Estação Piedade: a biografia de Fernando MolicaEstante: livros públicados pelo MolicaPáginas Amarelas: textos, artigos e outras palavras maisJulio Reis: Biografia, Músicas e PartiturasBlog: Pontos de PartidaFoto MolicaClique para voltar a página principalFoto Molicawww.fernandomolica.com.brEntre em contato com o Fernando MolicaInformações para imprensa

Blog

Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

separador
BG

março 2016 Archives

Um retrato do Brasil

separador Por Fernando Molica em 31 de março de 2016 | Link | Comentários (0)

Nelson Vasconcelos escreve, na coluna 'Leitura de Bordo, de O DIA, sobre 'Uma selfie com Lenin'.


Não é nada fácil entender este Brasil tão torto. Mas a gente consegue alguma ajuda em livros como "Uma selfie com Lenin", do nosso Fernando Molica. Página após página, ele derruba seu oponente na base da muita porrada, mas sem pressa, levando a briga até o último parágrafo. Cabe ao leitor decidir para que lado vai torcer -- ou até mesmo desistir de qualquer torcida. O Brasil, afinal, é uma questão de fé...

"Uma selfie com Lenin" é a carta furiosa de um jornalista para sua ex-mulher e ex-chefe, a quem deve sua fortuna e suas desditas. Inteligente e ambiciosa, Eloísa Blaumsfield era a estagiária que subiu na vida e tornou-se competente assessora de políticos e poderosos. Aprendeu a dançar conforme a música do mercado e fez muito dinheiro distorcendo a realidade. De quebra, leva para seu mundo (corporativo e amoroso) o jornalista idealista, profissional de primeira linha.

Só que ele não tem o mesmo DNA da companheira. As armações políticas em nome de interesses bem particulares não o deixam exatamente feliz. Apesar do sexo bom com a vibrante Eloísa, não é esse tipo do amor eterno que o jornalista-narrador está buscando.

O narrador, afinal, talvez seja o último romântico num contexto geral vergonhoso. Ele quer porque quer um país melhor, limpo, quer pessoas éticas, íntegras, quer o melhor para todos. Não consegue, mas toca sua vida ao lado de Eloísa, até mesmo contribuindo com a lama que atravanca o país. O mercado suga. Alguns gostam, outros não.

Uma hora esse descompasso de lógicas e desejos acaba pesando, pois tudo tem limite quando a alma não é pequena. E ele chega. É aí que vemos como a novela do Molica lida tão bem com as contradições da vida alucinada dos nossos tempos.

Comentar mais que isso pode atrapalhar o prazer da leitura. O narrador escreve sua carta-desabafo em um de seus voos pelo mundo. Ele também circula pelas ruas do Rio, e nem poderia ser diferente. A prosa é acelerada, sem firulas. Entre bons achados, a sequência no Edifício São Borja, na Cinelândia, é puro cinema. Só falta falar.


"Uma selfie com Lenin" traz ficção contemporânea

separador Por Fernando Molica em 31 de março de 2016 | Link | Comentários (0)

Resenha de Carol Botelho publicada em 30/3 na 'Folha de Pernambuco'.

Escrita ágil como filme de ação, vai direto ao ponto, sem encher linguiça, parece que coloca o leitor logo no centro do furacão, no meio da tempestade, na crista da onda do tsunami. É basicamente sobre viajar sozinho. A jornada começa desde a compra das passagens feita com cartão de crédito no computador até o embarque no aeroporto, passando pelas fotografias, o caminhar pelas ruas, a observação das pessoas...

Difícil encontrar quem já não tenha passado sufoco em uma viagem de avião. Ainda mais para o Exterior; pior ainda em um lugar onde não dominamos a língua. No aeroporto, aquele saguão gigantesco, onde temos que nos locomover de ônibus de um portão de embarque para outro, nossa, é de dar nos nervos ou de proporcionar lembranças cômicas.

Em "Uma selfie com Lenin" (Editora Record, 112 páginas, R$ 29,90), o escritor Fernando Molica narra a viagem de um jornalista pelo mundo. Uma das várias cenas engraçadas se passa no aeroporto Charles de Gaulle, quando uma paulista, desesperada, sem saber como pegar o ônibus para chegar ao trem que a levaria a Barcelona, dá um grito para um faxineiro do aeroporto: "'Meu, como pego o trem para Paris?'" Assim mesmo, em paulistês arcaico (...)".

Depois o autor ainda levanta a tal questão da tecnologia, que parece que veio para nos ajudar, mas quando o sistema sai do ar, é uma trapalhada que pode custar ao passageiro horas de espera e desamparo. Mas o autor até gosta de fazer tudo sozinho: comprar a passagem, imprimir, fazer check-in, dormir... Essa parte nem tanto. O livro é na verdade uma longa missiva para a ex-esposa, também jornalista, sua ex-chefe, para quem ele narra sua viagem e o que aconteceu antes dela, incluindo o relacionamento dos dois e o trabalho - o ex-casal trabalhava junto.

Como todo ex-casal, o narrador sempre trata de dar umas alfinetadas em Eloísa - o nome da ex. "Como serão os aeroportos daqui a uns 20 anos, quando nós, melhor, quando eu estiver velho? (Esqueci que mulheres como você não envelhecem)".

Ou­tro momento humorístico é quando ele compara Eloísa a um sabão em pó: "aquele que lava mais branco, uma Suíça em forma de gente". É que Eloísa é assessora de político, daquelas que consegue limpar imagem até de cara mais sujo do que pau de galinheiro.

Homem com toda pinta de inseguro, nosso narrador enaltece a ex como se ela fosse uma dama de ferro, "bonita, charmosa, elegante. (...) sono conquistado graças à dose extra de Clonazepam, (...) air bags químicos que absorvem tantos impactos".

Bom, nem tão de ferro assim. Mas o narrador é um cara que parece arrependido de ter se bandeado para o lado da politicagem, da jogatina - não que todo assessor de político seja assim - pois ele era um jornalista de reputação ilibada e salário baixo antes de conhecer Eloísa. O fato é que se bandeou e agora foge do passado, do presente, do futuro.

As lembranças de outras viagem durante a atual viagem-fuga desse homem solitário quarentão recorda tempos que os de 20 não sabem nem como é. Tipo levar uma máquina fotográfica analógica com um filme de rolo de 60 poses para passar 30 dias, ou seja, só é permitido ao casal de turistas tirar duas fotos diariamente e ainda assim nem saber se vão ficar boas. Só quando voltarem da viagem.

Na verdade, nosso incrédulo narrador acha que as gerações futuras não terão saco nem de guardar fotografias em álbuns. "Não ficarão nem co­mo registro de época (...) a ausência delas é que marcará uma época onde não haverá passado (...), em que fotos servirão apenas para lembrar do ato de se bater uma foto."

Nosso narrador-viajante se sente como um personagem de jogo eletrônico 3D, colocado em um mundo de mentirinha onde não conhece ninguém e ninguém o conhece. Ele parece aquele meme de John Travolta em "Pulp Fiction" que anda circulando na internet.

Nós bem sabemos o que uma viagem de mais de sete meses pode fazer por nós. Uma rebobinada na vida em certos momentos, uma boa amnésia dela também cai bem, e oscilamos entre esses dois momentos. Esquecemos para depois lembrarmos quem somos e termos absoluta certeza disso. Não precisa nem ser por tanto tempo nem para tão longe. Qualquer pequena viagem pode fazer muito por nós. Até mesmo aquela que fazemos sem sair do lugar, através de um bom livro.

SAIBA MAIS

AUTOR - Fernando Molica já teve dois de seus livros lançados na Alemanha; foi, por duas vezes, finalista do Prêmio Jabuti; é jornalista e assina uma coluna diária no jornal carioca O Dia.

SERVIÇO

"Uma selfie com Lenin", de Fernando Molica
Editora: Record (112 páginas)
Preço médio: R$ 29,90


O despertar do marimbondo

separador Por Fernando Molica em 30 de março de 2016 | Link | Comentários (0)

Às vésperas de completar 86 anos, o ex-quase tudo até que dormiu bem, mas, ao despertar, sentiu-se desconfortável, como se não reconhecesse o próprio quarto. "Onde estou? Que cama é essa? Será que vim finalmente conhecer Macapá?", perguntou para sua filha e herdeira política. Já desconfiada do que poderia ocorrer naquela manhã, ela resolvera passar a noite ao lado do pai.

"Não, pai, o senhor está na casa de sempre, e continua sem pôr os pés no Amapá, imagine se, depois de tanto tempo de vida pública, o senhor fosse obrigado a ir até aquele fim de mundo. Em matéria de lonjuras, já nos basta o Maranhão, onde estamos", respondeu.

Ela não disse, mas sabia a razão da estranheza. O 30 de março de 2016 era um daqueles poucos dias na vida do pai em que ele não acordava abraçado ao poder - uma relação iniciada aos 25 anos de idade, quando assumira uma cadeira de deputado federal. Desde então estabelecera com governos e seus ocupantes uma relação absoluta, como seu corpo e sua mente tivessem sido incorporados às colunas dos palácios.

