Estação Piedade: a biografia de Fernando MolicaEstante: livros públicados pelo MolicaPáginas Amarelas: textos, artigos e outras palavras maisJulio Reis: Biografia, Músicas e PartiturasBlog: Pontos de PartidaFoto MolicaClique para voltar a página principalFoto Molicawww.fernandomolica.com.brEntre em contato com o Fernando MolicaInformações para imprensa

Blog

Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

separador
BG

março 2015 Archives

Corrupção, crise, vaias e quartéis

separador Por Fernando Molica em 30 de março de 2015 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, O DIA, 30/3:

"Ninguém ganha eleição com palmas, comícios e declarações de amor. É preciso organização, trabalho e dinheiro."

. "Política é negócio -- toma lá, dá cá -- e até hoje não levei nada nesse negócio."
"Apesar da vitória tão incontestável, (...) ameaçaram entrar na Justiça Eleitoral com um pedido de embargo da posse (...)."

. "(...) surpreendeu o país ao anunciar um ministério de perfil (...) conservador."

. "(...) prometendo dar combate sem trégua à corrente inflacionária (...) ao lado do combate sistemático à corrupção."

. "À maré de contratempos se somava o pífio desempenho da economia brasileira."

. "Ante à soma de escândalos, a oposição se dizia estarrecida."

. "(...) o governo caminhava para o isolamento político. Mostrava-se incapaz de estabelecer um controle efetivo sobre o voto dos aliados, ao mesmo tempo que testemunhava o acirramento progressivo da oposição. Como agravante, via os adversários se aproximarem a passos largos dos quartéis."

. "Caso ficasse comprovado (...) crime de responsabilidade, (...) daria início a um processo automático de impeachment."

. "Ser apupado por uma plateia de senhores encasacados e madames com roupa de festa poderia significar até um elogio, pelo menos para um chefe de governo que fazia da classe trabalhadora o seu principal esteio político. (...). Contudo, (...) já devia saber que o episódio seria um deleite para os adversários."

As frases estão na imperdível biografia de Getúlio Vargas escrita por Lira Neto. A triologia chega a ser engraçada -- comentários atuais sobre uma suposta "bolivarização" do Brasil são muito parecidos com editorais que acusavam Vargas de preparar um "golpe peronista", numa referência ao presidente argentino Juan Domingo Perón. A crise terminou numa tragédia que serviria de preliminar para o Golpe de 1964.

A história nunca se repete, mas deve servir de alerta. A oposição tem o direito e o dever de gritar, mas é fundamental manter o juízo e repudiar quaisquer tentações golpistas. Que fiquem no passado bobagens como a pronunciada por Carlos Lacerda: "O sr. Getúlio Vargas, senador, não deve ser candidato. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar."

Em tempo. A primeira citação deste texto é de autoria de Alzira Vargas, filha de Getúlio; a segunda, de Ademar de Barros, aquele do "rouba mas faz".


O ato, os golpistas e o torturador

separador Por Fernando Molica em 18 de março de 2015 | Link | Comentários (2)

O vídeo sobre a manifestação paulistana que foi preparado por equipe da revista 'Trip' é assustador demais. Não dá para achar razoável ou tolerável que organizadores de ato que diz defender a democracia aceitem a presença de entusiastas de um golpe militar e até liberem o microfone para um ex-torturador, o delegado aposentado Carlos Alberto Augusto. Admitir a participação desses sujeitos seria o mesmo que aceitar a presença de nazistas numa passeata contra a política externa de Israel. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

É razoável imaginar que organizadores da manifestação tomassem a iniciativa de expulsar do ato um grupo de petistas que fosse até lá para condenar a roubalheira na Petrobras e, ao mesmo tempo, defender Dilma Rousseff. Não seria absurdo que eles fossem convidados a se retirar de uma passeata que protesta contra o governo. A eventual presença deles poderia até ser vista como provocação.

O problema é que, pelo que vi e li sobre as manifestações de domingo, não houve qualquer tentativa de expulsão dos pregadores do golpe (o vídeo até mostra mulheres que se revoltaram com a histeria militarista, mas, pelo visto, não passou de um protesto isolado).

É simples, ato que inclui defensores da ditadura, torturadores (havia pelo menos um) e pessoas que não admitem a pluralidade (caso dos que revelam intolerância com comunistas e integrantes de outras correntes de esquerda) não pode ser chamado de democrático. Mais: quem defende a ditadura não tem o direito de dizer que é contra a corrupção. Afinal, na ditadura, casos de corrupção eram censurados ou não geravam qualquer consequência - como as mordomias no escalão federal reveladas pelo 'Estadão' e a negociata, publicada pela 'Folha', que envolveu o grupo Delfin e o Banco Nacional da Habitação (terrenos no valor de Cr$ 10 bilhões quitaram uma dívida de Cr$ 60 bi junto ao BNH). Quem defende a ditadura defende o direito de quem quer roubar sem ser punido.

