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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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abril 2016 Archives

Resenha publicada no 'Guia Folha', 'Folha de S.Paulo'

separador Por Fernando Molica em 30 de abril de 2016 | Link | Comentários (0)

Narrado na segunda pessoa, este romance é uma longa carta de um brasileiro que viaja pela Europa à ex-mulher. "Eu fugi de você e você deu um jeito de vir": o sujeito não consegue curtir a viagem solo e tem de narrar sua crise de meia-idade -pelo menos é o que o leitor acredita no começo.

O narrador é um jornalista, como o autor do romance, editor de "O Dia". Estamos novamente no terreno da autoficção (talvez este "Guia" precisasse um dia abrir a seção "Ficção Biográfica"). Narram-se manifestações contra a Copa e negociatas entre governo e publicitários; doleiros e policiais federais são personagens.

Narra-se, sobretudo, a derrocada moral de um jornalista que virou assessor de imprensa no mundo político, enriqueceu, envolveu-se com duas mulheres ao mesmo tempo, traiu companheiros e largou na estrada os ideais marxistas da juventude e os ideais românticos de partilhar a vida com alguém.

Promíscuo, cínico e vazio, ele simboliza nossa época desiludida -em que uma viagem existencial é só motivo pra clicar um autorretrato vulgar que ninguém vai ver. (RONALDO BRESSANE)

UMA SELFIE COM LENIN
AUTOR Fernando Molica
EDITORA Record
QUANTO R$ 30 (112 págs.)
AVALIAÇÃO ** (MUITO BOM)

30/4/2016


'Uma selfie' na rede

separador Por Fernando Molica em 28 de abril de 2016 | Link | Comentários (0)

Aí vão comentários postados no Facebook sobre 'Uma selfie com Lenin'. Até aqui, a recepção tem sido bem legal - e é muito bom perceber as diferentes leituras do livro.

Antônio Torres,escritor:

LIVROS À CABECEIRA

Bom ver que nem tudo está parado ou que o país não parou de vez. Conquanto estejam pondo o pé no freio, por motivos óbvios, há editoras que ainda arriscam suas fichas, pelo menos em relação às pratas da casa, como é o caso da Record, que acaba de mandar às livrarias os livros assinalados abaixo, pela ordem de chegada à minha cabeceira:

1. "Uma selfie com Lenin", de Fernando Molica - curto romance, em número de páginas, mas longo em significados, e no qual as atualidades políticas, existenciais e "lavajatorias" nele se colam, com malícia, ambição, sedução, grana, num texto cheio de ginga, bem carioca.

2. "Os contos completos", de Alberto Mussa, premiadíssimo romancista que surpreende pela encantadora fabulação e fina carpintaria destas pequenas histórias.

3. "Luxúria" - romance de Fernando Bonassi, também conhecido como roteirista de cinema e dramaturgo, e que narra, "com ironia e realismo, um momento em que a soberba se espalhou pelo país, convencendo até o lascivo homem comum".

4, Por fim, mas não por último, "Welcome to Copacabana", reunião de 20 histórias de outro romancista consumado, muito lido, premiado e traduzido mundo afora, que se assina Edney Silvestre, um autor sempre bom de ler. Sim, distintas e distintos navegantes: se confiam minimamente no gosto literário deste que vos escreve, corram à livraria mais à mão.

Parabéns, caríssimo editor Carlos Andreazza, pelas suas vigorosas apostas.


Henrique Rodrigues, escritor:

Recomendo pacas Uma selfie com Lenin, romance do Fernando Molica. O protagonista é um antinefelibata, que durante um voo passa a limpo sua história e a do país numa longa carta. Incrível como o Molica joga com o particular e o público de forma equilibrada com o difícil recurso da segunda pessoa.


Sergio Leo, escritor e jornalista:

Não vou fazer resenha aqui, porque o sujeito é amigo meu de algumas décadas e não tenho imparcialidade. Mas sou crítico com o que escrevo e com o que os amigos escrevem, e acabo de terminar, deliciado, "Uma Selfie com Lenin", do Fernando Molica _ obrigado feriadão de Tiradentes.

O "Notícias do Mirandão", dele, é leitura indispensável para quem se interessa pelas tenebrosas transações entre tráfico, politica e imprensa no Rio de Janeiro. Aprendi muito, divertindo-me com ele. Já esse Selfie com Lenin, de timing perfeito, é uma amarga introdução ao mundo da corrupção banalizada, que atrai talentos na política e no jornalismo, e se quer respeitável.

Ousadia pesada, essa, de fazer do romance uma longa carta, e de mesclar a história com digressões que caberiam num textão de facebook, não fossem tão bem desenvolvidas, tão cuidadosamente escritas, tão calculadamente precisas, tão economicamente literárias.

Mas, como eu dizia, não vou fazer resenha porque adoro o sujeito por trás do livro. E, se fosse mulher, só não daria para ele porque está na cara que não deve ser muito bom de cama. mas escreve pacas.


Cid Benjamin, jornalista:

Pessoal, acabei de ler o último livro do Fernando Molica: "Uma selfie con Lenin". É muito bom. Uma leitura leve, agradável e instigante. Recomendo.


Ricardo Lísias, escritor:

Comecei a prestar atenção em Uma selfie com Lenin depois de ver a capa compartilhada pelo autor no Facebook. Eu me lembrava vagamente da estátua do velho líder comunista, embora não conseguisse identificar na memória onde a tinha visto. Deve ter sido na viagem que fiz ao Leste Europeu em 2002. Em um velho álbum de fotos (não era ainda a época das imagens perfeitas do iPhone), localizei o lugar: um parque em Budapeste onde a administração da cidade, depois da queda do regime comunista, teve a feliz ideia de recolher as maciças estátuas que outros países, como a Romênia ou a Polônia, fizeram a besteira de destruir.

Um pouco depois, quando Fernando Molica compartilhou também um trecho do livro, pude confirmar minha suspeita: "Mas os caras foram mais criativos. Reuniram aqueles monstrengos, os despacharam para a periferia da cidade e criaram o Memento Park, um Jurassic Park do socialismo, o nome remete, veja só, a preces que tratam dos vivos e dos mortos. Entre os mortos-vivos de lá estão Marx, Lenin, Engels e, personagem principal, o povo." Fico fascinado quando leio algo que me faz lembrar os lugares que me marcaram.

Uma selfie com Lenin é um livro fascinante. No enredo, personagens que tomaram conta do nosso dia a dia, como o doleiro, o lobbysta, um inequívoco Lindbergh Farias (sem o nome, por certo), malas de dinheiro e as manifestações de 2013. Há algo que me fascina ainda mais do que ler sobre os lugares que me marcaram: o mundo contemporâneo. Por isso, li o romance de Molica em uma tarde. Trata-se de um longo monólogo, em que em alguns momentos o narrador finge estar escrevendo uma carta. O artifício de ocultar um gênero no outro não é gratuito, já que no livro todo mundo parece estar fingindo alguma coisa.

