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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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junho 2015 Archives

Na Gávea, o branco no preto

separador Por Fernando Molica em 29 de junho de 2015 | Link | Comentários (0)

Estação Carioca, O DIA, 22/6.

As imagens exibidas pela Globonews sobre episódios ocorridos diante do Shopping da Gávea mostram como o racismo é mantido e renovado graças à cumplicidade e ao estímulo de muita gente. Um policial civil aponta sua arma para adolescentes negros ajoelhados na calçada -- jovens que haviam se envolvido numa briga que começara num ônibus e se estendera pela calçada. Ao fundo, alguém grita: "Mata! Mata!" Ao fazer isso, o sujeito infringiu o Artigo 288 do Código Penal, que pune a incitação ao crime. Mas o sujeito não foi preso, assim como outro que, como relatou a reportagem do DIA , urrou: "Isso é raça ruim!"

Surge então um homem branco, meio idoso, que dá uma pisada nas costas do rapaz e tenta agredir um segundo adolescente. Comete, então, o crime de lesão corporal grave, Artigo 129 do Código Penal. Mas o policial ignora o flagrante e não prende o criminoso -- atropela, assim, o Artigo 319 do Código Penal, que trata de prevaricação: "Retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de ofício, ou praticá-lo contra disposição expressa de lei, para satisfazer interesse ou sentimento pessoal."
Pelo que li, o delegado do caso não indiciou o policial que prevaricou. Cometeu, portanto, o mesmo crime, e ainda poderia ser enquadrado por condescendência criminosa (Artigo 320, "Deixar o funcionário, por indulgência, de responsabilizar subordinado que cometeu infração no exercício do cargo").
No fim das contas, os três jovens negros foram apreendidos e levados para a delegacia. O pai de um deles foi indiciado -- para proteger seu filho, ele agredira outro jovem envolvido na briga. Como no velho filme, foram detidos os suspeitos de sempre.

Alguém poderá dizer que não houve racismo, apenas um mal-entendido gerado pela paranoia da violência. OK, então invertamos a cor da pele dos protagonistas. Imaginemos que os jovens brigões fossem brancos -- será que o policial apontaria uma arma para eles? Algum cidadão da Gávea iria sugerir que os adolescentes fossem eliminados ou diria que eles eram de uma "raça ruim"? Você tem dúvida de que seria preso em flagrante o negro que desse uma pisada em um dos detidos? Por último, nenhum dos jovens seria, nos jornais e TVs, chamado de "menor" -- esta qualificação é reservada para adolescentes negros e pobres, culpados ou não.


O verdadeiro sobrenome

separador Por Fernando Molica em 29 de junho de 2015 | Link | Comentários (0)

Estação Carioca, O DIA, 22/6.

"Você já viu coisa mais triste e chata do que velho jornalista? O médico, ainda que velhinho, continua sendo médico. Lembra do Rinaldo De Lamare, o pediatra que escreveu aquele livro sobre bebês? Ele morreu com mais de 90 anos. Certamente não tinha mais consultório. Mas sou capaz de jurar que ele continuava dando umas consultas, aqui e ali. Nem que fosse para o bisneto, para o filho do porteiro, para a neta da empregada. Duvido que ele tenha ficado uma semana sem fazer uma recomendação, passar uma receita. Isso, com mais de 90 anos. Quem é médico é médico a vida inteira. Isso vale pro advogado, pro engenheiro, pro arquiteto. Não vê o Niemeyer? E jornalista? Jornalista só é jornalista enquanto trabalha em jornal. Depois, vira um ex-jornalista. Melhor: um jornalista sem-jornal, apenas um chato.

Jornalista só é jornalista quando está num jornal, numa revista. Você acha que meu sobrenome é Menezes, não acha? Errou. Meu sobrenome é Diário. Meu nome todo é Ricardo Luiz Menezes do Diário. Ou, na forma mais simples, Ricardo Menezes do Diário. É assim que eu me apresento, com meu nome profissional, meu verdadeiro nome de casado. Já fui Ricardo Menezes do JB, Ricardo Menezes do Globo. Agora, sou do Diário. Você tá rindo? Acha que é sacanagem? Amigo, jornalistas se apresentam assim, mesmo na praia. 'Sou o Fulano, do Dia'; 'Esse aqui é o Beltrano, da Folha'. Neguinho faz isso até ao ser apresentado para quem não é jornalista. Imagina um médico falando assim: 'Sou o Dr. Souza, do Miguel Couto', 'Sou a Dra. Janaína, do Albert Schweitzer'. Isso é uma maluquice, desvio psiquiátrico.

