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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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dezembro 2014 Archives

A mais bela e triste canção natalina

separador Por Fernando Molica em 22 de dezembro de 2014 | Link | Comentários (0)

Estação Carioca, O DIA, 23/12/2013:

Desde a semana passada que o amigo Luiz Antonio Simas, professor de História e escritor, lembra no Facebook canções natalinas brasileiras. Desencavou uma de Chico Buarque ('Tão bom que foi o Natal'), revelou a gravação de Clementina de Jesus para 'Vinde, vinde companheiros', tema de pastoris nordestinos, destacou 'Papai Noel de camiseta', de Celso Viáfora ("Estenderá uma toalha na sarjeta/Em qualquer praça de subúrbio do país"). São bonitas, emocionantes, mas, entre todas, fico com 'Boas festas', de Assis Valente, a mais bela e triste, a primeira música de protesto que ouvi.
Eu era criança quando me dei conta da melancolia de seus versos, do "Já faz tempo que pedi/Mas o meu Papai Noel não vem". A música, caramba, falava de alguém que não recebia presente de Natal. Mais, tratava de morte, na eventualidade de o Velhinho já ter batido as botas. Logo depos, porém, o narrador ressalta a possibilidade de Papai Noel -- Felicidade! -- continuar vivo: "É brinquedo que não tem", conclui. Generoso, ele se conforma pela ausência do presente, é como se o tivesse trocado pela vida do Papai Noel. É chato e triste ficar sem o brinquedo, mas foi por uma boa causa. Exposto a um dilema, o menino se vê obrigado a ficar adulto, a racionalizar a ausência de seu presente. Crianças pobres são obrigadas a amadurecer mais cedo, têm infância mais curta, zelam até por Papai Noel.
Na música, sinos não tocam, não fazem blim-blom, não badalam. O sino geme, remete não à alegria, mas à dor de um Natal sem presente, de ceia acanhada; alerta para uma felicidade que é brincadeira de papel. Apesar de toda a tristeza e do título irônico, 'Boas festas' traduz melhor a data do que canções que tratam de um Natal idealizado, de Papai Noel que não se esquece de ninguém, que traz presentes até para o vovô e a vovó.
Assis Valente não nega a religiosidade da festa -- na letra diz que a família do menino fica feliz a rezar --, mas frisa que o mundo é duro, injusto. Ele não mente, diz que naquele Natal, assim como nos outros, haverá crianças que ficarão sem presente. É possível até que Papai Noel não exista -- se existisse, não seria assim tão cruel, não reproduziria a injustiça do dia a dia, que deixa tantos de fora de tantas comemorações.

Mesmo melancólica, a música fala de esperança, traz um apelo que todos, de alguma forma, crianças ou adultos, renovamos a cada fim de ano, o pedido para que um papai noel qualquer nos dê a felicidade. Feliz Natal para todos.


Memórias cubanas

separador Por Fernando Molica em 22 de dezembro de 2014 | Link | Comentários (0)

Estação Carioca, O DIA, 22/12:

Não era fácil ir a Cuba. Em 1985, como Brasília não havia reatado relações diplomáticas com Havana, a viagem era quase clandestina. Tínhamos que trocar de avião em Lima e, no destino final, nosso passaporte não podia ser carimbado. Mas era curioso. Num teatro chamado Karl Marx, fui apresentado a Gabriel García Márquez e a Fidel Castro.

'Fidel e a religião', livro de Frei Betto, fazia sucesso aqui e lá. Então recém-casado com uma jornalista, a acompanhei numa entrevista com o arcebispo de Havana. Ele nos disse que a Teologia da Libertação, que via no Evangelho um manual de pregação revolucionária, não fazia muito sentido em Cuba. Com problemas básicos resolvidos, os jovens estavam em outra etapa, queriam ter acesso aos bens de consumo -- alguns nos ofereciam dinheiro para que lhes comprássemos calças jeans em lojas exclusivas para turistas; crianças não nos pediam dinheiro, mas chicletes.
O socialismo era temperado pela população, que parecia não levar muito a sério a pregação oficial. As pessoas se viravam, charutos desviados de fábricas eram vendidos nas ruas; no melhor estilo carioca, um taxista perguntou o nosso destino antes de aceitar a corrida. Cuba gerava sentimentos contraditórios -- alegria por ver um país latino-americano sem miséria, cheio de negros médicos, engenheiros, comandantes de aviões; tristeza pela constatação da ditadura.

Voltei a Cuba anos depois, já não havia a União Soviética, que subsidiava o aliado ao vender petróleo barato e pagar caro pelo açúcar. Na ida, tremi ao notar que a comissária do velho Ilyushin da Cubana de Aviación, passados 20 minutos de voo, ainda usava o colete salva-vidas. Vi um país empobrecido, muita gente me pedia dinheiro, a prostituição, antes reprimida, tornara-se comum. Mas o show no Tropicana era ótimo, os sujeitos permaneciam bem-humorados. Em Varadero, aos gritos e risadas, um instrutor chegou a indicar a um velejador o rumo que deveria seguir para alcançar Miami.

Na volta, a aeromoça tentou me expulsar da modesta primeira classe do avião -- eu tinha ido lá conversar com amigos. Meio bêbado de tanto rum, protestei, chamei-a de "compañera", disse que era marxista-leninista e não admitia divisão de classes em empresa aérea de país socialista. Assustada, ela pareceu acreditar na brincadeira, e se mandou. Ao sobrevoarmos o Caribe, notamos que grossas colunas de fumaça saíam de uma ilha: "Olha a Jamaica!", gritou um vetusto jornalista da delegação. Depois de 53 anos de um injustificável embargo, norte-americanos vão ver como é divertido ir a Cuba.


Tamborim

separador Por Fernando Molica em 22 de dezembro de 2014 | Link | Comentários (0)

O pacote destacava-se entre a papelada jogada na mesa atulhada de processos. Uma caixa de papelão com uns 50 centímetros de comprimento, uns 30 de largura, 10 de altura. Já meio encoberta por dois ou três envelopes e por uma revista corporativa que, envolta num envelope transparente, aguardava o momento de ser jogada no lixo. Quem manda tanta besteira? Ninguém lê tantos comunicados, folders, panfletos. Quantas árvores não são assassinadas para gerar publicações insossas, irrelevantes, laudatórias, papéis natimortos, que parecem ser produzidos apenas para alimentar a indústria da reciclagem? Atividade que, assim, contraria sua lógica original, deixa de economizar energia. Ao contrário, gasta mais e mais recursos na reelaboração de inutilidades. Melhor seria interromper o ciclo, abortar a primeira leva de páginas coloridas, atraentes, bem diagramadas, que se expõem como putas em vitrines de Amsterdam, mais notadas do que consumidas. Deixa pra lá, dane-se, todos consideram importante tudo o que escrevem.

Cabia abrir o pacote com cara de presente corporativo fora de época, nada de Natal ou de Dia do Advogado à vista. Pelo peso, menos de um quilo, não deveria ser outro daqueles livros parrudos, cheios de fotos, produzidos por empreiteiras que se valem de leis de incentivos fiscais. Retira uma fita adesiva aqui, abre uma lingueta, e pronto, aí está o conteúdo. Um tamborim e uma baqueta. Objetos que, ali, pareciam reeditar a velha piada da cegonha que troca o endereço e deixa o bebê branco na família de negros, ou o contrário. A cegonha errara ao entregar o instrumento em sua sala - ampla, envidraçada, todos viam o que se passava por lá. Ele, sua mesa, o computador, a papelada, os processos, os envelopes, a revista corporativa, a lata do lixo, o paletó nas costas da cadeira - e, agora, o tamborim e a baqueta presos às suas mãos, à vista de todos. Imaginava-se flagrado com uma revista pornográfica que unisse crianças e zoofilia. Como se livrar de um tamborim e de uma baqueta diante de 40 pessoas? Como dizer não é nada disso que vocês estão pensando, este tamborim não é meu, nem o conheço, apenas passou por aqui, o dono já deve estar voltando para resgatá-lo. Vai ver que precisou ir ao banco, pagar umas contas, foi almoçar. Melhor nem olhar em volta, qualquer movimento o denunciará, amplificará a cena, o imprevisto, o inusitado, os estereótipos, o tamborim, o olha lá, o carioca acha que isso aqui é escola de samba, traz até pandeiro - sim, eles são capazes de errar a designação do objeto - para o trabalho. Mêu, isso aqui é lugar de trabalho, não é lugar de batuque, viu? Merda de tamborim. Por sorte, deixara a mochila aberta, no chão. Bastava se abaixar um pouco e deixar que tamborim e baqueta escorregassem para o interior daquela boca molenga, não seria difícil acertar o alvo. Depois, bastaria puxar o fecho ecler - zíper é coisa de paulista. Deu certo, acabou. Crime perfeito, sem provas, talvez até sem testemunhas.

No quarto do hotel, como se abrisse a tal revista de pedofilia zoológica. Pelo menos, a salvo de olhares de recriminação. Ele e o tamborim, me Tarzan, you Jane. Plec. Plec. Plec. De novo, e mais uma vez. Plec. Plec. Plec. E o plect correspondente àquele movimento de virada? Virada para dentro ou para fora? Outro plec cuidadoso, quase em surdina, tamborins não são tocados em aparts de Moema, ainda mais à noite. Não estou em Piedade, a Avenida Santo Amaro não é a Suburbana, tamborins devem ser raros por aqui. Num hotel carioca, bastaria exibir o tamborim para que algum garçom, mensageiro ou manobrista viesse puxar assunto, quiçá pedisse para testá-lo. Ninguém deve saber tocar tamborim nesse prédio, nem eu sei. Hora de admitir outro medo que o assaltara à tarde, na volta do almoço, quando da descoberta do conteúdo do pacote: o de ser desmascarado no escritório. Fácil imaginar um ou outro colega, um daqueles que vão para o Rio no carnaval - ensaio no Salgueiro, feijoada na Portela, desfile na Mangueira, Simpatia, Boitatá - entrando em sua sala. Toca aí. Como assim, tocar? Como assim? Você não é carioca, suburbano, Madureira, Méier, Piedade? Toca aí. E aí viriam os gestos, braços esticados, mãos segurando invisíveis baqueta e tamborim, sons feitos com a boca: poctc, capotc, capotc. Puta que pariu, nem com a boca eles acertam. Mas como dizer, confessar? Sim, de Piedade, muitos carnavais no River, no Oposição. Testemunha de muitos desfiles na Suburbana, a avó levava cadeira para a calçada, o avô se refugiava na rádio MEC. Os blocos de sujo. Homens com fronhas enfiadas na cabeça, percussão feita com latões, um outro tambor (na infância, tudo é tambor), um bumbo (surdo, aprenderia anos depois), e tamborins. Estes, pequenos, agudos, irritadiços, baixinhos folgados que, aos gritos, se impunham aos instrumentos mais graves, pesados e sérios. Abusados como a Maria Clara (na escola, respeitávamos nomes duplos), que interrompia o professor, que ria das outras meninas e de suas bonecas, que dizia querer jogar bola com a gente. Maria Clara que, um dia, na volta do recreio, aproveitou a falta de luz e me deu um beijo. No rosto, mas beijo. Nunca tive coragem de retribuir aquele beijo.