Vale também ressaltar o absurdo que foi utilizar a belíssima 'Canção do Expedicionário' como trilha sonora da manifestação, isto representou uma ofensa aos pracinhas que foram combater ditaduras na Europa. Um combate que, aqui, acabou provocando a queda de um ditador. A 'Canção' ("Por mais terras que eu percorra/ Não permita Deus que eu morra/
Sem que volte para lá") é linda, deve ser o único canto de guerra que não fala em destruição, em morte, mas da vitória e da saudade da pátria amada:

Venho das praias sedosas,
Das montanhas alterosas,
Dos pampas, do seringal,
Das margens crespas dos rios,
Dos verdes mares bravios
Da minha terra natal.

Por último, vale registrar: o Carlos Alberto Augusto, vulgo 'Carteira Preta' e 'Carlinhos Metralha', o ex-delegado do Dops que discursou na manifestação, levou para a Avenida Paulista um cartaz em que dizia querer ser ouvido pela Comissão da Verdade. Pena que só diz isso agora, quando os trabalhos da comissão foram encerrados. O relatório diz que ele foi convocado a depor, mas não foi localizado. Na hora de prestar contas à história, ele tratou de não aparecer. Segue trecho do relatório sobre ele:

Carlos Alberto Augusto (1944-) Delegado de polícia. Serviu no Departamento de Ordem Política e Social de São Paulo (DOPS/SP), sendo conhecido como "Carteira Preta" e "Carlinhos Metralha". Integrou a equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury. Teve participação em casos de detenção ilegal, tortura e execução. Convocado para prestar depoimento à CNV, não foi localizado. Vítimas relacionadas: Carlos Marighella (1969); Eduardo Collen Leite (1970); Antônio Pinheiro Salles e Devanir José de Carvalho (1971); Soledad Barrett Viedma, Pauline Reichstul, Jarbas Pereira Marques, José Manoel da Silva, Eudaldo Gomes, Evaldo Luiz Ferreira de Souza e Edgard de Aquino Duarte (1973).

A Pauline Reichstul, apontada no relatório como uma das vítimas do 'Carlinhos Metralha', era irmã de Henri Philippe Reichstul, presidente da Petrobras no governo Fernando Henrique Cardoso.


Dona Risoleta e a volta da ditadura

separador Por Fernando Molica em 16 de março de 2015 | Link | Comentários (0)

Lembro de dona Risoleta sempre que algum imbecil defende a volta da ditadura militar - só um imbecil pode reivindicar golpe em nome da democracia. Minha vizinha por alguns anos, Dona Risoleta era uma doce e simpática pernambucana que fazia um bolo de rolo espetacular. Ela morreu com mais de noventa anos, morreu sem saber o que foi feito do corpo de seu filho, Eduardo Collier Filho, um dos muitos desaparecidos pela ditadura.

Collier era Integrante da APML, Ação Popular Marxista Leninista, grupo derivado de organizações católicas de esquerda (Betinho e José Serra participaram da antiga AP, Ação Popular). O filho de dona Risoleta e o também militante Fernando Santa Cruz (pai de Felipe Santa Cruz, presidente da OAB-RJ) foram sequestrados em fevereiro de 1974 (prisão ilegal é sequestro) por agentes do Exército lotados no DOI-Codi. Collier e Santa Cruz, que foram torturados e mortos, não tiveram envolvimento em ações armadas.

Ao saber das prisões, Dona Risoleta e Elzita, mãe de Santa Cruz, tentaram encontrar seus filhos, como registra este relatório da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.

Como parte da perseverante cruzada que mantiveram durante anos em busca dos filhos, as duas mães, Elzita Santos Santa Cruz Oliveira e Risoleta Meira Collier, endereçaram uma carta ao novo chefe da Casa Civil, general Golbery do Couto e Silva, onde relatam todos os passos de sua peregrinação desde fevereiro e fornecem informações bem concretas: "Fomos a São Paulo, no dia 14 de março, ao DOI do II Exército, situado na rua Tomás Carvalhal, onde ocorreu o seguinte incidente: recebidas pelo carcereiro de plantão, que atendia pelo nome ou alcunha de 'Marechal', o mesmo anotou os nomes de nossos filhos e, após uma ausência de meia hora, retornou o referido funcionário, na ocasião comunicando que 'hoje não é dia de visitas para Fernando e Eduardo'; em virtude da nossa insistência, foi declarado que os nossos filhos ali se encontravam presos, mas que só poderiam receber visitas no domingo próximo, após as 10 horas. Apesar disso se dispuseram a receber e entregar sacolas contendo roupas e objetos de uso pessoal. A convicção de que realmente eles estavam presos no local tornou-se absoluta quando o carcereiro, ao receber o nome de Fernando Augusto de Santa Cruz, completou-o, acrescentando o último sobrenome, Oliveira, sem que lhe fosse fornecido.