O desembarque ocorrido na véspera representava um daqueles poucos hiatos, recuo estratégico, momento em que o saltador vai ao fundo para potencializar o salto. Foi assim que fizera em 1984, quando, depois de servir à ditadura por quase 20 anos, decidira romper com os antigos aliados - uma reviravolta que o levaria à Presidência da República.

Aos poucos, o velho político se recompôs. Ainda na cama, tomou um gole de suco de mangaba, mordiscou o aipim cozido. Olhou para filha, acarinhou sua mão e decidiu entrar logo em atividade.

"Roseana, não posso me furtar às minhas responsabilidades. Ligue por favor pra todo mundo do partido, todos devem ter acordado muito mal também, alguns até nem devem ter dormido, nem o Michel, que armou essa confusão toda. Preciso lembrá-los de que isso não vai durar muito tempo. Daqui a pouco a gente está de volta", sentenciou, enquanto esboçava um leve sorriso. O velho marimbondo não perdera o ferrão.


Literatura e política

separador Por Fernando Molica em 28 de março de 2016 | Link | Comentários (0)

Reportagem do 'Correio Braziliense' escrita por Nahima Maciel e publicada no domingo trata de livros que abordam a situação política do país. Entre eles, 'Uma selfie com Lenin':

Literatura que reflete sobre o Brasil de hoje é resposta de escritores

Em romances contemporâneos, a política também ganha destaque


É raro a literatura refletir tão rapidamente sobre a conjuntura política e gerar imediatamente bons produtos, mas aconteceu. As manifestações de 2013 e 2014, os escândalos de corrupção e como a mídia lida com o poder são temas de dois romances recém-lançados.

Fernando Molica faz questão de explicar que Uma selfie com Lenin não trata diretamente da situação política do país, mas foi influenciado por ela. "A vida dele se mistura com temas mais tradicionais, como a corrupção, e com outros mais recentes, como as manifestações de 2013 e 2014. Na época, assim como acontece agora, é difícil pensar que alguém deixe de ser influenciado por questões mais gerais. Quase todos somos, de um jeito ou de outro, influenciados pelos fatos tão amplos que explodem todos os dias. O personagem não escapou disso", explica. Problemas profissionais, éticos e amorosos rondam o jornalista que parte em uma viagem e escreve uma carta à ex-namorada e ex-chefe. Foi servindo a políticos que o personagem conseguiu algum sucesso, assim como um certo fardo ético.

Molica tem 55 anos e acompanhou todos os momentos políticos mais importantes do país nas últimas décadas, mas não lembra de uma situação tão grave quanto agora, com tanta radicalização e intolerância. "Nem na Anistia, no Riocentro, nas Diretas Já, no segundo turno entre Collor e Lula", garante. "O resultado apertado da eleição de 2014, a roubalheira revelada pela Lava Jato, os excessos cometidos pelo juiz Sérgio Moro e oportunismo de políticos e de outros setores da sociedade parecem ter liberado uma raiva que estava represada. É assustador que o país tenha se transformado em um palco de guerra de torcidas, voltamos à lógica do Ame-o ou Deixe-o da ditadura. Democracia pressupõe convivência dos contrários, aceitação das diferenças".

Para André de Leones, os acontecimentos recentes e da última década alimentam desencanto, medo e impotência. Ele acredita que a resposta da literatura a essa situação nem seja tão rápida assim. "Pelo contrário. Convivemos há mais de uma década não só com escândalos como o do mensalão, mas também com uma crescente radicalização das posições políticas e ideológicas Creio que os autores tiveram bastante tempo para perceber esses fenômenos e refletir sobre eles, cada qual a seu modo", diz.

Em Abaixo do paraíso, quinto romance do autor, o protagonista é uma espécie de faz tudo para políticos do interior de Goiás. E faz tudo aqui envolve, principalmente, atividades ilícitas. Cristiano é um perdido, foragido, mas que sabe de muita coisa. O personagem encontra, segundo o autor, muitas correspondências no mundo real. "Vejo esse tipo de tarefeiro voejando ao redor dos políticos desde que me entendo por gente. Eles são um sintoma de como a política brasileira opera mais nas sombras e no submundo do que às claras, de como ela é viciada e violenta", explica Leones.

Que horas ela vai? - O diário da agonia de Dilma, de Guilherme Fiúza, e Impasses da democracia no Brasil, de Leonardo Avritzer, e propõem pílulas de humor e reflexão sobre a situação política brasileira. No primeiro, Fiúza pontua momentos do governo de Dilma Rousseff com comentários ácidos e engraçados. O segundo questiona a maneira de fazer política hoje sem se filiar a ideias de direita ou esquerda.


Uma selfie com Lenin
De Fernando Molica. Record, 112 páginas. R4 29,90

Abaixo do paraíso
De André de Leones. Rocco, 256 páginas. R$ 29,50

Que horas ela vai? - O diário da agonia de Dilma
De Guilherme Fiúza.Record, 96 páginas. R$ 24,90

Impasses da democracia no Brasil
De Leonardo Avitzer. Civilização Brasileira, 154 páginas. R$ 29,90


Uma história que vem de longe

separador Por Fernando Molica em 28 de março de 2016 | Link | Comentários (0)

A lista com nomes de 316 políticos de 24 partidos que teriam recebido dinheiro da Odebrecht serve para reiterar o quanto estão institucionalizadas as relações entre política e empresas. Uma história bem antiga. No livro 'Estranhas catedrais -- As empreiteiras brasileiras e a ditadura civil-militar', Pedro Henrique Pedreira Campos mostra como a ditadura foi generosa com organizações como a... Odebrecht.

Campos conta que, em 1969, o general-presidente Costa e Silva abriu caminho para as empreiteiras nacionais ao baixar decreto que praticamente impedia a contratação, pelo governo, de empresas de engenharia estrangeiras. Mas a festa não começou com os militares. No livro 'Minha razão de viver', Samuel Wainer, fundador da 'Última Hora', aliado de Getúlio Vargas e João Goulart, afirma que, na década de 1950, o empreiteiro era "uma figura essencial aos interessados em decifrar os segredos do jogo do poder no Brasil".

Todo mundo tem o direito de ficar escandalizado com as negociatas reveladas pela Lava Jato, mas ninguém pode dizer que a safadeza foi instituída pelos governos petistas. Não é absurdo admitir que a roubalheira tenha aumentado nos últimos anos, mas a lista da Odebrecht mostra que o problema é muito mais grave e, para solucioná-lo, não basta investigar e punir os atuais detentores do poder -- a menos que se queira apenas estabelecer uma espécie de monopólio do direito de roubar. Neste universo, até santos recebem propina, como revelou planilha da empreiteira relacionada a obra do governo paulista.

O fundamental é quebrar a lógica que, há décadas, tolera a promiscuidade entre negócios públicos e privados, esquema que ganhou impulso extra com o financiamento das caríssimas campanhas eleitorais. Não dá pra achar razoável que apenas um grupo privado tenha, em 2014, doado R$ 325 milhões para diferentes candidatos e partidos. O sistema funcionava de maneira tão escancarada que as mesmas empresas doavam para candidatos adversários entre si -- o importante era garantir a boa vontade de quem viesse a ser eleito.

O caráter generalizado da corrupção não deve servir para amenizar responsabilidades. Os que participaram dos esquemas, corruptores ou corrompidos, precisam ser punidos. A polícia, o Ministério Público e a Justiça têm que, dentro da lei e sem discriminar ou favorecer qualquer grupo, fazer seu trabalho. Uma tarefa que, se bem conduzida, permitirá que nós, cidadãos, possamos separar política de atividades criminosas, e voltemos a discutir propostas de governo que atendam melhor aos interesses da sociedade.

(Estação Carioca, O DIA, 28/3)


Uma selfie com Lenin

separador Por Fernando Molica em 24 de março de 2016 | Link | Comentários (0)

"Acordei com o dia claro, envolto em lençóis úmidos, manchados pelo sangue que saíra da minha perna. Doía um pouco. Levantei, catei as roupas no chão, joguei tudo no boxe e tive, enfim, coragem de me ver no espelho. Eu envelhecera, Eloísa. Ao revelar o caso com um outro filho da puta da assessoria, ao deixar a taça sobre a pia, ao beijar de leve minha boca e ao sair de casa, Amanda sancionara a minha velhice. Ela, durante aqueles poucos meses, mentira para mim, dissera que eu era jovem. Isso, não com palavras, mas com sua presença, com seu corpo, com seu gozo. Ela retirara cabelos brancos de minha cabeça, gordura de minha barriga, uma ou outra dobra do meu pescoço. Durante todo aquele tempo, eu só me via nela, me achava contaminado por ela. Ao largar a taça, ao dar o selinho, ao sair e fechar a porta, ela quebrou a magia, me devolveu à condição de abóbora. Mais do que plantar um chifre na testa, ela me esfregou minha própria idade na cara."

