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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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outubro 2015 Archives

Salvação de Cunha e fim do Parlamento

separador Por Fernando Molica em 26 de outubro de 2015 | Link | Comentários (0)

Só para tentar deixar a situação um pouco mais clara. O que está em jogo não é o cargo de presidente da Câmara dos Deputados nem o mandato de Eduardo Cunha. Cargo e mandato são questões menores. Também não têm importância o corporativismo e o medo de outros deputados (sabe-se lá o que poderá ser revelado a respeito deles?) e o oportunismo irresponsável do governo e da oposição, que disputam a simpatia de Cunha no caso do impeachment de Dilma Rousseff.

A questão é simples. O deputado Eduardo Cunha declarou à Justiça Eleitoral e à CPI da Petrobras que não tem contas bancárias no exterior. Mas, segundo o Ministério Público suíço e a Procuradoria-Geral da República, a afirmação não é verdadeira. Todos os dias, jornais publicam documentos que comprovam a existência das tais contas. Pior, há a suspeita grave de que os valores nelas depositados têm origem ilegal.

Ou seja, ou o deputado mentiu ou está sendo vítima de uma das maiores armações da história da República. Ele tem todo o direito de tentar provar a segunda hipótese, mas deve fazê-lo como cidadão comum, não como deputado nem, muito menos, como presidente da Câmara.

Políticos tendem a considerar seus mandatos como propriedade privada, mas eles apenas exercem uma procuração entregue pelos cidadãos. Esta visão distorcida talvez tenha chegado ao auge na campanha de Cunha para a presidência da Câmara, quando ele agiu como quem tentava alcançar o comando de um sindicato de parlamentares -- chegou a prometer a concessão de passagens aéreas para mulheres de deputados, mimo que acabou sendo aprovado e, diante da repercussão negativa, retirado.

O que está sendo jogado no caso de Eduardo Cunha é a manutenção de um mínimo de credibilidade do Parlamento. Um grau de confiança que, revelam todas as pesquisas, há muito tempo patina numa espécie de volume morto. Ao fingir que não veem as evidências contra o peemedebista, deputados e outras lideranças políticas atacam, com sua cegueira seletiva, a sobrevivência do sistema representativo. Por que, afinal, obrigar o cidadão a comparecer às urnas, a votar, se os eleitos, depois de empossados, lutarão apenas por seus próprios interesses e defenderão a impunidade de seus colegas? Ao dar sustentação a Eduardo Cunha, parlamentares agem como golpistas, conspiram contra a democracia representativa, contra a legitimidade do Parlamento -- contra, portanto, a existência de seus próprios mandatos.

(Estação Carioca, O DIA, 26/10)


Episódio relicário no Sambódromo

separador Por Fernando Molica em 20 de outubro de 2015 | Link | Comentários (0)

Lá se vão 11 anos, mas a cena, das mais dramáticas que já vi no Sambódromo, é inesquecível. Levado pela beleza do samba de Silas de Oliveira e pelo entusiasmo da escola e do público, o mestre-sala Claudinho protegia a porta-bandeira Fabiana, que empunhava o pavilhão do Império Serrano.

Os sorrisos de ambos refletiam o orgulho e a esperança de um improvável, mas desejado, campeonato. Quem sabe sonhar não custa nada, como já cantara a Mocidade? Desta-vez-vai, vejam esta maravilha de cenário. Claudinho parecia desafiar o risco representado pela pista ainda molhada pela chuva. Mas ali, na divisa dos setores 3 e 5, diante das cabines de um grupo de jurados, o sonho do campeonato ficou impossível.

Tudo por conta de um imprevisto. O casal acabara de se apresentar para o júri, os movimentos não eram mais tão ousados, os rodopios diminuíam de intensidade, era preciso retomar a marcha do desfile. Num movimento meio despretensioso, um daqueles básicos do repertório de uma porta-bandeira, Fabiana desabou.
O verbo é esse mesmo: desabou como se sugada, como se vítima de uma implosão. Não caiu para o lado, não tropeçou. Salto quebrado? Torção de tornozelo? Ela caiu sobre si mesma, em linha reta, como um foguete lançado para baixo.