No domingo, ao comparecermos ao DOI, certos de que nos avistaríamos com nossos estimados filhos, como prometido, fomos comunicadas por um funcionário, que atendia pelo nome de Dr. Homero, de que Fernando e Eduardo ali não se encontravam, tratando-se tudo de um 'lamentável equívoco', ocasião em que foram devolvidas as sacolas".

A esquerda cometeu muitos erros durante a ditadura, o principal deles foi a opção de muitos grupos pela luta armada. Mas nada justifica a tortura e o assassinato de presos, nada justifica a crueldade praticada contra dona Risoleta e dona Elzita. A ditadura foi danosa para os derrotados e, ironia, também para os vitoriosos - até hoje as Forças Armadas são obrigadas a se explicar por crimes cometidos por seus integrantes.

Protestar contra governos é legítimo. Gritos de Fora Fulano ou Fora Beltrana fazem parte da luta política, ainda que pedir impeachment antes de provas concretas contra a presidente da República demonstre precipitação - não se pode banalizar um instrumento tão radical. Mas é absurdo reivindicar a volta da ditadura. Organizadores de protestos contra Dilma Rousseff e o PT fariam um grande favor à causa que defendem se passassem a impedir, em seus atos, manifestações que pregam uma intervenção militar. A tolerância com quem tem saudades da tortura, dos assassinatos e da imprensa censurada (mecanismo que impedia que casos de corrupção fossem divulgados) não é razoável e mancha um movimento que diz defender a democracia. É a democracia que permite passeatas como a realizadas em 15 de março.

Em tempo: em 2012, já depois da morte de Dona Risoleta, o ex-delegado capixaba Antônio Cláudio Guerra revelaria que os corpos de Collier e de Santa Cruz foram incinerados num forno de uma usina de cana da cidade de Campos.


O necessário desfile da transparência

separador Por Fernando Molica em 16 de março de 2015 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, O DIA, 23/2:

A relação entre a ditadura da Guiné Equatorial com a Beija-Flor é indefensável, mas não custa ter cuidado antes de se lançar tantas pedras na direção da agremiação de Nilópolis. Não dá para cobrar de uma escola de samba a pureza que não é praticada por governos e grandes empresas que, em nome do pragmatismo diplomático e de lucros, prestigiam ditadores e com eles fazem negócios.

Escolas foram criadas por comunidades pobres, discriminadas, encurraladas pela polícia. Na luta por sobrevivência e pelo reconhecimento da sociedade, fizeram pactos com pessoas também perseguidas e que buscavam um tipo de respaldo. Paulo da Portela, que lutou para dar legitimar o samba, e Natal, que institucionalizou a ligação do jogo do bicho com as escolas, são personagens complementares, não contraditórios. A mão do samba lavou a da contravenção, e vice-versa. Juntas, apertaram as mãos de poderosos que, assim, abençoaram o pacto, e dele se beneficiaram.

Seria impensável achar que, na primeira metade do século passado, governos e empresas aceitassem patrocinar grupos carnavalescos formados por negros pobres. Nascidas e criadas num país marcado por ditaduras, as escolas de samba reproduziram, em suas relações internas, uma lógica autoritária, pouco democrática e centrada na figura de um protetor. Uma estrutura que se fortaleceria com a criação da Liesa, Liga Independente das Escolas de Samba: para transmitir e cobrir os desfiles e para expor publicidade no Sambódromo, TVs, rádios, jornais e anunciantes são obrigados a negociar com aqueles que detêm o poder nas agremiações.

A grita em torno da campeã de 2015 deveria gerar uma outra discussão sobre o financiamento dos desfiles. Não é razoável que muitas das responsáveis pelo maior dos espetáculos fiquem dependentes de patronos, é só ver o baque que a morte de Castor de Andrade causou na Mocidade. É também absurda a passividade com que escolas aceitam caprichos de patrocinadores. Não cabe ao Estado intervir nas agremiações, mas nada impede sua atuação como indutor de práticas que gerem mais transparência. Beneficiadas por verbas oficiais, as escolas deveriam ser obrigadas a prestar contas de seus gastos e a regularizar a situação trabalhista daqueles que lhes prestam serviços. Uma gestão profissional, capaz de explorar o valor de marcas poderosas, faria bem às agremiações e, principalmente, às comunidades que as criaram. Com independência econômica ficariam mais autônomas e menos dependentes de ditadores, locais ou estrangeiros.


A hora de vestir a fantasia

separador Por Fernando Molica em 16 de março de 2015 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, O DIA, 16/2.