(Trecho de 'Uma selfie com Lenin' reproduzido na quarta capa do livro. Lançamento no dia 5 de abril, a partir das 19h, na Livraria Travessa de Botafogo).


Acender a luz

separador Por Fernando Molica em 24 de março de 2016 | Link | Comentários (0)

Pegando emprestado um bordão alheio, vale dizer: calma, gente. Exigir o respeito à Constituição, às regras que servem de garantia a todos nós, não significa defender ladrões, nem falta de caráter ou de pudor. Não podemos cair na lógica do linchamento, na defesa do bandido bom é bandido morto. Qualquer um de nós pode ser a próxima vítima do arbítrio, do guarda da esquina.

É absurdo pensar que a legislação brasileira não tenha instrumentos suficientes para investigar e punir. Não se pode achar que a tradicional tolerância da polícia, do MP e do Judiciário com crimes cometidos por poderosos é um problema das leis. Não, é fruto da cumplicidade de encarregados das investigações, aqueles que faziam questão de ignorar tantas evidências.

A apuração da roubalheira como a que jorrava da Petrobras é fundamental, a Lava Jato tem um papel até didático ao acabar com o me-engana-que-eu-gosto que embalava os pesados esquemas de financiamento de campanhas, safadeza de um modo geral ancorada na retribuição de favores prestados e/ou na promessa de grandes negócios.

A legislação brasileira - que inclui a delação premiada e o uso de escutas telefônicas - dá muitos poderes aos investigadores. São tantos os poderes que é preciso ter muito cuidado com sua aplicação. Insisto: no Mensalão não houve uma prisão preventiva sequer, e não se pode falar que houve impunidade ou proteção a petistas e aliados.

É preciso ter tranquilidade, parar com essa infantilidade de achar que os problemas serão resolvidos por militares, por procuradores que se acham ungidos pelo Senhor ou por um juiz que, por ter passado num concurso público, se considera acima das leis. Não somos crianças para acordar papai e mamãe cada vez que sonhamos com um bicho papão. Em caso de pesadelo, o melhor é acender a luz, não cultuar as trevas.


O dia em que Jango foi xingado pelos gaúchos

separador Por Fernando Molica em 23 de março de 2016 | Link | Comentários (0)

Em 1994, repórter especial da 'Folha', fui escalado para ser o carrapato de Brizola que, pela segunda vez, tentava chegar à Presidência. Eu tinha que segui-lo em praticamente todas as suas viagens pelo país.

Foi uma campanha complicada. Desgastado por conta de sua atitude no processo de impeachment de Collor - ao contrário de outros líderes oposicionistas, ele nunca demonstrou entusiasmo pela retirada do presidente -, Brizola enfrentava o entusiasmo dos petistas ainda inconformados com a derrota de Lula em 1989 e os efeitos da derrubada da inflação pelo Plano Real, principal arma da campanha de FHC.

O velho líder trabalhista, que chegaria em quinto lugar na disputa, perdera força, suas viagens eram quase todas para o Rio Grande do Sul ou para cidades em que havia forte presença de gaúchos. Era constrangedor testemunhar como seu prestígio havia se deteriorado em apenas cinco anos - na eleição anterior, ele quase alcançara o segundo turno.

Muitas vezes, por falta de voos comerciais para algumas localidades, eu pegava carona no jatinho usado pelo Brizola. Um negócio meio complicado, mas que se revelaria muito interessante.

Brizola adorava falar no 'fio da história', tinha a percepção de que representava um pedaço daquele interminável novelo de lutas. Sentia-se responsável por um bastão que já fora empunhado por Vargas e Jango. E ele, para minha sorte, não se cansava de contar histórias. Já na sala de embarque, o homem que atraíra ódios e amores de tanta gente, começa a falar. Uma fala apaixonada, sedutora, vibrante - era como se ele, caudilho, reunisse seus homens em torno de uma fogueira para revelar segredos.

E foi numa dessas vezes que falou sobre a Campanha da Legalidade, ou, simplesmente, Legalidade - como Brizola preferia definir um dos mais espetaculares momentos da história republicana, o período em que ele, em 1961, governador do Rio Grande do Sul, se entrincheirou no Palácio Piratini, distribuiu armas para civis e usou um microfone de rádio para resistir a um golpe de estado, a resistência dos militares em permitir a posse de Jango na Presidência.

Num dos voos, Brizola narrou o balde de água fria que representou a decisão de Jango de aceitar a solução parlamentarista. Ele e aquelas milhares de pessoas reunidas diante do palácio sentiram-se traídos. Contou que, ao chegar a Porto Alegre, o ainda vice-presidente foi até uma das sacadas do Palácio Piratini para saudar o povo - e acabou sendo vaiado e xingado.

"Foi chamado de covarde", relatou Brizola, gesticulando e reforçando o peso do 'r' que, alongado, parecia disparar rajadas de indignação na memória do cunhado e ex-presidente. "Mulheres que haviam passado dias na praça tiravam suas calcinhas e as ofereciam para ele. Diziam 'Toma, é o que mereces, não honraste tuas calças'".

Naquela noite - me disse Brizola -, Jango não conseguiu dormir sozinho. Horas depois de ser enxovalhado, o futuro presidente, que assumiria um cargo destituído de muitos poderes, foi para o quarto do marido de sua irmã Neusa, para o quarto do governador do Rio Grande do Sul. E, lá, ao lado do cunhado, adormeceu chorando.



O 'petralha' Teori

separador Por Fernando Molica em 23 de março de 2016 | Link | Comentários (0)

Antes que chamem o Teori Zavascki de petralha, vale citar a lei 9.296, que trata das escutas. Há artigos que falam do sigilo e da destruição de gravações que não estejam relacionadas com o processo.

Art. 8° A interceptação de comunicação telefônica, de qualquer natureza, ocorrerá em autos apartados, apensados aos autos do inquérito policial ou do processo criminal, preservando-se o sigilo das diligências, gravações e transcrições respectivas.

Art. 9° A gravação que não interessar à prova será inutilizada por decisão judicial, durante o inquérito, a instrução processual ou após esta, em virtude de requerimento do Ministério Público ou da parte interessada.


Um país que não pode voltar

separador Por Fernando Molica em 23 de março de 2016 | Link | Comentários (0)

A frase "Quero meu país de volta", vista em atos contra Dilma e o PT, permite muitas interpretações. Como temos um histórico complicado na prestação de serviços públicos e grande parte de nossos políticos nunca se destacou pela honestidade, fica a dúvida sobre o que causa tamanha nostalgia. É preciso, portanto, ver que país é esse.

Começamos mal, levamos, depois de independentes, 66 anos para acabar com a escravidão. Até intelectuais como o escritor e deputado José de Alencar diziam que a Abolição teria efeitos terríveis na economia. Ele afirmou que "nossos costumes" e "índole generosa" impregnavam a escravidão de "brandura e solicitude". Depois da Abolição, muitos ex-proprietários de seres humanos exigiram ser indenizados -- queriam compensação pelo fim do que consideravam ser o país ideal.

Por conta da exigência de renda mínima para que alguém pudesse ser eleitor, o voto, em 1872, era privilégio de apenas 13% da populaçao. A universalidade só viria com a República, mas mulheres e analfabetos demoraram décadas para que fossem admitidos como eleitores. E olha que, na corrupta República Velha, o voto não era secreto, o que possibilitava incontáveis fraudes. Não dá pra ter saudades daquele país, nem daquele que o sucedeu, a ditadura do Estado Novo.

Depois de 1945, o país viveu sucessivas crises políticas que desaguaram no Golpe de 1964, fruto de bem-sucedida articulação entre militares, lideranças políticas e empresariais respaldada por quase todos os jornais. Quem diz sentir falta do regime militar deveria dar uma olhada nos números. O censo de 1980 apontou que a taxa de analfabetismo era de 25,5 % da população, índice que caiu para 13,6% em 2000 e chegou a 8,3% em 2013. O percentual ainda é muito alto, mas a redução, obra dos governos civis, tem que ser comemorada.

A expectativa de vida em 1980 era de 62,57 anos, pulou para 70,44 anos em 2000 e chegou a 75,2 anos em 2014. A mortalidade infantil, de 69,12 por mil nascidos vivos em 1980, despencou para 27,4 em 2000 e foi a 14 em 2012. Nossa desigualdade é absurda, mas, de acordo com índice Gini, caiu de 0,625 em 1977 para 0,522 em 2012 (em 1989, bateu 0,637). Derrubada pelo Plano Real, a inflação voltou a subir, mas os atuais 10% não se comparam aos 215% deixados pela ditadura em 1984.

É fundamental lutar por um Brasil menos corrupto, nada indica que a roubalheira tenha diminuído, é razoável admitir que tenha aumentado, mas não dá pra ter saudades de um país mais desigual, onde as pessoas morriam mais e mais cedo.