Todos os relacionamentos descritos na novela têm um interesse disfarçado. O narrador mal esconde o ressentimento por trás do cinismo. É difícil aqui não adiantar alguma coisa do enredo, mas vale a máxima de que quem engana um dia será enganado. O narrador, por exemplo, tenta enganar o leitor já no início ao afirmar que viaja por causa de uma desilusão amorosa. O próprio leitor não vai se deixar enganar quando aparece a famosa estagiária sedutora. Claro que ele vai cruzar com a garota nos braços de outra pessoa, mas depois o leitor também é enganado pelo narrador: não é bem ela que o aguarda em uma determinada portaria carioca.

Enganar significa evidentemente fazer movimentos de um lado para o outro. O narrador, portanto, tinha que estar mesmo viajando. Uma selfie com Lenin é um desses livros que parecem estar com todos os procedimentos no lugar. Mas mesmo isso serve para incomodar o leitor, pois a narrativa mostra um extremo deslocamento de padrões éticos. De início, achei que esse descompasso pudesse ser um possível defeito literário. Como usar tão bem as ferramentas formais para criar uma narrativa em que nada está no lugar que deveria estar?

Devo dizer que li o romance de Fernando Molica na semana que antecedeu a votação do pedido de impeachment na câmara dos deputados. Inclusive, reli todos os trechos que tinha grifado no mesmo dia em que Michel Temer fez vazar o seu tenebroso áudio via whatsapp. Foi então que notei a coerência do romance: a falta de qualquer sentido ético em qualquer um dos planos de vida das personagens é de fato perfeita aqui, já que torna forma literária a grande tragédia brasileira - e latino-americana. Por isso, Uma selfie com Lenin é de fato um ótimo livro.


Flavio Izhaki, escritor:

Terminei em poucos dias a leitura do novo livro do Fernando Molica, "Uma selfie com Lenin". É um interessante romance-confissão. Na minha leitura, um livro sobre dominação. Uma personagem subjuga a outra, interfere sobre a outra, monta sobre a outra. Mas com o correr das páginas, o personagem subjugado, aquele que confessa, vai percebendo que no fundo ele não estava preso, fez as escolhas que fez também por decisão sua, os fins dele também ignorando os meios. Talvez não subjugados, mas embaralhados no desastre iminente da queda.

Estruturar um romance como uma longa carta é um risco altíssimo. Muita coisa pode dar errado - a falta de enredo, o mesmo tom se arrastando por várias páginas, a falta de interlocução ou uma troca falsa - mas Molica consegue se equilibrar na corda bamba o tempo todo e desconstruir o próprio discurso do narrador e o mundo (da política) que é apresentado.


Leandro Resende, jornalista:

Meu avô Jaime, responsável pela minha introdução aos livros, não viveu pra ver que desenvolvi uma peculiaridade (que depois soube, felizmente não ser só minha): findada a leitura, releio a última frase, fecho e releio orelhas e contra-capa. É uma forma de adiar o fim do livro, talvez, e de criar um vínculo com o que, afinal, acabou de terminar.

Enquanto sacolejo sob Copacabana no metrô, posto este retrato com Fernando Molica, autor de "Uma Selfie com Lenin", lançado esta semana e que - vamos ao lide - é um livro incrível, a ser lido por todos os angustiados nestes tempos confusos em que vivemos.

Há um trecho, que destaco sem spoiler, em que o protagonista revela nosso gosto por verdades tortas, grosso modo um resumo da nossa inabilidade em nos admitir e verbalizar nossas convicções, já que elas expõem tantas contradições. Parto daí para contar, tão somente, que trata-se de romance onde um angustiado protagonista redige uma carta para sua ex-chefe e ex-amante, tentando passar às palavras sua mudança de jornalista idealista, para mais um no meio de uma tensa rede de corrupção.

Mais que isso, Uma Selfie com Lenin radiografa nossos tempos ao tratar do egoísmo das redes sociais, da cortina de fumaça que cobre os monumentos e os ídolos, da grave crise que se espalhou sobre todas as camadas da nossa política. Tudo relatado na forma de reflexão de um personagem que roda a Europa em busca de si, e escreve ensandecidamente para desnudar seus anjos e seus demônios. Tudo, ainda, sem a pretensão de esgotamento legada aos romances.

São passagens incríveis como a análise do museu britânico, a descrição inicial tensa dos aeroportos, e o Gouveia, político idealista rei do "não é bem assim". Meu vô Jaime, para quem indicaria o livro em gratidão , iria gostar muito das últimas páginas, surpreendentes à Sidney Sheldon. Viva Molica e as boas coisas que a gente tem sorte de ler!


Obra lança um olhar irônico sobre os relacionamentos

separador Por Fernando Molica em 26 de abril de 2016 | Link | Comentários (0)

Matéria do jornal 'Metro', edição de Vitória, 26/4..

Dilemas políticos, éticos e amorosos são o ponto de partida do livro "Uma selfie
com Lenin", do jornalista e escritor Fernando Molica. A obra, lançada neste mês,
traz um olhar irônico sobre a política do país ao narraras manifestações ocorridas
em 2013 e 2014.

A obra é escrita como uma longa carta do narrador à ex-chefe e ex-namorada,
Eloísa. O personagem é um jornalista recém-saído de um trabalho como
assessor de políticos, que embarca numa viagem pela Europa após se desiludir
com a carreira. Dentro do avião, durante um voo entre Amsterdã
e uma cidade asiática, ele decide escrever a carta, em que passa a limpo seus
amores e os dilemas políticos do Brasil, sempre de uma forma irônica.

"Quis mostrar o impacto da política na vida do personagem. Ele escreve uma carta
como uma prestação de contas da vida sentimental e do trabalho, além de comentar
algumas situações políticas do país e tentar explicar seu sumiço. Na carta, o personagem
faz algumas ironias com a ex-mulher, com ele mesmo e com a política
do país, sempre de maneira crítica, que é uma forte característica do personagem",
relatou Fernando Molica.

O título da obra "Uma selfie com Lenin" refere-se a uma passagem do livro, em que
o personagem faz uma visita ao Memento Park, em Budapeste. Como forma de
protesto, ele tira uma foto com uma estátua de Vladimir Ilitch Lenin, um dos
maiores símbolos da extinta União Soviética.

Os interessados em comprar a obra, da editora Record, podem procurá-la em
livrarias físicas e virtuais, por R$ 29,90.

Formado pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro,
o jornalista Fernando Molica é autor dos romances "Notícias do Mirandão", "O
ponto da partida", "O inventário de Julio Reis" e "Bandeira negra, amor", além do
infanto-juvenil "O misterioso craque da Vila Belmira".

Por duas vezes, o autor foi finalista do Prêmio Jabuti e, atualmente, assina
uma coluna diária no jornal O Dia.