Na prática, quando a gente faz isso, tá dizendo que só é alguém porque está num jornal. Igual às mulheres que antigamente se apresentavam com o nome do marido: 'Sou a Sra. João Carlos Cardoso de Azevedo'. Mas, quer saber?A gente tá certo. Jornalista só é jornalista se estiver casado com um jornal. Nenhuma autoridade iria perder tempo com um Menezes, com um Reis, um Almeida, um Fraga, um Queiroz qualquer se depois destes nomes não tivesse um nome maior, mais importante, imponente, ameaçador. O nome, claro, de um jornal. Acredite, meu caro, é assim. Então, aos 50 anos eu tenho que me preparar para o dia do grande divórcio, o dia em que voltarei a ser Menezes. Talvez seja bom, uma outra libertação, mas talvez seja uma merda ficar mudo quando a secretária do outro lado da linha perguntar: 'Ricardo Menezes de onde?' ."


Taxistas que ajudam a concorrência

separador Por Fernando Molica em 29 de junho de 2015 | Link | Comentários (0)

Estação Carioca, O DIA, 15/6.

Tá legal, amigos taxistas, eu aceito o argumento de vocês e concordo que aquele serviço que oferece carros e motoristas para pequenas corridas -- o Uber -- é uma forma de concorrência que tenta driblar a legislação. Mas, além de reclamar, vocês deveriam refletir um pouco sobre o que gerou a aceitação do novo sistema pelo público. Nem a fúria de um Eduardo Cunha é capaz de mudar uma lei como a da oferta e da procura, que sobreviveu até mesmo em países socialistas.

Vale lembrar que as vans também se valeram da precariedade do transporte público. O mau serviço prestado por ônibus (e trens, e metrô) é que viabilizou o chamado transporte alternativo. Volta e meia questionado sobre fórmulas para o sucesso empresarial, um antigo patrão, costumava recitar : "Descubra uma necessidade e a preencha." Foi o que fizeram os antigos topiqueiros, é o que faz o pessoal do Uber.
Caros, desculpe, mas muitos de vocês confundem prestação de serviço com favor, acham que dão carona a quem pega um táxi. Nem sempre o passageiro quer conversar, trocar ideias sobre maioridade penal ou Bolsa Família. A recusa em levar o cliente a determinados lugares, corridas "no tiro", uso da bandeira 2 fora do horário e a busca de trajetos mais longos são outros pecados mortais. A lista de problemas inclui a resistência em acionar o ar condicionado e a insistência em manter o rádio ligado, pior, na estação de preferência do motorista. Não faz muito tempo, era praxe o taxista perguntar ao usuário se ele queria ouvir a música, o jogo ou o culto religioso.

Pior que o rádio é o DVD/TV. Ninguém dá bola para a resolução do Conselho Nacional de Trânsito que restringe o uso desses aparelhos instalados na parte dianteira do carro -- todos deveriam ter um mecanismo para impedir sua utilização quando o veículo estiver em movimento. Além de incomodar o passageiro, a TV distrai o motorista, não dá para prestar atenção no trânsito na hora do gol ou nas cenas em que o o casal da novela resolve partir para uma corrida de submarinos.

Placas nas ruas indicam a presença de radares, mas muitos taxistas fazem questão de instalar aquele mecanismo que apita ao perceber a aproximação dos pardais de controle de velocidade. Os sucessivos "piiiis" fazem lembrar a trilha sonora de uma UTI. Volta e meia, os alertas são interrompidos pelo grito de "Táxi!" acionado por aplicativos de celulares. Enfim, é justo que vocês briguem por seus direitos, mas não custa melhorar o serviço prestado. Até porque, como diz um outro samba, camarão que dorme a onda leva.


Apenas um comercial de perfumes

separador Por Fernando Molica em 29 de junho de 2015 | Link | Comentários (0)

Estação Carioca, O DIA, 8/6.

A reação negativa de alguns setores ao comercial da rede O Boticário que trata casais homossexuais com naturalidade faz lembrar uma tirada do ex-deputado Roberto Jefferson. Em 1996, sua escolha para a função de relator de projeto que previa a união civil entre pessoas do mesmo sexo assustou a militância gay, já que ele não demonstrava qualquer simpatia por propostas mais ousadas.