(Estação Carioca, O DIA, 21/3)


Cores do Brasil

separador Por Fernando Molica em 22 de março de 2016 | Link | Comentários (0)

Eu, que nunca gostei de comprar roupas e não tenho muita paciência para escolher o que vestir, passei a me obrigar a seguir uma espécie de dress code da crise política. Na hora de sair de casa, nada de verde ou amarelo, muito menos de vermelho (minhas camisas da Espanha, da Inglaterra e do Taiti começam a ficar com cheiro de mofo).

Como ressaltou ontem o Boechat, a radicalização fez com que fossem adotados nas ruas princípios de facções criminosas - vá tentar entrar de vermelho numa favela dominada pelo Terceiro Comando.

E tem gente que acha isso normal. Da mesma forma que muitos se orgulham em usar o princípio do linchamento - "Estuprador tem mais que morrer! Vai ter peninha de bandido?" - para justificar as pedaladas cometidas pela Justiça.


Belas crueldades

separador Por Fernando Molica em 19 de março de 2016 | Link | Comentários (0)

Hoje de madrugada, num desses irresistíveis botequins dos mais vagabundos, o velho homem de imprensa Leandro Resende, pouco antes de ser conduzido de forma coercitiva ao lar, cantarolou versos que estão entre os mais cruéis da história da humanidade. São os que fecham a belíssima 'Morrendo de saudade', de Nei Lopes e Wilson Moreira. Como diz o Boechat, tirem as crianças da sala:

A saudade é um punhal
Cravado até o final
No peito de quem ama

Foi o mote para lembrarmos de outras crueldades, como aquela que esparrama sangue e lágrimas em 'Rugas' (Nelson Cavaquinho, Augusto Garcez e Ari Monteiro):

Finjo-me alegre
Pro meu pranto ninguém ver.
Feliz aquele que sabe sofrer

"Feliz aquele que sabe sofrer" é bom demais, o drible que é aplicado no lugar-comum do feliz é quem sabe viver é algo absurdamente espetacular.
E aí, animados, voltamos para Nei Lopes, um dos mais importantes compositores de nossa música - portanto, da música mundial. No 'Samba do Irajá', ele dispara:

Sensação de na verdade
Não ter sido nem metade
Daquilo que você sonhou

Calma, nada de pular pela janela, nada de propor delação premiada, já vou terminar a maldade. Nos despedimos chamando de volta o Nelson Cavaquinho, que, com Alcides Caminha e Nourival Bahia, assina 'Notícia'. No samba, o narrador diz a um amigo que sabia que tinha perdido a jovem mulher para ele. E conta como fizera a descoberta.

Guardei até onde eu pude guardar
O cigarro deixado em meu quarto
É a marca que fumas
Confessa a verdade, não deves negar

Bom sábado a todos.


https://www.youtube.com/watch?v=xt-6aSUFCz0


É preciso baixar a bola

separador Por Fernando Molica em 19 de março de 2016 | Link | Comentários (0)

Um juiz, como qualquer cidadão, tem todo o direito de detestar o PT, o Lula e a Dilma - há muitos motivos para não se gostar deles. Mas é absurdo que um magistrado que divulga publicamente seu ódio aos petistas não tenha se declarado suspeito, incapaz, portanto, de analisar o pedido de liminar que sustou a posse do Lula. Isto demonstra a gravidade da situação que estamos vivendo.

O pega-mata-come que vem de Curitiba e as decisões facilmente previsíveis do juiz Moro acabaram criando uma espécie de efeito-cascata capaz de gerar situações como a do seu colega de Brasília. Juiz não pode ter lado, tem que ser imparcial, ouvir a acusação e a defesa e, então, decidir - eu, por exemplo, jamais poderia apitar um jogo do Botafogo ou julgar um desfile da Mangueira.

Ao nota divulgada domingo pelo Moro foi mais que um gesto de agradecimento, foi um termo de compromisso, um 'tamu junto', um 'é nóis'. Ali, ele assumiu um lado, o lado dos milhões de brasileiros que exerceram seu direito de protestar contra o governo e reivindicar o impeachment. E juiz, repito, não pode ter lado.

O que está em jogo - insisto, repito - não é o PT, o Lula e a Dilma, eles que tratem de se defender. O que está em jogo é o futuro de todos nós. O que ocorre agora contra os petistas pode, amanhã, se virar contra o PSDB ou contra qualquer um, qualquer cidadão suspeito ou acusado de cometer um crime. A nomeação do Lula foi também para blindá-lo? É claro que foi. Da mesma forma que, em 2002, oito dias antes do fim do seu mandato, FHC tratou de se blindar - e assinou lei que garantia foro privilegiado para ex-autoridades. Se o STF, três anos depois, não decretasse a inconstitucionalidade da lei, FHC, como ex-presidente, só poderia ser julgado pelo próprio STF. E ninguém foi pra rua protestar.

É preciso baixar a bola desse país. Na minha adulta, nunca vivenciei um momento tão tenso e tão delicado. Nem na transição da ditadura para a democracia, nem quando a direita terrorista explodia bancas de jornais, nem nas Diretas Já, nem na posse do Sarney, nem na disputa Collor-Lula, nem no impeachment do Caçador de Marajás. Não é possível que políticos sérios e experientes da oposição, pessoas que lutaram contra a ditadura, não vejam o risco que estamos correndo, não dá pra apostar no conflito, na emoção, no confronto. E boa parte da oposição, desde a derrota de 2014, só faz apostar no confronto, no acirramento das paixões.

Há pouco tempo tivemos o caso Mensalão, petistas e aliados foram para a cadeia, a atuação do relator Joaquim Barbosa foi criticada por muita gente, mas não houve nada parecido como o que há agora, esse desespero que estamos vivendo agora. A TV acabou de mostrar manifestos de juízes em solidariedade ao Moro - os atos pareciam reuniões de torcida organizada, havia gritos, palavras de ordem. No fim de semana passada houve manifestos de promotores/procuradores contra e favor do rumo tomado pela Lava Jato. Defensores públicos também protestaram contra excessos em procedimentos. Caramba, é isso mesmo? Vamos ter que nos acostumar com esse clima de guerra, de disputa, de divisões entre aqueles encarregados de administrar a Justiça?

A independência do Poder Judiciário não pode ser confundida com soberania. Juízes não são ditadores, o Judiciário não está acima de nenhum poder, nem poderia - afinal de contas, é o único que não é eleito, seus membros não têm a legitimidade do voto (nos EUA há eleições para juízes e promotores de primeira instância). Juízes e procuradores/promotores não podem se achar superiores apenas porque passaram em concursos públicos. Eles também não estão acima da lei.

Não podemos deixar que isso tudo vire briga de torcida. Democracia pressupõe convivência com o contrário. Na sociedade, torcedores do Botafogo têm que ficar ao lado dos que torcem pelo Flamengo, Vasco e Fluminense. O país não é o Maracanã ou o Itaquerão, não dá pra esperar que apareça um cadáver - do jeito que estamos indo, um cadáver não vai demorar para aparecer. É preciso baixar a bola antes que seja tarde demais.


Pelo fim do abuso

separador Por Fernando Molica em 19 de março de 2016 | Link | Comentários (0)

As mais altas instâncias da Justiça brasileira têm a obrigação de impedir a continuação dos abusos que, a pretexto de punir empresários e políticos envolvidos em graves casos de corrupção -- tarefa necessária e fundamental --, atropelam direitos dos cidadãos que foram duramente conquistados.

A gravação e a divulgação de conversa entre a presidente da República e um ex-presidente seriam justificáveis apenas diante da perspectiva de crime grave. Mas não se pode aceitar o vazamento de diálogos que não fazem referência a qualquer conluio. A lei que prevê o grampo -- 9.296/1996 -- determina que "a gravação que não interessar à prova será inutilizada por decisão judicial". Diz também que a interceptação não será admitida se "a prova puder ser feita por outros meios disponíveis".

Ausência de indícios

O próprio juiz Sérgio Moro admitiu que não havia "nenhum indício nos diálogos ou fora deles" de "fato procedido de forma inapropriada e, em alguns casos, sequer há informação se a intenção em influenciar ou obter intervenção chegou a ser efetivada". O que então justifica a divulgação das conversas? Quem admite este tipo de pedalada não poderá reclamar se tiver conversas íntimas -- ou as de seus filhos -- divulgadas com autorização da Justiça. Ninguém está livre de ser considerado suspeito, nenhum de nós está livre de ter conversas grampeadas. Mas, desde esta quarta-feira, todos, mesmo que venhamos a ser inocentados, poderemos ter nossa intimidade exposta.