Na infância, fantasia pra mim era um substantivo pra lá de concreto, aquela roupa que quase todos usávamos no Carnaval -- pirata, marinheiro, carrasco e bate-bola para meninos; princesa, bailarina, odalisca e vedete para meninas. Fantasia era o que tínhamos que usar para ir aos bailes (no meu caso, os do River e do Pontal) e sair às ruas. Havia até um certo protocolo. No sábado, então chamado de "véspera de Carnaval", vestíamos as fantasias do ano anterior; as novas só deveriam estrear no domingo.

Havia alguns ruídos nessa história. Qual a utilidade das fantasias imensas, cheias de pedras e plumas, usadas nos concursos do Theatro Municipal? Como aqueles sujeitos conseguiriam pular Carnaval -- o verbo era esse, pular -- com toda aquela tralha? Anos depois, descobriria que as fantasias de nomes esquisitos -- O imperador da Abissínia no reino encantado de Netuno, O casamento da feiticeira normanda com o boto cor de rosa, O voo solitário do orangotango real -- eram até razoáveis diante de outras fantasias, aquelas que, apesar de abstratas, povoam nossas mentes e almas, geram alegrias e frustrações e colaboram para manter cheios os consultórios de psicanalistas.

A fantasia-roupa é uma decorrência da fantasia interna, uma das múltiplas e incontroláveis faces daqueles desejos nem sempre confessáveis. O vestir a fantasia torna-se, assim, algo muito mais complexo do que colocar um tapa-olho e um bigode, e sair por aí. Como o mundo não suportaria uma exposição coletiva e simultânea das fantasias de cada um de nós ("Aquela vizinha do 708, hein? Tão carola, quem diria..."), o jeito foi inventar o Carnaval.

Durante o período da festa, ninguém estranha ver o delegado de polícia com roupa de Asterix ou de baiana. Uma espécie de consenso coletivo absolve todas as fantasias carnavalescas -- ao se vestir de mulher, um homem não está necessariamente revelando um desejo inconfessável de usar saltos, saias e maquiagem ao longo dos outros 361 dias do ano. Se as fantasias carnavalescas fossem levadas a sério, ninguém teria coragem de olhar para a cara do outro na Quarta-Feira de Cinzas.

No fim das contas, vale a oportunidade de, ao menos por alguns dias, não nos levarmos assim tão a sério. É ótimo passear pela Saara e observar a multidão que busca um personagem; é divertido ver como a impessoalidade do metrô não resiste, como cantou Martinho da Vila, aos sonhos de rei, de pirata e jardineira. Quem ainda não vestiu a sua fantasia deve correr, depois de amanhã não tem mais.


A apuração não pode parar

separador Por Fernando Molica em 16 de março de 2015 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, O DIA, 9/2.


Ao revelar que recebia propinas desde 1997, Pedro José Barusco, ex-gerente de uma diretoria da Petrobras, confirmou que a corrupção por lá é anterior ao governo petista. Nenhuma surpresa, o mensalão adotado pelo PT havia sido praticado antes, com o mesmo operador, pelo PSDB mineiro. O mercado de compra e venda de votos no Poder Legislativo e casos como o dos trens adquiridos pelo governo paulista mostram que o financiamento de campanhas eleitorais não detém a exclusividade dos mecanismos de corrupção. Mas a busca de verbas para panfletos, cartazes e programas de TV contribuiu para azeitar a roubalheira, empreiteiras envolvidas no Petrolão aparecem nas listas de doadores de diversos partidos.

Alguns números são intrigantes. Em 2014, o grupo JBS, dono da Friboi, foi campeão nas doações para campanhas eleitorais -- destinou R$ 352 milhões para candidatos e partidos, cerca de 30% de seu lucro líquido no último trimestre do ano passado. Do total, R$ 73, 4 milhões foram para Dilma Rousseff; R$ 51 milhões para Aécio Neves. As empresas do conglomerado repassaram R$ 61,2 milhões para 162 candidatos à Câmara dos Deputados que acabaram eleitos. Houve ainda mimos para outros partidos e políticos.

A edição deste mês da revista 'Piauí' trata de supostos favorecimentos do governo federal, já no reinado petista, à Friboi: "Entre 2007 e 2009, o BNDES despejou R$ 8,3 milhões na JBS por meio de compra de ações, agora outros R$ 2 bilhões em empréstimos", diz o texto. Como sócio da Friboi, o BNDES, veja só, acabou se transformando em doador de campanhas. A reportagem conta que, em 2014, dívidas de R$ 1 bilhão da JBS foram perdoadas pelo governo de Goiás. O benefício ocorreu depois de José Batista Júnior, irmão mais velho da dupla que cuida do grupo, ter passado a apoiar a reeleição do governador Marconi Perillo, do PSDB.