No solo, Fabiana ficou imóvel, aquilo não poderia estar acontecendo. Ela olhou para o parceiro, um olhar de incredulidade, como o que, dez anos depois, Julio Cesar exibiria ao levar os gols da Alemanha. Claudinho agiu como um cavalheiro, fez o que se espera de um mestre-sala. Deu um passo em direção à sua protegida, estendeu-lhe a mão e, eu vi, beijou-lhe a boca. Mais que um beijo, um gesto de quem transmite alma, ânima, o tal sopro da vida. Levanta-te e dança, levanta-te e baila. Beijos de tragédia grega, beijo bíblico, beijo que resume e explica todos os carnavais.

Fabiana obedeceu. Levantou-se e, aplaudida, voltou a bailar. Naquele momento, a bandeira e fantasia pesavam ainda mais. Traziam o peso de um Carnaval que se anunciava perdido por aquela queda. Não havia como recuperar o tombo, fazer o tempo voltar, mas ela ainda tinha muito asfalto-passarela pela frente. O público voltara a cantar o samba, os passistas da ala posterior se aproximavam.

Ressuscitada pelo beijo, Fabiana voltou à pista, à vida. A derrota anunciada não a eximia do compromisso de terminar o desfile. Até porque, no ano seguinte, haveria outro Carnaval, o ciclo não para, um Carnaval começa assim que o anterior termina. Desde que o samba é samba é assim.

(Estação Carioca, O DIA, 19/10)


Os nossos lugares

separador Por Fernando Molica em 20 de outubro de 2015 | Link | Comentários (0)

Ainda sobre 'O meu lugar'. Acho que ótima recepção ao livro tem a ver também com seu caráter democrático. Há histórias de bairros da Zona Sul, mas há, principalmente, histórias de bairros das zonas norte e oeste, de bairros do subúrbio. O Rio que transpira das páginas é, principalmente, o Rio da maioria da população carioca.

No lançamento, percebi a alegria de muita gente que se via representada por crônicas sobre Pavuna, Realengo, Padre Miguel, Bangu, Méier, Cascadura, Madureira, Piedade, e por aí vai. Textos que tratam também do Rio que se mistura com a Baixada. Um Rio que costuma ser ignorado, que. como cantou Chico Buarque, está fora do mapa, que foi colocado pra fora do mapa.

Assim, como quem não quer nada, sem fazer discurso, sem fazer tese, devagar, devagarinho, 'O meu lugar' ajuda a mostrar o óbvio, reforça que a cidade é de todos, é resultado de muitas culturas, de muitas histórias, de muitos afetos, e, mesmo, de tantos conflitos.


A ditadura dos personagens

separador Por Fernando Molica em 20 de outubro de 2015 | Link | Comentários (0)

Outro dia, o Sérgio Rodrigues publicou um post bem legal (http://todoprosa.com.br/o-personagem-so-faz-o-que-quer-ah.../...) em que discute a autonomia dos personagens numa obra de ficção. Até que ponto, afinal, o autor se vê escravo de suas criaturas?
Como ele, eu também achava que o tal poder dos personagens não passava de conversa fiada de escritores, algo que dava assunto para entrevistas, que estimulava a imaginação dos jornalistas e leitores, que acrescentava algum charme à tarefa de escrever. Isto, até começar a escrever meu primeiro romance, o 'Notícias do Mirandão', que seria lançado em 2002.

Durante o processo, descobri que - Caramba, é verdade! - autores acabam presos aos personagens, impedidos de obrigá-los a dar saltos mortais, duplos twists carpados. O desenrolar da trama nos obriga a respeitar características básicas dos caras, a evitar o que o Augusto Boal chamava de "mágica" - pela lógica do seu Teatro do Oprimido, espectadores podiam/deveriam interromper a peça para mudar a trama. Tudo era possível, desde que as intervenções respeitassem a lógica do texto. Quando havia uma proposta absurda (a chegada de ETs numa festa, por exemplo), Boal interrompia a cena e gritava : "Stop, c'est magique."

Ao escrever o 'Mirandão' procurei tornar a história crível, verossímil, capaz de envolver o leitor, fazer com que ele não largasse o livro por conta de algo absurdo, algo que indicasse uma forçada de barra. Respeitei muito os personagens.
Logo depois, porém, resolvi transformar em livro reportagens que fizera para o Fantástico sobre o Antonio Expedito Carvalho Perera, um personagem espetacular, um ex-militante de extrema direita que vira advogado da VPR, hospeda Lamarca em casa, é preso, torturado, banido. Um sujeito que, na Europa, vira cúmplice do Carlos/Chacal - então o terrorista internacional número 1 - e, depois, representante do PCB na Itália.
Uma história absurda, cheia de reviravoltas, algo difícil de ser engolido numa ficção. Mas, como no filme do Welles, era tudo verdade.