Delações não voluntárias

Quem acha que vale tudo para encarcerar um suspeito não terá o direito de reclamar diante de uma prisão injusta, terá que se calar se for vítima de violência policial. Da mesma forma, prisões preventivas não poderiam ser utilizadas como mecanismo de pressão. A Lei 12.850/2013 define que as colaborações premiadas têm que ser feitas de forma voluntária. Como dizer que é voluntária a opção de alguém que, sem julgamento, é privado da liberdade durante meses? A troca da delação pelo fim da prisão remete ao que ocorria nos porões da ditadura. No processo do Mensalão, ninguém foi preso antes do julgamento -- e não se pode falar que réus não foram punidos.

O comportamento atual da Justiça parece destinado a pressionar o governo e a aumentar a tensão entre brasileiros que, de adversários políticos, passaram a se considerar inimigos. A intolerância estimulada também por outros setores da sociedade ameaça a democracia, a convivência entre os que pensam diferente. Não se pode admitir que um processo seja conduzido com o grau de animosidade típico dos linchamentos. Não é razoável que um juiz solte nota de agradecimento a manifestantes -- juízes não podem correr para a galera.

Risco de conflitos

Domingo, milhões de brasileiros foram às ruas exercer, em paz, o direito de protestar contra casos evidentes de roubalheira. O governo teve o juízo de barrar iniciativas dos que queriam ir aos locais dos atos públicos para provocar os manifestantes. Amanhã, outros brasileiros, os que lutam contra o impeachment, prometem ir às ruas -- e a rivalidade estimulada por quem deveria garantir a ordem põe em risco a segurança de todos.
Longe de querer defender qualquer político ou empresário acusado de crimes: que todos sejam investigados e punidos em caso de comprovação de culpa. A Lava Jato tem o grande mérito de desnudar a safadeza e hipocrisia que caracterizam as relações entre partidos e empresas. Por sua relevância, não pode ser destruída pelos que se julgam superiores à lei. Como ressaltou o advogado Sérgio Batalha, em artigo publicado no DIA, ninguém está acima da lei, nem mesmo juízes ou promotores.

O DIA, 17/3/16


O menino baiano de Praga

separador Por Fernando Molica em 14 de março de 2016 | Link | Comentários (0)

Meu amigo adorava me chamar de complicado, de enrolado, dizia que eu sempre dava um jeito de deixar tudo meio confuso. Atribuía isso, em parte, à minha condição de torcedor do Botafogo. Ele exibia a tradicional marra rubro-negra, a falsa certeza do vencer-vencer-vencer. Eu, filho de mineiro e consciente dos infindáveis mistérios e possibilidades que há entre e o branco e o preto, sempre fui mais desconfiado.

Ele ressaltava minha enrolação, mas não conseguia explicar a própria origem. Isto, mesmo depois de tantos anos -- 37! -- de convivência, de tantas festas, de tantos bares, e de tantas cervejas (e vinhos, e uísques).

Ri muito quando, no ano passado, o jornal que ele comandava -- o 'Correio', de Salvador --, o chamou de carioca. O sujeito nasceu num país, a Tchecoslováquia, que nem existe mais. Culpa da simpatia que o pai, o também jornalista Flávio Costa, nutria pelo socialismo. No meio de uma viagem em direção a Moscou tinha uma Praga no meio do caminho -- e foi por lá que a Ieda, baiana como o marido, pariu o Sérgio.

Segundo ele, sua primeira certidão de nascimento registrava a chegada ao mundo de mais um Sergei. Ainda no primeiro dia de aula na Escola de Comunicação da UFRJ, ele descreveu o documento, que saudava mais um camarada que ajudaria a construir uma pátria sem amos, a tal da internacional.

Eu achava que o primeiro endereço brasileiro do meu amigo ficava em Salvador; outro dia me disseram que não, que sua família veio inicialmente para o Rio e, anos depois, mudou-se para a Bahia, pouso que seria trocado por Paris e pela Cidade do México. Depois, ele voltou para cá e, há sete anos, para a capital baiana. Um lugar era pouco para quem sempre soube chegar, que virava local assim que pisava em uma nova terra.

Tarefa facilitada por sua rara qualidade de ouvir mais do que falar, de prestar atenção no outro, de se esforçar para compreender o que não entendia bem. Oráculos e gurus se mantêm ligados às mudanças, sabem como é perigoso ficar rodando em torno das próprias certezas. Ele, criativo, avesso ao óbvio, tinha sempre novos caminhos para sugerir, um jeito simples de descomplicar pessoas e situações.

Meu amigo sempre foi generoso -- nos elogios, na oferta de comida e bebida e na relação com a mulher, com os filhos, amigos e colegas. Roubando o mote de reportagem do 'Correio' e citando -- só pelo Sérgio eu faço isso -- o hino do Flamengo, friso que ele tinha prazer em nos ver brilhar. Meu amigo morreu há oito dias, e tudo ficou mais triste e complicado.

Estação Carioca, O DIA, 14/3.


Freio de arrumação na Lava Jato

separador Por Fernando Molica em 10 de março de 2016 | Link | Comentários (0)

A desnecessária e mesmo abusiva maneira como Lula foi levado à Polícia Federal deveria servir como um alerta para o pessoal da Lava Jato. O episódio evidenciou excessos volta e meia cometidos na mais importante e ampla investigação sobre desvios de dinheiro público jamais realizada no país. Foi como aquele drible a mais que pune atacantes que, ao contrário do Fio Maravilha, não têm humildade na hora do gol.

A Lava Jato é tão fundamental que os responsáveis pela operação deveriam, até para preservá-la, aproveitar a deixa para acabar com rotinas que geram tantos questionamentos. A manutenção na cadeia, por prazo indefinido e antes do julgamento, de dezenas de réus, lembra a antiga prisão para averiguações. A lei deixa claro que prisões preventivas -- e, segundo reportagem do DIA, 64 delas foram decretadas na Lava Jato -- devem ser excepcionais, não podem servir para pressionar investigados.

A relação direta entre acordos de delação premiada e a libertação de presos permite admitir que a perspectiva de ficar meses a fio na cadeia tem sido o grande estimulador das colaborações. Uma lógica que, guardadas as necessárias proporções, remete aos tempos em que suspeitos eram pressionados a dar informações em troca do fim do suplício físico a que eram submetidos. O processo do Mensalão, que também teve como alvo políticos ligados ao governo petista, não recorreu a prisões preventivas -- e não se pode dizer que tenha havido impunidade no caso. Mais: abusos no processo abrem espaço para futuras anulações, por tribunais superiores, de condenações decididas na primeira instância.

Seria importante também que as investigações não se limitassem aos crimes cometidos depois da chegada do PT ao Palácio do Planalto. É razoável supor que a roubalheira tenha aumentado nos últimos anos, mas seria risível dizer que, antes, empreiteiros e políticos se comportavam como freiras daquele convento visto da sede da Petrobras. E vale explicar por que, depois de tantos depoimentos e tantas buscas em empresas privadas, não foram encontradas e divulgadas pistas de malfeitos cometidos por governos estaduais.

Não dá pra achar que o toma lá-dá cá ocorreu apenas no âmbito federal e que o financiamento premiado de campanhas eleitorais tenha sido monopólio de um grupo político. Mesmo que esses outros crimes não sejam de competência da Justiça Federal, seria importante revelar o que foi descoberto -- o silêncio representa um improvável atestado de honestidade a todos os governadores e prefeitos do país.

Estação Carioca, O DIA, 07/3.


Dunga é a cara do Brasil

separador Por Fernando Molica em 03 de março de 2016 | Link | Comentários (1)

A não convocação do Jefferson apenas reforça o caráter mesquinho do Dunga, que agora se vinga do goleiro, que reclamara - de maneira educada, mas reclamara - do fato de ter sido barrado. Na Copa de 2010, torci contra a seleção brasileira por conta do Dunga - temia as consequências, em caso de vitória, daquele discurso tosco, antigo, machista, excludente, violento, arrogante, rancoroso, recheado de patriotadas.

Dunga é movido pelo ódio, pela raiva, pelo desejo de se vingar de todos que, de alguma forma, o criticaram. Em 1994, ao levantar a taça, Dunga - que jogou um bolão naquela Copa - não comemorava, apenas xingava, reclamava, urrava.

Goleada em 2014 pela modernidade representada pela Alemanha, a seleção, mais uma vez, foi se refugiar no passado, no atraso - é a cara da CBF e dos sujeitos que mandam por lá. Mais: é a cara de um Brasil que não admite divergências, que só quer saber de verdades absolutas, de um país que não admite ouvir o outro. Um país que, como qualquer imbecil, tem apenas certezas.


Uma selfie com Lenin - apresentação

separador Por Fernando Molica em 03 de março de 2016 | Link | Comentários (0)

capaboa.jpg

Aí vai o texto de apresentação de 'Uma selfie com Lenin', escrito por Paulo Roberto Tonani do Patrocínio para a orelha do livro.

Em 'Uma selfie com Lenin', acompanhamos a trajetória conflitante de um jornalista que vê seus ideais de juventude serem corroídos pelo galopante avanço de uma estrutura política baseada na corrupção. Diante da ruína de suas convicções, o personagem narra com humor, e certa dose de melancolia, sua trajetória profissional e os rumos que trilhou.