O caso Petrobras é exemplar; a punição dos culpados deste escândalo, assustador até para os padrões brasileiros, é essencial para uma mudança nas práticas que minam os cofres do Estado. Mas tratá-la como algo isolado seria útil apenas para beneficiar os que roubam em outros níveis da administração pública. É improvável que o Alberto Youssef fosse um petrodoleiro, cuidasse de refinar apenas o dinheiro roubado da Petrobras. Beneficiado pela delação premiada, ele tem a obrigação de contar o que sabe sobre outras tramoias -- a Polícia Federal, o Ministério Público e a Justiça não podem deixar de aprofundar essa apuração.


Os nossos jihadistas

separador Por Fernando Molica em 16 de março de 2015 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, O DIA, 2/2.

O perfil dos terroristas que têm amedrontado boa parte do mundo é conhecido. São, de um modo geral, jovens pobres, moradores de áreas periféricas, desempregados ou subempregados que sentem discriminados, vítimas de racismo, excluídos da sociedade, que se mostram revoltados com injustiças do cotidiano. Pessoas que, muitas vezes, buscam na religião -- uma espécie de denominador comum entre eles -- apoio e justificativa para ações violentas.
Se eliminarmos o fator religião, as outras características dos jihadistas são semelhantes àquelas dos que integram, na definição de José Mariano Beltrame, uma "nação de bandidos". Há algumas décadas, Chico Buarque cantou que cada ribanceira carioca era uma nação; semana passada, foi vez do secretário de Segurança usar o mesmo conceito. Chegou a falar em idolatria -- palavra mais afeita a religiões -- para definir a relação daquelas pessoas com as armas, um culto que, para ele, demonstra um "desapego à vida".
Este desapego não é só em relação à vida alheia. Quem topa participar da guerra carioca sabe que são as grandes as chances de ser morto -- pela polícia, por milicianos, por quadrilhas rivais. Assim como os homens-bomba, nossos jihadistas não temem morrer, aceitam abrir mão da vida que lhes foi destinada, em troca de muito pouco.

Sem esperanças terrenas ou celestes, não creem em rios de leite ou de mel, em leitos de pedras preciosas, em 72 virgens. Não querem saber de ilusão, estão cansados de promessas, ridicularizam todos os profetas. Com base na vida de seus avós, pais, amigos e vizinhos, não duvidam das verdades expressas naquela letra dos Titãs: "A vida é um jogo/ Cada um por si/ E Deus contra todos/ Você vai morrer/ E não vai pro céu".
Mas eles sabem que têm o poder de infernizar a vida alheia. A vida de quem tem casa decente, boa escola ou bom emprego, dos que ganham mais dinheiro. Divertem-se com o medo que são capazes de provocar naqueles que sonham vê-los longe das praias, que pedem mais muros, que defendem a redução de ônibus nos fins de semana. Comemoram a morte de cada agente de um Estado que, têm certeza, foi criado para oprimi-los.
Procurar entender a razão da revolta não significa justificá-la, perdoá-la ou deixar de reprimi-la. Mas a polícia não será, sozinha, capaz de desestimular o culto detectado por Beltrame e que gera tantas vítimas. Isso, porém, só se faz com propostas sérias, capazes de gerar esperança naqueles jovens, de convencê-los de que a vida pode valer a pena.


Os nossos jihadistas

separador Por Fernando Molica em 16 de março de 2015 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, O DIA, 2/2.

O perfil dos terroristas que têm amedrontado boa parte do mundo é conhecido. São, de um modo geral, jovens pobres, moradores de áreas periféricas, desempregados ou subempregados que sentem discriminados, vítimas de racismo, excluídos da sociedade, que se mostram revoltados com injustiças do cotidiano. Pessoas que, muitas vezes, buscam na religião -- uma espécie de denominador comum entre eles -- apoio e justificativa para ações violentas.
Se eliminarmos o fator religião, as outras características dos jihadistas são semelhantes àquelas dos que integram, na definição de José Mariano Beltrame, uma "nação de bandidos". Há algumas décadas, Chico Buarque cantou que cada ribanceira carioca era uma nação; semana passada, foi vez do secretário de Segurança usar o mesmo conceito. Chegou a falar em idolatria -- palavra mais afeita a religiões -- para definir a relação daquelas pessoas com as armas, um culto que, para ele, demonstra um "desapego à vida".
Este desapego não é só em relação à vida alheia. Quem topa participar da guerra carioca sabe que são as grandes as chances de ser morto -- pela polícia, por milicianos, por quadrilhas rivais. Assim como os homens-bomba, nossos jihadistas não temem morrer, aceitam abrir mão da vida que lhes foi destinada, em troca de muito pouco.

