a ser preso. Depois, contou outra história, e foi imediatamente desmentido pelos repórteres, que apresentaram gravação da entrevista em que ele narrara sua primeira versão para o episódio.

Ao ser mais uma vez confrontado, Crivella, líder das pesquisas, com boa vantagem sobre o adversário, demonstra ter desistido de apresentar versões e foge de situações em que será questionado. Diferentemente do que se espera de um político, ele não quer mais saber de esgrimir fatos e argumentos e assume de vez a lógica do líder religioso, quer que seus fieis/eleitores acreditem que tudo não passa de armação de jornalistas e de empresas de comunicação. Na aparente falta de argumentos, apela para a fé.

No lugar de responder aos novos fatos, ele ofende e expõe jornalistas, falta a compromisso e forja uma cruzada contra a imprensa. Busca sintonia com um discurso de vitimização que faz muito sentido entre evangélicos até por conta da perseguição - esta, real - empreendida pela Igreja Católica contra seguidores da Reforma Protestante.

A atitude de Crivella pode até lhe garantir a vitória no domingo, mas representa uma grave ameaça à cidadania, gera o medo de que, no governo, ele poderá também se achar no direito de negar explicações e fugir de esclarecimentos.

Num momento em que tanto se exige transparência da administração pública e dos responsáveis pelo uso dos recursos que são de todos, o candidato adota a lógica da fé, a fé que remove repórteres e perguntas. Ao confundir palanque com púlpito, ao se apresentar como dono da verdade e de um discurso acima de questionamentos, Crivella parece, mais uma vez, ir contra ao que disse, e demonstra não ser candidato a prefeito, mas a perfeito.


Pitacos Municipais 21 - A dança ideológica de Crivella e Freixo

separador Por Fernando Molica em 24 de outubro de 2016 | Link | Comentários (1)

Com sua carta 'Compromisso com o Rio', antecipada pelo Lauro Jardim, no Globo, versão carioca da 'Carta aos brasileiros' de Lula, Marcelo Freixo ( Psol) faz, enfim, um movimento na direção do centro, essencial para quem disputa uma eleição majoritária.

No primeiro turno, os quatro candidatos de esquerda tiveram apenas 23,22% dos votos válidos; os adversários à direita, sem contar Marcelo Crivella (PRB), receberam 49%.

Herdeiro preferencial dos votos conservadores segundo a primeira pesquisa Ibope do segundo turno, Crivella fez um movimento oposto. Acossado pela divulgação do que escreveu, falou, compôs, cantou e fez no passado, o candidato tenta um salto duplo: ao mesmo tempo em que reforça um discurso inclusivo e não preconceituoso, ele dá uma guinada à direita e procura surfar no anticomunismo - colocou na TV um discurso em que um ex-candidato à Presidência pelo PCB (partido aliado de Freixo) recita um poema de Brecht que acena com balas, covas e paredão. É como se dissesse que, apesar de tudo, ele representa uma alternativa mais segura do que seu adversário.

A mudança de Crivella contrasta com o esforço que, nos últimos anos, ele vinha fazendo para tentar se livrar da imagem conservadora. Em 2007, em discurso no Senado em homenagem ao aniversário do PCdoB, Crivella chegou a afirma que não havia "cartilha alguma mais comunista que o Evangelho". Freixo também se viu obrigado a abandonar o radicalismo de sua atuação política, afinou o discurso contra os black blocs e,agora, fala em "atuar de forma ética e equilibrada junto ao setor privado."

O freio de arrumação ideológico na campanha carioca demorou a chegar, reflexo talvez da confusão em que se transformou o primeiro turno. Disparado na liderança e beneficiado pela base evangélica, Crivella procurou ficar acima da polarização direita-esquerda. Prejudicado pela suspeita de ter agredido a ex-mulher - arquivada pelo STF -, Pedro Paulo (PMDB) não conseguiu fazer de sua candidatura uma alternativa para o eleitor que não se vê em nenhum dos extremos. O peso da acusação impediu também que o governo Eduardo Paes fosse julgado. As urnas revelaram que o voto conservador - majoritário em 2016 no Rio - acabou pulverizado, o que viabilizou a ida de Freixo para o segundo turno.

Representantes de forças políticas que nunca foram hegemônicas na cidade ou no estado, Crivella e Freixo acabaram cedendo às circunstâncias e trataram de adaptar suas falas em pleno mata-mata. Sabem que boa parte dos eleitores não votará a favor de um deles, mas contra a possibilidade de o outro ser vencedor (no primeiro turno, os votos válidos, somados, dos representantes do PRB e do Psol chegaram a 46,04%, menos da metade dos eleitores que escolheram um candidato).


O paredão de Brecht na campanha carioca

separador Por Fernando Molica em 21 de outubro de 2016 | Link | Comentários (0)

Marcelo Crivella (PRB) revelou, numa reunião com empresários de turismo nesta sexta. que usará, em inserções na TV que irão ao ar no fim de semana, vídeo em que um dirigente do PCB prega a morte de boas pessoas de direita - para elas seriam reservados um bom paredão, bons fuzis e boas balas. No Rio, o PCB apoia a candidatura de Marcelo Freixo (Psol).

Em vídeo postado no Youtube no ano passado, Mauro Iasi (candidato do PCB à Presidência da República em 2014) fala em "bom paredão", "boas balas" e "boa pá" ao declamar, de maneira livre, um poema ('Algumas perguntas a um homem bom') do alemão Bertold Brecht (1898-1956).