O romance, escrito em formato de carta redigida durante um voo internacional, ambiciona realizar o balanço de toda uma vida. Ao escolher este formato, o autor lança mão da estrutura de uma correspondência íntima, próxima da confissão, que leva o leitor a aproximar-se das contradições do personagem. Afinal, o romance trata de um acerto de contas, da necessidade de narrar e dar sentido a decisões e escolhas dos caminhos previamente percorridos pelo narrador.

O destinatário é o próprio leitor, que recebe em mãos uma narrativa que refaz o retrato do Brasil entre fins do século XX e início do XXI. 'Uma selfie com Lenin' oferece, a começar pelo título, um exame das muitas transformações, e contradições, que marcam o mundo contemporâneo. A selfie, índice máximo do individualismo promovido pelas novas redes sociais, é aqui realizada pelo narrador desiludido, buscando registrar seu encontro com um monumento em homenagem a um igualitária, Lenin.

É com este olhar irônico que Fernando Molica, autor do impactante romance 'Notícias do Mirandão', entre outros, constrói uma narrativa ficcional que descreve o vertiginoso declínio de determinados ideários políticos e a ausência de novas alternativas.


O que pode e o que não pode

separador Por Fernando Molica em 03 de março de 2016 | Link | Comentários (0)

Mestre Janio de Freitas costuma dizer que, em textos jornalísticos, a única palavra que ninguém pode esquecer de escrever é "não". O motivo é óbvio, sua ausência modificaria todo o sentido da frase. Além de anotar a lição, criei minha lista de palavras que devem ficar longe de uma reportagem: implico com "guloseima" -- substantivo que, ironia, só existe nas páginas de jornais. Duvido que algum falante da língua portuguesa tenha, alguma vez, pronunciado esta combinação de sílabas.

Tenho arrepios também com o uso do "verdadeiro(a)": "Verdadeira praça de guerra", "Verdadeiro caos". Em tese, jornais só publicam verdades; se a praça de guerra e o caos fossem de mentirinha, nem sequer seriam assunto jornalístico. O "verdadeiro(a)" não passa de uma muleta de estilo, algo redundante. Da mesma forma, grudar o adjetivo "bárbaro" à palavra "assassinato" pressupõe a existência de homicídios fofos e delicados.

No alto da minha lista de proibições está o "pode", palavrinha desprovida de qualquer caráter. O motivo da implicância é porque, afinal, tudo pode. É improvável, mas o Botafogo pode contratar o Messi, o Bolsonaro pode passar a defender direitos civis de homossexuais, a Dilma pode ganhar o Nobel de Economia, o Eduardo Cunha pode virar monge beneditino, o PSDB pode passar a se preocupar mais com a eleição de 2018 do que com a de 2014. E, por que não?, a Sophie Charlotte pode me ligar e começar a cantar 'Sua estupidez' (fique tranquilo, Daniel de Oliveira, eu desligaria o telefone).

Insisto: nada disso deverá acontecer, mas não há lei que impeça a ocorrência de tais fatos. Daí que a palavra "pode" carrega uma imprecisão incompatível com qualquer tentativa de objetividade. Isto vale para o relato jornalístico ("Fulano pode ter roubado"; "Beltrano pode assumir tal ministério") e para a esfera judicial.

O "pode" é relevante no processo de apuração de uma reportagem ou de um crime, é até essencial na formulação de hipóteses que, depois de muito suor, serão ou não comprovadas. Seria quase impossível desvendar um fato sem elencar possibilidades ou probabilidades. Mas depois que tudo tiver sido apurado, o pode deve ser chutado pra bem longe.

A questão, portanto, é manter o "pode" em seu devido lugar. Com base no "pode", repórteres, policiais, promotores e namorados desconfiados de traição têm o direito ou o dever de investigar. O que não pode é embrulhar o "pode" em papel de presente e enviá-lo travestido de informação para o leitor ou espectador. Da mesma forma que ninguém deveria ser preso por conta de um crime que pode ou não ter cometido.

Estação Carioca, O DIA, 29/2.


O preconceito culposo

separador Por Fernando Molica em 03 de março de 2016 | Link | Comentários (0)

Dois episódios recentes levantaram acusações de racismo: o primeiro foi a exibição, no Big Brother Brasil, de utensílio usado para lavar louça que tinha a forma de um boneco negro com cabelo black power. A outra grita surgiu quando a loja Reserva exibiu em suas vitrines manequins pretos pendurados de cabeça para baixo. A imagem remeteu às fotografias de negros enforcados por racistas no sul dos Estados Unidos.

Seria irresponsável acusar o BBB e a loja de racismo. Não dá para sequer acreditar na intencionalidade de manifestações tão caricatas. Mas é impossível negar a insensibilidade de responsáveis pelo programa e pela loja. Uma atitude culposa, não dolosa, mas que reflete a dificuldade que muitos têm de se colocar no lugar do outro.

Há alguns anos, era aceitável usar o verbo "judiar" como sinônimo de maltratar. O dicionário de Evanildo Bechara chega a citar a frase "Ela judia com os pobres" -- usa a palavra "judia", que tem a mesma grafia que designa um judeu do sexo feminino. Aos poucos, e graças à mobilização de muita gente, ficou evidente o quanto de preconceito havia na utilização do verbo e de suas variantes. Há tempos que movimentos negros implicam, com toda a razão, contra o verbo "denegrir". Os jornais, por sua vez, já deveriam ter parado com essa história de "magia negra", expressão usada sempre de maneira pejorativa.

Exagero? Nada disso. Quem tem o direito de definir o que é aceitável ou não são as vítimas do preconceito. Um negro que, na infância, ouviu colegas dizer que ele tinha "cabelo de bombril" pode sim se sentir atingido pelo limpador de panelas exibido no BBB. O mesmo vale para a imagem dos manequins pendurados -- quem acha isso um exagero deve procurar na internet as fotos que registram os tais enforcamentos. Pode fazer isso ao som de Billie Holiday cantando 'Strange Fruit' ('Fruta estranha'), de Abel Meeropol, canção que narra um desses linchamentos ("Árvores do sul produzem uma fruta estranha/ Sangue nas folhas e sangue nas raízes/Corpos negros balançando na brisa do sul").

Os casos do programa e da loja ocorreram porque muita gente ainda não atentou para a crueldade de muitos gestos e palavras incorporados ao cotidiano de uma sociedade que ainda convive com tantas marcas da escravidão. Uma sociedade que não aprendeu que o lugar do negro -- e o da mulher, o do homossexual, de qualquer discriminado -- é o lugar de todo mundo, o lugar de todos nós.


Um desfile que nunca termina

separador Por Fernando Molica em 03 de março de 2016 | Link | Comentários (0)

O enredo que gostaria de ver no Sambódromo seria uma celebração aos desfiles, cortejos que nunca terminam. Uma homenagem como a que a Vila Isabel fez em 1984, quando levou para a Sapucaí um belo samba do Martinho da Vila que dava glórias aos trabalhadores do samba: escultores,pintores, bordadeiras, carpinteiros, vidraceiros, costureiras, figurinistas, desenhista e artesãos, "gente empenhada a construir a ilusão".

Martinho frisava que tudo se acabava na Quarta-Feira de Cinzas. Já Luiz Antonio Simas e Fábio Fabato pegaram o mote e batizaram seu ótimo livro sobre enredos de 'Pra tudo começar na quinta-feira' -- uma forma de ressaltar que a preparação dos desfiles começa assim que termina um Carnaval. Com o devido pedido de licença aos três, eu apostaria na continuidade, num desfile que não tem começo nem fim, que faz parte de um mesmo todo. Afinal de contas, o processo é permanente, sem intervalo. Para reforçar este moto-contínuo, a comissão de frente da escola que traria o enredo vestiria as cores daquela que a antecedera na Avenida. Fantasias, alegorias e tripés reforçariam o tempo inteiro que cada escola é única em sua identidade, mas que faz parte um conjunto muito maior.

A divisão das alas mostraria as diversas etapas de preparação de um desfile, o detalhamento de um enredo, a escolha do samba, a apresentação dos protótipos de fantasias, a busca de grana, a elaboração dos carros alegóricos, o sufoco que é levá-los até o Sambódromo. O enredo falaria também dos torcedores, da gente que trabalha no entorno do Carnaval (vendedores de cerveja, de churrasquinho, de penduricalhos). A última ala ostentaria as cores da agremiação que viria em seguida, um jeito de convidá-la para a festa.

Tudo para reforçar que, adversárias na disputa pelo título, as escolas estão ligadas entre si -- e a todos que as admiram -- por elos simbólicos, peças fundamentais na construção do que somos. Uma corrente que vem de muito longe, que tem pontas perdidas no tempo, até hoje fincadas na África, na Europa, em tantos lugares, em todo o país. Corrente que não para de crescer e que nos liga aos nossos ancestrais mas que também nos remete a deuses, santos, caboclos e orixás. Força que emerge na nossa música, no nosso jeito de andar, de dançar, de celebrar, de encarar a vida. Uma história nada linear que não início nem fim, que planta hoje a semente que germinará no futuro e também no passado: o que ficou pra trás não morreu, vive e pode ser reinventado.