E aí, como fica aquela história lá de cima? O cara teve uma vida inverossímil, mas tudo aquilo ocorrera. Aquilo tudo e muito mais, que, na época, não consegui apurar. Mergulhar na vida do Perera para escrever 'O homem que morreu três vezes' foi fundamental para este autor de ficção. Aprendi que o respeito à lógica do personagem não deve impedir o ficcionista de trabalhar com algo muito humano, a imprevisibilidade que existe em cada um de nós. Todos podemos surpreender.

Personagens são tinhosos, ao tentar mandar no escritor eles, muitas vezes, podem estar apenas tentando impedir que possamos conhecê-los melhor e, assim, expor suas mazelas. De vez em quando, vale dar um passa fora nesses atrevidos.


A cueca e o Arquimedes da Lapa

separador Por Fernando Molica em 20 de outubro de 2015 | Link | Comentários (0)

"Achei, achei!" O grito ecoou pela redação do jornal no fim de tarde de um modorrento plantão dominical. Um daqueles em que nenhuma novidade acontece -- há apenas o tiroteio de sempre, alguma bravata ministerial, a vitória de um time graças ao gol feito com a mão. Daí o susto do chefe de reportagem, de dois outros repórteres, do fotógrafo e do estagiário.

Indiferente ao espanto dos colegas, nosso companheiro, um homem com mais de 40 anos de jornalismo, continuava absorto com seu achado. Estava a ponto de imitar o grego Arquimedes e sair pelas ruas, pelado, a gritar "Eureca!" Aos poucos, nos aproximamos dele que, como um personagem de Nelson Rodrigues, exibia olhos rútilos e lábios trêmulos. Afinal, o que ele teria descoberto? Um jeito de fazer a Seleção voltar a jogar bola? A fórmula que garantiria honestidade e eficiência aos nossos governantes? Nossas perguntas se atropelavam.

"Não", respondeu, eufórico. "Algo muito mais importante, encontrei, enfim, uma explicação para o batom na cueca!" Entreolhamo-nos. "Como assim?", perguntou o estagiário, convencido que seria impossível dar um jeito de justificar a prova absoluta, cabal, indelével e definitiva de uma traição. Olhava para o veterano como se Napoleão, ressuscitado, estivesse diante dele, disposto a conceder-lhe a entrevista definitiva,aquela em que explicaria a derrota em Waterloo.

Nosso Arquimedes da Lapa pigarreou e vaticinou. "Elementar, meu jovem. Ao chegar em casa, antes mesmo do protocolar beijo de boa noite na esposa, o homem que carrega sob as calças a marca do pecado deve chamar a companheira e dizer: 'Amor, aconteceu algo terrível. Eu vinha apressado pela Presidente Vargas quando senti que o cinto de minha calça, esta aqui, larga, arrebentara. Imediatamente, a calça começou a cair, a deslizar pelas minhas pernas. Atônito, envergonhado pelo vexame que passava, vacilei algumas frações de segundo antes de tomar alguma atitude. Nisso, oh, que lástima!, não percebi que, na direção contrária, vinha uma anã com a boca pintada de vermelho déficit fiscal. Distraída ao celular, ela não via por onde andava e o choque, inevitável, carimbou seus lábios em minha cueca.'"

Diante do silêncio que traduzia a incredulidade dos colegas, logo quebrado por uma gargalhada coletiva, nosso amigo proferiu a frase que encerraria a pendenga: "Tá bom, vocês acham que ninguém acreditaria na minha desculpa para o batom na cueca. Mas quero ver rir assim na frente daquele sujeito que jura não ter conta na Suíça."