A citação ocorreu durante palestra no 2º Congresso Nacional da Central Sindical e Popular. Iasi prega a radicalização da luta de classes e condena o diálogo com "a direita e o conservadorismo". Ele - que, na disputa pela Presidência, recebeu 47.845 votos, 0,05% do total - avisa a plateia que, para contribuir com a defesa do que classifica de "intransigência", recitaria o poema. No texto de Brecht, o paredão surge na última estrofe:

Então, escuta:
Nós sabemos que você é o nosso inimigo.
Por isso vamos te encostar no paredão.
Mas, em consideração aos seus méritos
E às suas boas qualidades,
Num bom paredão.
E te fuzilar com boas balas
Disparadas por bons fuzis
E te enterrar
Com boa pá
Em terra boa

Revoltados com a fala de Iasi, os deputados Jair Bolsonaro (PP-RJ) e Eduardo Bolsonaro (PSC-SP) protocolaram no Ministério Público Federal, uma representação contra Iasi, professor da UFRJ.


Pitacos municipais 20 - Alô burguesia de Ipanema!

separador Por Fernando Molica em 20 de outubro de 2016 | Link | Comentários (0)

Como no grito de guerra do bloco Simpatia é Quase Amor, é provável que Marcelo Freixo tenha que saudar a burguesia de Ipanema. A mudança, em dez dias, nas intenções de voto de eleitores de Indio da Costa (PSD) indica que, ao contrário de Marcelo Crivella (PRB), o candidato do Psol ganhou prestígio entre moradores das áreas mais nobres da cidade. Em menor escala, o mesmo fenômeno parece ter se repetido entre muitos daqueles que, no primeiro turno, escolheram Pedro Paulo (PMDB).

É preciso ver o relatório completo da pesquisa Ibope divulgada há pouco pelo RJ TV, mas o dado mais impressionante foi o movimento entre eleitores de Indio. Neste grupo, entre o primeiro e o segundo levantamento, o percentual de intenções de voo em Crivella caiu de 37% para 33%; já o de Freixo pulou de 30% para 44%.

Freixo, ganhou, entre os eleitores de Indio, a preferência principalmente daqueles que, na pesquisa do dia 10, disseram que no segundo turno votariam em branco ou optariam pelo nulo: de 26%, o percentual foi para 19%. O percentual dos indecisos caiu de 7% para 4%. Em toda a cidade, Indio teve 8,99% dos votos válidos, índice que chegou a 14% em Ipanema, no Leblon e na Gávea. O candidato do PSD já declarou apoio a Crivella no mata-mata.

Fenômeno parecido entre eleitores de Pedro Paulo. Na primeira pesquisa, Crivella tinha 52% das intenções de voto neste grupo, mas o percentual despencou para 39%. Já a preferência por Freixo subiu de 19% para 32%. A votação do peemedebista - que recebeu 16,12% dos votos válidos - esteve bem distribuída nas diferentes áreas da cidade, mas ele foi vitorioso em apenas duas zonas eleitorais da Barra, numa delas, que inclui Itanhangá e Alto da Boa Vista, teve 24% dos votos.

A pesquisa do Ibope do dia 10 de outubro deu 51% de intenções de voto para Crivella e 25% para Freixo. O placar divulgado hoje foi de 46% a 29%.


O perdão de Crivella e o ideário da Igreja Universal

separador Por Fernando Molica em 19 de outubro de 2016 | Link | Comentários (0)

Os sucessivos pedidos de perdão do senador Marcelo Crivella (PRB) em relação ao que escreveu, organizou e compôs no passado esbarram num ponto fundamental, a continuidade de sua ligação com a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD).

Embora licenciado da condição de bispo, o candidato à prefeitura do Rio em nenhum momento se disse rompido com a denominação fundada por seu tio Edir Macedo, fonte de todas as posições que ele já defendeu.

Os conceitos apregoados por Crivella em 'Evangelizando a África', as frases de Macedo que ajudou a selecionar e publicar em "501 pensamentos do Bispo Macedo" e a canção "Um chute na heresia" (que ironiza a reação ao chute numa imagem de Nossa Senhora Aparecida) correspondem ao ideário da IURD.

Desde sua fundação, a IURD se caracteriza pela ênfase de seus conceitos e pela violência verbal com que são pregados. Estas características embalaram o crescimento da denominação e, ao mesmo tempo, geraram reações negativas até mesmo de outras igrejas e lideranças evangélicas.

As críticas de Crivella às religiões de matriz africana, ao catolicismo e ao que classifica de "idolatria" não representam qualquer novidade para quem acompanha, ainda que longe, a trajetória de sua igreja.

O mesmo vale para papel decisivo atribuído ao diabo na geração de doenças, vícios e, mesmo, homossexualidade. O foco na necessidade do dízimo, das ofertas e dos sacrifícios também faz parte da lógica da IURD, assim como a existência de uma relação direta entre essas contribuições a Deus e a obtenção de prosperidade.

Em seu livro 'Vida com abundância'', de 1993, Macedo deixa isso bem claro, fala em "espíritos devoradores", na cura de doenças e frisa que o dizimista é um "sócio de Deus".

Nos últimos dias, Crivella tem pedido perdão e admitido que já foi intolerante. Procura mostrar que, hoje, não pensa do mesmo jeito. O problema é que, em nenhum momento, ele citou que tudo o que foi dito por ele no passado continua a ser pregado pela igreja que ajudou a organizar.