Lísias e 'Uma selfie com Lenin'

separador Por Fernando Molica em 19 de abril de 2016 | Link | Comentários (0)

No blog 'Peixe Elétrico', o escritor Ricardo Lísias publica resenha sobre 'Uma selfie com Lenin':

Não é nada disso

Comecei a prestar atenção em Uma selfie com Lenin depois de ver a capa compartilhada pelo autor no Facebook. Eu me lembrava vagamente da estátua do velho líder comunista, embora não conseguisse identificar na memória onde a tinha visto. Deve ter sido na viagem que fiz ao Leste Europeu em 2002. Em um velho álbum de fotos (não era ainda a época das imagens perfeitas do iPhone), localizei o lugar: um parque em Budapeste onde a administração da cidade, depois da queda do regime comunista, teve a feliz ideia de recolher as maciças estátuas que outros países, como a Romênia ou a Polônia, fizeram a besteira de destruir.

Um pouco depois, quando Fernando Molica compartilhou também um trecho do livro, pude confirmar minha suspeita: "Mas os caras foram mais criativos. Reuniram aqueles monstrengos, os despacharam para a periferia da cidade e criaram o Memento Park, um Jurassic Park do socialismo, o nome remete, veja só, a preces que tratam dos vivos e dos mortos. Entre os mortos-vivos de lá estão Marx, Lenin, Engels e, personagem principal, o povo." Fico fascinado quando leio algo que me faz lembrar os lugares que me marcaram.

Uma selfie com Lenin é um livro fascinante. No enredo, personagens que tomaram conta do nosso dia a dia, como o doleiro, o lobbysta, um inequívoco Lindbergh Farias (sem o nome, por certo), malas de dinheiro e as manifestações de 2013. Há algo que me fascina ainda mais do que ler sobre os lugares que me marcaram: o mundo contemporâneo. Por isso, li o romance de Molica em uma tarde. Trata-se de um longo monólogo, em que em alguns momentos o narrador finge estar escrevendo uma carta. O artifício de ocultar um gênero no outro não é gratuito, já que no livro todo mundo parece estar fingindo alguma coisa.

Todos os relacionamentos descritos na novela têm um interesse disfarçado. O narrador mal esconde o ressentimento por trás do cinismo. É difícil aqui não adiantar alguma coisa do enredo, mas vale a máxima de que quem engana um dia será enganado. O narrador, por exemplo, tenta enganar o leitor já no início ao afirmar que viaja por causa de uma desilusão amorosa. O próprio leitor não vai se deixar enganar quando aparece a famosa estagiária sedutora. Claro que ele vai cruzar com a garota nos braços de outra pessoa, mas depois o leitor também é enganado pelo narrador: não é bem ela que o aguarda em uma determinada portaria carioca.

Enganar significa evidentemente fazer movimentos de um lado para o outro. O narrador, portanto, tinha que estar mesmo viajando. Uma selfie com Lenin é um desses livros que parecem estar com todos os procedimentos no lugar. Mas mesmo isso serve para incomodar o leitor, pois a narrativa mostra um extremo deslocamento de padrões éticos. De início, achei que esse descompasso pudesse ser um possível defeito literário. Como usar tão bem as ferramentas formais para criar uma narrativa em que nada está no lugar que deveria estar?

Devo dizer que li o romance de Fernando Molica na semana que antecedeu a votação do pedido de impeachment na câmara dos deputados. Inclusive, reli todos os trechos que tinha grifado no mesmo dia em que Michel Temer fez vazar o seu tenebroso áudio via whatsapp. Foi então que notei a coerência do romance: a falta de qualquer sentido ético em qualquer um dos planos de vida das personagens é de fato perfeita aqui, já que torna forma literária a grande tragédia brasileira - e latino-americana. Por isso, Uma selfie com Lenin é de fato um ótimo livro.


Um livro sobre dominação

separador Por Fernando Molica em 19 de abril de 2016 | Link | Comentários (0)

Do escritor Flávio Izhaki sobre 'Uma selfie com Lenin':

Terminei em poucos dias a leitura do novo livro do Fernando Molica, "Uma selfie com Lenin". É um interessante romance-confissão. Na minha leitura, um livro sobre dominação. Uma personagem subjuga a outra, interfere sobre a outra, monta sobre a outra. Mas com o correr das páginas, o personagem subjugado, aquele que confessa, vai percebendo que no fundo ele não estava preso, fez as escolhas que fez também por decisão sua, os fins dele também ignorando os meios. Talvez não subjugados, mas embaralhados no desastre iminente da queda.

Estruturar um romance como uma longa carta é um risco altíssimo. Muita coisa pode dar errado - a falta de enredo, o mesmo tom se arrastando por várias páginas, a falta de interlocução ou uma troca falsa - mas Molica consegue se equilibrar na corda bamba o tempo todo e desconstruir o próprio discurso do narrador e o mundo (da política) que é apresentado.


Teocracia brasileira

separador Por Fernando Molica em 19 de abril de 2016 | Link | Comentários (0)

Ou seja, o Brasil é uma teocracia gerida por homens e mulheres que, em nome de Deus, defendem os interesses de suas próprias famílias. A julgar pelas declarações de voto, estados e cidades não são espaços onde ocorre uma legítima disputa de interesses conflitantes, mas entidades etéreas, sem história, sem disputas, sem gente.


Brizola tinha razão

separador Por Fernando Molica em 19 de abril de 2016 | Link | Comentários (0)

Morto há 12 anos, Leonel Brizola teria agora o direito de dizer algo como "Eu avisei". Em 1992, o então governador do Rio evitava reforçar o coro pelo impeachment de Fernando Collor de Mello. Ao contrário de outros partidos de oposição, em especial o PT, o pedetista tratava do assunto de forma evasiva, escorregadia. O gesto lhe traria sérias consequências políticas -- seus 11,168 milhões de votos em 1989 cairiam para pouco mais de 2 milhões na eleição presidencial de 1994.

Na época, Brizola foi acusado de privilegiar seu bom relacionamento com Collor, que chegara a adaptar, para o governo federal, o programa de construção de escolões desenvolvido no Rio de Janeiro. Mas quem ouvisse com atenção seus pronunciamentos e entrevistas veria que a preocupação do governador era outra. Herdeiro e representante do trabalhismo, Brizola acompanhara a derrubada da Presidência de duas de suas referências políticas, Getúlio Vargas e João Goulart. Em 1961, então governador do Rio Grande Sul, ele comandara, de armas na mão, a resistência aos ministros militares, que tentavam impedir a posse de Goulart; três anos depois, acompanharia a deposição do presidente e cunhado, vítima de um golpe articulado em quartéis e grandes empresas.

O veterano político sabia que, por mais graves que fossem os crimes atribuídos a Collor, o impeachment do primeiro presidente eleito pelo voto direto desde 1961 criaria um perigoso precedente para a jovem democracia brasileira. Sabedor da tendência conservadora da maioria dos parlamentares, o pedetista, que ainda tinha esperança de chegar ao Palácio do Planalto, não queria deixar nas mãos de senadores e deputados o direito de poder derrubar um presidente.

Neste domingo, o temor de Brizola se revelou procedente. A abertura do processo que deve levar Michel Temer ao poder revela que os votos dos 594 integrantes do Congresso Nacional pesam muito mais do que os de 143 milhões de eleitores. Mais do que abrir a porteira para o impeachment, a oposição ressuscitou a eleição indireta para presidente. As declarações de voto dos oposicionistas evidenciaram que eles não condenavam as tais pedaladas fiscais, apenas trataram de conquistar, no plenário, uma vitória que lhes fora negada nas urnas. Agora, cada político que for eleito para a Presidência será refém dos senadores e deputados, terá que agradá-los, cortejá-los, cumprir suas vontades, quitar suas faturas. Não bastará vencer a eleição, será preciso entregar anéis e dedos -- e sabe-se lá mais o quê -- para permanecer no cargo.