Tamborins eram como Maria Clara, assanhados, metidos, intrometidos. Tocá-los, tocá-la. Aprender o ritmo, pegar o jeito, ganhar ousadia de tentar conquistá-la, de derrotar os garotos mais altos e fortes, bons de briga e melhores no futebol. De que adiantava ser craque em português e matemática? Ganhara um beijo de Maria Clara, mas cadê coragem para buscar outro? Quem sabe ela errara o alvo, culpa da falta de luz. O beijo talvez fosse para outro menino, não para mim. Eu, mais para a previsível lerdeza do surdo - tum, tum - do que para agilidade de tamborim, incapaz de ser folgado e surpreendente como os tamborins dos blocos de sujo. Além de abusados, independentes, autônomos. Cada qual com seu ritmo, todos solistas, pouco preocupados com o todo, com o bloco. Plec, plec, plect, plec. Ou o contrário, tanto fazia. Valia era o tamborim, som que desfilava pela esquina com a Belmira, seguia na direção da Abolição, passava pela Bernardino de Campos, pela João Pinheiro. Som que abria os caminhos, que reverberava nas portas de ferro das lojas fechadas, sapateiro, padaria, barbeiro, armarinho, farmácia, que antecipava a chegada daqueles homens que abriam buracos para os olhos nas fronhas usadas na cabeça, fantasias toscas e simples. Ninguém ensinava a namorar, a pedir em namoro, já procurara em livros, no Mundo da Criança. Mas talvez se ensinasse tocar tamborim, instrumento pequeno, levinho, bom para crianças. Até falara com a mãe. Como assim, tamborim? Nem pensar, nem se sabe como e onde, nem deve ter escola para isso. Instrumento de preto, de pobre, de favelado. Pra você, violão, ou mesmo piano; tamborim, não. Ora se, ora veja só. Ora, ora. Hoje, nem toco, nem sambo, pés que parecem espalhar poeira enquanto se movem como se desconectados do tronco duro, impávido e assustado com aquele estranho tremor abaixo dos joelhos. Carioca? Méier, Madureira ou Piedade, né? E nada de sambar, e nada de tamborim. Tu é mais paulista do que eu, mêu!

Agora, ao menos, há internet, lá tudo se diz, se ensina, de bolos de laranja a bombas atômicas. Uma voz em off diz para segurar o instrumento como se fizesse aquele cumprimento de surfista. Close no tamborim que surge na tela. Dedos polegar e mínimo da mão esquerda esticados; indicador, médio e anelar fechados. A baqueta pode ter várias pontas, ganhei uma de três. Primeira batida é forte; a segunda, mais fraca. A terceira é a da virada - virada feita para dentro. A quarta nota é de, novo, forte. Forte, fraca, virada, forte. Forte, fraca, virada, forte. Assim, devagar, até que sai. Mas sai um som chocho, incapaz de animar, de gerar movimento, de sustentar qualquer cantoria. Som que, na madrugada, teme o barulho, os vizinhos, os que dormem no quarto ao lado. Na tela, o professor acelera, tão fácil em suas mãos, plecs, pects, toques ágeis, precisos, ritmados. Outro instrutor, ainda mais sofisticado, mostra o rosto na tela, fala em toque telecoteco, em pergunta e resposta, exibe uma partitura, esmiúça compassos. Diz que, nas escolas de samba, o toque é o carreteiro, assim, ó - e faz uma rápida demonstração. Assim, ó, e acabou. Nunca ouvira falar nisso, carreteiro remetia a comida, arroz de carreteiro, coisa de gaúcho, inimaginável associar bombachas a tamborins. Ao menos decorara o nome do toque, isso poderia ser útil em alguma conversa. Mas só aprendera o nome, nem tentara executá-lo. Para mais e detalhadas aulas seria preciso pagar R$ 30 por mês.

Meio inimaginável ter lições de tamborim pela internet, uma versão atualizada daqueles cursos profissionalizantes por correspondência que eram anunciados em revistas pelo Instituto Universal Brasileiro. Mecânico de geladeiras, pedreiro, secretária executiva, pintor de automóveis, gerente administrativo. Cupons recortados, colocados em envelopes e despachados na agência dos Correios da rua Goiás, quase em frente à passarela da estação que ligava os dois lados do bairro separados pela linha do trem - em subúrbios, morar deste ou daquele lado da linha é mais ou menos equivalente a, no padrão Zona Sul, morar perto ou longe da praia. Suburbano, sabia disso. Semanas depois recebia os catálogos completos. Não seria honesto reclamar das revistas coloridas e inúteis de hoje. Na infância, ajudara a derrubar algumas árvores ao requisitar o envio de informações sobre cursos que jamais viria a fazer. Até porque não havia curso por correspondência para piloto de avião. E quem é que iria entrar num avião cujo piloto se formara num curso por correspondência?

Aprender a tocar tamborim num curso online era quase tão arriscado quanto tentar decifrar em apostilas o segredo de pilotar. Sim, a falha no tamborim não arriscaria a vida de ninguém, mas poderia fazer com que a reputação de carioca-suburbano-sambista despencasse em queda livre, como aviõezinhos de desenhos animados, caindo em parafuso, expelindo fumacinha negra. Mas, ao contrário do que ocorria naqueles filmezinhos, não haveria paraquedas capazes de salvar o protagonista. Mais provável que ficasse como os antagonistas dos desenhos, vítimas das explosões planejadas pelos maus para matar os heróis, os protagonistas. Bombas pretas redondas de pavio curto ou charutos recheados de pólvora que se viravam contra seus criadores, que deixavam seus cabelos, penas ou pelos desalinhados e a cara preta de fuligem. Ficaria assim, explodido, exposto, talvez alguém propusesse a cassação de sua cidadania carioca. Não seria impossível que um daqueles putos do escritório negociasse com algum vereador a concessão de título de paulistano honorário para o carioca que toca tamborim como um de nós. Ou nóis, como eles preferem. É nóis.

Nóis, nada. Em cinco anos, mantinha-se fiel ao sotaque que, antes, dizia não ter. Carioca não tem sotaque, os outros é que têm. Mas rendeu-se ao perceber os chiados, o som emitido ao falar aspargos frescos, o jeito de dizer mermão - bastava falar mermão para entregar-se -, a mantega e o brasilero que eram emitidos assim, sem o 'i' depois do 'e' ('é' com acento agudo, no Rio; 'ê' com circunflexo, em São Paulo). Mesmo amigos do Rio estranhavam um falar cada vez mais carioca, que não admitia a possibilidade de alongar advérbios, de cortar o 's' de palavras plurais, incapaz de chamar biscoito de bolacha, calçada de guia, sinal de semáforo. Em São Paulo, tornara-se mais carioca. Quase um carioca de piada, estereotipado, não perdia os raros shows do Almir Guineto, outro exilado, batia ponto em todas as apresentações do Moacyr Luz por lá. Um carioca que temia ficar como os filhos e mesmo netos de imigrantes alemães que viviam em pequenas cidades do sul, aqueles que, no dia a dia, preferiam conversar no idioma de seus antepassados. Com o tempo, viravam objeto de estudos, de teses. Pesquisadores desembarcavam para gravar aquele jeito de falar alemão que ficara parado no tempo, que não evoluíra, que usava palavras equivalentes ao vosmecê de nossos bisavós. Ia de short e chinelos à padaria - padoca não pode... -, reclamava dos que chamavam de creme a espuma do chope, tentara entrar de bermudas num restaurante. Barrado, protestara. Uma vez, bêbado, só de sacanagem fechou um cruzamento, prática que abominava no Rio.

Era carioca. Carioca do River, do Oposição, do Bruni Piedade, do jogo de bola na rua, da Igreja Batista na esquina, do show do Jerry Adriani na inauguração do Guanabara. Piedade da feira de sábado, da Igreja do Divino Salvador, da Gama Filho, dos portugueses donos de lojas e de casas de vila, da vizinha da vila que recebia santo no Réveillon, Réveillon que em Piedade era apenas virada de ano. Ao deixar o tamborim na minha mesa, aquela cegonha desnorteada me jogou num bairro que já não existia. Não mais sapateiro - no lugar, loja de cabos de velocímetro, grudada numa ótica. Sem padaria, barbeiro e armarinho, agora havia loja de roupa, clínica dentária, oficina de costura. Restara a farmácia, diferente, alardeada, como os outros estabelecimentos, por cartazes que cobriam prédios amputados de suas características originais. Por lá, passado era sinônimo de velho, de ultrapassado, não se demonstrava orgulho em cultuá-lo, era preciso matá-lo, esconder sua presença. Nas fachadas, não mais ornamentos que entregavam a idade das construções, quase todos arrancados, substituídos por paredes retas que, por sua vez, eram tampadas por letreiros que, aos gritos, disputavam a atenção de quem passava pela Suburbana. E mais e mais esquadrias de alumínio, cerâmicas, luzes fluorescentes, lojas de automóveis que entulhavam as calçadas de carros, e grades, e grades, e grades. Por ali morou Dilermando, amante de Ana, mulher de Euclides da Cunha. Foi numa daquelas casas que o escritor foi morto. Ana, mulher que jamais deveria ser cumprimentada, dizia a avó para a filha, futura mãe daquele que, em São Paulo, via-se na Suburbana, hoje Dom Hélder Câmara, Estrada Real de Santa Cruz na época do crime. Só adolescente soubera ter sido criado perto do local onde Euclides da Cunha fora morto, não sabe qual é a casa, se ainda há casa, nunca houve placa na porta. Seus vizinhos em Piedade nunca falavam de Euclides da Cunha. Lima Barreto era apenas uma rua, desconectada do escritor que também vivera no bairro. A Piedade da infância se perdera nas mudanças de casa, nas mortes de avós, tios e vizinhos, no espaçamento e posterior fim das antigas amizades. Nunca mais ouvira falar em blocos de sujos, os blocos da Zona Sul eram limpinhos, cheios de jovens brancos, fantasiados, ninguém precisava apelar para fronhas velhas no carnaval. Muitos deles aprendiam a tocar tamborim, caixa e repique em escolas de percussão.