Ele também não explica a demora nos pedidos de desculpas. As retratações só ocorreram depois de o senador ter sido avisado que livros e canção seriam objeto de reportagens.

No e-mail que enviei à assessoria de Crivella a respeito da matéria sobre "501 pensamentos do Bispo Macedo", perguntei se sua eventual discordância em relação às questões citadas no livro não representaria um rompimento com a Igreja Unversal do Reino de Deus. A pergunta ficou sem resposta.


Nobel para Dylan, uma inclusão que exclui

separador Por Fernando Molica em 18 de outubro de 2016 | Link | Comentários (0)

Parabéns para o Bob Dylan, mas, ao conceder o Nobel para alguém que se expressa principalmente nas letras de suas canções, a Academia Sueca dificultou a vida de quem não escreve em inglês, língua que se tornou universal.

Ao contrário do que ocorre com os livros - que podem ser lidos em edições traduzidas -, canções acabam quase sempre sendo ouvidas em seus idiomas originais, não me lembro de ter, alguma vez, escutado versão em português de alguma composição do Dylan.*

Duvido que todos que concederam o Nobel de 2015 para a bielorrussa Svetlana Alexijevich tenham lido seus livros no idioma original. O mesmo serve para, entre tantos outros, os casos do chinês Mo Yan, laureado em 2012, o japonês Kenzaburo Oe (1994) e os nossos José Saramago (1998), Mario Vargas Llosa (2010) e Gabriel García Márquez (1982). É impossível que todos os caras da academia sejam fluentes em tantas línguas.

É razoável supor que os responsáveis pelo Nobel tenham contato com traduções de livros traduzidos do Antônio Torres, do Rubem Fonseca, do Cony, mas chega a ser desprezível a possibilidade de que algum deles ouça, num idioma que domine, versões do Chico Buarque, do Aldir Blanc ou do Nei Lopes.

Assim, não poderão se espantar e se emocionar ao ouvir "Futuros amantes, quiçá/ Se amarão sem saber/ Com o amor que eu um dia/ Deixei pra você" ou "Como, se na desordem do armário embutido/ Meu paletó enlaça o teu vestido/ E o meu sapato inda pisa no teu".

Nenhum daqueles velhinhos gritará PQP ao escutar "Eu beijo na boca de hoje/ As lágrimas de outra mulher" ou "Estrela é só um incêndio na solidão". No frio de Estocolmo, em seus últimos anos de vida, os acadêmicos não terão o consolo trazido nos versos "Sensação de na verdade/ Não ter sido nem metade/ Daquilo que você sonhou".

Peço perdão aos fãs do Dylan, mas qualquer um dos exemplos acima (e não citei Caetano, Gil, Paulo César Pinheiro) dá de goleada nas pombas brancas, balas de canhão e vento que sopra da bela - e meio populista e cheia de chavões - "Blowin' In The Wind". Mas, não tem jeito, todo mundo ouviu e compreendeu esta e outras canções do americano. Duvido que isso tenha acontecido com criações do Chico-compositor.

Li bons argumentos contra e a favor do Nobel para Dylan e, do alto do muro, tendo a concordar com quase todos. Lamento pela escanteada no livro, mas admito que a literatura seja mais ampla que seu suporte feito de papel - as primeiras histórias que ouvi de meus pais não devem ter sido lidas, mas resgatadas da memória de ambos. Mas, ao colocar os compositores de canções na roda, a Academia Sueca foi inclusiva, mas, ao mesmo tempo, contribuiu para tornar o prêmio mais excludente.

*O amigo Fernando Brito me escreveu para lembrar que o Zé Ramalho gravou uma versão de "Blowin' In The Wind". Mas, enfim, mesmo entre nosostros, a gravação mais conhecida é a do Dylan.


Uma selfie em Friburgo

separador Por Fernando Molica em 17 de outubro de 2016 | Link | Comentários (0)

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Fiquei muito em feliz em participar, neste fim de semana, da primeira edição da Flinf, Festa Literária de Nova Friburgo, um evento feito na marra pelos organizadores. Apesar de todas as dificuldades, a festa foi ótima, variada, divertida, cheia de atrações, todas com um público bem legal.

Acompanhei palestras bem legais, encontrei com muitos amigos, conversei muito, bebi alguma cerveja, Na mesa em que participei com Maria Fernanda Macedo, ainda tive a sorte e o prazer de contar com uma canja da Nilza Rezende, escritora que admiro muito.

Como a plateia estava puxando mais pro jornalismo - o que é natural -, ela tratou de retomar a conversa sobre literatura, elogiou meu 'Uma selfie com Lenin' e ainda leu um trecho do livro.


O livro de Crivella

separador Por Fernando Molica em 17 de outubro de 2016 | Link | Comentários (0)

Aqui vai o link para a matéria que publiquei domingo, no GLOBO, sobre o livro 'Evangelizando a África', em que Marcelo Crivella faz críticas á Igreja Católica, ao hinduísmo, a religiões africanas e atribui a demônios a causa da homossexualidade.

A resposta de Crivella está aqui e o comentário do pesquisador Renato Noguera pode ser lido neste outro link.