Jefferson, porém, surpreendeu os ativistas e se mostrou favorável à causa. Isto, depois de fazer uma pergunta irônica à autora do projeto, a então deputada Marta Suplicy: "A proposta prevê união obrigatória com pessoas do mesmo sexo? Se for aprovada, eu só vou poder me casar com um outro homem?" Como a resposta -- claro -- foi negativa, ele não viu qualquer problema no projeto, que, por pressões conservadoras, acabaria retirado da pauta.

Não custa repetir que nem o mais radical defensor dos direitos dos homossexuais quer fazer com que homens passem a ficar com homens, e mulheres com mulheres. Também não vale dizer que os donos da empresa de cosméticos tentam estimular a mudança na orientação sexual dos brasileiros -- eles querem apenas vender perfumes. Achar que a publicidade pode influenciar em algo tão íntimo seria o mesmo que admitir que um rubro-negro queira, depois de submetido a uma intensa campanha, jogar no lixo a camisa do Flamengo e vestir a do Vasco. O Boticário também não pode ser considerado culpado se, depois de assistir ao comercial, algum Robernildo tenha pensado em trocar sua Florisbela por um Waldemar. Neste caso, o filme -- e cito de novo o Roberto Jefferson -- terá apenas contribuído para despertar instintos mais primitivos que estavam adormercidos no tal sujeito.

A insistência na condenação de aspectos da vida privada costuma servir como uma espécie de cortina de fumaça lançada por políticos que têm muito a esconder na esfera pública. Quem insiste em falar na defesa dos valores da família tende a defender mesmo os interesses concretos de sua própria família. Em 1996, o então deputado Severino Cavalcanti chamou de "excrescência" o projeto de união civil. Anos depois, flagrado numa orgia de denúncias, ele se viu obrigado a renunciar ao mandato. No mais, chega ser risível a decisão do Conar, conselho que autorregulamenta a publicidade, de examinar o comercial de O Boticário. Pelo visto, o passo seguinte será julgar anúncios que tratem como normais relações amorosas entre negros e brancos, israelenses e palestinos, atletas olimpícos e paralímpicos, flamenguistas e vascaínos.



Os companheiros, na fila e na prisão

separador Por Fernando Molica em 29 de junho de 2015 | Link | Comentários (0)

Estação Carioca, O DIA, 01/6.

Semana passada, um senhor de bermuda, barrigudo, meio desgrenhado, aguardava a vez de ser atendido na fila de uma lotérica do Humaitá. Era o ex-deputado Vladimir Palmeira, figura marcante das manifestações de 1968 contra a ditadura. Orador irônico, implacável, brilhante, fazia uma espécie de dupla com José Dirceu. Os dois, um no Rio, outro em São Paulo, transformaram-se em símbolos do movimento estudantil. Acabaram presos -- seriam soltos ao mesmo tempo, estavam entre os 15 libertados em troca do embaixador norte-americano sequestrado por grupos guerrilheiros.

Fui até ele, o cumprimentei e lembrei que, há uns 20 anos, ele ganhara uma bolada -- cerca de R$ 3 milhões -- na loto. A maior parte da grana foi gasta em atividades políticas, como na compra de um caminhão de som. Ao PT, ele doou 10% do prêmio. O destino do dinheiro virou piada -- era a segunda vez que o sujeito decidira abrir mão de uma fortuna (a primeira vez foi quando rejeitou a herança de sua família, dona de usinas no Nordeste). Vladimir, veja só, perdeu dinheiro com a política.

Os destinos de Vladimir e de Dirceu ajudam a contar um pouco da história recente da esquerda brasileira, em particular a do PT. Aos 70 anos, o primeiro não abandonou o jeitão de estudante revoltado, de quem desconfia de qualquer poder. O outro, a partir dos anos 1990, lançaria as bases que permitiriam ao PT chegar à Presidência da República. A contradição ficaria evidente em 1998, quando, para evitar a candidatura de Vladimir ao governo do Rio e forçar uma aliança com Garotinho, a direção nacional petista fez uma intervenção no diretório fluminense do partido. Ficou evidente que, para crescer e conquistar aliados, o PT não abriria mão de práticas da política brasileira que tanto havia condenado.