Acordou com o dia que se revelava pelas frestas da cortina. Dormira sentado na poltrona, não jantara, sequer tomara banho ou trocara de roupa. Recolheu o tamborim e a baqueta que deixara cair no chão, colocou-os sobre a mesa ao lado do computador. Ligou a TV, soube do frio, da falta d'água, do trânsito nas marginais, do engarrafamento de não sei quantas centenas quilômetros daquela manhã. Foi ao banheiro, lavou o rosto, escovou os dentes, abriu o chuveiro. Colocaria o terno, desceria, tomaria café e sairia mais cedo para o escritório, adiantaria o serviço. Na noite de sexta embarcaria para o Rio, avião cheio de caras conhecidas, aves que volta e meia se encontravam na revoada de retorno para casa. Domingo, no almoço com a mulher e filho, teria como sobremesa a quase depressão que indicava a proximidade do horário do voo de volta. Casamento mantido na ponte aérea, ela sem ter como se transferir para São Paulo, ele - toque de surdo, tum, tum - preso ao escritório, ao bom salário, à carreira. Levaria o tamborim na mala, não seria difícil encontrar um curso de fim de semana, um daqueles frequentados por jovens que não tinham a menor ideia de como chegar em Piedade. Talvez tomasse coragem de se matricular, de tentar aprender, de se ver assanhado, intrometido, folgado, marrento. Havia muitos carnavais pela frente.


A censura pede passagem

separador Por Fernando Molica em 22 de dezembro de 2014 | Link | Comentários (0)

(Post publicado originalmente no dia 15/12)

Semana passada, anunciei, aqui no Facebook, que teria um conto publicado no projeto Rio: Passagens, organizado pelo Vinicius Jatobá e patrocinado pela Prefeitura do Rio. O site foi colocado hoje cedo no ar, mas meu conto - 'Tamborim' - não está lá. Fui excluído pelos organizadores por não concordar com a mutilação de meu texto. Eu e o Marcelo Moutinho, outro autor convidado, descobrimos, sábado à noite, que, sem nossa autorização, nossos contos haviam sofrido cortes e mudanças. A descoberta foi meio por acaso - consegui, por meio de terceiros, o link que levava ao site provisório, mantido em sigilo até para os autores. Pelo menos dois outros contos foram alterados; suspeito que o número seja ainda maior - naquela noite de sábado, Vinicius me pediu para não repassar o link para outros autores. No dia seguinte, domingo, o site provisório saiu do ar.

Entreguei a versão definitiva de 'Tamborim' ( disponibilizada hoje no meu site, www.fernandomolica.com.br ) há quatro meses, no dia 13 de agosto. Desde então, não fui procurado para tratar de eventuais modificações ou adaptações. Ontem, contei 36 alterações: foram cortadas diversas palavras ou expressões; sete frases inteiras e trechos importantes de outras oito. No word, os cortes de frases atingem o equivalente a 13 linhas de texto. Os editores também decidiram abrir sete parágrafos em blocos de texto.

Ontem à tarde, um integrante da Arrastão de Ideias, empresa de Jatobá, atribuiu os cortes à necessidade de adequação dos textos, que, pelo projeto, deveriam ser adotados em escolas. Daí, a eliminação de quatro palavrões, pronunciados/pensados pelo único personagem do conto. Argumentei que não havia sido avisado dessa restrição, mas disse que, para não ser intransigente, aceitaria trocar aquelas palavras. Isso, apesar de rejeitar e repudiar qualquer censura. Como escritor, não discrimino palavras. Além disso, a densidade dos contos praticamente inviabiliza sua leitura por crianças. Os adolescentes que tivessem acesso aos textos não se chocariam com palavras que conhecem e costumam pronunciar - há sites bem mais atrativos para quem busca algum tipo de prazer não literário.

A frase seguinte está entre as cortadas: "Pelo peso, menos de quilo, não deveria ser outro daqueles livros parrudos, cheios de fotos, produzidos por empreiteiras que se valem de leis de incentivos fiscais." Não há qualquer palavrão aqui, mas suspeito que os organizadores não gostaram da referência a leis de incentivo. Empreiteiras e incentivos fiscais devem ter sido considerados danosos à formação de nossos jovens. Houve cortes em brincadeiras com o sotaque paulistano, houve muitos cortes. Todos afetam e desrespeitam o trabalho do autor.

O tal integrante da Arrastão de Ideias (Evaristo, se não me engano) e Vitor Jatobá, produtor da empresa, alegaram, ontem, que não haveria tempo para fazer mudanças no site. Discordei, não se tratava de texto impresso, mas de publicação na internet. Esclareci que não exigiria, para hoje, a adaptação das traduções. Essa tarefa, assim como a regravação da leitura dos contos em português, poderia ser feita depois.

Como minha argumentação não foi aceita, fui excluído do projeto. O mesmo aconteceu com o Moutinho. Publiquei meu primeiro romance há 12 anos, escrevi seis livros, participei de três antologias de contos - e nunca havia passado por uma situação como essa. Até a editora alemã que publicou meu 'Notícias do Mirandão' me consultou sobre uma alteração em ordem de capítulos (e olha que seria difícil descobrir a mudança num texto em alemão).

O projeto conta com patrocínio oficial. A Secretaria Municipal de Cultura, entregou R$ 149 mil para a Arrastão de Ideias tocar o Rio: Passagens. A prefeitura não é responsável pelos cortes, acabou sendo envolvida num projeto que acabaria marcado pela censura e pelo desrespeito aos autores. Por falar em respeito: segundo o site Rio Transparente, o dinheiro do projeto foi repassado para a produtora em 30 de dezembro de 2013, há quase um ano. Até agora, a maioria dos autores não recebeu por seu trabalho (quantias pequenas, se não me engano, entre R$ 300 e R$ 500). Ontem, o Vitor me disse que, por conta de minha ausência do site, eu não receberia nada. É injusto, já que o trabalho foi feito e entregue no prazo. Mas deixa pra lá - espero, porém, que eles devolvam para a prefeitura, para os cofres públicos, o dinheiro que economizaram com os autores excluídos.


O assassino e seus cúmplices silenciosos

separador Por Fernando Molica em 22 de dezembro de 2014 | Link | Comentários (0)

Estação Carioca, O DIA, 15/12:

Quase tão chocante quanto os assassinatos de 43 pessoas cometidos por uma mesma pessoa é o silêncio em torno dessas mortes. Por nove anos, Saílson José das Graças, de 26 anos, o criminoso confesso, contou com a indiferença da polícia, do Ministério Público e da imprensa. Não me lembro de, em todo esse tempo, ter lido ou visto nada a respeito de homicídios em série ocorridos em Nova Iguaçu ou sobre o 'Monstro de Corumbá' (bairro em que ele morava).

Segundo os jornais, o autor dos homicídios só foi preso graças a uma investigação conduzida por vizinhos de uma das mortas. Pelo que disse o assassino, havia um padrão na sequência de crimes. Não seria difícil, portanto, descobrir uma ligação entre tantos episódios: quase todas as vítimas eram mulheres brancas; os assassinatos ocorreram na Baixada; para matar, o homicida não usava armas de fogo, mas facas ou apenas as mãos. Mesmo com todas as evidências e pistas, nada foi feito. Uma jovem de 21 anos que sobreviveu a um ataque de Saílson disse que sequer foi atendida quando foi à delegacia prestar queixa.
Não é difícil imaginar o que teria ocorrido se os homicídios tivessem ocorrido na Zona Sul carioca, ou mesmo em bairros como Tijuca ou Méier. É mais do que razoável supor a indignação do ministro da Justiça, do governador, das autoridades da área de segurança, dos promotores, das entidades que estudam a criminalidade, dos jornais, das revistas, das TVs e das rádios -- este artigo teria sido escrito assim que fosse caracterizada a existência de um assassino em série.

A mobilização da sociedade e de suas instituições pouparia muitas vítimas, o homicida seria preso bem antes de chegar ao 43º cadáver. Crimes bem menos graves ocorridos em áreas mais ricas da cidade têm muito mais repercussão. Não basta processar e condenar Saílson. É fundamental que todos, autoridades ou não, paremos de hierarquizar vidas, considerar normal que pessoas que moram em áreas pobres sejam mortas, e que esses crimes não sejam investigados.

Isso só vai mudar quando passarmos a achar que vivemos em Corumbá, que somos vizinhos daquelas vítimas. Quando nos indignarmos com a falta de segurança mas também com as ruas sem calçamento, com a falta de transporte decente, com a ausência de saneamento básico, com as escolas precárias, com o racismo, com a crônica deficiência dos postos de saúde e hospitais. Com a nossa omissão, todos, de alguma forma, somos responsáveis por aquelas mortes, cúmplices no abandono, no descaso e no silêncio.


O Chacrinha que nos explica

separador Por Fernando Molica em 22 de dezembro de 2014 | Link | Comentários (0)

Estação Carioca, O DIA, 08/12:

O Brasil está em cartaz na Praça Tiradentes. No palco do Teatro João Caetano, atores, músicos e bailarinos contam como o pernambucano Abelardo Barbosa criou um personagem, o Chacrinha, que colocou diante das câmeras um país que não se envergonhava de si mesmo. Ele não vacilava em mostrar um Brasil desdentado, brega, que adorava baladas românticas, que babava pelas chacretes.

Na época, anos 1960 e 1970, apresentadores de programas de auditório, como J. Silvestre, Flávio Cavalcanti e Silvio Santos, não dispensavam o terno. A formalidade era compatível com a lógica e os valores morais propagados pela ditadura. O traje transmitia seriedade e servia para amenizar a presença de atrações mais populares. Aqueles apresentadores tinham um quê de pastores evangélicos, traduziam a ideia de um país branco, arrumadinho, comportado, religioso, que negava suas origens e mazelas, que tentava incorporar o padrão alardeado pelo cinema norte-americano.