'Uma selfie com Lenin' - trecho

separador Por Fernando Molica em 12 de outubro de 2016 | Link | Comentários (0)

"Daqui de longe, vendo essa gente protestando, tenho a sensação de que o país inteiro se reuniu no Maracanã, no velho Maracanã, não nesse ginásio de NBA em que transformaram meu estádio. É como se todas as torcidas estivessem na arquibancada torcendo para jogadores de todos os times. Isso, jogadores de todos os times do Brasil - Duzentos? Trezentos? Quatrocentos? - estão em campo, disputando e chutando diversas bolas nas mais variadas direções - o gol, como diria aquele velho técnico, passou mesmo a ser um detalhe. Chutam as bolas para a linha de fundo, para as laterais, para o alto, até mesmo para o gol, chutam para lugar nenhum. Juízes roubam descaradamente, mas também apanham, são xingados, espinafrados, há vários sangrando por conta de porradas que, enfim, neles puderam ser desferidas. Bandeirinhas gostosas são carregadas para o fosso que separa o campo da geral. Lá são lambidas, comidas, estupradas. O campo já foi invadido, ocupado, torcedores também chutam as bolas, se confraternizam com jogadores, os agridem, volta e meia morre alguém. Os bares dos estádios são invadidos e saqueados, mija-se por todo canto, caga-se na tribuna de honra. Em algum centro de controle que exibe imagens de altíssima definição captadas por milhares de câmeras, seus políticos e empresários estarão perplexos, pasmos, sem saber o que fazer para conter aquela fúria. Cobrarão providências, atitudes. Emitir uma nota oficial? Convocar uma entrevista coletiva? Ligar para o prefeito, para o governador, para o Planalto? Porra, foi para isso que investimos tanto nas campanhas de vocês, que fizemos alianças? Cadê a nossa segurança, onde estão os nossos direitos? O que devemos fazer, Eloísa Blaumsfield? Hein, Eloísa Blaumsfield? Algum gaiato sugerirá a solução hollywoodiana de fugir para o Rio - mas vocês já estão no Rio, cercados de gente e de raiva e medo por todos os lados."

(Trecho de 'Uma selfie com Lenin')


Pitacos eleitorais 19 - Na TV, a emoção 'lulista' de Freixo e o 'RJMC' de Crivella

separador Por Fernando Molica em 10 de outubro de 2016 | Link | Comentários (0)

Em seu primeiro programa de TV no segundo turno, Marcelo Freixo bebeu na fonte que criou as vitoriosas campanhas de Lula. Jogou pesado na emoção, na ideia de mudança e procurou espantar o medo relacionado ao Psol.

Em 2010, o PT, numa resposta à atriz Regina Duarte, enfatizou que a esperança venceria o medo. Freixo, na TV, diz que o afeto, o amor e o respeito é que derrotarão o medo. E ainda frisou que política é "manifestação de amor" e "declaração de amor coletiva".

O programa começou com imagens do dia da votação no primeiro turno, com o candidato falando de sua expectativa. Depois, mostrou cenas da comemoração na Lapa - no discurso editado para a TV, nada do grito de 'Fora Temer'. Rubro-negro, Freixo foi mostrado parafraseando um mote tão citado por seus companheiros de torcida, aquela história do "deixaram chegar...".

Para mostrar que por trás daquele cara sisudo existe alguém gente-como-a-gente, o programa mostrou fotos dos pais de Freixo, da mulher, dos filhos e até do cachorro. Em suas falas, o candidato abandonou o tom professoral do último debate, preferiu o tom da conversa, de longe, o mais adequado na TV.

Para rebater os que falam de inexperiência administrativa e afastar boatos sobre composição de secretariado, o programa usou outra sacada de antigos programas lulistas: apresentou um série de técnicos - entre eles, negros, mulheres e um ex-comandante da PM - que prometiam governador com Freixo. Para concluir, um clipão que, apoiado num belo jingle, trazia estrelas como Caetano, Chico, Fernanda Abreu, Sombrinha e imagens de crianças pobres, dançando felizes.

O programa de Marcelo Crivella foi bem mais contido. Num cenário muito parecido com o do RJTV, o candidato deu a palavra a jovens, alguns deles, moradores de favelas, que relataram seus problemas - camelô reclamou da Guarda Municipal, turismólogo criticou a falta de investimento no setor, profissional da moda pediu apoio para pessoas pobres que querem atuar no setor, estudante de engenharia contou que foi assaltada.

No 'RJMC', eles levantavam a bola para que o candidato concluísse, apresentasse soluções, tudo com o mote principal de sua campanha, o de que é preciso investir menos em obras e mais nas pessoas. Enquanto Freixo enfatiza o coletivo, Crivella foca no individual, na luta pela ascensão, no empreendedorismo, na lógica do subir na vida com estudo e trabalho.

Líder, com sobras, na pesquisa Datafolha, o candidato do PRB procurou tocar a bola para o lado, fazer um programa mais sóbrio, apresentar propostas. O choque de emoção apresentado por Freixo deverá fazer com que os próximos programas de Crivella sejam menos frios. A conferir.


Os apoiadores de Eduardo Cunha

separador Por Fernando Molica em 07 de outubro de 2016 | Link | Comentários (0)

Ao se queixar, ontem, no Twitter, de um casal que protestou contra ele no aeroporto ("Embarco de Brasília para o Rio e aturo um casal de petistas provocando"), o ex-deputado e ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha atraiu a solidariedade de muita gente.

Na caixa de comentários da rede social, muitos criticaram e até xingaram Cunha, réu em processos no STF, mas a maioria demonstrou apreço pelo ex-parlamentar:

. "o senhor venceu. Confio q provara sua inocência "

. "@DepEduardoCunha estavam algemados pelo menos?"