(Estação Carioca, O DIA, 12/10)


A Ferrari vermelha é nossa

separador Por Fernando Molica em 20 de outubro de 2015 | Link | Comentários (0)

O pessoal que tem ido às ruas contra a corrupção, que protesta contra a roubalheira, deveria bater panelas cada vez que Neymar entra em campo ou toca na bola. Isto porque, segundo a Procuradoria da Fazenda Nacional, ele sonegou R$ 63,5 milhões em impostos entre 2011 e 2013. Por conta disso, a Justiça bloqueou R$ 188 milhões de suas contas. Sonegar é o mesmo que desviar dinheiro público. Ao driblar o fisco, ao embolsar uma grana que não lhe pertence, o cidadão perde o direito de criticar governantes, de simular emoção ao som do hino nacional. É só ver o que ocorre em outros países -- não pagar impostos é crime grave, quem o comete recebe reprovação social e cadeia.

Segundo a Tax Justice Network, organização sediada em Londres, a sonegação de impostos no Brasil chegou, em 2010, a US$ 280 bilhões, cerca de R$ 1,120 trilhão pelo câmbio de hoje. É mais que o dobro do orçamento da Previdência Social (R$ 436 bilhões) e supera em dez vezes o do Ministério da Saúde (R$ 109,2 bilhões). Com a reedição da CPMF, o governo quer arrecadar mais R$ 32 bilhões em 2016 - 2,8% do valor sonegado no ano de 2010.

O imposto que pagamos, descontado do nosso salário e embutido em produtos e serviços, seria menor se todos fizessem a sua parte. E não vale argumentar que não compensa pagar imposto que, lá na frente, será roubado por políticos. Quem justifica o não recolhimento de tributos não pode reclamar da merenda escolar, dos salários de professores, do policiamento deficiente. Ladrões têm que ser investigados, processados e presos, não podem servir de justificativa para outros crimes.

O empresário de Neymar, Wagner Ribeiro, ainda fez beicinho. Sugeriu que o pai do craque retirasse todo o dinheiro que a família tem no Brasil e o enviasse para paraísos fiscais, que fechasse um instituto beneficente mantido pelo atacante na cidade de Praia Grande. Pelo jeito, Ribeiro acha que Neymar, por ser rico, famoso e bom de bola, tem o direito de dar carteirada na Receita. Azar dos que, como a maioria dos brasileiros, são pobres, anônimos e pernas de pau. A lógica do sujeito é a mesma que, em 1994, permitiu que os campeões da Copa se achassem no direito de não pagar impostos pelos produtos comprados nos Estados Unidos.

Neymar nem se deu ao trabalho de falar sobre a acusação - ainda tratou de exibir uma Ferrari que pode ter sido comprada com dinheiro de todos nós. A menos que seja provada a inocência do craque, qualquer brasileiro tem o direito de dar umas voltas com o carrão. Arrá, urru, a Ferrari é nossa.

(Estação Carioca, O DIA, 5/10)


Uma pacífica loja de armas

separador Por Fernando Molica em 20 de outubro de 2015 | Link | Comentários (0)

Parlamentares e cidadãos favoráveis à transformação do Estatuto do Desarmamento em Estatuto do Rearmamento deveriam dar uma olhada no vídeo, curtinho, de dois minutos, produzido por um grupo norte-americano que luta pelo controle das armas. Está disponível em https://www.youtube.com/watch?v=1ORT3zqudhg .

Premiado com Leão de Ouro no último Festival de Criatividade de Cannes, o filme documenta a decisão do grupo de montar, em Nova York, uma loja de vendas de armas diferente. O estabelecimento era parecido com milhares de outros espalhados pelo país, mas as aparências enganavam, e muito. Lá, os vendedores eram atores, suas falas e as reações dos clientes eram captadas por câmeras ocultas.

O roteiro era simples: em primeiro lugar, os interessados ouviam explicações sobre a arma, seu funcionamento. Depois, sem mudar o tom elogioso, os vendedores diziam frases do tipo: "Este revólver aí é igual ao usado por um menino de cinco anos para matar sua irmãzinha de nove meses. O garoto pegou a arma no quarto dos seus pais."

As etiquetas penduradas nos produtos expostos iam na mesma linha. Uma delas informava que o imponente fuzil é como o utilizado numa chacina que gerou 26 mortos e dois feridos. Outra, grudada num alvo, lembrava a história de uma aluna que, acidentalmente, matara seu professor de tiro.