(Coluna Estação Carioca, O DIA, 18/4)


Os antigos aliados do PT

separador Por Fernando Molica em 19 de abril de 2016 | Link | Comentários (1)

O que espanta não é o fato de tantos deputados votarem contra Dilma. O curioso é saber que, até anteontem, esses mesmos parlamentares sustentavam governos petistas. Há mais de uma década que o PT desistiu de formar uma bancada consistente, afinada com as propostas do partido - há muito abandonara a prática de pedir votos na legenda, no 13.

Sacou que comprar votos no Congresso era mais simples e mais barato do que eleger seus próprios quadros. De uma hora para outra, Lula ficou mais próximo de Sarney do que do Chico Alencar. No sufoco, voltou a contar com os velhos companheiros, mas não conseguiu travar o desembarque dos amigos de ocasião.

Em nome de Deus, da Pátria (e do Mato Grosso, de Minas, de Itaguaí, de Santa Catarina) e da Família, os antigos apoiadores do petismo voltaram para ninhos mais compatíveis com suas próprias histórias - e deixam para o PT a lição de que nem sempre o caminho mais curto é o melhor.


Deus e o impeachment

separador Por Fernando Molica em 19 de abril de 2016 | Link | Comentários (0)

A quantidade de deputados que fala em Deus ao votar pelo impeachment revela como é preocupante esta opção de políticos por algo que não deveria ser objeto da política - a religião. A opção pelo divino exime deputados de discutir problemas concretos, terrenos. Ficam assim livres de falar em crescimento, distribuição de renda, reforma agrária, desemprego, crise econômica, saneamento, saúde, educação, transportes.

A ênfase no Céu revela também o interesse de muita gente em manter eleitores afastados da política real - e, mais grave, demonstra como a discussão política é algo estranho à vida de milhões de brasileiros, pessoas que, de maneira sincera, duvidam de sua própria capacidade de influir nos destinos de suas comunidades, de seu país. Preferem terceirizar esta tarefa, entregá-la nas mãos de quem se diz representante de Deus.

A derrota anunciada também mostra o oportunismo petista de, nas últimas décadas, cortejar integrantes da bancada evangélica. Em nome dos votos, o PT abriu de discutir política com os fiéis evangélicos, preferiu conchavar com os pastores, mesmo com aqueles acusados de tantos e tantos crimes - no fim das contas, nesta semana, o Bispo Macedo, sequer aceitou se reunir com Lula
.
Dilma também optou por fingir uma fé que, todos sabemos, não tem. Ela, que enfrentou situações tão terríveis, preferiu se apresentar como católica, negou bandeiras que faziam parte da luta histórica do movimento feminista. Ao fazer isso, o PT e Dilma apostaram no atraso, reforçaram a ideia de que um ateu não é tão digno ou confiável quanto um cristão. Agora, se veem obrigados a engolir uma derrota também imposta em nome de um deus que tantos petistas dizem não existir.


Mãe de candidato pode ser vice?

separador Por Fernando Molica em 16 de abril de 2016 | Link | Comentários (0)


Quanto é que vai ganhar o leiloeiro
Que é também brasileiro
E em três lotes vendeu o Brasil inteiro?
Quem dá mais?

'Quem dá mais?' ('Leilão do Brasil'), Noel Rosa

Independentemente do resultado de amanhã, o processo de impeachment e a campanha de Temer à presidência mudarão muitos dos conceitos relacionados à eleição direta no país.

Candidatos a cargos majoritários terão muito mais cuidado na hora de escolher seus vices. Antes do Golpe de 64, o vice-presidente era eleito de forma separada, o que volta e meia gerava crises institucionais. Ao grudar presidente e vice na mesma chapa, buscou-se acabar com o problema. O cargo de vice passou a ser oferecido a outros partidos como forma de garantir uma aliança. Isso não acabou com as rusgas, mas nunca antes um vice conspirou tão abertamente contra um presidente - Temer tem programa de governo, articula apoios e tem até discurso de posse. E agora? O que farão os partidos? Vão clonar o Marco Maciel, vice de FHC? Vão tentar fazer um novo José Alencar, vice do Lula? Como escolher um vice? Mãe de candidato pode ser vice?

Todo esse processo deu um poder absurdo ao Congresso Nacional. Deputados e senadores notaram que podem derrubar um presidente da mesma forma como se tira o cargo de um primeiro-ministro. Os parlamentares descobriram que são capazes de mudar a decisão dos eleitores - eles ganharam o direito de fazer um terceiro turno pela via indireta. Sacaram que formam um colégio eleitoral como o que havia na ditadura. Agora, todos os futuros presidentes da República assumirão sabendo que poderão ser chantageados pelo Congresso por conta de seus erros ou por seus acertos.

Por seu caráter majoritário, a eleição para o Executivo permite a escolha de candidatos menos identificados com a política tradicional, foi o que permitiu a ascensão de Lula e, mesmo, de FHC - Marina Silva tem chance de virar presidente, mas sabe que seu partido jamais terá uma grande bancada. A esquerda, de um modo geral, não gosta muito do parlamentarismo por saber que, neste sistema, suas chances são bem menores. O Congresso Nacional, esse congresso que conhecemos, com tantos parlamentares acusados de crimes, sabe, mais do que nunca, que tem o poder de enquadrar qualquer abusado que ouse fazer diferente. Deputados de senadores têm a força. Marina Silva e outros presidenciáveis (até Bolsonaro, veja só ) deveriam prestar mais atenção nisso.

Partidos mais, vá lá, ideológicos passarão a ter mais cuidado com suas alianças. O exemplo do PT é claro. Antigamente, o partido insistia no voto no 13 - tanto que os caras viraram campeões no voto de legenda. Ao conquistar a presidência e governos estaduais, o PT mudou também em relação a esse ponto. Descobriu que não precisava eleger tantos deputados, era mais fácil, digamos, fazer o que todos os outros partidos faziam - ir ao mercado e adquirir os apoios necessários. A adesão do José Alencar ocorreu desse jeito - Lula conversava com ele na sala enquanto que, no quarto, Zé Dirceu, Delúbio e Valdemar Costa Neto acertavam as contas - o apoio do PL ao PT foi comprado por R$ 10 milhões, dinheiro para a campanha do partido do vice.

O Mensalão e, mais ainda, o Petrolão mostraram que ficou perigoso demais operar no sistema antigo. Em tese, partidos, pelo menos os que não se contentam em ser um balcão de oportunidades, terão que investir mais em seus próprios quadros. O problema é que dificilmente um partido terá maioria absoluta nas casas do Congresso - e, hoje, graças ao processo de impeachment e à campanha eleitoral do Temer, o passe dos parlamentares passou a valer mais. Como na música de Noel, quem dá mais?