A prisão domiciliar de Dirceu, que não parece ter problemas de dinheiro, e a presença do antigo companheiro na fila da loteria são complementares, sintetizam agruras petistas. Revoltado com o PT, Vladimir, que tanto gosta de apostar nos números, trocou o 13 pelo 40 do PSB -- pelos novos rumos da legenda, deverá descartar esta outra dezena. Defensores de Dirceu podem alegar que o jogo que ele decidiu jogar viabilizou a ascensão do PT e a implantação de políticas que diminuíram a pobreza, resgatarão a história da necessidade de quebrar ovos para fazer omeletes. O pessoal que se identifica com Vladimir responderá que muitos dos ovos eram de ouro e acabaram furtados por raposas que cercavam o galinheiro. Deu certo, e também deu errado. Deu no que deu.


Violência não é uma herança genética

separador Por Fernando Molica em 29 de junho de 2015 | Link | Comentários (0)

Estação Carioca, O DIA, 24/5.

O Fla-Flu em que se transformou a vida brasileira tem inviabilizado qualquer argumentação que não seja na base de uma luta do bem contra o mal. Mudando um pouco a frase do Xico Sá, o país virou uma interminável peleja do cordão azul-tucano contra o cordão encarnado-petista. Ficou difícil buscar alternativas que fujam às frases parecidas com hambúrgueres do McDonald's -- produzidas em série e prejudiciais à saúde.

Ressaltar que a violência está também relacionada à pobreza e, principalmente, à extrema desigualdade social não é igual a proteger bandidos. Entender as razões que levam uma sociedade a produzir tantos criminosos não significa defender a impunidade. Culpados devem ser punidos: políticos, empresários, policiais, milicianos, traficantes e jovens como os que mataram o médico Jaime Gold. Mas a condenação não impede o debate sobre motivos que levam à delinquência, um tema necessário até para tentarmos diminuir a ocorrência de crimes.

Semana passada, diante da revolta gerada pelo assassinato na Lagoa, a tarefa de colocar um pouco de sensatez ao pega-mata-come coube a dois personagens improváveis: Marcia Amil, ex-mulher de Gold e mãe de seus dois filhos, e Rivaldo Barbosa, delegado do caso. Sem negar a responsabilidade dos assassinos e a brutalidade do crime, frisaram que os algozes do médico também são vítimas de uma sociedade injusta. As declarações geraram torrentes de críticas: alguns ressaltaram o fato de ela ser a ex, o que justificaria um desejo de vingança; outros repetiram o velho "leva o bandido para casa".

Nenhum dos dois fez carinhos virtuais na cabeça dos bandidos, eles apenas verbalizaram que não dá para reduzir a criminalidade só com polícia ou medidas simplistas como a redução da maioridade penal. Não dá para achar que muitos brasileiros nasceram com uma falha genética que determina a opção pela vida bandida. O mapa-múndi da violência é claro: a criminalidade é maior em países mais desiguais. Negar esta obviedade seria pregar que noruegueses ou suecos são melhores do que nós.

Baixemos a bola, escapemos de propostas que servem apenas para mascarar a incompetência de governantes, incapazes de gerar uma sociedade mais justa e segura.

Por último: todos os protagonistas dos grandes escândalos em governos têm mais de 18 anos. Sozinhos, roubaram muito mais do a soma das quantias amealhadas por menores de idade. Também não vale frisar que estes são mais violentos -- o dinheiro que sobra em contas na Suíça e falta em escolas e hospitais gera mais vítimas do que tiros e facadas.


Na Europa, a NBA do futebol

separador Por Fernando Molica em 29 de junho de 2015 | Link | Comentários (0)

Estação Carioca, O DIA, 18/5.

Os jogos da Champions League me fazem lembrar a seleção brasileira de basquete que atuava no início dos anos 1970, quando eu era garoto. Um time em que brilhavam estrelas como Carioquinha, Hélio Rubens, Ubiratan e Marquinhos, um pivô de pouco mais de dois metros de altura, quase um Everest para a época. A equipe era muito boa, participava com relativo sucesso dos mundiais (vice-campeã em 1970, terceira colocada em 1978 -- aqui, renovada, contava com os espetaculares Oscar e Marcel).

Fui algumas vezes assistir a torneios que volta e meia conquistávamos. Eram quadrangulares que costumavam ter a participação de seleções como a da Iugoslávia e a dos Estados Unidos. E é aí que vem a história da Champions League. O basquete era considerado um esporte amador, o que impedia a participação de atletas da NBA nas seleções norte-americanas. Os caras se faziam representar por equipes universitárias, formadas por atletas que ainda não haviam se profissionalizado. Caprichavam, como podiam, no time enviado para as Olimpíadas, mas não davam muita bola para o Mundial -- então dominado por iugoslavos e soviéticos -- e, muito menos, para torneios no Maracanãzinho.