O melhor do vídeo é a reação dos clientes. Ao serem comunicados de cada uma das tragédias, eles arregalam os olhos, abrem a boca; as armas pesam em suas mãos. É como se apenas naquele momento se dessem conta do absurdo que é manter e portar armas -- segundo os responsáveis pela campanha, 60% dos norte-americanos acham que um revólver ou pistola traz mais segurança a quem o carrega (um outro filme, também premiado em Cannes, relata o caso de um supermercado que impedia a entrada de pessoas de skate ou com animais, mas não impedia que clientes percorressem seus corredores com fuzis pendurados nas costas).

Postado na internet, o vídeo da loja falsa teve repercussão imediata, conseguiu mais de 12 milhões de visualizações em uma semana. Grupos que defendem a venda livre de armas ameaçaram ir à Justiça para brecar a campanha. O recado final do filme é simples e direto como um tiro: "Toda arma tem uma história. Não vamos deixar que ela se repita." Vale lembrar que, de acordo com o Mapa da Violência divulgado em junho, o Estatuto do Desarmamento, sancionado em 2003, já poupou a vida de 160.036 brasileiros.

(Estação Carioca, O DIA, 28/9)


A destruição dos nossos lugares

separador Por Fernando Molica em 19 de outubro de 2015 | Link | Comentários (0)

O pessoal da Mórula Editorial teve o cuidado de incluir na última página do livro 'O meu lugar' uma espécie de provocação, uma foto de 1924 que mostra o desmonte do Morro do Castelo. O contraponto faz todo sentido. Depois de percorrer crônicas que tratam da relação carinhosa de 34 autores com bairros do Rio, o leitor é obrigado a refletir sobre um crime -- o desmonte do morro onde, há 448 anos, a cidade foi refundada. A povoação original foi entre os morros Cara de Cão e Pão de Açúcar.

Ao publicar a foto, os editores ressaltaram o absurdo desprezo com muitos de nossos marcos arquitetônicos, culturais e sentimentais. A desculpa do progresso, que algumas vezes encobre interesses nada confessáveis, fez com que o Rio atacasse um patrimônio fundamental para a formação de nossas próprias histórias.

É quase inacreditável que pouco tenha sobrado das construções da Avenida Central, hoje Rio Branco, inaugurada em 1905. Alguns dos principais arquitetos europeus e brasileiros foram convocados para projetar os prédios da avenida que simbolizava a reforma urbana implementada pelo prefeito Pereira Passos e que tentava, a golpes de picareta e com a expulsão dos mais pobres, fazer do Rio uma cidade mais moderna. O cuidado foi tanto que as fachadas dos edifícios foram escolhidas em concurso público. Quase tudo foi demolido, há casos de terrenos que abrigam a terceira geração de prédios. Sabe aquelas belas avenidas de Lisboa, Paris, Madri? Pois é, a Rio Branco era como uma delas.

Outro símbolo da desfaçatez e da cara de pau é o prédio da Cândido Mendes, um monstrengo espelhado de 40 andares plantado no fim dos anos 1970 no pátio do Convento do Carmo, construção do século 17. Uma construção viabilizada pela omissão e a cumplicidade do Iphan e da prefeitura. Depois da demolição da Perimetral, não custa sonhar com a derrubada deste atentado à cidade.

A lista é imensa, interminável. Inclui a transformação do Maracanã numa arena bonitinha e sem graça, a destruição do Palácio Monroe, o descaso com os subúrbios. E aqui não faço uma manifestação de saudosismo: ninguém vive sem lembranças, nossas memórias -- individuais e coletivas -- são essenciais para que possamos viver o presente e encarar o futuro. A eliminação do passado nos deixa órfãos, sem referências, mina o sentimento que nos liga a uma comunidade, rouba o nosso lugar, nos faz estrangeiros em nossa própria casa.

(Estação Carioca, O DIA, 21/9)


As cúmplices tardias

separador Por Fernando Molica em 19 de outubro de 2015 | Link | Comentários (0)

O relatório da Comissão Estadual da Verdade que atribui a três militares o atentado que matou a secretária da OAB Lyda Monteiro da Silva deveria servir como fonte de reflexão para os que querem a volta da ditadura. Como a manifestante que lamentou o não extermínio de todos os comunistas e a outra que expressou a decepção por Dilma Rousseff não ter sido enforcada no Doi-Codi.