Chacrinha fez tudo ao contrário, se apresentava fantasiado, vestido de palhaço, de noiva, de Napoleão, de bebê. Como o primeiro ato de 'Chacrinha, o musical' evidencia, o apresentador levou para os estúdios de TV uma versão pop e urbana de características presentes na cultura nordestina -- alegre, barulhenta, profana, colorida, sensual, escandalosa. O programa não evocava uma igreja, mas uma quermesse de praça, local de festas e namoros.

Sua discoteca não discriminava estilos, todos os que faziam sucesso eram bem-vindos: Roberto Carlos, Waldick Soriano, Sidney Magal, bandas de rock como Blitz e Titãs, tropicalistas como Caetano Veloso e Gilberto Gil. Chega a ser inacreditável que toda aquela festa anárquica tenha resistido a um dos períodos mais duros da história brasileira. Interpretado/incorporado na peça por Stepan Nercessian, Chacrinha resistiu à censura, ao preconceito, à tentativa de imposição de um padrão de bom-mocismo e de bom gosto. Num dos diálogos escritos por Pedro Bial e Rodrigo Nogueira, Chacrinha é pressionado por Boni -- então todo-poderoso da Globo -- para elevar o nível do programa: como resposta, ele sugere transferir os estúdios para o oitavo andar.
>Com sua buzina, quebrou as paredes que separavam a sala de estar do quarto de empregada e revelou as semelhanças entre brasileiros que pareciam tão diferentes. Chacrinha dizia ter vindo para confundir, mas, como diria Chaves, personagem de Roberto Bolaños, sem querer -- mas querendo -- jogou o Brasil na nossa cara e ajudou a nos explicar.


O julgamento da Árvore

separador Por Fernando Molica em 22 de dezembro de 2014 | Link | Comentários (0)

Estação Carioca, O DIA, 01/12:

Ex-capital da colônia, do Império, da República e até de um reino europeu, o Rio acostumou-se a pensar em grandes questões nacionais. Isto se mostra até no voto -- ao contrário de outros brasileiros, tendemos a não dar grande importância a questões regionais na hora de escolher nossos representantes. Por duas vezes, elegemos para o governo um gaúcho que conhecia pouco o estado, não escondia o sotaque e fazia questão de exibir o lenço vermelho no pescoço, símbolo de batalhas travadas em sua terra natal. Foi escolhido porque representava um protesto.
Mesmo políticos favoráveis à redivisão dos royalties do petróleo continuaram a ser acolhidos por aqui. Não gostamos da lógica provinciana. Muitos jornais de outras capitais tendem a exibir a marca regional em seus nomes -- os daqui sempre revelaram, já no batismo, preocupações mais amplas ou genéricas.
Essa seriedade no trato dos grandes temas não travou, porém, nosso apreço por aquilo que, para muita gente, não tem qualquer importância. Um grande exemplo é o carnaval. Somos capazes de ficar horas tratando de questões abstratas, relacionadas a um prazer estético -- o grande samba do ano, a escola que melhor se apresentou. Amigos de outras paragens chegam a duvidar de nossa sinceridade quando reafirmamos que, sim, cada um de nós tem uma escola de samba de coração. Na hora da conversa, critérios técnicos -- evolução, harmonia -- são deixados de lado. O que vale mesmo é algo mais subjetivo e simples, avaliar qual das escolas estava mais bonita. No julgamento popular, vence a agremiação que se revela mais bela, mais sedutora, mais atraente. Nessa hora, nem aquele militante de causa heterossexual, que costuma esbanjar preconceito em suas falas, tem vergonha de condenar o excesso de roxo ou de amarelo no Salgueiro ou na Ilha.
Acostumados a avaliar carros alegóricos, viramos também analistas dos fogos que marcam o Réveillon em Copacabana (já testemunhei vaias a apresentações chinfrins) e, de uns anos pra cá, da Árvore da Lagoa. Trata-se de uma iniciativa comercial, turbinada por incentivos fiscais, mas que se impôs ao calendário carioca e gerou filhotes pelo país. É razoável, portanto, submetê-la ao crivo popular, um julgamento imediato, feito assim que termina a festa de inauguração. A deste ano passou no teste, tem uma concepção simples -- o revezamento entre dia e noite -- e, ao se exibir verde, decorada com luzes coloridas, faz um carinho nas árvores de Natal domésticas. É candidata ao um desfile virtual das campeãs.


O golpe dos histéricos

separador Por Fernando Molica em 22 de dezembro de 2014 | Link | Comentários (0)

Estação Carioca, O DIA, 24/11:

A frase era uma espécie de clássico de mães desesperadas com a bagunça promovida por seus filhos. Incapazes de controlar aqueles pequenos aloprados, elas recorriam à última cartada: "Vou falar com o seu pai quando ele chegar em casa!", berravam. Em quase 100% dos casos, o simples anúncio era suficiente para acabar com o caos e provocar uma repentina mudança na pauta de negociações. O importante, a partir do lançamento daquela sentença, um quase gol com a mão disponível apenas em momentos graves, seria impedir que a deduragem fosse consumada.

Mães, vale frisar, pareciam não gostar muito de recorrer à ameaça. Afinal, a frase representava também a confissão de que elas não haviam conseguido dar conta do problema. O recurso à autoridade paterna demonstrava que haviam falhado todas as tentativas de negociação e de constrangimento, que fora zerado o estoque de cartões amarelos. Ao jogar a toalha, elas meio que reconheciam a falência de solução negociada, que vinha temperada pelo carinho materno. Agora, seria na base da guerra: pais poderiam cortar festas de fim de semana, suspender o direito de ver 'Batman' por uma semana, cancelar idas ao clube ou à praia. Diante do fato novo, que rompia com todas as normas institucionais de convivência doméstica, crianças não tinham mais nada o que fazer ou argumentar, era hora de enfiar o rabo entre as pernas, tomar banho, jantar e dormir.

Ao ocupar as ruas e clamar por um golpe militar, manifestantes agem como as mães de outrora. Com os aventais sujos pelos ovos quebrados nos embates típicos da democracia, os marmanjos que ressuscitam as velhas vivandeiras de quartéis reconhecem suas próprias limitações. Ao berrar por uma solução autoritária, deixam transparecer sua incapacidade de dialogar e de conviver com o outro. Não querem saber de dúvidas, de negociações, sonham com um paizão, alguém que acabe com dúvidas, que imponha certezas, que não vacile em reprimir, em definir o certo e o errado, que aplaque inconfessáveis fantasias com fardas, canhões e vozes duras de comando.
Deixemos de besteira, somos todos grandinhos, não acreditamos em bicho-papão. Não precisamos de mães histéricas, de pais autoritários ou de meninos mimados que, quando contrariados, alardeiam o fim da brincadeira. A bola em jogo não tem dono, pertence a todos nós -- o derrotado de hoje que trate de jogar melhor amanhã. Quem não respeita a regra do jogo ou insiste no Tapetão não pode descer pro play.


O valor de um celular

separador Por Fernando Molica em 22 de dezembro de 2014 | Link | Comentários (0)

Estação Carioca, O DIA, 17/11:

Não dá pra ficar indiferente. Reportagens e anúncios imensos alardeiam a nova versão de um celular, um brinquedinho que custa cerca de R$ 3 mil. Pelo preço, imagino que seja como aquelas moças que antigamente, nos classificados dos jornais, diziam fazer de tudo. É razoável supor que, pela grana necessária para comprá-los e pela expectativa em torno deles, esses aparelhos não devem se limitar a fazer e receber ligações, fotografar e filmar, permitir conexões com a internet e acessar o GPS. São muito melhores que o telefone automático sonhado pelo poeta Manuel Bandeira nos anos 1930.
Arrisco dizer que, para justificar o valor do produto e a ansiedade dos consumidores, esses novos celulares nos darão apenas boas notícias. O feliz proprietário de um deles não terá mais com que se preocupar, não haverá motivo de apreensão a cada chamada, nenhuma delas anunciará morte, doenças, desastres, problemas diversos -- sequer receberemos da amada a notícia de que aquela história chegou ao fim. Da mesma forma, bastará ligar de um deles para que uma desejada e distante musa aceite o convite para jantar. Aos seus ouvidos, nossa voz chegará firme, jovem e sedutora.

Nas fotos clicadas com este primor da tecnologia, não teremos qualquer resquício de barriga, rugas ou de cabelos brancos. Ficaremos mais altos e fortes, capazes de rivalizar com qualquer galã de novela das sete. Um efeito tão consistente que resistirá até mesmo à prova dos nove do contato pessoal. Ela, o alvo de nosso ataque, reconhecerá que seus sentidos -- olhar, audição, tato, olfato -- são inferiores, incapazes de rivalizar com aquela maquininha criada pelas brilhantes mentes de grandes cientistas.
Nossa conta bancária sempre exibirá o melhor dos azuis quando acessada pelo novo celular. Nada de débitos, de recurso ao cheque especial, de cifras impressas em vermelho ou antecedidas pelo sinal negativo. Nos sites de notícias haverá apenas boas novas, nada de corrupção, chacinas ou seca: a telinha me garantirá que o Botafogo não cairá para a Segundona. Engarrafamentos serão jogados para um passado remoto, os caminhos ficarão abertos todas as vezes que utilizarmos o aparelho para descobrir a melhor rota -- não receberemos apenas mapas, mas a garantia de pistas livres. Vou-me, então, embora para uma dessas lojas que oferecem a novidade. Tratarei, hoje cedo, de garantir meu passaporte para a felicidade -- e aqueles gringos, os inventores do aparelho, vão se ver comigo se todos os meus desejos não forem realizados.


O Brasil que chegou ao tamanho M

separador Por Fernando Molica em 22 de dezembro de 2014 | Link | Comentários (0)

Estação Carioca, O DIA, 10/11:

Em 1957, o fotógrafo Will Counts traduziu a história em imagem ao flagrar a ira de um grupo de brancos que tentava impedir que a jovem negra Elizabeth Eckford, de 15 anos, começasse a frequentar a melhor escola de Little Rock, no Arkansas. Ela era um dos nove estudantes negros escolhidos para cumprir decisão judicial que impedia a discriminação. Semana passada, a Universidade Federal do Espírito Santo afastou o professor Manoel Luiz Malaguti, que, em sala de aula, fizera declarações racistas.