A foto e o artigo

separador Por Fernando Molica em 15 de abril de 2016 | Link | Comentários (0)

1. A foto do sujeito que exibe maços de dinheiro desviado da merenda de escolas de São Paulo sintetiza o período em que vivemos. Pela arrogância, pelo escárnio e mesmo pela hipocrisia de muita gente.

2. O artigo/manifesto de Vladimir Safatle na Folha de hoje, um quase Aux armes, citoyens, dá pistas sobre o que pode ocorrer a partir de domingo.


Michel Temer e a Indireta Já

separador Por Fernando Molica em 15 de abril de 2016 | Link | Comentários (0)

Mais do que o impeachment de Dilma, o que está em jogo é a volta, ainda que provisória, da eleição indireta para presidente da República. Em 1992, buscava-se retirar Fernando Collor de Mello do poder -- a ascensão do vice, Itamar Franco, não era o objetivo principal de daquele processo.

Agora, o jogo é claro. Em busca de sua eleição e de carona na impopularidade de Dilma, Michel Temer faz campanha, negocia cargos, aprontou discurso de posse e divulgou, em outubro, seu programa de governo. Batizado de 'Uma ponte para o futuro' e chamado de "Plano Temer" por Moreira Franco -- um dos principais aliados do vice --, o texto traduz anseios do empresariado e ajuda a explicar a articulação que, ao gritar "Indireta já!", quer fazer do vice o novo presidente.

As propostas, que tentam organizar a economia, dificilmente seriam vitoriosas numa eleição direta. Assim, o atalho escolhido para eleger Temer representa uma oportunidade única de defender o ajuste como parte de um plano de salvação nacional. Como o atual vice não seria candidato à reeleição, ele poderia arcar com o ônus da impopularidade trazida pela adoção de medidas duras: no esboço de seu discurso, Temer alertou que haverá necessidade de "sacrifícios".

O plano defende o fim "de todas as indexações, seja para salários ou benefícios previdenciários". Reajustes, entre eles o do salário mínimo, seriam negociados com o Congresso, e não haveria garantia de reposição da inflação. Aposentados também perderiam direito ao salário mínimo dos trabalhadores ativos: "(...) é indispensável que se elimine a indexação de qualquer benefício ao valor do salário mínimo", diz a proposta. O programa também prevê idades mínimas para a aposentadoria, 65 anos para homens e 60 anos para mulheres.

O documento quer flexibilizar a aplicação das leis trabalhistas -- defende que "convenções coletivas prevaleçam sobre as normais legais, salvo quanto aos direitos básicos". O Plano Temer pretende acabar com a obrigatoriedade constitucional de se gastar com Educação 18% da receita resultante de impostos. O governo também deixaria de ter que aplicar na Saúde 15% de sua receita corrente líquida.

A eleição de Temer, se vingar, será indireta, mas seu programa não poderia ser mais direto.

O DIA, 13/4


Tédio

separador Por Fernando Molica em 14 de abril de 2016 | Link | Comentários (0)

Lembrei de um trecho do meu romance 'O ponto da partida', de 2005:

"Desde quando há falta de notícia por aqui? Isso aqui por acaso é a Suécia? Imagine o tédio de um plantão de domingo em jornal de Estocolmo. Nada acontece, ninguém mata ninguém, não tem chacina, invasão de favela, guerra de facções, bloqueio de via expressa. Que chatice. Os suicídios na Suécia devem ser mais comuns entre jornalistas, coitados."

Acrescentaria que, na Suécia, deputados não se reúnem num domingo para votar derrubada de governante.


Brasil do fim do século XX e início do XXI

separador Por Fernando Molica em 08 de abril de 2016 | Link | Comentários (0)

Resenha de Uma selfie com Lenin escrita por Jaime Cimenti e publicada no 'Jornal do Comércio., Porto Alegre.


O quinto romance do escritor Fernando Molica, nascido no Rio de Janeiro em 1961, Uma selfie com Lenin (Record, 112 páginas), acima de tudo, faz uma narrativa que retrata o Brasil entre fins do século XX e início do XXI.

Molica é autor dos romances Notícias do Mirandão e Inventário de Julio Reis, publicados pela Record, do livro-reportagem O homem que morreu três vezes (Record) e da narrativa infantojuvenil O misterioso craque da Vila Belmira, editado pelo Rocco. Molica já teve dois de seus livros lançados na Alemanha e por duas vezes foi finalista do Prêmio Jabuti.

Em Uma selfie para Lenin, o leitor vai acompanhar a trajetória altamente conflitante de um jornalista que vê seus ideais de juventude serem corroídos pelo galopante avanço de uma estrutura política baseada na corrupção. Tema, aliás, de dura atualidade para nós brasileiros.

O protagonista conta, com humor e certa dose de melancolia, seus caminhos profissionais e os rumos tortuosos que acabou trilhando pela vida.
O romance está escrito em formato de longuíssima carta, redigida durante um voo internacional, na qual o protagonista tenta, ao menos, fazer um ambicioso balanço de sua vida. Correspondência íntima, próxima da confissão, a carta revela para o leitor as muitas contradições do personagem. O leitor vai pensar se o narrador está em busca de sentido ou se está relatando passos que planejou. Acerto de contas ou registro de viagem programada?

Entre as idas e vindas pessoais e profissionais do protagonista, o leitor vai apreciando retratos de nossa história recente, dessas últimas décadas, tão tumultuadas. As muitas transformações e contradições do mundo contemporâneo estão emboladas com os trajetos do personagem. A selfie, índice máximo do individualismo promovido pelas redes sociais, é aqui realizada pelo narrador desiludido, buscando registrar seu encontro com um monumento em homenagem a um dos símbolos da busca por uma sociedade mais igualitária, Lenin.Com olhar irônico, o autor da carta vai descrevendo o vertiginoso declínio de determinados ideários políticos e, ao mesmo tempo, fala da ausência de novas alternativas.

"Acordei com o dia claro, envolto em lençóis úmidos, manchados pelo sangue que saíra da minha perna. Doia um pouco. Levantei, catei as roupas no chão, joguei tudo no box e tive, enfim, coragem de me ver no espelho. Eu envelhecera, Eloisa." Este é um dos trechos do romance, uma amostra da narrativa forte e impactante, dessas que têm tudo a ver com os tempos velozes, estilhaçados e doidos que vivemos.


Romance 'Uma selfie com Lenin' lança olhar irônico sobre a política do país

separador Por Fernando Molica em 05 de abril de 2016 | Link | Comentários (0)

Matéria de Guilherme Freitas publicada no Globo e no Extra:

Jornalista e escritor Fernando Molica situa narrativa em manifestações de 2013 e 2014

O protagonista do novo romance de Fernando Molica, "Uma selfie com Lenin" (Record), é um jornalista recém-saído de um trabalho como assessor de políticos. Desiludido com os clientes, que descreve como "sujeitos que faziam da constante visita às algibeiras do país a razão de ser de suas carreiras políticas", ele embarca numa viagem pela Europa. O livro é escrito como uma longa carta do narrador à ex-namorada, em que ele passa a limpo, além de seus amores e dilemas, os ideais políticos de uma geração.