Uma das duas manifestantes tem uns 60 anos; a outra, aparenta ser mais idosa. Ao ser assassinada, em 1980, Dona Lyda tinha 59 anos. Uma pessoa comum, que começara a trabalhar aos 16 anos, que não se envolvera com partidos de esquerda nem, muito menos, com grupos armados. Uma mulher que trabalhava numa entidade tradicional, importante, que, por sua tradição liberal, jamais poderia ser acusada de conivência com o extremismo político. Mesmo assim, foi alvo do atentado que matou Dona Lyda.

Aquelas duas mulheres parecem desconhecer que ninguém está livre do poder discricionário . Quem se julga no direito de torturar e matar adversários é capaz de torturar e matar qualquer um. Ao lamentar que a violência não tenha sido maior, as duas mulheres se tornaram cúmplices tardias dos que mataram Dona Lyda e tantas outras pessoas.

Por falar nisso. Na divulgação do relatório, o advogado Luiz Felippe Monteiro Dias -- filho de Dona Lyda --exigiu pedidos de desculpas do ministro da Defesa e dos comandantes militares. Sua mãe, afinal, foi morta por homens que estavam na ativa. Um deles, o sargento Guilherme Pereira do Rosário, recebeu honras militares em seu sepultamento -- ele foi vítima de uma das bombas que pretendia explodir no Riocentro.

Passados 30 anos da redemocratização, chefes militares insistem em não exorcizar os crimes que antecessores cometeram durante a ditadura, uma postura que compromete as três forças. Não se trata de exaltar a esquerda armada, que cometeu erros e também crimes, como o atentado que matou o soldado Mário Kozel Filho. Mas os atos praticados por essas organizações são conhecidos, quase todos os seus autores foram presos e condenados. Muitos foram torturados. Não há, porém, registro de condenações de funcionários públicos -- militares e civis -- que, na ditadura, em nome do Estado, com dinheiro do contribuinte, torturaram e mataram.

Até para que a barbárie não se repita, é fundamental admitir todos os abusos. Cabe aos atuais chefes militares -- que não foram responsáveis pelos crimes do passado -- tirar este peso e esta mancha das instituições que representam.

(Estação Carioca, O DIA, 14/9)


Um menino como cada um de nós

separador Por Fernando Molica em 19 de outubro de 2015 | Link | Comentários (0)

Nós, jornalistas, temos que noticiar um fato e, de preferência, apresentar seu contexto. Uma boa reportagem, além de narrar o que aconteceu, deve procurar revelar as razões que geraram tal situação. É importante contar se o motorista que causou um acidente estava bêbado, se o deputado que votou a favor de determinado projeto havia recebido doações de empresas interessadas na proposta.

Mas, em alguns momentos, a busca pelo contexto pode representar uma forma de se tentar perdoar o inaceitável. Não existem razões que tornem admissíveis crimes como o holocausto praticado pelos nazistas, a tortura, o racismo e outras formas de preconceito e de agressão. Há casos que não podem ser amenizados.

Tudo que é humano pode ser compreendido, a literatura e outras formas de arte nos ajudam a entender as razões do outro, por mais absurdas que sejam. Permitem também que detectemos monstros que podem estar escondidos em cada um de nós; e somos, a história prova, capazes das maiores barbáries. Mas entender não significa perdoar ou relevar.

Jornais, sites, emissoras de rádio e TV procuram explicar os motivos que obrigaram a família do Aylan Kurdi -- aquele menino de três anos que morreu afogado -- a abandonar a Síria. Há meses que abordam o drama da imigração e da resistência de governos e povos em dar abrigo a tantos desesperados. É fundamental explicar o contexto de toda a crise, os problemas no Oriente Médio e na África, quase todos criados, ao longo de séculos, pelas intervenções de potências ocidentais. Mas, acima e além de tudo, há o corpo do menino. Aylan era sírio, mas também era brasileiro, palestino, etíope, nigeriano, indiano, chinês, francês, argentino, haitiano.

Ele era um menino como eu fui, como eram meus filhos quando tinham três anos. Uma criança como você já foi, como são ou foram seus filhos, netos, sobrinhos; um menino como muitos dos nossos que não têm direito a uma vida digna. Aylan era como aquele bebê que, diz a Bíblia, nasceu a menos de 600 quilômetros dele, em Belém -- um menino perseguido desde antes de nascer.