Sem esperanças terrenas ou celestes, não creem em rios de leite ou de mel, em leitos de pedras preciosas, em 72 virgens. Não querem saber de ilusão, estão cansados de promessas, ridicularizam todos os profetas. Com base na vida de seus avós, pais, amigos e vizinhos, não duvidam das verdades expressas naquela letra dos Titãs: "A vida é um jogo/ Cada um por si/ E Deus contra todos/ Você vai morrer/ E não vai pro céu".
Mas eles sabem que têm o poder de infernizar a vida alheia. A vida de quem tem casa decente, boa escola ou bom emprego, dos que ganham mais dinheiro. Divertem-se com o medo que são capazes de provocar naqueles que sonham vê-los longe das praias, que pedem mais muros, que defendem a redução de ônibus nos fins de semana. Comemoram a morte de cada agente de um Estado que, têm certeza, foi criado para oprimi-los.
Procurar entender a razão da revolta não significa justificá-la, perdoá-la ou deixar de reprimi-la. Mas a polícia não será, sozinha, capaz de desestimular o culto detectado por Beltrame e que gera tantas vítimas. Isso, porém, só se faz com propostas sérias, capazes de gerar esperança naqueles jovens, de convencê-los de que a vida pode valer a pena.


A pátria que não educou Patrick

separador Por Fernando Molica em 15 de março de 2015 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, O DIA, 26/01.

Uma das reportagens publicadas sobre o menino Patrick Ferreira de Queiroz, de 11 anos, morto por um PM numa favela dos Lins, mostra que a tragédia é ainda maior. O garoto perdeu a mãe aos 4 anos, tinha dificuldade de aprendizado, era analfabeto e abandonara a escola no segundo semestre de 2014. Não gostava de estudar, diagnosticou seu pai, Daniel.

Patrick costumava brincar perto da boca de fumo e acabou morto a tiros. O policial diz que atirou em legítima defesa, alegou que o menino integrava quadrilha que vende drogas por lá. O pai nega esta versão, mas admitiu que o filho vivia na rua e que era "muito estressado".

Vale reler: 11 anos, analfabeto, fora da escola, vivia na rua, brincava perto da boca de fumo. Sua morte, um possível assassinato, concluiu um ciclo comum entre nós, incompatível com um país agora chamado de "pátria educadora". A saga de Patrick deveria ser suficiente para que o lema fosse posto de castigo. Não dá para chamar de educador um país que considera aceitável o abandono da escola por meninos de 11 anos, que se acostumou a achar normal -- mesmo que este não tenha sido o caso de Patrick -- que crianças andem armadas. Que escola é essa que não consegue atrair e manter crianças como Patrick? Que sistema educacional é esse que dá de ombros para a fuga de um aluno, que não vai atrás dele, que não leva o caso à Secretaria de Educação, ao prefeito, ao Conselho Tutelar, à Justiça?

A favela em que o garoto morava foi ocupada pela PM há 15 meses. Desde outubro de 2013 que, apesar de diversos problemas, está sob o necessário controle do estado. Mas não dá para admitir que o Estado -- aqui, com maiúscula -- se preocupe apenas em saber se crianças, jovens e adultos estão armados, se traficam drogas. O Estado não pode se limitar a controlar, a vigiar. Tem que ter também olhos para meninos como Patrick -- há muitos outros como ele. Seria preciso saber se ele estava indo à escola, se tinha sido vacinado, se havia comida em sua casa. O menino era mesmo estressado? Chegou a ser examinado por um profissional de saúde?

Daniel, o pai, também foi omisso em relação ao filho, mas não seria justo jogar sobre ele -- pobre, auxiliar de pedreiro -- toda a culpa pelo abandono. Crianças também pertencem à sociedade em que nasceram e são criadas, todos temos alguma responsabilidade sobre elas. É simbólico que um menino abandonado pelo Estado tenha sido morto por um agente do próprio Estado -- a polícia o encontrou antes da escola que, talvez, sequer o tenha procurado.


Exigências da fé são para os fiéis

separador Por Fernando Molica em 15 de março de 2015 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 19/01.

Seguidores de uma religião têm o direito de exigir que seus irmãos de fé respeitem seus preceitos. Cristãos não podem admitir que cristãos questionem a ressurreição de Jesus; judeus não aceitam que judeus digam que Cristo é o Messias tão esperado. Mas as interdições só podem ser cobradas de quem comunga da mesma fé, caso contrário, abre-se caminho para o totalitarismo, toda a possibilidade de livre pensar vai para o espaço -- muita gente foi para a fogueira por não ser católica. Se a moda pega, um parlamento com maioria de candomblecistas poderia obrigar todo mundo a vestir branco às sextas-feiras e proibir o uso de roupas pretas.

Tudo que é humano pode ser criticado -- religiões foram criadas por homens e mulheres, não por Deus. O respeito à fé não pode ser um passe livre para abusos: deuses já foram invocados para justificar extermínios e sacrifícios de seres humanos, supostas ordens divinas determinam, até hoje, que clitóris de meninas sejam arrancados. Isso sem falar naqueles que exploram seus fiéis e usam a blindagem celestial para assaltar cofres públicos.