-- O que me interessou no romance não foi a política em si, esse é o assunto do meu dia a dia como jornalista. Quis mostrar o impacto da política na vida do personagem, entender como ele tenta deglutir aquele processo. E isso só é possível na ficção -- diz Molica, que lança o livro nesta terça-feira, às 19h, na Livraria da Travessa de Botafogo.

PERSONAGEM ESCREVE UMA CARTA DENTRO DO AVIÃO

Jornalista e autor de outros quatro livros de ficção, Molica situa a narrativa no período das manifestações que tomaram o país em 2013 e 2014. Enquanto escreve a carta, de dentro de um avião, o narrador reflete sobre as turbulências políticas no Brasil e sobre conflitos da história europeia. Por meio do olhar cético desse personagem, "Uma selfie com Lenin" oferece uma perspectiva irônica sobre a situação do país.

-- Em um momento de radicalização como o atual, em que as pessoas só repetem chavões, a ficção pode oferecer outras perspectivas e mostrar que há várias formas de ver o mundo -- diz Molica.


Fernando Molica lança seu sétimo livro

separador Por Fernando Molica em 05 de abril de 2016 | Link | Comentários (0)

No DIA de hoje, matéria de Guilherme Guagliardi sobre 'Uma selfie com Lenin'.

Rio - Perder tudo, estar desiludido e sem esperanças. É nesse momento crítico que o jornalista criado por Fernando Molica, no novo romance 'Uma Selfie com Lenin' (Record, 112 págs., R$ 29,90), se encontra e decide avaliar tudo o que viveu, por meio de uma carta escrita dentro de um avião. Essa história chega hoje aos leitores, no lançamento marcado para às 19h, na Livraria da Travessa de Botafogo.
Sem prefácio, índice ou dedicatória, o sétimo livro da carreira do escritor e colunista do DIA leva o público diretamente à história e utiliza uma linguagem informal com referências pop, segundo Molica, como 'Star Wars' e 'Os Jetsons'. "Eu acho que por ser uma carta eu não poderia fazer algo muito literário. Procurei fazer um texto informal escrito por um profissional de texto, dentro das normas da língua e que tem um universo mais pop, que acho que numa carta você falaria isso", explica.
A ideia inicial, que surgiu durante uma viagem que Molica fez sozinho para a Europa, em 2014, era escrever um guia de viagens, mas percebeu outro caminho enquanto escrevia. "Quando comecei, o livro tendeu para um romance. Baixou um caboclo do personagem e falou: 'Não meu irmão', puxou minha perna meu braço e falou: 'Vai por aqui'", conta entre risadas.
A carreira de Fernando Molica como escritor começou com 'Notícias do Mirandão' (2002). Este primeiro livro e o terceiro, 'Bandeira Negra, Amor' (2005), foram publicados no Brasil e Alemanha. Já o segundo, 'O Homem Que Morreu Três Vezes' (2003), recebeu menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Depois vieram: 'O Ponto da Partida' (2008), 'O Misterioso Craque da Vila Belmira' (2010) e 'Inventário de Júlio Reis' (2012).


'Não há respostas definitivas na ficção'

separador Por Fernando Molica em 05 de abril de 2016 | Link | Comentários (0)

Entrevista no Blog da Editora Record sobre 'Uma selfie com Lenin':

Por Juliana Krapp

Sozinho em pleno voo, enquanto viaja entre dois continentes, um jornalista carioca se ocupa de escrever uma carta. A destinatária é Eloísa, ex-namorada e ex-chefe, poderosa assessora política. Enquanto desbrava a personalidade e a trajetória da mulher, o protagonista de Uma selfie com Lenin passa em revista a própria jornada, desde que era um repórter mal remunerado até se converter em redator a serviço de políticos de caráter duvidoso. Na missiva, há espaço ainda para ecos de notícias do Brasil, como as manifestações de 2013 e 2014 e o desencanto com o projeto de esquerda para o país. Com um viés ao mesmo tempo melancólico e irônico, Fernando Molica desvela conflitos éticos e dilemas que marcam a rotina contemporânea, elaborando uma crítica perturbadora de nossa sociedade -- da política ao amor. Redige uma trama ágil e original, que tem como ponto de partida a história de um romance turbulento e de uma decisão inusitada: desaparecer. Com isso, também apresenta um saboroso tratado sobre poder e injustiça, memória e esquecimento, desejo e perplexidade. Ou, como afirma nesta entrevista, parafraseando a canção: sobre as pequenas dores que se avolumam, o tipo de dor que, tão da gente, "não sai no jornal".

"Uma selfie com Lenin" será lançado nesta terça (05/04), na Livraria da Travessa de Botafogo, no Rio de Janeiro, a partir das 19h.

Fernando Molica é autor dos romances Notícias do Mirandão, O ponto da partida e O inventário de Julio Reis (publicados pela Record), Bandeira negra, amore o infanto-juvenil O misterioso craque da Vila Belmira. Notícias do Mirandão e Bandeira negra, amor foram publicados também na Alemanha. Lançou ainda o livro-reportagem O homem que morreu três vezes (Record), que recebeu menção honrosa do Prêmio Vladimir Herzog. Jornalista, assina uma coluna diária no jornal O Dia.

As múltiplas faces do poder e suas peculiaridades na rotina brasileira têm sido elemento marcante em suas narrativas, desde que estreou com Notícias do Mirandão. É, também, matéria-prima de Uma selfie com Lenin. Questão de realismo? Ou, em outras palavras: este é um tema fundamental para encarar o contemporâneo?

Não vejo como busca de realismo, afinal, estamos falando de ficção, de histórias inventadas. A realidade que importa num romance é aquela narrada em suas páginas. Um livro de ficção científica, passado no século 25, pode ter um viés realista. Volta e meia nos emocionamos com relatos descaradamente ficcionais, torcemos para personagens que, sabemos, nunca existiram. O fato de a maioria dos meus romances trazer referências à vida contemporânea não os faz mais ou menos realistas. Procuro contar a história de personagens, suas angústias, suas alegrias, seus amores, suas frustrações. Meu foco está neles e na linguagem que utilizo para tratar das histórias. Mas os personagens vivem numa determinada época, são influenciados por tudo que os cerca, e cada um reage de maneira diferente a temas que dizem respeito à vida de uma sociedade. É razoável que os personagens sejam afetados por questões relacionadas à vida do país, que se deparem com dilemas pessoais e éticos a partir em algumas situações. A atual discussão sobre corrupção tem a ver com o poder e com os governantes mas também com cada um de nós, sobre como reagimos a questões éticas que nos são colocadas no dia a dia.

O Rio de Janeiro tem sido cenário primordial de seus romances. Desde Notícias do Mirandão, quando passeia pela periferia, até O inventário de Julio Reis, no qual o Centro da cidade é quase um personagem por si só, a capital fluminense sempre teve papel preponderante. Desta vez, porém, o protagonista está em pleno voo, numa viagem que já dura meses e na qual busca exatamente a distância e a solidão. Sua prosa também está em trânsito?