Estação Carioca, O DIA, 15/2.


A receita é Beth Carvalho

separador Por Fernando Molica em 03 de março de 2016 | Link | Comentários (0)

Na música 'Paratodos', Chico Buarque receita Dorival Caymmi e Jackson do Pandeiro contra fel, moléstia e crime. E, nesta Segunda de Carnaval, pegando carona no conselho, prescrevo: vá também de Beth Carvalho. Se não houver nenhum show à vista (houve um, ótimo, sábado retrasado no Vivo Rio), procure ouvir o CD que registra sua apresentação no Parque Madureira -- não há tristeza, desencanto e depressão capazes de resistir ao desfile de canções que contam tanto de nossa história, de nossas vidas, expectativas e, mesmo, desilusões.

O disco é aberto com um clássico daqueles de lavar, enxaguar, centrifugar e secar a alma do mais renitente ateu, o sambaço 'O show tem que continuar' (Arlindo Cruz, Luiz Carlos da Vila e Sombrinha). A voz de Beth, talvez afetada por uma internação hospitalar que durou cerca de um ano, já não é a mesma. Ela demonstra alguma dificuldade em alcançar certas notas graves, deficiência que poderia ser compensada por uma presença mais efetiva das cantoras que a acompanham no palco.

Mas, fiel seguidora de duas das maiores, gloriosas e belas instituições criadas pela humanidade -- o Botafogo e a Mangueira --, ela não perde o rebolado, acha o tom, o acorde e o som. Apesar dos problemas na coluna que a obrigam a cantar sentada a maior parte do tempo, Beth, no show, se levanta para ressaltar as belezas criadas por tantos e tantos compositores, pessoas que, mesmo diante do sufoco, renovam nosso amor pelo que temos de melhor -- nossa gente, lembrada na prece de 'Senhora rezadeira' (Dedé da Portela e Dida): "Reze pra que o nosso povo/ Viva sempre a liberdade/ E construa um mundo novo/ Cheio de felicidade."

Por falar em oração, o público deveria ficar de joelhos ao ouvir 'Tendência', de Dona Ivone Lara e Jorge Aragão ("Não é surpresa pra mim/ Você começou pelo fim/ Não me comove o pranto de quem é ruim"), samba que deve ter sido assobiado pelo Criador num passeio pelos jardins do Éden.

Aceite a dica. Não dá pra esquecer toda a dor da vida, a bandalheira, o descaso, a incompetência, a doença, o chute no traseiro, os tantos gols tomados aos 46 do segundo tempo. Mas é possível respirar fundo, caciquear, buscar forças para a sempre necessária volta por cima. Acompanhada por Zeca Pagodinho, Beth nos lembra que ainda é tempo para que sejamos felizes, nem que seja durante a audição de um CD.

(E é hoje, chegou a hora, não dá mais pra segurar. Viva a Mangueira e viva Maria Bethânia, a Menina de Oyá.)

Estação Carioca, O DIA, 8/2/16.


A grande injustiçada

separador Por Fernando Molica em 03 de março de 2016 | Link | Comentários (0)

Por conta de um trauma de infância, o roubo que deu ao Fluminense o campeonato de 1971, fiquei sensível a casos flagrantes de injustiça. Compreendo, portanto, a queixa do Luis Fernando Verissimo à discriminação sofrida pela gema de ovo e a bronca do Gabriel Cavalcante, que não se conforma com o preconceito contra o jiló. Mas, em matéria de injustiça, nada se compara com a que atinge a ópera, vista como algo chato e inacessível, produto cultural destinado a velhos ricaços esnobes.

Eu achava o mesmo até assistir a um filme italiano sobre sindicalistas. Numa cena, operários se emocionavam ao ver uma ópera na TV, reagiam como se estivessem diante de um Milan contra Juventus. Percebi então que ao classificar o desfile das escolas de samba de "ópera popular", Joãosinho Trinta cometera uma injustiça, já que a ópera é popular, algo que, como diria o Roberto Jefferson, remete aos nossos instintos mais primitivos.

Imagine a festa que o 'Meia Hora' faria caso o Japonês da Federal se apaixonasse por uma mulher envolvida na Lava Jato e permitisse sua fuga da cadeia. Para não perder a amada, ele abandonaria a família e a corporação e se aliaria a saqueadores da Petrobras. Traído, ele ainda mataria a fulana. Difícil imaginar algo mais palpitante e popular, certo? Pois esse é o resumo, com uma devida troca de personagens, de 'Carmen', uma das mais belas e conhecidas óperas.

E o rapaz rico que, em 'La Traviata', se apaixona por uma prostituta que o abandona ao ser pressionada pelo sogrão? No fim, ela morre nos braços do amado. Tem também aqueles jovens e miseráveis artistas que, em 'La Bohème', tentam escapar do frio e da fome, uma outra história popular. Na trama, outra heroína sucumbe à tuberculose -- as tísicas batem um bolão em óperas, enchem os teatros com suas vozes. Neste universo, cantores enfrentam a plateia sem microfone, é como bater pênalti em final de campeonato no campo do adversário. Em tempos tão corridos, é preciso alguma disposição para encarar espetáculos que duram mais de três horas, mas vale a pena. E não sai caro, ingressos para óperas no Theatro Municipal custam a partir de R$ 36 (a inteira). É mais barato do que muito show que a gente vê de pé.

Estação Carioca, O DIA, 11/1/16.


Os fogos e a vida

separador Por Fernando Molica em 03 de março de 2016 | Link | Comentários (0)

O Réveillon de Copacabana é talvez a melhor de todas as nossas insanidades. Além de inverter a lógica da ocupação da cidade -- os donos das ruas passam ser os pedestres, e não os carros --, reúne milhões de pessoas em torno de uma abstração e da busca de beleza. É incrível que tanta gente se desloque, às vezes de muito longe, para acompanhar 16 minutos de explosão de fogos. Anos são convenções, embalagens em que encaixamos um conjunto de dias. Mas é bom que tenhamos oportunidade de, volta e meia, acharmos que daqui pra frente tudo vai ser diferente (e como o dia 1º caiu na sexta, o início de todas aquelas promessas foi transferido para hoje).

É quase impossível associar a praia lotada nas noites de 31 de dezembro com a cidade violenta e injusta, que pega, mata e come tantos de seus filhos. A paz que reina por lá chega a ser incompatível com a nossa folha de antecedentes -- e olha que boa parte do público está bem longe do estado de sobriedade. Mesmo assim são raros os conflitos, as brigas, os assaltos, ninguém jamais ouviu falar em arrastão na festa.

Arrisco dizer que a tranquilidade tem a ver com a esperança, algo que existe até nos mais sórdidos corações. Natal virou uma data em que fazemos um balanço do ano que passou, algo quase sempre acompanhado de alguma frustração, da sensação, como definiu Nei Lopes, de não termos sido nem metade daquilo que sonhamos ser. Já o Réveillon aponta para o futuro, com o que poderemos alcançar. Daí a disposição de encarar caminhadas, ônibus e metrô lotados em troca de alguns minutos de encanto.

Em muitos países, fogos são usados para marcar a virada do ano. Trata-se, afinal, de um espetáculo sempre único, uma edição é sempre diferente da outra. Uma festa maior aqui, meio caidinha acolá, mas uma festa. Um brilho intenso que dura pouco e que dá lugar a um vazio, à escuridão. Uma celebração que, por todas estas características, parece resumir a vida, algo particular, que nunca se repete, mas que sempre se renova. Peregrinar em direção a Copacabana é uma forma de tentar fazer com que um pouco daquelas luzes nos ajude a enfrentar a pedreira que temos pela frente.

Estação Carioca, O DIA, 4/1/2016.


O pacto carioca de convivência

separador Por Fernando Molica em 03 de março de 2016 | Link | Comentários (0)

Aqueles manés que interpelaram o Chico Buarque por conta de sua simpatia com o PT cometeram, além do pecado da intolerância, um atentado a uma antiga tradição carioca -- a de deixar que artistas caminhem pelas ruas com tranquilidade. Nem mesmo a disseminação dos fotógrafos de celebridades rompeu com este pacto informal, resultado de décadas e mais décadas -- séculos, até -- de convivência com imperadores, presidentes e muitos e muitos e artistas, da antiga Rádio Nacional, do Cassino da Urca, da Atlântida, da Globo.

Além disso, a cidade tem praia, espaço democrático de lazer que é frequentado também por gente que aparece na TV, em capas de revistas. Pode parecer esquisito pro pessoal que associa a visão de famosos a lugares caros e fechados, mas, até por conta do calor e do mar, desenvolvemos aqui o hábito de ir pra rua. E isso vale para todo mundo, anônimos ou não.