. "@DepEduardoCunha essa raça de PTista é uma doença! Dá próxima vez, põe um fone de ouvido."

. @DepEduardoCunha V.Exª sabe que lulopetistas gostam de dinheiro, farejam-no a km, joga umas moedinhas para eles catarem e o deixarão em paz!"

.@DepEduardoCunha também senhor Dep,o senhor foi o grande responsável por secar a teta deles, eles estão revoltado kkkk

. "@DepEduardoCunha joga carteira de trabalho que sai tudo correndo. ".

. "@DepEduardoCunha Exatamente, siga fiiirme, com dignidade, serenidade, como sempre ...".


Um internauta que se identifica como "Rev Paulo Cesar Lima"
("Pastor, Escritor, Teólogo, Licenciado em Filosofia, Graduado em Psicanálise, Jornalista, Professor") não economizou nos adjetivos contra a "raça de petista":

. "@DepEduardoCunha Deputado Eduardo Cunha, o sr será lembrado na história do Brasil como herói. A esquerda estava pronta para dar o golpe."

. "@DepEduardoCunha Essa raça de petista é raça ruim. Deve ser ignorada. São golpistas e sem nenhum escrúpulos para chegar ao intento deles."


Alvo dos protestos, Cunha foi mais sóbrio:

. "Não adianta, nao vão me intimidar"
. "Ficar me chamando de golpista e elogio vindo deles"


Escolhido por Crivella para Educação divulga campanha de doações para Freixo

separador Por Fernando Molica em 06 de outubro de 2016 | Link | Comentários (0)

Citado por Marcelo Crivella (PRB) como seu futuro secretário de Educação na prefeitura do Rio, o editor e cientista político César Benjamin compartilhou, em seu perfil no Facebook, post em que uma de suas filhas divulga o link que recolhe doações para a campanha de Marcelo Freixo (Psol). A busca de recursos para Freixo é coordenada por Téo Ferraz Benjamin, filho de César.

Ao fazer o compartilhamento, Cesar postou: "Meu filho querido coordena a campanha de financiamento do Freixo. Minhas duas filhas queridas estão envolvidas nela. O Vicente, de cinco anos, acompanha tudo e dá seus palpites. Família engajada, com sonhos comuns."

Ex-petista, César também foi filiado ao Psol - em 2006, candidatou-se a vice-presidente na chapa encabeçada pela então senadora Heloisa Helena. O cientista político tem, desde janeiro de 2015, cargo em comissão no gabinete de Crivella no Senado.

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Pitacos municipais 18 - Crivella e Freixo tiveram menos da metade dos votos válidos; 49% dos eleitores escolheram candidatos convervadores

separador Por Fernando Molica em 06 de outubro de 2016 | Link | Comentários (0)

Não é à toa que muitos cariocas estão em dúvida sobre o que fazer com o voto no segundo turno. Na primeira rodada, Marcelo Crivella (PRB) e Marcelo Freixo (Psol), tiveram, juntos, 46,04% dos votos válidos. Ou seja, 53,96% dos eleitores - mais da metade - que foram às urnas e escolheram um candidato não votaram naqueles que se tornariam os finalistas da disputa.

Unidos, os dois perderam para a soma de votos de candidatos mais identificados com o centro e com a direita. Pedro Paulo, Flávio Bolsonaro, Indio, Osorio e Carmen Migueles tiveram, juntos, 49% das preferências. Os outros candidatos da esquerda, Jandira, Molon e Cyro Garcia, somaram minguados 4,96%.

Alguns poderiam dizer que a opção conservadora manifestada nas urnas tende a favorecer Crivella, mas a fatura não está decidida, eleição não é matemática. Em 2006, na disputa presidencial, Geraldo Alckmin conseguiu ter, no segundo turno, menos votos que no primeiro.

Além disso, não dá para afirmar que os votos do candidato do PRB são resultado da opção ideológica por uma plataforma liberal-conservadora. Sua votação vem muito mais da base religiosa, aquela história de irmão votar em irmão.

Esses eleitores de Crivella até devem cultivar valores conservadores - defesa da chamada família tradicional, apego à ordem -, mas duvido que se identifiquem com uma proposta liberal de Estado mínimo. Ao contrário, aposto que gostam muito do Estado assistencialista, onisciente, onipotente e onipresente.

Assim, é impossível dizer que o bloco dos 49% irá em peso para o candidato do PRB pelo fato de ele não ser de esquerda. Muitos de seus integrantes não engolem a ligação de Crivella com a Igreja Universal do Reino de Deus nem sua parceria com Anthony Garotinho.

O próprio candidato não se apresenta como de direita - nem de esquerda, nem de centro. Ele é fruto do projeto de ocupação de espaços políticos da principal igreja pentecostal do país e tenta escapar das divisões ideológicas, buscar pairar sobre essas questões mundanas.

Mais: entre seus principais formuladores estão figurinhas carimbadas da esquerda, como Carlos Lessa, presidente do BNDES no governo Lula, e o cientista social e também economista César de Queiróz Benjamin, ex-filiado ao PT e ao Psol, ele é funcionário comissionado do Senado, assessor parlamentar júnior, lotado no gabinete de Crivella. Garotinho também fez boa parte de sua carreira na esquerda, passou pelo PT, PDT e PSB.

Ou seja, não dá pra dizer que Crivella seja um quadro da direita e que a disputa do segundo turno carioca reproduzirá o mata-mata de 2014, quando Dilma e Aécio protagonizaram uma disputa em que diferenças ideológicas estavam bem claras.