É bem possível que esteja, até espero que minha prosa esteja sempre em trânsito, em movimento, mas não penso muito sobre isso antes de escrever um livro. Depois de algum tempo é que tenho uma certa perspectiva do que foi feito. Meus três primeiros romances são passados no Rio contemporâneo, acabaram formando uma trilogia que não havia sido prevista ou planejada. O primeiro livro se passou num subúrbio e numa favela da Leopoldina; no segundo, os protagonistas viviam no Méier e em Botafogo e trabalhavam no Centro. Em O ponto da partida, o terceiro, a ação ficou restrita a Ipanema e Leblon. Meus personagens, veja só, até desfrutaram de uma certa ascensão social. No meu infanto-juvenil, O misterioso craque da Vila Belmira, a trama se passa no presente, mas com muitas referências ao passado. No Inventário, a prosa, como você diz, viajou até o início do século 20, mas trata também de dilemas que estão presentes hoje. Em Uma selfie com Lenin, a viagem também foi pra longe, para um não lugar, como frisa o narrador. Afinal, ele escreve a carta que é o próprio romance dentro de um avião que voa da Europa para a Ásia, ele não está em nenhuma cidade, em nenhum país. Talvez, não sei, não foi algo decidido previamente, este distanciamento do personagem/narrador tenha viabilizado uma visão mais abrangente de sua própria vida, menos participante. O livro é narrado na primeira pessoa, mas ele trata dos fatos de uma maneira distanciada, de alguém que está longe do país, e a nove mil metros de altura. O sujeito está longe de seu país, de sua mulher, da vida que tinha por aqui, acompanha de longe as notícias brasileiras, talvez por isso tenha decidido fazer uma espécie de acerto de contas, sentiu necessidade de explicar a razão de seu desaparecimento.

O processo de mudança do protagonista, repórter que se vê encurralado pelos dilemas de uma profissão em metamorfose, funciona evidentemente como metáfora do jornalismo atual. E talvez você seja o autor brasileiro que melhor tem descrito, em sua ficção, as características e mutações do fazer jornalístico no Brasil. Tanto que, na Enciclopédia Itaú Cultural, o verbete 'Fernando Molica' aponta: haveria, em seu projeto literário, a busca por novo significado nas relações entre literatura e jornalismo. Para você, hoje, a parceria ficção-jornalismo é mais um jogo de tensões ou um casamento harmonioso?

Eu nunca busquei o tal significado nessas relações, nem parei para pensar num eventual projeto literário. Já tive, entre protagonistas de romances anteriores, advogado, traficante, militantes de ONGs, oficial da PM, músico e jornalistas. E, neste, trato de outro jornalista, mas isso não tem a ver com uma eventual necessidade de discutir a profissão e seus impasses. O foco, insisto, está nos personagens. Minha opção de colocar um outro jornalista em cena está mais relacionada ao meu conhecimento deste universo profissional, acaba sendo mais fácil descrever algumas rotinas de um jornalista do que, por exemplo, a de um médico. No caso específico de Uma selfie com Lenin, os impasses profissionais e a troca da vida de repórter pela de assessor de políticos causam alguns impasses, o que gera certo aprofundamento no relato de práticas profissionais. Mas são dilemas, amorosos, éticos e profissionais que também poderiam ser enfrentados por um médico de hospital público que virasse diretor de um plano de saúde, por um professor nomeado para um cargo relevante num governo não muito honesto. Quando sento para escrever ficção, o fato de ser jornalista não tem a menor importância. Literatura e jornalismo são atividades, arrisco dizer, contraditórias. No meu caso, a distância entre o jornalista e o escritor é cada vez maior, temo até que eles cortem relações. Jornalistas e ficcionistas -- e há muita gente que acumula os dois ofícios -- contam histórias, escrevem, mas com abordagens absolutamente diversas. Seria como um engenheiro que também fosse escultor -- nas duas profissões ele lidaria com projetos, com materiais como madeira e metal, com a fabricação de objetos. Mas seriam objetos com propostas bem diferentes. O ficcionista e o jornalista partem de pressupostos completamente diferentes. Antagônicos, até. O jornalismo é baseado numa lógica moral e institucional, busca certezas, se baseia na lei e na ordem, define o bem e o mal, o certo e o errado. Mesmo quando questiona o poder e as leis, e o faz com frequência, busca uma nova institucionalidade, uma adequação, a criação de uma nova realidade, clama por mais hospitais e escolas e menos corrupção. O jornalismo, e sou jornalista há mais de 30 anos, acredita que o mundo vai melhorar se determinados pressupostos e regras forem seguidos. Eu, como escritor, não tenho muitas ilusões em relação a isso. A literatura, como as artes em geral, não tem compromissos com qualquer projeto institucional, não tenta dar receitas de bolo. Como jornalista, como cidadão, quero que o casal condenado por jogar uma menina pela janela fique décadas na cadeia. Como romancista, quero tentar entender aquelas pessoas, aqueles seres humanos, tentar descobrir o que pode ter gerado aquele gesto extremo. Os cidadãos outrora honestos que resolveram participar de atos de corrupção são detestáveis, mas, ao mesmo tempo, ótimos personagens. A dor da gente não sai no jornal, diz um verso daquele samba ['Notícia de jornal', de Haroldo Barbosa e Luiz Reis] gravado pelo Chico Buarque, que cito num dos meus romances, acho que no Notícias do Mirandão. Eu, como autor de ficção, quero tratar desta dor que não sai no jornal, das pequenas dores que se tornam imensas dentro de cada um de nós. Dores que nunca seriam notícia de jornal, mas doem, e como doem.

A dor, por exemplo, de quem vê em xeque o projeto da esquerda para o país, certo? Imagino que não seja à toa que este novo romance se chame Uma selfie com Lenin e traga referências às manifestações de 2013, aos dilemas de quem vive na política, a escândalos de corrupção.

É, no livro eu trato desses temas, mas sempre na ótica dos personagens, não estou interessado em discuti-los a partir de um ponto de vista jornalístico ou sociológico. O romance se passa entre 2013 e início de 2014, na época das grandes manifestações. Busco saber como aquelas passeatas e o pipocar de casos de corrupção repercutiram na visão de mundo do protagonista. Sou de uma geração que acreditou no processo de redemocratização e de busca de alguma justiça social. Havia uma expectativa de que governos de esquerda rompessem com a lógica de corrupção que, havia tantas décadas, marcava a política brasileira. Afinal de contas, durante a ditadura, a esquerda ficou fora do poder, nem tinha como participar das negociatas que então ocorriam, e muitas ocorreram, foi honesta até por falta de opção. A revelação de que a esquerda, no poder, também participava de safadezas e montava e aprimorava esquemas de corrupção quebrou certo encanto, fez com que nos tornássemos mais adultos, ou mais cínicos, ou mais ricos, depende do caso. Mas, como eu disse, o que me interessa no livro é especular como esse processo pode ter influenciado a vida dos personagens. O título do livro tem a ver com isso, a tal selfie com a estátua do Lenin tem um viés meio melancólico e irônico.

