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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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dezembro 2015 Archives

A busca de algum conforto na TV

separador Por Fernando Molica em 01 de dezembro de 2015 | Link | Comentários (0)

Confesso minha admiração pelos autores e diretores de telenovelas. Não é fácil criar uma ficção capaz de mobilizar dezenas de milhões de pessoas, um público pra lá de heterogêneo. Imagine o peso que é fazer um produto que seduza os telespectadores e, ao mesmo tempo, cumpra a função de servir de suporte para os anúncios publicitários que sustentam a TV. Não é nada simples manter a sintonia fina com o público.

O tsunami de proporções bíblicas que andou devastando a audiência da Globo no mais nobre dos horários aponta para algumas mudanças na sociedade. O Brasil, em especial a Globo, criou um padrão excepcional, produz novelas que, com frequência, alcançam ótimos índices de audiência ao mesmo tempo que fogem ao padrão tradicional do folhetim e apresentam sacadas dramatúrgicas e estéticas não usuais.

Mas, pelo jeito, a receita deu uma desandada, ou tem gente errando na mão. Acusada, anos a fio, de fazer novelas "alienantes" -- chavão comum nos anos 1970 e 1980 --, a Globo paga agora o preço de ter investido em produções ligadas a uma realidade mais evidente e cruel. Uma realidade que, na TV, parece ser excessiva, ainda pior do que aquela que nos cerca.

A ruptura com o velho esquema de mocinhos contra bandidos, da luta do bem contra o mal parece, a julgar pela reação do público, ter sido excessiva, principalmente por conta da intensa relação entre as novelas e a vida brasileira.

O público que riu e se indignou com a "banana" dirigida ao país no fim de 'Vale Tudo', parece estar cansado das tantas bananas que têm recebido em seu cotidiano. É como se dissesse 'tá' bom, eu sei que há políticos corruptos, canalhas que tentam transformar namoradas em prostitutas, bandidos que se fazem de inocentes, mas chega, agora eu quero me distrair, esquecer uma dureza da vida, não quero tantos desafios, mas um pouco de conforto.

Seria injusto negar as qualidades de 'Os Dez Mandamentos' e os vacilos da concorrência. Mas o fenômeno que faz tanta gente buscar segurança no passado tem a ver com um tempo cheio de incertezas. Numa época em que tradicionais -- e, não raras vezes, excludentes e preconceituosas -- relações sociais e familiares são desafiadas, muitos parecem querer se refugiar num lugar idealizado, onde o bem e o mal estão evidentes, em que há um Deus atento e justo, que pune os maus e presenteia os bons. Um mundo compatível com a onda conservadora que ameaça afogar o país e que se nutre de certezas e da falta de vontade de se entender o outro.

(Coluna Estação Carioca, O DIA, 30/11)


Os muitos sambas e cantos do Rio

separador Por Fernando Molica em 01 de dezembro de 2015 | Link | Comentários (0)

Compostos a partir da década de 1920, alguns dos belos sambas que fazem parte do repertório do musical 'É com esse que eu vou' revelam como seus compositores tinham necessidade de apresentar e elogiar diversos bairros da cidade. Numa época em que a informação viajava na velocidade do bonde e que a cidade não se mostrava tão partida e amedrontada, narrar a existência de um lugar e exaltá-lo eram formas de incluí-lo no mapa artístico e sentimental do Rio.

E tome de Lapa, de Praça Onze, do mundo de zinco que era Mangueira, de rodas de sambas em Piedade e em Madureira, bairro que tanto chorou a morte de Zaquia Jorge. Pedaços da cidade ligados por bondes -- o de São Januário, que levava mais um operário, o de Ipanema, que, antecipando a fama da garota de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, entrava triunfal no Tabuleiro da Baiana "trazendo as mais lindas cabrochas do Rio".

É graças a um dos sambas que cariocas mais novos ficam sabendo que havia um bonde, o 56, então chamado de Alegria, que ligava a Praça Tiradentes à antiga Rua da Alegria (hoje, Rua Olímpio de Melo). O apelido do bonde permitiu uma grande sacada a Haroldo Lobo e Wilson Batista, autores de '...o 56 não veio': preocupado com a demora de sua amada, o personagem da canção teme que o namoro tenha saído dos trilhos: "Será que ela não veio porque se zangou?/Ou o bonde Alegria descarrilou?"

Ao falar dos bairros e de seus moradores, os sambas faziam com que estranhos se tornassem mais conhecidos, ressaltavam práticas, eventos e problemas desta ou daquela parte da cidade -- a falta de abastecimento que obrigava Maria a subir o morro com a lata d'água na cabeça, os baixos salários, o trem que atrasava e complicava a vida do trabalhador. Letras que geravam identificação naqueles que passavam pelos mesmos perrengues e que amplificavam o protesto. Crônicas que ajudaram a alinhavar uma espécie de cidadania carioca, que reforçavam o sentimento de pertencimento e despertavam, em todo o país, curiosidade em relação aos muitos cantos do Rio.

Assim como fizeram em 'Sassaricando', em 'É com esse que eu vou', Rosa Maria Araújo e Sérgio Cabral atuaram como arqueólogos em busca de canções que revelassem pistas do nosso jeito, do que nos caracteriza, que gera identificação. O musical, que esteve até outro dia em cartaz no Imperator, volta e meia retorna aos palcos. É bom ficar atento para não perder a chance de cantar um pouco a nossa história.

(Coluna Estação Carioca, O DIA, 22/11.


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