O contexto que gerou o sofrimento de Aylan e de tantos outros como ele é mais amplo, não se resume à geopolítica internacional. Tem a ver com a capacidade humana de tornar aceitáveis a discriminação, a separação e as barreiras que naturalizam e promovem a morte de tanta gente. A família de Aylan tentava viver, migrou o mesmo jeito que muitos de nossos antepassados deixaram suas terras em busca de paz, trabalho, amor e felicidade.

(Estação Carioca, O DIA, 7/9)


O exemplo de um octogenário

separador Por Fernando Molica em 19 de outubro de 2015 | Link | Comentários (0)

A calorosa recepção carioca a José 'Pepe' Mujica revela que parte da juventude anda buscando seu norte mais ao sul, lá no Uruguai. Na Uerj, o ex-presidente ocupou um lugar antes reservado a colegas brasileiros que, como ele, ascenderam na política, mas hoje se veem obrigados a explicar o que fizeram ou, supostamente, deixaram fazer.

Para chegar ao poder, o PT procurou demonstrar que saberia se comportar, usaria bem os talheres à mesa. Na Carta aos Brasileiros, prometeu repeito às regras capitalistas, jurou que a estrela que assustava muita gente não seria mais assim tão vemelha. Ao mesmo tempo, o partido deixou de lado causas abraçadas por setores da esquerda, como a descriminalização do aborto e das drogas, e subiu no púlpito de setores religiosos rígidos na cobrança da moral individual e pródigos na busca do dinheiro público.

Lula levou para o Planalto a experiência do movimento sindical, a dança de avanços e concessões que marca as disputas entre patrões e empregados. Em seus governos, empresas lucraram, trabalhadores ganharam mais e quem estava fora do jogo recebeu, via Bolsa Família, o direito de comer.

As reeleições do projeto petista mostram o sucesso de seus passos. Mas, para subir, o PT imitou a Conceição de Cauby Peixoto, e desceu ao submundo da política brasileira, instituição oleosa que lubrifica apoio no Congresso, contratos suspeitos, empréstimos subsidiados e generosas verbas de campanha.

Não só desceu: no Mensalão, aprimorou o esquema criado pelo PSDB mineiro, um raro e significativo exemplo de colaboração entre tucanos e petistas. No Petrolão, o partido demonstrou sua capacidade de sistematizar e aperfeiçoar a tradicional prática de assalto aos cofres de repartições e de estatais.

Aos poucos, os fins deixaram de justificar os meios, estes passaram a ser o objetivo final de muita gente abrigada na antiga 'UDN de macacão' -- apelido dado ao PT por Leonel Brizola, que ironizava a ênfase do partido na pregação da honestidade nos negócios públicos.

De tanto se moldar, o PT parece ter perdido sua forma original. Não é por acaso que, diante da crise de sua utopia e do fortalecimento da direita, parte do eleitorado de esquerda encontre a renovação num homem de 80 anos, um ex-guerrilheiro que, no governo, não se deixou seduzir pelo brilho dos palácios, manteve uma vida humilde, honrou as propostas da frente que o elegeu, rompeu com a hipocrisia que admite apenas o consumo clandestino da maconha e, importante, não roubou nem, ao que parece, deixou roubar.

(Estação Carioca, O DIA, 31/8)


A parada que nos condena

separador Por Fernando Molica em 19 de outubro de 2015 | Link | Comentários (0)

Ao contrário do que sentenciou Macunaíma, personagem de Mário de Andrade, é o excesso de paradas, não de saúvas, que complica o Brasil. Não me refiro a desfiles militares nem a pontos de ônibus. As paradas são outras, mais abrangentes, filhas bastardas, pesadas e ambiciosas do velho e quase inocente jeitinho brasileiro, que acabou sepultado pelas críticas acadêmicas e pela truculência e falta de modos que têm marcado a vida nacional.
As paradas floresceram no espaço que havia entre o tal jeitinho-quebra-aí-meu-galho e a consagração do pixuleco. Este, um mecanismo que, catapultado por milionárias doações eleitorais e suas respectivas e inflacionadas contrapartidas em obras, deixou pra trás os tempos românticos das comissões de 10% pagas aos que roubavam e diziam fazer.