Casos de intolerância são muito frequentes. Volta e meia, um determinado grupo reage à chegada de pessoas que consideram diferentes, temem que forasteiros quebrem um suposto equilíbrio social. É como se, de uma hora para outra, valores cultivados ao longo de gerações estivessem ameaçados pela vinda daqueles que não são vistos como semelhantes. Há também o medo de perda de privilégios, de dinheiro, de empregos -- na prática, nem todos são iguais, como ressalta aquele velho ditado sobre priorizar o próprio pirão diante da escassez de farinha.

Acostumados com prestígio e fartura, muitos reagem à mudança de forma violenta. Favorecidos pela exclusão, estão tão acostumados com a injustiça que a consideram normal, natural. Dá pra imaginar o impacto que representou, para os brancos da África do Sul, o fim do mais que vergonhoso regime do apartheid. Negros que sequer podiam usar o mesmo bebedouro que eles teriam o direito até de chegar -- como chegaram -- à Presidência da República.

O Brasil vive uma situação que, embora bem menos radical, tem semelhanças com sociedades que vivenciaram rupturas. É como se o país digno e confortável tivesse sido planejado para ser do tamanho P, capaz de abrigar apenas uma pequena parcela dos que vivem por aqui. A estabilidade da moeda, o aumento do emprego, a maior facilidade de acesso à universidade e a criação de programas de inserção social geraram um alargamento do modelo, passamos para o tamanho M. Muita gente passou a ter uma vida melhor -- "gente diferenciada", na expressão daqueles paulistanos ricos que não queriam uma estação de metrô no bairro que dizem ser seu. A eleição serviu para destampar o ódio dos que veem o país como um condomínio fechado, que não admitem a proximidade com aqueles que consideram inferiores. Que se conformem, não tem mais volta, as pessoas se cansaram de ir à grande festa brasileira apenas para servir bebidas e limpar banheiros -- é hora de todo mundo ficar bem na foto.


Os tucanos e a pregação do golpe

separador Por Fernando Molica em 22 de dezembro de 2014 | Link | Comentários (0)

Estação Carioca, O DIA, 03/11:

As principais lideranças do PSDB -- entre elas, pessoas que foram punidas pela ditadura -- deveriam se pronunciar imediatamente contra os insanos que pedem um golpe militar. Aécio Neves, Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Aloysio Nunes Ferreira e tantos outros importantes homens públicos não podem ficar calados quando pessoas vão às ruas clamar pelo fim da democracia.

Nada indica que essas passeatas estejam sendo organizadas pelo PSDB, mas é razoável supor que, no segundo turno, os que delas participam votaram no Aécio Neves -- o 'Fora Dilma' é o principal mote do movimento. Daí a importância de uma manifestação do ex-candidato à Presidência e de seus companheiros de partido.
É esquisito propor a saída de quem acabou de ser reeleita, não dá para se reivindicar impeachment com base numa acusação cujos termos são desconhecidos, o pedido de recontagem de votos feito por tucanos é difícil de ser justificado, parece choro de perdedor. Mas tudo isso se inclui na lógica da pressão sobre adversários, o PT também já gritou 'Fora FHC'.
O absurdo é admitir, ainda que com o silêncio, que um bando de idiotas pregue a volta da ditadura. Cabe então aos caciques do PSDB dizer que, por mais que odeiem Dilma Rousseff e Lula, não compactuam com os que desejam o golpe -- até porque muitos tucanos têm origem política na esquerda e poderiam voltar a ser perseguidos em uma nova ditadura (vice de Aécio, Ferreira chegou, a exemplo da presidenta, a integrar uma organização armada no auge do governo militar). Marina Silva também deveria dizer que não quer saber de pregações golpistas.
No mais, os que justificam a volta dos militares ao governo por conta do combate à corrupção deveriam se informar melhor. Ditaduras costumam ser muito boas para corruptos, que, assim, podem roubar sem medo da imprensa ou do sistema que envolve polícia, Ministério Público e Justiça.

Quem duvida disso deveria aproveitar as facilidades da internet e dar uma olhada na edição de 1º de agosto de 1976 do jornal 'O Estado de S.Paulo', que então publicou a célebre reportagem sobre as mordomias, que tratava da pra lá de doce vida dos superfuncionários federais.
Houve casos muito mais graves de corrupção durante a ditadura, mas os privilégios relatados na matéria são bem didáticos. O cardápio dos golpes, vale lembrar, também inclui censura, prisões arbitrárias, tortura e assassinatos. Não se faz passeata para se pedir o fim do direito de se fazer passeatas.


A divisão que vem de longe

separador Por Fernando Molica em 22 de dezembro de 2014 | Link | Comentários (0)

Estação Carioca, O DIA, 27/10:

Esta campanha eleitoral não dividiu o país, apenas explicitou as diferenças que existem desde a chegada dos chamados descobridores. A divisão começou quando integrantes dos diversos grupamentos humanos que havia por aqui foram combatidos, escravizados e mortos. A instituição das capitanias hereditárias evidenciou o projeto de dividir a colônia entre os que tinham e os que não tinham terras.
A importação de africanos para o trabalho escravo, a maior vergonha de nossa história, estabeleceu a mais cruel das separações: a existência de homens e mulheres que não eram considerados seres humanos, pessoas passíveis de espancamento, que podiam ser submetidas a absurdas jornadas de trabalho e a abusos sexuais. Escravos sequer tinham direito a ficar com seus filhos, vendidos como fazemos com filhotes de cães e gatos.

Do ponto de vista histórico, a escravidão acabou há pouquíssimo tempo, os avós dos que hoje têm mais de 40 anos certamente conviveram com ex-escravos. Os 126 anos desde a Abolição foram insuficientes para apagar os conceitos que marcavam e justificavam as diferenças entre homens livres e escravos, entre brancos e negros. Na minha infância, num subúrbio do Rio, era comum ouvir expressões que procuravam legitimar o suposto lugar de cada um, lugares que não poderiam ser mudados. Só em 1996 é que foi assinada lei municipal que proíbe discriminação em elevadores sociais.
Para justificar a má qualidade da educação e da saúde, dizia-se : "Pra preto, está bom". "Preto", aqui também como sinônimo de pobre. A divisão era -- na maioria dos casos, ainda é -- evidente. As melhores escolas e os bons hospitais eram para poucos, filhos de pobres não deveriam estudar, tinham que reproduzir a pobreza dos pais. Boa parte da sociedade achava que nada precisava ser mudado. A legislação sobre o trabalho doméstico só chegaria em 1972. Ainda hoje, muita gente acha normal que empregadas durmam nas casas dos patrões, fiquem 24 horas por dia à disposição deles -- e recebam por apenas oito horas de trabalho.

Para tantos e tantos brasileiros, qualquer passo que busque acabar com a velha divisão é classificado de ilegítimo. O ódio de parte da sociedade ao Bolsa Família revela que, para muita gente, só quem já tem dinheiro é que pode ser ajudado pelo Estado. Insisto: a eleição não dividiu o país, apenas deu a muitos daqueles que estão entre os mais ricos a coragem de gritar, de dizer que não admitem o rompimento de tantas fronteiras. Eles vão ter que se conformar, o país mudou.


O aborto e as criminosas

separador Por Fernando Molica em 22 de dezembro de 2014 | Link | Comentários (0)

Estação Carioca, O DIA, 20/10:

Semana passada, a polícia prendeu médicos e outras pessoas acusadas de praticar aborto. Se forem condenados, receberão penas de até quatro anos de prisão -- caso a interrupção da gravidez ocorra sem o consentimento da gestante, a cana pode chegar a dez anos. A questão agora é saber se a lei que criminaliza a prática será integralmente cumprida. Segundo o Código Penal, mulheres que se submetem ao procedimento também são criminosas, sujeitas a até três anos de cadeia.

De acordo com estimativas citadas ao longo do primeiro turno da eleição presidencial, o número de abortos praticados anualmente no país varia de 800 mil a 1 milhão. Os três candidatos mais votados ao Palácio do Planalto foram unânimes em dizer que não tomariam a iniciativa de mexer na legislação. Seria, então, o caso de perguntar aos dois que permanecem na disputa se acham correto submeter mulheres que abortam ao tribunal do júri -- é um crime doloso contra a vida.

Tratar a questão em tese é fácil, políticos brasileiros têm resposta pronta, repetem que concordam com o aborto apenas nos casos previstos pela lei, estupro ou risco de vida da gestante. Mas os episódios de gravidez indesejada são concretos, é difícil acreditar que Dilma Rousseff e Aécio Neves não tenham conhecido amigas que resolveram abortar. Como ambos dizem concordar com a legislação, essas mulheres são, para eles, criminosas que mereciam ter sido presas.

A mesma pergunta poderia ser feita a cada um de nós. Mesmo que levemos em conta princípios éticos e religiosos, mesmo que não aceitemos a descriminalização do aborto, será que achamos correto mandar para o tribunal e para a prisão mulheres -- a amiga, a irmã, a filha, a vizinha, a filha de amigos -- que interromperam a gravidez? A resposta a esta pergunta é fundamental para acabar com a hipocrisia que reina por aqui.

A escolha é simples: ou mudamos a lei ou passamos a exigir que a polícia faça o serviço completo e trate de prender mulheres que abortaram. Tratemos de condená-las, de levá-las para as penitenciárias. Não deve ser difícil encontrá-las: os aborteiros devem ter fichas de suas clientes. Vale lembrar que as duas mulheres que morreram recentemente ao abortar seriam consideradas criminosas caso tivessem sobrevivido ao procedimento. Elas morreram porque, devido à proibição, recorreram a clínicas clandestinas -- açougues criados e estimulados pela sociedade e por seus representantes que teimam em ignorar a realidade.


O 'Bolsa Esmola' dos mais ricos

separador Por Fernando Molica em 22 de dezembro de 2014 | Link | Comentários (0)

Estação Carioca, O DIA, 13/10:

O Bolsa Família conquistou a unanimidade dos principais candidatos à Presidência -- os oposicionistas Marina Silva e Aécio Neves até disseram que ampliariam o programa desenvolvido em administrações petistas. Mas, nas ruas e na internet, a complementação de renda é muito criticada por pessoas que dizem ser contra o governo, o mecanismo chega a ser chamado de Bolsa Esmola.

A entrega de uma quantia mensal a famílias muito pobres -- fundamental para a alimentação de milhões de brasileiros -- é associada a um estímulo ao comodismo. E olha que o valor médio do benefício é de apenas R$ 152,35. Mas os que tanto criticam a transferência de renda aos mais pobres não falam que também se beneficiam de dinheiro público, são favorecidos pelo que poderíamos chamar de Bolsa Rico ou Bolsa Classe Média.