Na época, o mundo do basquete era dividido de maneira bem simples: a NBA e o resto. Havia até algumas diferenças nas regras, o que fortalecia a percepção de que o esporte que eles disputavam era outro. Esta impressão ficou evidente a partir de 1992, quando profissionais norte-americanos puderam, enfim, disputar as Olimpíadas e formaram o Dream Team, time dos sonhos que contava com craques como Michael Jordan, Magic Johnson e Larry Bird. Os adversários entravam em quadra com vontade de pedir autógrafos.

A distância que separa campeonatos europeus dos disputados por aqui é ainda maior da que havia entre o basquete americano e o do resto do mundo. Mas dói perceber que a diferença no futebol só aumenta -- os 7 a 1 traduzem o domínio alemão naquele jogo e expressam uma proporção, a diferença que nos separa de um futebol mais bonito e competitivo. Nossa tragédia é consequência do profissionalismo deles e do nosso amadorismo, um amadorismo feito para empobrecer clubes e enriquecer muitos dos que gravitam nesse universo. Só a roubalheira institucionalizada em clubes e federações explica a não existência de um futebol compatível com o talento dos nossos jogadores e com a economia brasileira, uma das dez maiores do mundo. Ah, para fazer justiça: nossa antiga seleção de basquete era muito melhor que o time do Felipão.


Os que comemoram gol contra

separador Por Fernando Molica em 29 de junho de 2015 | Link | Comentários (0)

Estação Carioca, O DIA, 11/5.

O ódio de setores da sociedade ao PT gera situações que lembram o gesto de amigos alvinegros em 2009, às vésperas da última rodada do Brasileirão. Eles diziam torcer por uma derrota do Botafogo para o Palmeiras, o que levaria o clube para a segunda divisão. Faziam isto porque, se vitorioso, o time paulista poderia conquistar o título e impedir que o Flamengo ficasse com a taça. Achavam o rebaixamento mais suportável do que a alegria rubro-negra.

Na ânsia de mandar petistas para Cuba ou de reservar para eles lugares no próximo foguete que for se desintegrar, muitos passaram a considerar amigos todos os inimigos do partido de Lula. Assim, chegam a comemorar vitórias oposicionistas que prejudicam seus próprios interesses. Analistas políticos entraram na torcida. Não perdoam que deputados da oposição pratiquem o fair play e votem aqui e ali com o governo -- em se tratando do PT, pontapés estão liberados, a canela começa logo abaixo do pescoço.
Nas últimas semanas, a Câmara dos Deputados comandada por Eduardo Cunha aprovou medidas como a que estimula a terceirização de mão de obra. Outra, torna mais discreto, em rótulos de produtos alimentícios, o alerta sobre a presença de transgênicos em sua composição (o PT era contra, de seus 60 deputados presentes, apenas dois, entre eles o fluminense Luiz Sérgio, votaram a favor do projeto). Se é para enfraquecer os petistas, vale trocar a carteira assinada por relação precária de trabalho, é aceitável não notar a existência de componente geneticamente modificado na papinha do filho

O negócio ficou tão esquisito que tem gente irritada com a aprovação do arrocho fiscal não por seus efeitos, mas por conta de o resultado da votação ter representado uma vitória do governo. Até mudanças constitucionais entraram na dança, como a que altera a aposentadoria de integrantes do Judiciário, medida casuística que visa apenas impedir a nomeação, por Dilma, de outros ministros do Supremo.
Ao adotar a lógica do torcedor, muitos relevam escândalos que envolvem oposicionistas, parecem interessados não em acabar com a corrupção, mas em promover uma troca de ladrões. Ignoram também pedaladas processuais no caso do Petrolão, parecem esquecer que qualquer um pode ser vítima de abusos por parte do Estado. O que está em jogo não é futebol, mas o país, suas instituições, o futuro de todos nós. É legítimo berrar e fazer barulho contra o governo, mas não custa ter cuidado para não comemorar gol contra nem confundir bater de panelas com chicotadas no próprio lombo.


Do feijão suburbano à calça do Ademar

separador Por Fernando Molica em 29 de junho de 2015 | Link | Comentários (0)

Estação Carioca, O DIA, 4/5.