As paradas estão por todos os lados, mas ficam evidentes nas ruas. Como no caso do motorista do caminhão de entregas que pede ao guarda municipal que resolva sua parada -- a necessidade de descarregar em local e horário proibidos. De um modo geral, parada tem a ver com negociação, com oferta e procura, com algum tipo de prêmio ou remuneração. Viabilizar a parada alheia está relacionada com a certeza de faturar a própria parada. É dando que se recebe.

Como ouvi outro dia na Rua do Rezende, ninguém tem o direito de atrapalhar a parada do outro. A declaração de princípios do livre mercado da parada faz sentido, quase sempre, o que está em jogo é a concessão de algo que não tem dono definido, o espaço público ou as verbas administradas por governos -- entre nós, a palavra "público" não costuma designar aquilo que é de todos, mas algo que não tem dono, é de quem pegar primeiro. Quem cede, entrega algo que não lhe pertence mas que, de alguma forma, está sob o seu tacão.

Parada serve para designar diversos gestos. O traficante utiliza a palavra para classificar a ação de matar inimigos; o miliciano, para tratar da venda de gás. É comum também na boca do juiz de futebol e na do cidadão que reclama da corrupção de políticos enquanto faz a grana escorregar para a mão do policial que iria multá-lo. Resolver uma parada não é crime, afinal. Adocicadas por metáforas inocentes, como "água para molhar a planta", "paliativo" e "faz-me rir" (a palavra "suborno" não deve ser pronunciada), as paradas cresceram, ganharam força e poder. De vez em quando, algumas paradas viram escândalo, levam um tranco e recebem condenação social. Nada que impeça novos problemas e novas paradas. Por aqui, as paradas estão sempre em movimento.

(Estação Carioca, O DIA, 24/08)


A pluralidade em suas mãos

separador Por Fernando Molica em 19 de outubro de 2015 | Link | Comentários (0)

Outro dia, num debate sobre dificuldades enfrentadas pelos jornais em meio a tanta informação gratuita, o editor de uma importante publicação paulista ressaltou que, hoje, muita gente não quer saber de notícias que contrariem suas crenças e preferências. Habituadas às redes sociais, essas pessoas aceitariam apenas informações que reafirmassem suas convicções, mesmo que sejam boatos ou mentiras. Assim, tucanos evitariam saber o que pensam aqueles que consideram petralhas, petistas tratariam de ignorar todos os que classificam de coxinhas.

O Facebook nos permite bloquear os indesejados, o que facilita a tarefa de construir um mundo quase ideal, habitado por pessoas parecidas, que gostam dos mesmos times, das mesmas músicas, que rejeitam os mesmos políticos. Em meio a tanta agressividade na internet,é grande a tentação de usar o cartão vermelho virtual. Muitos trocaram argumentos por ofensas, ficou difícil argumentar, questionar, apontar contradições: a discussão foi substituída pelo xingamento, ideias divergentes são atacadas, espezinhadas.

E, aqui, volto aos jornais, que teimam em nos apresentar fatos que sacodem nossas certezas, mostram pecados de supostos santos, roubalheiras de quem se apresentava como honesto, fragilidades de defesas que pareciam impenetráveis. Não fazem isso porque gostam de estragar o nosso dia, mas para que, informada de suas mazelas, a sociedade fique indignada, cobre soluções, pressione os poderes. Notícias também permitem que possamos conhecer aqueles que são diferentes de nós, que torcem por outros times ou partidos, pessoas que sofrem nos hospitais, que são vítimas de bandidos ou mesmo da polícia, que são discriminadas, que perderam o emprego. Ao compreender aqueles que desconhecemos, nos tornamos mais humanos -- e, assim, damos oportunidade para que outros nos entendam e nos aceitem.

Todos somos diferentes uns dos outros. Mais do que buscar semelhanças é preciso conhecer e compreender as divergências, aprender que adversários não são necessariamente inimigos. Numa época em que se dá tanto valor a certezas e a verdades absolutas, é fundamental abrir espaço para a dúvida, para o questionamento, não podemos deixar de ser curiosos, de tentar saber o que se passa na rua, no bairro, na cidade, no estado, no país, no mundo. Nas páginas desta edição do DIA você terá uma boa mostra da diversidade que nos cerca. Leia, comente, compartilhe, reclame do que não estiver correto ou bem explicado -- e volte sempre, a casa é sua.

Estação Carioca, O DIA, 17/8.


BG
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