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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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agosto 2015 Archives

Sem novidades em mais um Enem

separador Por Fernando Molica em 10 de agosto de 2015 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, O DIA, 10/8:


É meio chato confessar, mas sou obrigado a dizer que, nas próximas linhas, não vou tratar de qualquer novidade. Peço desculpas, mas de vez em quando bate um desânimo, uma sensação de que estamos atolados, presos num mesmo lugar. A razão dessa tristeza é a mesmice consolidada no relatório do Enem divulgado na semana passada.

Houve mudanças aqui e ali, ficaram mais evidentes artimanhas de grupos empresariais que, graças a uma espécie de doping pedagógico, transformam o exame em vitrine de suposta eficiência e de óbvia picaretagem -- caso de escolas que criam alunos em regime de confinamento para bombar suas notas.

O que machuca mesmo, que dá a sensação de que nada muda, é constatar, mais uma vez, o abismo entre escolas privadas e públicas. Diferenças que não são fruto de incompetência ou descaso. Pelo contrário, demonstram o resultado de um esforço sistemático de impedir qualquer mudança efetiva na sociedade brasileira. Não seria razoável admitir que um país tão sofisticado -- fabrica aviões, é pioneiro em técnicas agrícolas e na exploração de petróleo em águas profundas -- seja incapaz de produzir uma educação pública de qualidade. Não faz isso porque não quer, porque quase todos os seus governantes preferem deixar tudo como está, investem na manutenção da concentração de saber, irmã gêmea do acúmulo de poder e de renda.

A escola pública foi boa quando dedicada a uma elite. Universalizada, virou, na maioria dos casos, uma repartição destinada a emitir certificados e a garantir que -- fora as exceções de praxe -- filhos de pobres continuem pobres. Nada mais imutável entre nós que o privilégio dos afortunados, beneficiados por uma espécie de cota que, ao contrário da reservada para negros, goza de um quase consenso social. A lista de problemas ainda inclui o corporativismo que deflagra sucessivas greves na área pública e poupa o setor privado.

A ausência de pressão social pela melhoria do ensino público faz com que tragédias como a reiterada pelo Enem sejam vistas como normais e inevitáveis. Uma situação bem diferente da verificada nas universidades públicas, redutos de nossas elites. Os que nelas ensinam e estudam se mobilizam com rapidez diante de qualquer ameaça de corte de verbas.

Volta e meia se fala em pacto pela educação. Besteira, este acordo existe há muito tempo e tem como objetivo garantir que nada será mudado. É fundamental quebrar este grande e silencioso conchavo cujos resultados voltaram a, em forma de números, explodir na nossa cara.


Os baluartes no palco Candeia

separador Por Fernando Molica em 10 de agosto de 2015 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca,View image, 03/08.

Sábado, na Portela, durante a apresentação da Velha Guarda, Monarco deixou o microfone, recuou alguns metros no palco e foi para trás da cadeira onde estava sentado outro baluarte da escola, Waldir 59, de 88 anos. A diferença de idade entre os dois -- seis anos -- parece maior. Monarco não cansa de desafiar os quase 82 anos que o calendário cisma em lhe impor; cego há 13 anos, Waldir precisa que seus passos sejam escoltados e guiados por outras pessoas.

Presença frequente na quadra, Waldir estava lá por um motivo ainda mais especial, a homenagem a Candeia que, morto em 1978, completaria 80 anos no próximo dia 17. Os dois foram parceiros em cinco sambas de enredo da escola -- sábado, o palco do Portelão foi batizado com o nome de Candeia, compositor que dedicou boa parte de sua vida à luta pela afirmação dos negros.

De chapéu panamá, camisa azul de mangas compridas, calça e sapatos brancos, Waldir cantarolava e acompanhava com os braços os sambas que a Velha Guarda e a também portelense Teresa Cristina interpretavam. Foi quando Monarco fez a caminhada até o amigo, apoiou as mãos nas costas da cadeira, apoio que servia de descanso, mas que era também carinho naquele que é mais velho, abraço de filho que protege o pai. Ao fazer com que Waldir ficasse à sua frente, ele reforçou o compromisso com os que vieram antes, que construíram a escola.

Depois, Monarco foi para a frente do palco, voltou a cantar e levantou o braço direito numa saudação ao público. Alguns metros atrás, Waldir -- que não podia ver o que se passava -- também levantou seu braço. Coreografia espontânea, que aponta para o passado, para o presente e para o futuro da sempre querida Portela.


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