Outro ponto é relacionado às ofensas. A lei brasileira pune quem "vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso". Determinadas charges de Maomé (ou de Jesus ou Xangô) poderiam ser consideradas criminosas, mas nenhum juiz condenaria alguém que fizesse um simples desenho do profeta do Islã -- o fato de muçulmanos não aceitarem esta representação não significa que o preceito tenha que ser adotado por nossa sociedade, seria risível processar quem canta a marchinha 'Allah-la-ô'. Não sei se o Código Penal francês prevê punição a quem desrespeita religiões.

Caso não exista um artigo sobre o assunto, é razoável que fiéis se mobilizem para criá-lo. Vale fazer lobby, organizar passeatas, o que não pode é ameaçar ou matar. Sociedades são diferentes entre si, o que é rejeitado por uma pode ser admitido por outra, cabe à maioria definir o que é crime -- as minorias podem tentar convencer outros cidadãos a adotar suas reivindicações, é assim que age o movimento que reivindica direitos para os gays.

Por último: muitos dos que tentam justificar o massacre no 'Charlie Hebdo' ("Ah, mas eles abusaram...") ficaram quietos quando, na Marcha das Vadias ocorrida durante a Jornada Mundial da Juventude, foram quebradas imagens de santos católicos e uma mulher enfiou um pedaço de cruz no ânus de outro manifestante. Organizadoras do protesto disseram que não sabiam do ato, que classificaram de "polêmica performance com cruzes de madeira e estátuas de gesso".


A solução está na Terra, não no Céu

separador Por Fernando Molica em 15 de março de 2015 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, O DIA, 17/01.

Atribuir a uma religião a culpa por atos bárbaros cometidos por alguns de seus adeptos seria o mesmo que responsabilizar clubes de futebol pelos crimes praticados por torcidas organizadas (vale lembrar que muitos massacres já ocorreram em nome de Jesus). Nesses casos, a religião -- assim como a paixão por um time -- é mais uma justificativa, algo que unifica, canaliza e expressa uma raiva difusa, o "nós" contra "eles".
O maior problema não é o radicalismo de correntes religiosas. O discurso da intolerância cairia no vazio caso não encontrasse eco na vida de tantas pessoas, gente seduzida pela pregação da violência. Vingar Maomé foi apenas o pretexto dos terroristas que atacaram o 'Charlie Hebdo'. Mais do que movidos pela fé, eles pegaram carona num ódio bem conhecido.
A França defensora das liberdades é a mesma que ocupou duas dezenas de territórios africanos, entre eles, países de população árabe. A independência das colônias só viria a ser conquistada entre os anos 1950 e 1970, há pouquíssimo tempo. Não é fácil apagar da memória coletiva a opressão do colonizador, a tortura e o racismo. A exclusão social e o preconceito são renovados a cada dia nas periferias de cidades europeias. O eterno adiamento da criação do Estado Palestino e a pobreza dos que vivem nos territórios tutelados por Israel também servem de combustível para os que pregam o terror.
Buscar as possíveis motivações de um crime não significa justificá-lo nem absolvê-lo. O massacre de Paris é imperdoável, inadmissível, não deve ser relativizado ou atenuado. Nenhum grupo pode impor seus preceitos ao resto da sociedade. Não é razoável que muçulmanos ameacem ou matem ateus ou adeptos de outras religiões que façam imagens de Maomé; hindus têm o direito de não comer carne de vaca, mas não o de explodir churrascarias. Quem se sentiu ofendido pelo humor do 'Charlie' deveria ter organizado manifestações públicas, poderia ter recorrido à Justiça, não aos fuzis.
Trazer Deus para o centro da discussão só interessa aos extremistas, aqueles que buscam inviabilizar qualquer solução. Afinal, é impossível argumentar e negociar com o Todo Poderoso. É preciso, portanto, tirar a conversa do Céu e trazê-la para a Terra. Foram seres humanos, e não os deuses, que cometeram atos criminosos, que provocaram injustiças, que estimularam o ódio, que assassinaram os cartunistas. O fundamental é partir para ações concretas, gerar esperança, garantir conquistas como a liberdade de expressão e impedir que mais pessoas sejam conquistadas pelo ódio.


Réveillon, nossa bela insanidade

separador Por Fernando Molica em 15 de março de 2015 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, O DIA, 05/01/15/