Mesmo que isolado no canto esquerdo do ringue, Freixo sabe que pode herdar votos dados aos conservadores: em 2014, muita gente disse ter votado nele para deputado estadual e em Bolsonaro-pai para federal. A divisão esquerda/direita é significativa mesmo para um pequeno grupo focado em questões ideológicas, a maior parte dos cidadãos quer ter médico nas clínicas da família e nos hospitais, está pouco se lixando se o cara é terceirizado ou funcionário público.

Questões como honestidade e capacidade de enfrentamento de problemas crônicos pesam mais na hora do voto para prefeito do que o binômio direta-esquerda. Muitos que apoiam Crivella sabem disso, tanto que tentam torpedear Freixo com questões relacionadas aos costumes, como casamento gay e descriminalização das drogas.

Rejeitados pela maioria do eleitorado no primeiro turno, os dois candidatos, agora, têm que se mostrar mais palatáveis e torcer para que sua presença no mata-mata não se transforme num estímulo ao voto nulo.


O autógrafo, o presente

separador Por Fernando Molica em 05 de outubro de 2016 | Link | Comentários (0)

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O querido Sergio Leo, que gosta tanto de futebol quanto eu odeio curry e batata baroa, ironizou meu gesto de pedir um autógrafo ao Paulo Cézar Lima, ex-jogador do Botafogo, campeão do mundo em 1970. Viu minhas fotos ao lado do jogador e afirmou que, quando tocadas pelo lado do bem, religiões são legais.

De certa forma, concordo. Sim, há algo meio religioso no futebol, cheio de objetos sagrados, ídolos e deuses. Volta e meia o futebol, assim como tantas religiões, vira pretexto para o desencadear de conflitos mais sérios, que têm muito mais a ver com disputas, injustiças e misérias terrenas do que com aquelas outras, relacionadas aos mistérios do além.

Dizem que a palavra religião tem origem no termo 'religare' do latim, algo que refaz uma ligação. A religião do futebol nos religa com a infância, com o menino que fomos e que nunca deixamos de ser. Meninos que tiveram uma bola como primeiro presente.

Tem a ver com o garoto que descobre integrar um universo ao mesmo tempo lúdico e trágico, espaço de alegrias e tristezas, fé que lhe ensina a conviver com vitórias e derrotas, com tropeços e voltas por cima.

Um menino que passa a crer em uma camisa, em uma bandeira, em determinadas cores (no meu caso, as duas essenciais: uma que marca a ausência de cores; a outra, a reunião de todas). Menino - como o menino-que-chega do alvinegro Armando Nogueira - para sempre encantado/batizado ao pisar pela primeira vez no Maracanã.

Falei em religar. Meu pai, que me revelou que eu era Botafogo, foi quem primeiro me falou do então jovem Paulo Cézar; a camisa que levei para ser autografada me foi presentada, há alguns anos, por meus filhos.Tudo ali estava ligado; eu também me religava com o menino que teimo em não deixar de ser.

Um menino que terminou a noite de 27 de setembro feliz da vida com seu autógrafo, presente recebido no dia de Cosme e Damião.


'Velho Chico' e o olhar que nos revela

separador Por Fernando Molica em 03 de outubro de 2016 | Link | Comentários (0)

No último capítulo de 'Velho Chico', uma personagem apelou para uma mulher voltar atrás na decisão de abandonar seu neném, diz que todo mundo precisa de um passado, de uma história. A fala cumpre a quase impossível tarefa de resumir com palavras o que novela de contou principalmente com imagens. Durante meses, 'Velho Chico' parecia implorar para que o país parasse com essa história de tentar esquecer quem é e de onde veio.

Da novela, escrita por Benedito Ruy Barbosa, vi apenas umas poucas e esparsas cenas, não mais que isso. O suficiente para ficar deslumbrado com as imagens, com a interpretação não naturalista dos atores, com a ausência de maquiagem, com as roupas amassadas, com a edição que respeitava os silêncios e os tempos dos acontecimentos. Mais do que com o texto - aqui e ali panfletário, discursivo -, em muitas destas poucas vezes diante da TV fiquei emocionado com a ousadia e competência de mostrar, com cores fortes e carregadas, um país que tanto procura se diluir.

Talvez fosse preciso mesmo carregar nas tintas para mostrar uma beleza tão negada. Os móveis de madeira pesada, as paredes mal pintadas, as saias rodadas, a camisa desgrenhada e aberta no peito, o catolicismo popular, a herança indígena, o rio, a terra, o suor na testa, os atores com cara das pessoas com quem cruzamos nas feiras, nas ruas, nas rodoviárias, o paletó de linho branco que até o mês passado lá no campo inda era flor.

E, caramba, as músicas, canções que remetem a nós mesmos, à beleza do que tanto e sempre produzimos e ouvimos, à tristeza e à alegria dos jecas, à doçura da tradição e ao desafio do futuro. Não custa lembrar que não há luar como esse do sertão (e nem sei se esta música foi usada na novela).

Pelo pouco que vi, 'Velho Chico' não idealizava o passado, ao contrário, apenas o resgatava e ressaltava o que nele havia de belo e cruel. Tratava do inevitável confronto entre o rural e o urbano, entre o arcaico e o moderno, entre modelos diferentes de civilização. Procurou mostrar o resultado de embates que, ao longo dos tempos, terminaram quase sempre com a vitória de um projeto bem-sucedido de opressão, proposta sempre reciclada para garantir a meta de impedir que tantos e tantos usem o conhecimento da história como instrumento de mudança do futuro.