Pelo telefone, o cunhado ausente da feijoada negociava uma prorrogação, a possibilidade de que um tanto da comida fosse reservado para ele. Do outro lado, a anfitriã abriu o riso de teclado e rebateu o pedido como se num voleio, bola que nem chegou a quicar na grande área:

-- Vai dar não. Aqui em casa, missa só de corpo presente.

Papo reto, pá-pum, bola de um lado, goleiro do outro -- gol de placa, sem direito a recurso, réplica, tapetão, efeito suspensivo, delação premiada ou silêncio comprado. Resposta que desarma o interlocutor, humor que, sacado com rapidez de mocinho de faroeste ou de ninja de filme asiático, ameniza dramas, relativiza muitas e tantas durezas. Como aquele taxista que, após revelar morar perto de uma boca de fumo, tentava tranquilizar o assustado passageiro.

- Tem problema não, doutor. É uma boca pequena, uma boquinha banguela.
Ou como o outro taxista que, pressionado por um motorista que, metro a metro, insistia em fechar seu caminho e a lhe negar passagem, abriu o vidro do carro e disparou:

-- Ô mermão, você quer me tirar pra dançar?

Bailemos, pois. Comemoremos a resposta que se impõe como verso de partideiro, drible de Garrincha, paradinha de bateria. Patrimônios imaterais cariocas que impedem uma rendição absoluta à verborragia das frases feitas, ao lugar-comum dos operadores de telemarketing, às promessas de governantes, à mesmice dos discursos em casas legislativas. Mesmo estas foram palco de debates mais divertidos. Como na vez em que, comparado a um purgante, o então deputado Carlos Lacerda revidou: "E Vossa Excelência é o resultado do purgante." Em outra ocasião, chamado de "ladrão da honra alheia", o mesmo Lacerda fulminou: "Então, não tenho o que roubar de Vossa Excelência." A direita brasileira já foi mais talentosa e divertida; a esquerda, por sua vez, podia se preocupar mais em atacar do que em se defender.

Em meio a tantos profetas e verdades absolutas, melhor é cultivar o que torna a vida menos dura e mais suportável, frases e jeitos que relativizam poderes que se julgam incontestáveis. Na hora em que professor, como cantava Adoniran Barbosa, vira táuba de tiro ao Álvaro, e dedo-duro ganha medalha de honra ao mérito, levanto um brinde aos que ressaltam a nudez do rei, ao anônimo que, ao ouvir o então governador Ademar de Barros gritar que no bolso de sua calça não havia dinheiro do povo, retrucou: "Calça nova, né, Ademar?"


Festa para São Jorge e Dona Ivone Lara

separador Por Fernando Molica em 29 de junho de 2015 | Link | Comentários (0)

Estação Carioca, O DIA, 27/4.

Os fogos que, às 18h do dia 23, explodiram em Oswaldo Cruz, Madureira e Bento Ribeiro, marcaram o Dia de São Jorge e minha particular reconciliação com a festa. Nada de pessoal com o santo, o problema é que, quando criança, acordava assustado e irritado com o foguetório que sinalizava, em Piedade, a alvorada do 23 de Abril. Não conseguia entender por que os devotos tinham que despertar todo mundo assim tão cedo. Talvez isso tenha até gerado uma certa antipatia pelo exterminador de dragões e de horas de sono.

Os fogos foram sumindo na medida em que, ao longo dos anos, eu ia trocando de bairros, me afastando daqueles em que eram mais intensos e barulhentos os louvores ao Santo Guerreiro. Confesso nunca ter sentido falta daquela barulheira, mas depois da última quinta-feira, mudei de opinião. São Jorge me proporcionou um reencontro espetacular com os fogos, com a festa em sua homenagem e com minha própria história. Depois do presentão que ele me deu, tem todo direito de atrapalhar meu sono quando bem entender.

O presente se insinuou três semanas antes, com o convite para ir à feijoada em homenagem ao santo que Marquinhos de Oswaldo Cruz promoveria em sua casa. Artista que agregou o bairro ao sobrenome, ele criou o Trem do Samba e a Feira das Yabás e, há alguns anos, participou do esforço que ajudou a Lapa a se reencontrar com o estilo musical que melhor nos traduz. Ir à feijoada já seria ótimo, mas ao chegar lá, vi que tinha mais um grande motivo para comemorar: entre os convidados estava Dona Ivone Lara, que, dez dias antes, completara 94 anos.