Talvez esse nosso costume de fingir que não dá bola para a Camila Pitanga tenha a ver também com uma certa marra carioca. Nossa fingida indiferença seria também uma forma de mostrar que, por aqui, todo mundo é um pouco estrela mesmo ("mermo", em carioquês). Além disso, essa postura é essencial para que esses artistas continuem a gostar de morar na nossa cidade -- eles não trocam o Rio por Miami.

Como estamos em período de férias, de vinda de turistas, vou tentar resumir este ponto essencial do manual de boas maneiras cariocas. É bem provável, visitante, que você, em andanças pelo Rio, veja o Caetano, a Fernanda Montenegro, algum ator ou atriz da novela das 21h. Se isso acontecer, OK, basta dar uma olhadinha, comentar com quem estiver do seu lado. E pronto, mais nada. Você consegue, acredite.

Sábado retrasado, o Vicent Cassel, ator francês, estava na quadra da Mangueira, acompanhado por amigos e por uma moça espetacular -- todos ficaram no chão da quadra, não foram para um camarote. Com exceção de um sujeito que pediu uma selfie (devidamente negada com um "Desculpe, mermão"), ninguém mais encheu o saco do cara. Então, por favor, caro forasteiro, seja bem-vindo, aproveite a cidade, mas deixe os nossos vizinhos em paz.

Estação Carioca, O DIA, 28/12.


As canções e os mitos

separador Por Fernando Molica em 03 de março de 2016 | Link | Comentários (0)

Dia desses, em meio a um samba na Rua do Ouvidor, peguei carona numa conversa entre os amigos Luiz Antonio Simas, titular deste retângulo às quartas-feiras, e Alberto Mussa. Eles comentavam como é absurdo o desconhecimento que temos da mitologia que integra as religiões de matriz africana. Não se discutia uma proposta de educação religiosa, de busca de ampliação no número de fieis. A questão era outra, uma crítica ao desprezo oficial a um sofisticado conjunto de conhecimentos que tenta explicar e interpretar o mundo.

Aqui no Brasil, achamos normal -- e é mesmo -- estudarmos mitos relacionados à tradição religiosa grega, base de boa parte da cultura ocidental. E ninguém é doido o suficiente para dizer que a busca desse conhecimento implica em passar a se acreditar em Zeus, Poseidon, Hera e Afrodite. Da mesma forma, o cristinismo pode ser pesquisado por ateus.

Tudo isso é para ressaltar o CD 'No reino da pedra miúda', que o cantor Lucio Sanfilippo acaba de lançar. Compostas pelo Simas citado no primeiro parágrafo, as canções abrem caminhos para mundos ao mesmo tempo familiares e misteriosos. Quase todas inspiradas em orixás, as músicas citam nomes e palavras que, desconhecidos pela maioria, reforçam a nossa ignorância e a nossa burrice em desprezar uma tradição tão rica e bonita.

Ecumênicas, tratam de Oxumarê, Nanã, Exu, Olorum, mas também de São João e de Jesus -- resgatam assim uma de nossas melhores tradições, a de misturar, acrescentar, unir. Em algum lugar do nosso passado, os sons dos tambores se misturaram ao coro das rezadeiras e aos cânticos dos índios. As canções do CD reforçam esta convivência, a ideia de que, em matéria de fé e cultura,uma afirmação não deve implicar na negação de quem pensa ou crê de outra forma.

As cantigas gravadas por Sanfilippo são um convite para que possamos nos reconciliar com algo que, queiramos ou não, está presente na nossa formação, que remete à infância, a todos aqueles que vieram antes de nós e aos que nos sucederão. Apelam pela tolerância, pelo respeito e apontam para a necessidade de nos conhecermos melhor.

Estação Carioca, O DIA, 21/12.


A verdadeira política é outra

separador Por Fernando Molica em 03 de março de 2016 | Link | Comentários (0)

Sei que é difícil, caro leitor. Mas tente, por uns poucos minutos, desassociar política de tudo que estamos lendo nos jornais e vendo na TV -- a roubalheira exposta em casos como o Petrolão, os episódios de toma lá-dá cá, as relações espúrias de tantos governos com grandes empresas, as manobras do Eduardo Cunha, a incompetência do Palácio do Planalto, as mentiras contadas na campanha presidencial, o oportunismo da oposição que, derrotada nas urnas, busca pretextos para derrubar quem foi eleito.

Nada disso deveria ser chamado de política. São apenas deformações, práticas que um outrora sensato político chamou de "privatização do Estado" -- o uso e o abuso do que é público em benefício de interesses particulares. Boa parte dos nossos políticos atua da mesma forma que os antigos invasores coloniais: como eles, ocupam territórios, submetem seus habitantes, roubam e traficam suas riquezas.

Claro que há diferenças entre políticos, seria injusto jogá-los na mesma vala comum. Não dá pra ignorar também a cumplicidade de eleitores que pregam moralidade e, de olho em futuras vantagens, renovam mandatos de notórios ladrões. Mas, insisto, essas bandalheiras não deveriam representar a política.

Política digna deste nome foi o que fizeram aqueles milhares de jovens paulistas que, diante de uma desastrada proposta do governo estadual, defenderam seus interesses de maneira efetiva e pacífica. Quando ocuparam escolas públicas -- muitas delas ameaçadas de fechamento --, mostraram que política é a busca do bem comum e da melhor solução possível. Política está relacionada ao embate de opiniões, à exposição de divergências, à luta por ideias, à necessidade de se encontrar saídas que respeitem a maioria e não oprimam a minoria.

No auge da ocupação, uma autoridade do governo repetia, na TV, que o movimento era político. Sua declaração, que tinha o objetivo de desqualificar a luta, foi um elogio. Sim, a vitoriosa mobilização dos jovens era política, no melhor sentido da palavra. Aqueles garotos e garotas brigaram por uma sociedade melhor. Saem da briga cheios de orgulho e com os bolsos vazios, servem de exemplo para muita gente.

Estação Carioca, O DIA, 13/12/2015.


Um monumento para os cinco jovens

separador Por Fernando Molica em 03 de março de 2016 | Link | Comentários (0)

O assassinato de cinco adolescentes em Costa Barros é um desses casos que, por conta da brutalidade, têm força para romper com a passividade com que muita gente lida com os absurdos nossos de cada dia. Os números que indicam mortes violentas de jovens negros pareciam não ter mais força para mobilizar uma sociedade que, com frequência, age como se estivesse anestesiada, incapaz de reagir. Mais, com frequência se trata de um silêncio cúmplice, que estimula os assassinatos daqueles que, pela pobreza e cor da pele, são identificados como bandidos.

Não basta punir os PMs, os homicidas e os oficiais que, segundo as investigações, receberam ordens de um fabricante de bebidas para mandar policiais ao local onde haveria saque a um caminhão da empresa (são quase inacreditáveis os fatos relacionados ao episódio). O fuzilamento de Roberto de Souza Penha, Carlos Eduardo da Silva de Souza, Cleiton Corrêa de Souza, Wesley Castro Rodrigues e Wilton Esteves Domingos Junior tem que virar um marco da luta contra o preconceito, a exclusão e a violência policial.

Em 1988, três operários foram mortos por tropas do Exército que invadiram a CSN. A barbárie acabou eternizada num monumento erguido em Volta Redonda. Algo semelhante precisa ser feito agora: monumentos existem para celebrar, mas também para ressaltar tragédias que não podem ser esquecidas, testemunhos que devem ser observados e reverenciados por sucessivas gerações. Roberto, Carlos Eduardo, Cleiton, Wesley e Wilton -- vale repetir seus nomes -- se transformaram em símbolo. Foram executados por funcionários públicos, homens que, supostamente, atuavam em nome de cada um de nós que, com nossos impostos, pagamos sua formação e suas armas. As dezenas e dezenas de balas que mataram aqueles garotos foram compradas com nosso dinheiro.

É preciso mostrar que não concordamos com a essa e com tantas outras execuções. É fundamental para a nossa consciência e para o futuro da sociedade dizer aos pais, parentes e amigos de Roberto, Carlos Eduardo, Cleiton, Wesley e Wilton que aqueles policiais não agiram em nosso nome, que estamos chocados com o que eles fizeram. Mais: este recado tem que ser dado de forma muito clara, de um jeito que iniba outros crimes. Além de condenar os implicados na chacina, o Estado precisa ser constrangido a atuar para evitar novos casos. E é necessário que esta autocrítica seja também exposta em metal e concreto, num monumento que eternize a memória daqueles garotos e sirva de advertência para todos.

Estação Carioca, O DIA, 7/12/2015


convite

separador Por Fernando Molica em 02 de março de 2016 | Link | Comentários (0)

View image


BG
© Todos os direitos reservados. Todos os textos por Fernando Molica, exceto quando indicado. Antes de usar algum texto, consulte o autor. créditos do site    Clique para ver os créditos do site