A grande maioria da população não tem dinheiro para bancar escolas e serviços privados de saúde e é obrigada a recorrer às redes públicas. Mas essas mesmas pessoas -- que estão entre as mais pobres -- são obrigadas a rachar a conta das escolas particulares e dos médicos, dentistas, fisioterapeutas, psicólogos e hospitais privados utilizados pelos que têm mais grana.
O subsídio se dá pelo imposto de renda, que permite a dedução das despesas com saúde e autoriza o abatimento de parcela do que foi gasto com a educação do contribuinte e de seus dependentes. Como pobres não têm dinheiro para gastar em escolas e médicos privados, ficam de fora dos benefícios.

Recursos aplicados em uma modalidade de plano de previdência privada também podem ser abatidos do imposto, assim como parcela do INSS pago a empregadas domésticas. É inacreditável, mas é isso mesmo -- com a desculpa de estimular a formalização do trabalho doméstico, o governo devolve para os patrões dinheiro gasto com a previdência das empregadas. Deve ser o único país do mundo em que o privilégio de manter uma doméstica conta com estímulo oficial.
No ano passado, foram investidos R$ 24,5 bilhões no Bolsa Família. Já o valor das deduções previstas no imposto de renda de pessoas físicas foi estimado em R$ 37, 354 bilhões. Só os abatimentos relacionados a despesas com saúde chegariam a R$ 9,874 bilhões; o subsídio àqueles que gastam em escolas privadas somaria R$ 3,877 bilhões. No fim das contas, muita gente que se diz contra o Bolsa Família quer mesmo é continuar a tirar dos pobres para dar aos ricos ou remediados. Robin Hood ficaria espantado com a cara de pau de muitos de nossos compatriotas.


A derrota a que Marina se impôs

separador Por Fernando Molica em 22 de dezembro de 2014 | Link | Comentários (0)

Estação Carioca, O DIA, 06/10:

Eliminada logo no primeiro turno, Marina Silva (PSB) sabe que foi a principal responsável por sua derrota. Políticos podem defender as mais diferentes propostas, mas não têm o direito de negar suas próprias opiniões. Dona de uma biografia digna e irrepreensível, a ex-senadora fez sua candidatura minguar quando passou a brigar com seu passado, a mentir sobre o que fizera na vida pública.
Todos temos o direito de trocar de opinião, mas é razoável exigir de políticos que eles expliquem esta transição, as razões da mudança. Marina não fez isso: disse que votou a favor da CPMF, mas documentos mostram que ela seguiu a orientação do PT -- seu partido na época --, que era contrário ao "imposto do cheque".
No 'Jornal Nacional', ela classificou de lenda sua posição contra os transgênicos. Como o 'Informe do DIA' mostrou, Marina chegou a apresentar projeto que proibia o uso desses grãos por cinco anos -- defendeu esta proposta em seis discursos no Senado. Ao longo da campanha de 2014, Marina mudou de posição sobre casamento gay e, com medo de perder votos no Rio de Janeiro, escorregou quando jornalistas perguntaram sua opinião sobre a proposta de alterações na distribuição dos royalties do petróleo. As sucessivas negativas transmitiram insegurança ao eleitor, colaboraram para demolir a ideia de "nova política" e fizeram sangrar a candidatura do PSB, que acabaria sendo goleada por Aécio.
As contradições de Marina foram exploradas por Dilma Rousseff e de Aécio Neves que, agora, vão encarar o segundo turno. Uma disputa interessante, que oferece ao eleitor duas diferentes propostas para o país. Ao contrário de outros candidatos à Presidência do PSDB, Aécio teve o mérito de explicitar suas posições, não vacilou ao defender ideias mais conservadoras e ao elogiar legados dos governos de Fernando Henrique Cardoso -- em campanhas anteriores, o ex-presidente sequer era citado por seus correligionários.
A amnésia de Marina foi derrotada por dois adversários que não tentaram esconder o que eles e seus respectivos partidos fizeram nas últimas décadas. Dilma ressaltou conquistas sociais e econômicas, Aécio tratou da estabilidade da moeda e da responsabilidade fiscal -- ambos, claro, ressaltaram casos de corrupção ocorridos em governos adversários. O mata-mata do próximo dia 26 não representará a continuidade da mesmice representada pela polarização PT-PSDB, mas uma chance para os brasileiros decidirem entre duas propostas claras e devidamente assumidas.


Marchinhas para quem quiser

separador Por Fernando Molica em 22 de dezembro de 2014 | Link | Comentários (0)

Estação Carioca, O DIA, 29/9:

'O bancário rala muito e ganha pouco/ Pouco, pouco, pouco', a versão de 'Pegando fogo' era cantada diante de uma agência bancária na Rua Voluntários da Pátria. Acompanhado por quatro músicos idosos, o cantor sindicalista tentava animar a campanha salarial da categoria com paródias de antigas marchinhas de carnaval.

Carioca por excelência, a marchinha representa um paradoxo, é velha e nova ao mesmo tempo. Velhas porque quase todas que ainda fazem sucesso foram compostas há 60, 70 anos -- a caçula do grupo já completou, com sobras, três décadas de vida. Mas todas recuperam a juventude a cada carnaval.
É como se passassem onze meses congeladas naqueles potes esfumaçados que guardam óvulos e cordões umbilicais. Às vésperas do Carnaval, são colocadas no micro-ondas e, embaladas por clarins e trompetes, se espalham, serelepes, pela cidade. Quem conquista novos fãs a cada ano, passa de boca em boca durante os dias de festa e ajuda a levantar o ânimo e as forças de tanta gente não pode ser chamada de velha.

Desde os anos 1970 que volta e meia surgem iniciativas para renovar o repertório de marchinhas -- todas fracassam, viram piada de salão. Talvez porque a simplicidade e a certa inocência de canções carnavalescas sejam incompatíveis com os novos tempos. Não dá pra dizer para uma jovem contemporânea que a casa vai cair caso ela faça um programa no Joá, seria inadmissível, hoje, questionar a sexualidade do Zezé (ou a da Zazá) ou exaltar o machismo do Rei Zulu, que "tem mulher pra chuchu". Isso, sem falar do racismo explícito de "Mas como a cor não pega, mulata/Mulata eu quero o teu amor".

Como os vinhos de regiões demarcadas, marchinhas têm uma espécie de selo de procedência -- são consideradas como tais apenas as compostas no Rio entre 1930 e 1965. Como se trata de carnaval, são admitidas exceções relacionadas a tempo e espaço, é impossível não abrir alas, por exemplo, para Chiquinha Gonzaga. São canções que têm a marca do passado, que nos ligam à história da cidade, do país ao que de bom e de ruim havia em outros tempos.
Cantar este passado não significa desejar sua volta, revela apenas nosso desejo de mantê-lo vivo. Marchinhas são como prédios antigos, foram tombadas pelo nosso carinho, pela vontade de preservar e de passar para outras gerações uma deliciosa história afetiva e cultural que renasce a cada mês de fevereiro. De tão incorporadas à nossa vida, marchinhas ajudam até a sassaricar uma campanha salarial.


O retorno da Província Cisplatina

separador Por Fernando Molica em 22 de dezembro de 2014 | Link | Comentários (0)

Estação Carioca, O DIA, 22/9:

Em tempos de tantas ameaças de separação -- por pouco escoceses não serviram a saideira para os ingleses, catalães querem deixar de ser espanhóis --, opto pela união e convido uruguaios a voltar para casa, para o Brasil. Ocupado por tropas luso-brasileiras em 1817, o território do país vizinho foi anexado ao Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves em 1921 com o nome de Província Cisplatina. Ficou entre nós até 1828, quando se tornou independente.
Não se ofendam, amigos uruguaios. Longe de mim propor qualquer invasão, todos queremos paz. Mas acho que poderia ser bom para vocês ganharem mais espaço, seria como sair de um quarto e sala para um casarão com vista para o mar, montanhas, rios e florestas. Vocês também teriam direito a participar de uma economia que, apesar de alguns recentes solavancos, é dinâmica e próspera.
Há também, admito, uma certa inveja de minha parte. Apesar dos problemas, da população diminuta (em torno de 3,5 milhões de pessoas), vocês apresentam alguns índices sociais bem melhores do que os nossos -- 98% de alfabetizados, 50º lugar no IDH, índice que mede a qualidade de vida (o grandalhão aqui está na 79ª posição).

A carne produzida por aí dá de goleada na nossa, o vinho de vocês também é bem melhor. A serenidade, a coragem e o desapego aos luxos do poder demonstrados pelo presidente José Mujica seriam um ótimo exemplo para os nossos políticos.
Daí achar que a união seria vantajosa para os dois. No futebol, teríamos sete copas e duas medalhas de ouro olímpicas. Poderíamos fazer com que, na nossa camisa azul, o tom marinho desse lugar ao celeste -- nosso segundo uniforme poderia ser o principal nas Olimpíadas, em homenagem a vocês.

Teríamos prazer em ser um país bilíngue, em receber autores como Horacio Quiroga, Juan Carlos Onetti e Eduardo Galeano. Vocês se orgulhariam de Machado de Assis, Guimarães Rosa e Graciliano Ramos. Seriam capazes de jurar que Nelson Rodrigues viveu em Montevidéu, identificariam semelhanças entre muitos de seus textos e letras de tangos, estilo tão cultivado por aí quanto do outro lado do Prata.
E, por falar em tango: muitos sustentam que Carlos Gardel nasceu em território uruguaio. Imaginem como ficariam os hermanos argentinos quando, depois da fusão entre nossos países, pudéssemos dizer que Gardel é... brasileiro! Não, deixa pra lá, seria um golpe baixo demais de nossa parte, ia acabar dando confusão. Melhor deixar tudo como está. Boa semana pra vocês, abraços no Mujica e no Loco Abreu.


Um benefício com a cara do Brasil

separador Por Fernando Molica em 22 de dezembro de 2014 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, O DIA, 15/9:

A tentativa do Tribunal de Justiça de obter auxílio-educação para seus magistrados e funcionários faz parte da tradição brasileira de beneficiar setores que já gozam de privilégios. Ao invés de se engajarem na luta por uma educação oficial de qualidade, desembargadores -- servidores que, na grande maioria, recebem mais de R$ 30 mil -- acham que cabe ao povo fluminense bancar a formação de seus dependentes. Na prática, a conta será rachada até pelo faxineiro terceirizado do fórum, cujos filhos estudam em escolas públicas.