Chega a ser revolucionário mostrar a beleza do que sempre fomos num país que se nega, que sonha com o refúgio dos shoppings e dos condomínios fechados, que cultua o privado/exclusivo em detrimento do público, que tenta terceirizar seu futuro, que foge do espelho, que tenta curar com botox as cicatrizes da escravidão e da exclusão, que venera a imagem de sucesso apregoada por rostos que nem um pedaço do seu pode ser.

Então, contra esse mal, essa moléstia e esse crime, tome de closes em rugas, em cabelos crespos, em fitas coloridas, em bules de café, em mãos que rezam, em gavetas que revelam roupinhas simples de bebê. Imagens que me remetiam à minha infância, a Piedade, à Viçosa do vô Almiro e da vó Rita - no último capítulo, nas cenas do casamento, tinha uma atriz muito parecida com a Tia Inês.

Em sua coluna de domingo na Folha, Maurício Stycer publicou algumas frases de Luiz Fernando Carvalho, diretor da novela. Ele fala o tempo todo de ética combinada com estética. Aqui, algumas de suas frases que ressaltam princípios tão bem traduzidos em arte: "É uma entrega que caminha de mãos dadas com a responsabilidade de formar cidadãos", "Essa responsabilidade pelo imaginário do país é inevitável", "Faz-se necessário criarmos um vínculo de cumplicidade ética com essa responsabilidade".

Ao fugir da banalidade no mais nobre dos horários da TV, ao apostar numa outra luz, em outros ângulos, ritmos e contextos, os responsáveis por "Velho Chico" mostraram que tudo pode ser modificado, a mudança no jeito de olhar é o primeiro passo para qualquer gesto.

O recurso da câmera subjetiva, usado para suprir a ausência do ator Domingos Montagner, representou muito mais do que um achado - ao falar olhando para a câmera, os personagens se dirigiam a cada um de nós, era como se dissessem que não devemos ter medo nem vergonha de mostrar a nossa própria cara.


Pitacos municipais 17 - A medalha de teimosia, o mérito de Freixo, o fracasso da Rede e o espelho dos paulistanos

separador Por Fernando Molica em 03 de outubro de 2016 | Link | Comentários (0)

Há alguns dias, falei aqui num duelo de teimosos travado entre o Psol (que não aceitou se coligar com o PT no Rio) e Eduardo Paes (que insistiu em manter a candidatura de Pedro Paulo mesmo depois da acusação de agressão à ex-mulher). Aquele que passasse para o segundo turno poderia dizer que não fora teimoso, mas persistente.

Apurados os votos, a medalha da teimosia vai para o atual prefeito carioca, que decidiu escalar um jogador que entrou mancando em campo, ferido pela acusação de agredir a ex-mulher. Paes arrastou o PMDB para uma derrota que se refletiu na diminuição de sua bancada na Câmara Municipal - perdeu oito de suas 18 cadeiras.O prefeito pode até alegar que foi prejudicado pela crise no estado, mas não poderá negar sua responsabilidade no fracasso.

Freixo agora passa por persistente e visionário - ele e seu partido aceitaram o desafio de concorrer a um cargo majoritário com apenas 11 segundos de TV. Ao conquistar a ida para o segundo turno, o Psol provou ser possível fazer uma política que não seja baseada na fórmula tradicional que envolve infinitas coligações em troca de tempo de TV, promessa de cargos e a emissão de tenebrosas notas promissórias resgatáveis após a eleição do protegido.

Num momento em que o PT sofre as consequências do modelo que o levou ao poder, o sucesso de Freixo - ainda que favorecido pela divisão do campo conservador - indica a possibilidade de construção de outros modelos. Vamos ver como isso funciona no segundo turno e, principalmente, na administração, caso o candidato do Psol derrote Crivella.

Por falar em modelos, muito se fala na derrota do PT, mas vale ressaltar também o péssimo desempenho da Rede. O partido de Marina Silva sequer conseguiu eleger um vereador no Rio. Num momento tão radical, em que políticos são cobrados por suas posições, a Rede ciscou pra esquerda, balançou pra direita - e perdeu a bola pro marcador..

A migração da ex-candidata à Presidência para o campo conservador parece ter deixado o eleitor tonto. Ela foi favorável ao impeachment, combatido por alguns parlamentares do partido - no fim das contas, todos acabaram perdendo.

Aqui no Rio,a principal vítima foi Alessandro Molon, que parece ter perdido o voto da esquerda sem conseguir conquistar o apoio do eleitor de centro. A indefinição da Rede ameaça o partido e o desempenho de seus candidatos a deputado em 2018.

Já o Partido Novo, com um discurso radicalmente liberal, quase um contraponto ao Psol, soube delimitar um campo e elegeu um vereador, o que representou uma grande vitória.

E São Paulo, hein? Como disse Caetano em 'Sampa', Narciso acha feio o que não é espelho. Mesmo que este espelho reflita apenas a imagem que cada um quer ter de si mesmo.


Pitacos municipais 16 - Divisão conservadora abre caminho para Freixo

separador Por Fernando Molica em 01 de outubro de 2016 | Link | Comentários (0)

A julgar pelo Datafolha e pelo Ibope, Marcelo Freixo tem que torcer para que, entre hoje e amanhã, eleitores mais conservadores não escolham um candidato para que nele seja descarregado o chamado voto útil.