Acomodada numa cadeira de rodas, ela trocou uma ou outra palavra com seus parentes e aceitou posar para fotos ao lado de tantos fãs. Na hora de sair, recebeu uma homenagem do anfitrião, que beijou sua mão e cantou algumas das belas canções que ela compôs. Fiéis ao culto aos ancestrais presente nas religiões de matriz africana, sambistas não se esquecem dos que vieram antes, que abriram caminhos, que tornaram a vida mais bonita. Marquinhos cantou, Dona Ivone ficou emocionada. Meninos, eu vi -- mas disse que eu mereço?

Às seis da tarde, o barulho do foguetório se integrou à percussão da roda de samba que ocupava os fundos da casa. Som que serviu também para ressaltar a lembrança de um tempo menos hostil, de cadeiras na calçada, um Rio com poucas grades, em que fogos eram muito mais frequentes que tiros. Deu saudades da cidade do menino que morava em Piedade e que, de certa forma, nunca saiu de lá.


Os momentos que não têm fim

separador Por Fernando Molica em 29 de junho de 2015 | Link | Comentários (0)

Estação Carioca, O DIA, 20/4.

Momento, dizem os dicionários, é algo breve, instantâneo, um quase nada. Algo tão fugaz que você não conseguiria chegar a este ponto do texto num singelo, único, rápido e passageiro momento. Mas a língua é viva, se atualiza, vai mudando, se adaptando aos novos tempos. E é assim que os serviços de atendimento ao consumidor, SACs, em especial os das companhias telefônicas, tratam de mudar o significado da palavra momento.
Todo mundo sabe como é terrível ouvir do atendente a frase fatal: "Espere um momento, por favor." Sabemos que isso significa algo como "fique aí plantado com o telefone pendurado na orelha que eu vou ver se tenho pacidência para resolver sua vida". E tome de esperar, de ouvir musiquinha, de escutar que nossa ligação é muito importante (se é importante, por que não resolvem tudo logo?), de aturar uma voz masculina dizendo que, se a dúvida é em relação à conta (não, não é!), basta passar um torpedo para o número tal que tudo será resolvido como num simples piscar de olhos -- num momento.
Nada disso é de graça, é impossível que empresas grandes e poderosas sejam tão incompetentes. Pelo contrário, o desrespeito ao consumidor é uma extrema demonstração de eficiência, prova da capacidade que esses sujeitos têm de nos irritar, de fazer com que, muitas vezes, desistamos de fazer nossas queixas. Uma simples ligação transforma-se em corrida de obstáculos, algo semelhante à prova olímpica em que atletas têm que pular barreiras e enfiar os pés na água.
É razoável pensar que os responsáveis pela formulação das normas de atendimento cursaram a velha Escola das Américas, centro de aulas de tortura criado pelo governo norte-americano no Panamá. Só um pós-graduado em técnicas avançadas de maus-tratos inventaria os métodos usados pelos SACs. Um dos mais cruéis é a exigência de digitação do número do telefone que deve ser consertado. Logo depois, o sujeito do outro lado da linha pergunta: "Para que número de telefone o senhor quer atendimento?" Não adianta dizer que é para o número digitado pouco antes -- o cliente então descobre que aquele apertar de teclas não adiantara nada.

Melhor, servira apenas para irritá-lo, atendera, portanto, ao objetivo traçado pelos veteranos da escola panamenha. Ligar para esses serviços é como atravessar o portal do inferno: a partir dali, devemos perder todas as esperanças, seremos obrigados a enfrentar a jornada que inclui a imposição de intermináveis momentos. No reino do capeta, o tempo é eterno.


O QI e a legalização da picaretagem

separador Por Fernando Molica em 29 de junho de 2015 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, O DIA, 13/4.