Aumento salarial disfarçado, o benefício poderá ressarcir gastos de até R$ 7.250 mensais, dinheiro mais do que suficiente para pagar as melhores escolas e faculdades particulares. Pelo projeto, serão cobertos, inclusive, gastos com material e uniforme. Em 2015, a despesa prevista com o mimo é de R$ 128,8 milhões.

Na justificativa da proposta, a presidente do Tribunal de Justiça, Leila Mariano, chega a citar um artigo da Constituição, aquele que classifica como dever da família, da sociedade e do Estado assegurar, entre outros, o direito à educação. O problema é que isso deveria valer para todo mundo, não apenas para os filhos de quem trabalha no Judiciário e no Ministério Público (os promotores e procuradores do estado têm, desde maio, direito a um auxílio-educação, ainda que menor que o requerido pelo TJ). Se o projeto da Justiça for aprovado, qualquer cidadão poderá usar a interpretação da Constituição feita pela desembargadora para exigir a mesma grana -- basta reivindicar tratamento isonômico, expressão usada na proposta. Afinal de contas, diz a nossa lei maior, todos somos iguais.

O auxílio requerido pelo TJ ainda embute uma outra tradição brasileira, a que procura definir o lugar de cada um na sociedade. A exemplo do que ocorre no MP, os benefícios para magistrados seriam superiores aos dos outros servidores. Um desembargador que recebe cerca de R$ 40 mil entre salários e vantagens teria até R$ 7.250 para gastar com dependentes, mas a ajuda para funcionários que ganham bem menos seria limitada a R$ 3 mil. O uso de dinheiro público para perpetuar uma desigualdade é um absurdo dentro de outro absurdo: filhos de magistrados teriam, assim, direito a uma educação melhor que a dos filhos dos servidores. A proposta do novo benefïcio, além de representar um privilégio, comete o pecado adicional de hierarquizar os beneficiados -- ao favorecer aqueles que são mais poderosos, tenta manter todos em seus quadrados, nem juntos, muito menos misturados.


Na quadra, a cerimônia de iniciação

separador Por Fernando Molica em 22 de dezembro de 2014 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, O DIA, 08/9:

Não tenho a menor paciência para o oba-oba em torno de rainhas de bateria de escolas de samba. As moças são lindas, espetaculares, mas, muitas vezes, tomam o lugar dos donos da festa, aquela gente que criou e a cada ano reinventa o maior de todos os espetáculos. Rainhas não contam pontos, e a presença delas atrai fotógrafos e cinegrafistas que volta e meia atrapalham a evolução dos desfiles.
Mas, por conta de texto e vídeo postados ontem pelo amigo Fábio Fabato, dei uma olhada na cerimônia de, vá lá, coroação da Claudia Leitte como rainha de bateria da Mocidade. A escolha da gonçalense e estrela do axé para o posto foi apenas uma jogada com o objetivo de jogar alguns holofotes a mais na direção da escola de Padre Miguel, que, nos últimos anos, andou até ameaçada de rebaixamento.
O vídeo mostra que as belas pernas da cantora ainda não decifraram o segredo dos passos do samba. A falta de intimidade com o ritmo fez com que Claudia tirasse as sandálias para tentar sambar, gesto que contraria o repertório das passistas -- jogador profissional não entra em campo sem chuteiras.
Mas o samba tem feitiço. Discriminado e perseguido em suas origens, aprendeu a não temer o que vinha de fora, tratou de incorporar e de reciclar as influências externas. O desfile das escolas é uma consequência óbvia desta capacidade de reinvenção. Isto, porém, não implica descarte de rituais que devem ser cumpridos pelos recém-chegados. No palco da quadra da Mocidade, Claudia Leitte reverenciou o passado da escola ao usar, como passaporte, o samba 'Cartão de identidade'. Ao dar boa noite aos sambistas e compositores e se dizer natural de Padre Miguel, ela bateu cabeça para os ancestrais, para os que vieram antes, que abriram os caminhos para os que chegariam depois.
Este samba -- contam os livros 'As três irmãs', de Fabato, e 'Estrela que me faz sonhar', de Bárbara Pereira -- nasceu de um incidente ocorrido na década de 1970, quando a Mociedade ensaiava sua presença entre as grandes campeãs. O compositor Jorge Carioca saíra da quadra para tomar umas cervejas e, na volta, se viu barrado por um segurança padrão Castor de Andrade. Obrigado a dizer quem era, sacou sua carteira da ala dos compositores e cantarolou: "Mostrando a minha identidade /Eu posso provar a verdade a essa gente /Como eu sou da Mocidade Independente". Com a parceria de Djalma Crill, o improviso viraria hino e manifesto. Ao cantá-lo em sua cerimônia de iniciação, Claudia conquistou uma espécie de cidadania provisória -- que trate de honrá-la.


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Coluna Estação Carioca, O DIA, 01/9:


Políticos, drogas e virgindade

separador Por Fernando Molica em 22 de dezembro de 2014 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, O DIA, 25/8:

Dos cinco candidatos ao governo presentes ao debate da Band, apenas um -- aquele, que, segundo as pesquisas, não tem chance de ir para o segundo turno -- defendeu a legalização da maconha. Os outros deram ao assunto o tratamento de dogma religioso, repetiram o mantra da proibição, um deles chegou a associar o uso da erva por operários ao fechamento de uma fábrica de aviões.
Divergências são saudáveis e necessárias, o tema está longe de ser consensual, gera debates acirrados no mundo inteiro. Mas seria razoável esperar que políticos relativamente jovens -- o mais velho dos cinco tem 59 anos -- tivessem posições mais elaboradas e menos preconceituosas. É impossível que eles, de alguma forma, não tenham tido contato direto com uso de drogas.
Eles podem até nunca tê-las experimentado, mas seria difícil acreditar que jamais viram amigos fumando um cigarro de maconha em festas ou numa viagem de fim de semana. Deveriam, no mínimo, explicar por que condenam a legalização e, ao mesmo tempo, não se engajam na luta pela proibição das bebidas alcoólicas.

Droga permitida, anunciada na TV, o álcool é, de longe, entre as substâncias químicas que geram alteração de comportamento, a que mais problemas causa entre nós. Nem por isso defende-se sua interdição: os Estados Unidos chegaram a implantar a medida, que serviu apenas para estimular o contrabando, engordar e consolidar a máfia.
O ideal seria que ninguém buscasse conforto ou prazer em substâncias químicas, mas a história mostra que não é assim que caminha -- nem sempre em linha reta -- a humanidade. Praticamente todos os grupamentos humanos inventaram ou consumiram algum tipo de droga que, bebida, inalada, fumada ou injetada, produz mudanças de consciência.

Estas mesmas substâncias são capazes de provocar dependência e tragédias pessoais ou sociais, daí a necessidade de discuti-las. Afinal, a proibição não foi capaz de inibir o consumo e ainda acentuou problemas como corrupção policial e violência.

Em 2001, Portugal deixou de prender usuários de qualquer droga (a venda das substâncias continua proibida) e intensificou o tratamento de dependentes. Especialistas divergem sobre a diminuição do consumo, mas ninguém fala em explosão no número de usuários.

A experiência portuguesa poderia ser o ponto de partida para um debate sério por aqui. O que não dá é ver homens públicos tratando do tema como pais que, no passado, discorriam sobre a impossibilidade de suas filhas terem relações sexuais antes do casamento.


Vidas numa calçada de Botafogo

separador Por Fernando Molica em 22 de dezembro de 2014 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, O DIA, 18/8:

Numa rua de Botafogo, quase esquina com São Clemente, a marquise protege frequentadores de bares e serve de teto para alguns homens e mulheres. São sempre os mesmos, estão sempre por lá, já devem ter adquirido aquele pedaço de calçada por usucapião. Fiquei meio impactado quando os vi pela primeira vez -- a contradição entre a animação dos bares lotados e o silêncio recolhido daquelas pessoas é óbvia demais, torna dispensável qualquer discurso sobre as desigualdades brasileiras.

A visão inicial é genérica, simplista, classifica a todos de moradores de rua. Aos poucos, ao longo de alguns meses, é possível perceber pequenos detalhes que individualizam os integrantes daquele grupo. São como habitantes de pequenos apartamentos, como os revelados no documentário 'Edifício Master', de Eduardo Coutinho. Cada um com seu pequeno quadrado, espaços restritos que abrigam aquelas vidas. O olhar apressado, viciado no modelo tradicional de casa, vê ali apenas degradação: roupas velhas, pedaços de papelão, restos de caixotes. Mas, para quem vive por lá, esses objetos fazem parte do cotidiano, integram e personalizam suas vidas. São como nossos sofás, mesas, cadeiras, estantes, livros, TVs -- cada qual com seu cada qual.

Uma das mulheres, negra, tem porte altivo, veste-se com roupas que parecem feitas sob medida para seu corpo magro. Está sempre com uma peruca de fios lisos e castanhos. Uma de suas vizinhas demonstra recato -- costuma cercar sua casa com paredes de papelão que têm cerca de um metro de altura. Ontem cedo, ela, de pé, vigiava roupas íntimas que colocara para secar sobre a calçada. Como tantas e tantas donas de casa, ela aproveitava o fim de semana para colocar em dia algumas tarefas domésticas.
Discretos, cuidadosos, zelosos no uso de seus espaços, aqueles homens e mulheres dão uma espécie de lição nos que sonham vê-los longe dali, despachados para bem longe, para algum galpão recheado por centenas de camas de ferro dispostas lado a lado. A ideia do abrigo demonstra um desejo de enquadrar aquelas pessoas, de torná-las iguais, sem nome, sem passado, sem futuro. Ali, numa calçada de Botafogo, assim como em tantas outras da cidade, elas resistem. A presença delas, aos nossos olhos, deitadas ao lado dos nossos passos, reforça que ainda temos um longo caminho a percorrer em busca de um país mais justo. Ressalta também que é preciso saber respeitar os detalhes que marcam as vidas alheias, o cantinho que cada um chama de lar.


Bruno e o direito do consumidor

separador Por Fernando Molica em 22 de dezembro de 2014 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, O DIA, 11/8:

Lançado pela Editora Record, 'Indefensável', de Leslie Leitão, Paulo Carvalho e Paula Sarapu, é mais que a narrativa de um crime. Além de detalhar a quase inacreditável história do assassinato de Eliza Samudio, o livro, ao contar a vida do goleiro Bruno, traça um impressionante painel sobre uma parcela importante da juventude brasileira, exposta à pobreza, à falta de educação, à ausência de laços familiares. Jovens que buscam no consumismo suprir tantas faltas. Um tipo de vida também detectável em muita gente endinheirada desde o berço.