Levando-se em conta os votos válidos, as duas pesquisas mostram uma pulverização de preferências entre candidatos à direita que disputam uma vaga no segundo turno: Pedro Paulo (12% no Datafolha e 11% no Ibope); Indio (11% e 10%); Osorio (10% e 7%) e Flavio Bolsonaro (8% e 10%).

A divisão neste campo revela que Pedro Paulo, provavelmente por conta da crise no estado e da acusação de agressão à ex-mulher, não conseguiu agregar eleitores que desprezam Crivella e os partidos de esquerda. O deixa-que-eu-deixo abre caminho para Freixo, que parece ter conseguido tirar votos de Jandira Feghali.

Indio, que está na cola do peemedebista, poderia tocar reunir, o problema é que a ascensão de Osorio e a reação de Bolsonaro dificultam uma decisão de voto útil. Não dá pra bancar um favorito neste campo: as variações entre Datafolha e Ibope reforçam que pesquisa não é uma verdade absoluta, não se pode desprezar a margem de erro.

Os dois institutos também confirmam que Crivella começa a perder pontos. Nada que ameace sua vitória no primeiro turno, mas o suficiente para tornar o mata-mata mais emocionante.

Por falar nisso, é impressionante a diferença de intenções de voto no segundo turno registradas pelo Datafolha e Ibope. Segundo o primeiro instituto, Crivella teria, no mata-mata, jogos duros contra Indio (41% a 38%) e Freixo (42% a 37%).

Já o Ibope afirma que o candidato do PRN tem, hoje, grande vantagem em relação aos dois num eventual segundo turno (ganharia de 45% a 27% de Indio e de 47% a 25% de Freixo). Na disputa com Pedro Paulo, o placar, favorável a Crivella, seria de 49% a 21%).


Palocci votou contra emenda que favorecia Odebrecht: para Moro, o voto é "carente de prova"

separador Por Fernando Molica em 01 de outubro de 2016 | Link | Comentários (4)

Deputado federal em 2009, Antônio Palocci votou contra uma proposta que, segundo relatório da Polícia Federal, ele, em nome da Odebrecht, atuara para que fosse adotada pelo governo. Este suposto lobby favorável à empreiteira foi um dos motivos relacionados para sua prisão preventiva.

Ao ser interrogado, o ex-ministro citou seu voto contra a emenda, mas isso não foi suficiente para mudar a decisão de Sérgio Moro de decretar a prisão. Segundo o juiz, Palocci "teria votado contra" a medida, mas a afirmação era "ainda carente de prova".*

A posição de Palocci na sessão realizada no dia 5 de agosto de 2009 pode ser conferida na página da Câmara dos Deputados mantida na internet.

De acordo com o ex-ministro, seu voto contra o reconhecimento de crédito tributário a exportadores - uma emenda à Medida Provisória 460/2009 - provaria que ele não era o "Italiano" que, de acordo com investigações e documentos levantados pela PF, defendia os interesses da Odebrecht.

Mas, para Moro, com base na análise de mensagens eletrônicas, a questão relevante "teria sido a atuação do investigado, nos bastidores, para prevenir o veto presidencial ao reconhecimento do benefício e, sucessivamente, sua atuação, conforme mensagem de Marcelo Bahia Odebrecht reproduzida no item 81, retro, para obtenção de 'alternativas para compensar' o Grupo Odebrecht caso o benefício fosse vetado."

A emenda, aprovada no Senado e na Câmara, acabaria vetada pelo então presidente Lula. Segundo a PF e Moro, o "Italiano", então, tentou compensar a Odebrecht pelo veto presidencial.

O benefício aos exportadores não constava da MP encaminhada pelo governo e foi introduzido no texto pela relatora no Senado, Lúcia Vânia, de Goiás, que, na época, era filiada ao PSDB (em 2015, foi para o PSB).

O Ministério da Fazenda era a contra a emenda, que, depois de aprovada no Senado, seria mantida, com poucas mudanças, no parecer do então deputado André Vargas (PT-PR). Em 2014, o deputado teria seu mandato cassado por envolvimento na Lava Jato (no ano seguinte, seria condenado à prisão por Sérgio Moro).

A votação da proposta, que recebeu o apoio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, foi tumultuada. Michel Temer, então presidente da Câmara, chegou a anunciar a derrota da emenda em votação simbólica.

Diante de protestos, Temer foi obrigado a promover uma votação nominal, que terminou com a aprovação da emenda por 206 votos favoráveis, 162 contrários e três abstenções. Dos 65 deputados do PT presentes, 59 - entre eles, Palocci - votaram contra; seis foram a favor. No PMDB, 50 votaram sim; no PSDB, 32 e, no DEM, 31.


* Trecho do Despacho/Decisão de Sérgio Moro que decretou a prisão do ex-ministro:

146. Antônio Palocci Filho argumentou que teria votado contra o
reconhecimento do crédito prêmio do IPI na Medida Provisória 460/2009, o que
indicaria que não seria ele o "Italiano", que teria trabalhado pela aprovação da
proposta. Trata­se de afirmação do investigado ainda carente de prova, mas a
questão relevante, conforme mensagens eletrônicas, teria sido a atuação do
investigado, nos bastidores, para prevenir o veto presidencial ao reconhecimento
do benefício e, sucessivamente, sua atuação, conforme mensagem de Marcelo
Bahia Odebrecht reproduzida no item 81, retro, para obtenção de "alternativas para compensar" o Grupo Odebrecht caso o benefício fosse vetado.


BG
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