O Réveillon de Copacabana é, de longe, campeão em matéria de insanidade carioca que dá certo. A festa tinha tudo para dar errado numa cidade imensa, marcada pela beleza mas também pela violência e exclusão. É inacreditável que o evento se repita há décadas sem que jamais tenha sido registrado um tumulto de grandes proporções -- até os de pequena monta são raros. Nem na época em que o Rio era associado a frequentes tiroteios, a passagem de ano na Avenida Atlântica deixou de ser pacífica.
E olha que somos bons em desafiar a lógica. A apresentação das escolas de samba é outro exemplo da nossa capacidade de driblar o impossível. Comecei a frequentar a Sapucaí dois anos antes da construção do Sambódromo, e até hoje não entendo como pode funcionar um espetáculo com 50 mil artistas, quase todos amadores e que se apresentam sem ter participado de um ensaio geral digno desse nome. Conduzir os imensos carros alegóricos pelas ruas e obrigá-los a fazer uma curva de noventa graus para entrar na pista de desfile são atividades que desafiam as leis da física.
Mas nada se compara ao nosso Réveillon, festa que acabou copiada por muitas cidades brasileiras. Aposto que nem no pra lá de organizado e seguro Japão as autoridades teriam coragem de estimular uma confraternização que reunisse tanta gente, a maioria com elevadas doses de álcool no organismo. Estima-se em dois milhões o número de pessoas presentes na praia -- um terço da população carioca. A maior parte do público mora longe de Copacabana, passa sufoco para entrar e, principalmente, sair do bairro, enfrenta filas para ir ao banheiro, gasta uma grana para comer e beber por lá. Tudo isso para acompanhar um espetáculo que dura 16 minutos -- as atrações musicais são apenas coadjuvantes e não justificariam o deslocamento de tanta gente.
Nem mesmo a beleza dos fogos explica tamanho sucesso de público, o mesmo espetáculo seria incapaz de reunir tantas pessoas se realizado em outra época do ano. A esperança é que justifica a aglomeração e seu caráter pacífico, ninguém ali parece preocupado em atrapalhar os sonhos e os desejos dos outros. Na passagem do dia 31 para o dia 1º saudamos a vida, comemoramos tudo que correu bem e nos damos outra chance de resolver o que ainda está complicado. Tudo isso merece os fogos e a barulheira. O Réveillon de Copa e o desfile das escolas renovam também a nossa fé no país. Não pode dar errado uma sociedade que reúne pessoas capazes de promover as melhores e loucas festas do mundo.


Habeas Corpus para 2015

separador Por Fernando Molica em 15 de março de 2015 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, O DIA, 28/12/14.

Comecei a ler semana passada, em pleno período de Natal e Ano Novo, 'Segredo de justiça', escrito por Andréa Pachá a partir de casos que vivenciou como juíza em varas de família. Foi bom ter iniciado a leitura nesta época em que somos meio instados a fazer um balanço do que se passou e a planejar o ano seguinte. Tendemos a achar que os fogos do Réveillon vão apertar um botão capaz de fazer uma faxina em nós mesmos e, ao mesmo tempo, acionar uma espécie de GPS que ao longo de 365 dias nos guiará por caminhos seguros, cheios de paz, amor e prosperidade.

Mas nada é garantido. Como é frisado num dos primeiros contos, é simples decidir a vida pelo retrovisor, detectar erros anos depois de cometidos -- há algumas décadas, um jogador de futebol declarou que só fazia prognósticos depois dos jogos. As histórias do livro envolvem dramas comuns, nem por isso banais: traições, divórcios, amores transformados em ódio, disputas por pensões alimentícias e pelos filhos.

Mesmo obrigada por ofício a decidir, Andréa não se coloca no papel de Deus, escapa do maniqueísmo de definir o certo e o errado. Compreensiva, busca alternativas, acordos que levem em conta as razões de cada uma das partes. "Maíra, não existe sonho errado. Sonhamos os sonhos possíveis. E nos esforçamos para acertar", diz a narradora -- uma juíza -- à mulher que, depois de forçar a separação, usava os filhos para provocar o retorno do ex-marido.
Espantada com a rapidez que temos para julgar a partir da leitura dos jornais, Andréa consegue entender a mãe que, depois de anos, optou por viver longe do filho esquizofrênico, deixado com o ex-marido. A autora se diz incapaz de condenar aquele comportamento: "(...) não existe um modelo que possa ser imposto a todas as mães naquelas circunstâncias", explica.
Botafoguense, acostumada, portanto, aos altos e baixos, ciente de nossas limitações, à quase certeza de que a euforia traz alguma dor, a autora, ao revisar tantos dramas, não insinua que a vida nos condena a uma segunda divisão; o livro é até otimista. Como afirmavam os palmeirenses e, agora, repetem os alvinegros, amor não tem divisão -- um jeito de dizer que o bom mesmo é jogar. Criança, percebi, depois de uma passagem de ano, que nada havia mudado; apesar da barulheira e da festa, o céu continuava igual. Mais tarde entendi a importância do ritual, da necessidade de um marco para o recomeço. Ao revelar dúvidas, ao buscar saídas, Andréa nos fornece uma espécie de habeas corpus que ajuda a sarar feridas e a abrir caminhos nesta virada de ano.


BG
© Todos os direitos reservados. Todos os textos por Fernando Molica, exceto quando indicado. Antes de usar algum texto, consulte o autor. créditos do site    Clique para ver os créditos do site