O projeto de lei que estabelece o vale tudo na contratação de mão de obra terceirizada reabilita uma das mais antigas tradições brasileiras, o 'QI', o 'Quem Indica'. A sigla andou meio em desuso depois da Constituição de 1988, que estabeleceu a exigência de concurso para preenchimento de cargos públicos, mas promete reconquistar sua importância com o PL 4.330, já aprovado na Câmara dos Deputados.
Como mostrou reportagem publicada sábado no DIA, o PL possibilita a contratação indefinida de mão de obra terceirizada também em empresas públicas e de economia mista, como Petrobras, Branco do Brasil e Caixa Econômica. Ou seja, milhões de brasileiros que hoje se matam de estudar para tentar passar em concursos poderão jogar suas apostilas no lixo. A partir da sanção do projeto, deverão trocar a ida aos cursinhos pela peregrinação aos gabinetes de políticos em busca de indicação para cargos
O PL legitima uma praga que se espalhou pela administração pública nos últimos anos. Para driblar a Constituição e a Lei de Responsabilidade Fiscal e, ao mesmo tempo, favorecer amigos/aliados/sócios/cúmplices, governantes passaram a contratar, na maior parte das vezes sem qualquer licitação, ONGs picaretas para fornecer mão de obra. A jogada permite que políticos determinem quem será empregado, um prato pra lá de cheio para a criação de currais eleitorais. De quebra, têm a possibilidade de ficar com boa parte da grana entregue para essas organizações. O esquema é perfeito para a bandalheira.

Há muitos anos, fiz uma reportagem que chegou a ser engraçada. Um brasileiro -- chamado, digamos, Zé Mané -- foi contratado por uma dessas ONGs para trabalhar na máquina pública no governo de X. Quando o tal político entregou a administração para seu vice, Y, Zé Mané perdeu o emprego: é que Y, filiado a outro partido, trocou o fornecedor de mão de obra, chamou sua própria ONG. Meses depois houve eleição e Z, aliado de X, assumiu o governo. Zé Mané, então, recebeu seu bico de volta.

A aprovação do PL vai legalizar uma safadeza que há tempos vem sendo combatida pelo Ministério Público do Trabalho. Mas, de certa forma, não deixa de ser uma forma de terceirização: empregos que eram públicos, conquistados com o suor dos candidatos, passarão a pertencer ao político que estiver mandando naquela estatal. E isso ainda acontece num momento em que tanto se cobra honestidade dos governos.


Os milhões que não têm dono

separador Por Fernando Molica em 29 de junho de 2015 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, O DIA, 6/4/2015.

A descoberta de que milhares de brasileiros tinham ou têm contas secretas na Suíça revelou que enfrentamos uma perigosa epidemia de amnésia. Muitos dos patrícios citados na lista do chamado Swissleaks negam que tenham aberto tais contas, juram que o dinheiro não é deles.

Um velho ditado define como louco aquele que come excrementos ou rasga dinheiro. Como não seria razoável supor que destacados empresários, artistas, magistrados, advogados e políticos tenham perdido o juízo, vale concluir que eles ficaram sem memória.
É possível também que Papai Noel tenha decidido, de uma hora para outra, abrir contas no HSBC suíço em nome de adultos que, na infância, não tenham recebido presentes de Natal. Vai que bateu uma culpa no Bom Velhinho e ele resolveu se redimir. Como havia o risco de ser baleado por seguranças dos presenteados caso decidisse entrar em suas luxuosas casas para distribuir os mimos, Noel considerou mais prudente abrir contas secretas para seus protegidos. Ele, coitado, deve estar arrependido. Ao ler em seu tablet, lá no Polo Norte, notícias publicadas no Brasil, descobriu que os seus agrados não fizeram sucesso.
Vai ser engraçado acompanhar a CPI que promete investigar o milagre da multiplicação de dinheiro. Como os suspeitos vão justificar essas marcas de ilegalidade em suas contas mais íntimas?

Alguns tentarão acordo com base, digamos, numa doação premiada, oferecerão seus saldos bancários em troca do encerramento da investigação contra eles. Os mais ousados irão ao Congresso Nacional acompanhados de médiuns que provarão, tostão por tostão, que ocorrera um fenômeno de materialização de grana -- de tanto pensar em dinheiro, seus clientes conseguiram, de maneira involuntária, fazer com que notas verdes se tornassem reais nas tais contas suíças. Parece até que, inspirado numa velha chanchada, Leandro Hassum se prepara para estrelar a comédia 'Esse milhão NÃO é meu'.
Mas, enquanto a investigação não anda, vale pedir aos sujeitos que renegam as contas que respeitem a nossa inteligência. Seria bom também que eles evitassem se manifestar, nas ruas e na internet, sobre a roubalheira praticada por terceiros -- como prega outro dito popular, antes de apontar problemas alheios, macacos devem olhar para os próprios rabos. Ao contrário desses milionários que hoje se mostram alérgicos a dinheiro, a maioria dos brasileiros não perdeu a memória, o juízo e a vergonha na cara.


BG
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