Dilemas éticos, política, relações contemporâneas e o mundo da comunicação social são temas do livro. Mas Uma selfie com Lenin é, também, uma história de amor. Labiríntica, angustiante e repleta de desencontros -- ainda assim, uma história de amor. Você acha que a ficção tem dado conta de representar os desafios das relações amorosas de hoje?

Acho que, como nos amores, não há respostas definitivas na ficção. Na vida, nas relações amorosas, a gente vai tateando, erra, acerta, bate na trave, erra o chute, faz gol contra. Seria certa ambição achar possível representar todos esses desafios. A literatura pode mais captar esses impasses, traduzi-los, elaborá-los. Permite um diálogo com o leitor. Viabiliza, principalmente, o conhecimento do outro, mesmo que um outro ficcional. Temos passado por tempos muito chatos, cheios de certeza, um fla-flu interminável, em que muita gente demonstra ter razões absolutas. Houve, nas últimas décadas, muitas mudanças na abordagem das relações amorosas, mas, no fim das contas, volta e meia nos deparamos com sentimentos muito parecidos com os vivenciados por nossos avós. Sem ter esta ambição explícita, os personagens de Uma selfie se deparam com dilemas profissionais, geracionais e éticos que acabam sendo levados para a esfera sentimental, para a cama. A ficção colabora para ampliar uma discussão, permite que se busque mais entender a razão do outro, o que é fundamental. O principal é a busca, a tentativa e erro.

Seu protagonista-narrador recorre a uma forma em extinção -- a carta -- para escrever a história de Uma selfie com Lenin. Há, também, certo saudosismo que permeia o romance, numa tensão permanente entre o anacrônico e o atual, o ultrapassado e o fluxo de novidades que engole tudo. Há um tipo especial de saudade em nossos tempos? Como a literatura lida com isso?

Eu não diria saudade, mas certo susto diante de tantos estímulos. A carta é algo bem mais pessoal que o e-mail, a variação da letra mostra nossas emoções, há rabiscos, erros. Aquele papel é manuseado por quem a escreve e por quem a recebe, é algo físico. Lembro que, quando eu era criança, minha mãe adorava cantar uma música ('Mensagem', de Cícero Nunes e Aldo Cabral) que falava do drama de uma pessoa diante da chegada de uma carta. O personagem nem lê a carta, a queima, com medo de saber o que havia sido escrito. Eu achava aquilo um exagero, o medo de ir ao portão e receber a carta. Acho que, agora, entendo melhor aquele dilema. Em outros livros havia diferentes narradores ou pontos de vista. Desta vez, joguei tudo na primeira pessoa. Como o narrador cita logo no início, a foto, que tantas gerações aprenderam a encarar como documento, como fixação de imagens, se transformou em algo volátil, tanto que as imagens digitais raramente são impressas. Tenho mais de mil fotos arquivadas, esperando ganhar o direito de ir para o papel. Com tanta facilidade de fotografar, de registrar imagens, a foto deixa de servir para guardar memória, funciona mais como algo que marca um tempo presente, meio que perde seu compromisso com o futuro, com a história que será contada daqui a dezenas ou centenas de anos. O que importa é fazer a foto, publicá-la na rede social, e nunca mais olhar para ela. Ficou tudo rápido demais, em poucas décadas, mecanismos de fixação de memória se tornaram obsoletos -- disquetes grandes, disquetes pequenos, CDs, DVDs, pen drives, tudo isso acabou ou está acabando. Temos, a cada dia, mais instrumentos para guardar memórias que, ali na esquina, serão descartadas, esquecidas. Ao ser comunicado que tinha Alzheimer, o ex-presidente Ronald Reagan disse talvez a única frase sábia de sua vida. Comentou que, graças à doença, passaria a conhecer pessoas novas todos os dias. Acho que estamos vivendo essa ilusão de que a memória ficou passageira, que pode ser reinventada, reescrita, que cada postagem no Facebook termina um ciclo de vida e dá início a outro. Parece que estamos todos com Alzheimer.

Como a literatura se enreda no seu rol de atividades? Qual seu método de trabalho?

Adoraria seguir o conselho de colegas escritores, que acham fundamental escrever ficção todos os dias, até para não perder a embocadura, mas não dá. De vez em quando fico com saudade da ficção, acho que um determinado mote pode dar samba, digo, romance. Foi assim, creio, em todos os meus livros. Este novo teve como ponto de partida uma viagem que, em 2014, fiz sozinho por algumas cidades europeias. Na volta, pensei em fazer uma espécie de guia comentado de viagem, algo que desse minha visão sobre os locais visitados. Só que o projeto foi mudando. Na medida em que eu escrevia o texto apareceu um personagem que me apresentou a outros personagens, e eles me deram uma enquadrada, decidiram que eu tinha que seguir por outro caminho, isso quase sempre acontece. Aí, como disse outro escritor, acho que o Marçal Aquino, resolvi seguir escrevendo para ver como é que a história iria acabar. Quando estou escrevendo ficção, reservo as manhãs para a tarefa, meu trabalho no jornal começa no início da tarde. E não consigo escrever nada depois de um dia inteiro de trabalho. Gosto muito quando alguém me encomenda um conto ou uma crônica, isso me obriga a sentar para escrever.

Já tem ideia para um novo livro? Em que tipo de história gostaria de trabalhar?

Tenho algumas ideias, ainda meio vagas. Tenho pensado em reunir e publicar algumas crônicas que escrevi nos últimos anos, em escrever alguns contos. Mas ainda são projetos muito iniciais.


Lenin na (rádio) Justiça

separador Por Fernando Molica em 04 de abril de 2016 | Link | Comentários (0)

Entrevista sobre 'Uma selfie com Lenin' para a Rádio Justiça, de Brasília. A conversa foi transmitida no primeiro bloco do programa, que foi ao ar no dia 28 de março. Basta clicar aqui.


Operação Lava Mentes

separador Por Fernando Molica em 02 de abril de 2016 | Link | Comentários (0)


É "possível", segundo o juiz Sérgio Moro, que um esquema de corrupção em prefeitura do PT tenha mesmo a ver com o até hoje não esclarecido assassinato do Celso Daniel, ocorrido em 2002.

Da mesma forma, a julgar pelo o que escreveu o Moro, é possível que uma coisa não tenha nada a ver com a outra.

Se a primeira opção for verdadeira, ótimo. A movimentação financeira terá contribuído para desvendar um crime não tão bem apurado pela polícia de São Paulo, subordinada, desde 1995, a governadores do PSDB (em todo este tempo, o governo ficou apenas nove meses com outro partido, o PFL).

Mas, se as investigações não confirmarem a ligação entre os dois casos, o Moro terá, mais uma vez, cometido o pecado de falar demais, de lançar suspeitas graves antes de fechar uma apuração. E ele, não custa lembrar, não é promotor ou procurador, mas um juiz, alguém que deve atuar com neutralidade em processos. A ele não cabe lançar suspeitas mas analisar provas e argumentos da acusação e da defesa e, depois, decidir.

Pelo visto, não é só a imprensa que ainda tem muito a aprender com o Caso Escola Base - todo baseado em declarações em on do delegado que apurava o suposto crime.



BG
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