Trata-se de uma lógica comercial, desprovida de valores humanistas. Tudo pode ser comprado -- carros, motos, roupas de grife, barcos, amigos e amores. Em algumas religiões, até mesmo benesses divinas podem ser adquiridas, são proporcionais aos investimentos feitos pelos fiéis. Ainda no início de carreira, Bruno usou sua pouca grana para comprar um carro. A geladeira de sua casa estava vazia, ele sequer tinha condições de bancar a gasolina do brinquedo. Mas o importante era ter um carro, ele era um dono.
Nesse universo, amizades -- inclusive aquelas que nem o tempo iria apagar -- têm a ver com prestação de serviços. Macarrão, além de melhor amigo do então goleiro do Flamengo, era também seu empregado, seu faz-tudo. O dinheiro serve para abreviar a busca de sexo, de namoradas. Nada de perder tempo e lábia, algumas das mais lindas mulheres têm preço, estão etiquetadas, prontas para serem consumidas. Foi assim que Bruno conheceu e engravidou Eliza.
É mais fácil nos desfazermos de objetos do que pessoas. Mandamos para o lixo bens que já se tornaram imprestáveis, que nos dão mais problemas do que satisfação. Foi assim que Bruno agiu em relação ao produto Eliza. Em sua cabeça, ela, ao engravidar, infringira uma espécie de artigo do Código de Defesa do Consumidor. Fora alugada para lhe proporcionar alguns bons minutos de prazer, não para gerar um filho, um -- vá lá -- bem durável, que deveria viver mais que seu próprio fabricante. Ídoso da maior torcida do país, adorado por amigos que dele dependiam, o jogador sentia-se imbatível, onipotente.

Pouco antes do crime, os advogados dele e de Eliza haviam esboçado um acordo, algo que envolvia uma pensão de R$ 3,5 mil (ele ganhava, só de salário, R$ 120 mil mensais). Mas Bruno optou por uma saída que lhe pareceu mais simples, tratou de se livrar daquele produto que -- como um carro velho, um computador lento ou um sapato apertado -- lhe trazia tantas dores de cabeça.


As duas garis de Ipanema

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Coluna Estação Carioca, O DIA, 04/8:

Aconteceu no início da semana passada, durante um café, em Ipanema, com a Nicole Witt, agente literária alemã que representa muitos autores de língua portuguesa. Eu comentei que celulares com acesso à internet são ruins para escritores, desviam o olhar, tendem a monopolizar a atenção, fazem com que se deixe de olhar em volta, representam quase uma concorrência desleal com a vida que corre fora da telinha.

Falei isso e abri os braços, apontei para o entorno. E, nesse momento, vimos, bem ao nosso lado, duas garis numa butique. Uma delas, que deveria ter 55 anos, examinava uma peça, uma blusa ou vestido. Um quase conto se insinuava ali: duas mulheres que ganham salários baixos -- o uniforme laranja atestava -- analisando roupas numa loja de Ipanema.
A cena permitia várias possibilidades. Um dirigente do PSTU ("Contra burguês, vote 16") poderia revoltar-se. Afinal, as duas garis saíram de mãos vazias, talvez tenham ficado assustadas com os preços cobrados pelas roupas, valores que, no caso de uma compra, as obrigariam a fazer exercícios de alongamento de salário. Assim, o episódio ajudaria a reforçar a constatação de nossas injustiças e diferenças sociais.

Já algum petista teria motivos para exaltar os ganhos salariais proporcionados pelos últimos governos. Tentaria imitar a voz do ex-presidente Lula e alegaria que nunca antes na história deste país garis foram vistas escolhendo roupas numa loja chique de Ipanema. Antes, diria, as companheiras seriam até barradas pela segurança. Um eleitor do PSDB que estivesse ao lado provocaria o tal militante do PT. Ressaltaria que o aumento do poder de compra daquelas duas trabalhadoras só se tornara possível com a estabilidade econômica proporcionada pelo Plano Real, capitaneado por Fernando Henrique Cardoso ainda como ministro da Fazenda. Dava até para imaginar os personagens discutindo ali mesmo, naquelas mesas. Os cafés e sucos dariam lugar a bebidas mais fortes, compatíveis com a discussão.

Os argumentos dos três são bens razoáveis, complementares, mas prefiro ver a cena de outro jeito, mais modesto. Eram duas mulheres que, numa manhã ensolarada de terça, deram uma fugidinha do trabalho para sonhar um pouco. É possível que uma delas tivesse pedido ajuda da outra para escolher uma roupa especial, que seria usada num casamento, num baile de debutante ou na formatura da filha. A ida à loja ajudava a antecipar a comemoração, a festa começava ali. Por sorte, na hora eu não estava grudado na tela do celular.


A conjugação do verbo criminalizar

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Coluna Estação Carioca, O DIA, 28/7:

Diante de um novo caso de agressão de jornalistas por parte de manifestantes, não custa discutir o uso do verbo criminalizar, tão citado nesses últimos meses. Responsáveis por atos públicos o conjugam apenas nas segunda e terceira pessoas -- tu criminalizas, ele criminaliza/ tu criminalizaste, ele criminalizou. Assim, atribuem a outros (polícias, Ministério Público, Poder Judiciário, imprensa) a culpa pela criminalização de seus protestos. Dizem que não têm nada a ver com isso.
Admito que o uso dessas conjugações é razoável para definir determinados episódios, nem sempre as instituições acima citadas agiram de maneira correta. A polícia, por exemplo, muitas vezes agrediu manifestantes e repórteres; os responsáveis por tais gestos precisam ser identificados, processados e punidos. Mas, por justiça, responsabilidade histórica e fidelidade aos fatos, seria interessante que os mesmos ativistas, numa sincera autocrítica, avaliassem também conjugar o verbo na primeira pessoa -- eu criminalizo, nós criminalizamos/ eu criminalizei, nós criminalizamos.
Quem agrediu jornalistas, depredou e arremessou rojões ou coquetéis molotov cometeu crimes e, portanto, colaborou para a criminalização de algumas manifestações, como fica evidente em muitas imagens -- protesto não é crime quando feito de maneira pacífica. Não vale repetir o mantra que atribui os atos criminosos a supostos agentes infiltrados: seria absurdo admitir que os próprios manifestantes não tivessem desmascarado alguns dos tais P2 no momento em que eles praticavam alguma ação criminosa.

Participantes de atos públicos e alguns dos chamados midiativistas foram muito hábeis em localizar e, depois, agredir ou ofender, repórteres que, por conta da hostilidade de manifestantes, se viam obrigados a trabalhar em protestos sem crachás de suas empresas
A história ensina que a violência pode fazer parte da luta política e é, muitas vezes, legítima. Durante as manifestações iniciadas em 2013, ativistas depredaram e agrediram; outros defenderam quem praticava tais atos. Os gestos eram considerados parte de um processo revolucionário, de contestação à ditadura que viam implantada no país.

Eles podem achar o que quiserem, mas é covardia negar o que foi feito, não podem se esconder numa fraude que se evidencia na conjugação capenga de um verbo. Além de atos enquadráveis no Código Penal, eles cometeram um outro crime grave, de natureza política, o de colaborar para esvaziar protestos que exigiam um país melhor e mais justo.


Os princípios da CBF

separador Por Fernando Molica em 22 de dezembro de 2014 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, O DIA, 21/7:

A nomeação de Gilmar Rinaldi para o cargo de coordenador de seleções é uma espécie de demonstração de sinceridade, uma quase confissão. Ao designar um profissional que até a véspera dedicava-se ao mercado de compra de venda de jogadores, a CBF mostra que não quer enganar ninguém. Seria injusto de lançar dúvidas sobre o comportamento futuro do ex-goleiro, mas escolhas são também simbólicas, e a dele tem o peso de uma assustadora declaração de princípios da entidade que é presidida pelo malufista José Maria Marin.
É duro, mas as lambadas aplicadas no Brasil por Alemanha e Holanda não deverão mesmo representar qualquer mudança no futebol brasileiro.

Apesar de representar o país e de usar suas cores, bandeira e hino, a CBF é uma entidade privada, não recebe dinheiro público. Reconhecida pela Fifa como nossa única representante, está no topo de uma pirâmide formada pelas federações regionais que, por sua vez, estão assentadas nos clubes, não apenas nos maiores, e em ligas municipais, como, no caso do Rio de Janeiro, a Mageense e Macabuense.

Como em todos os estados, essas entidades tendem a representar, principalmente, os interesses de seus dirigentes, o desenvolvimento do futebol não costuma estar entre suas prioridades. O modelo foi feito para não dar certo; melhor, existe para privilegiar aqueles que dele se beneficiam e que lutam para manter tudo como está.

O governo não pode se meter nos clubes, mas tem como induzi-los a adotar posturas mais responsáveis. Seu trunfo são as bilionárias dívidas acumuladas por times como Botafogo e Flamengo junto à administração federal. Como se trata de dinheiro público, de todos nós, é preciso cobrá-lo e, ao mesmo tempo, estabelecer obrigações para o necessário parcelamento dos débitos.

Pressionados a atuar de maneira mais profissional, os clubes -- que nunca foram exemplos de gerência -- poderão se ver obrigados a usar sua popularidade para forçar mudanças na estrutura do futebol. Na hora do pega pra capar, a própria sociedade decidirá se ficará ao lado dos grandes times ou da estrutura que os vampiriza.

No mais, chega a ser patética a possível volta de Dunga ao comando da Seleção. Pior ainda é o discurso moralizador que tende a justificar sua escolha. Esse tipo de conversa é incompatível com a tradição da CBF, entidade há muitas décadas necessitada do tal choque de ordem.


O estelionato da coligação

separador Por Fernando Molica em 22 de dezembro de 2014 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, O DIA, 14/7:

A legislação brasileira inclui um absurdo, uma autorização para algo que pode ser chamado de estelionato eleitoral, que permite a obtenção de vantagem ilícita em prejuízo alheio. Trata-se da possibilidade de coligação de partidos na eleição para deputados e vereadores. Isso acontece quando dois ou mais partidos se unem e vão às urnas como se fossem um só.

As regras eleitorais são meio esquisitas. O voto num determinado sujeito para deputado também vai para seu partido. A definição do número de eleitos por cada legenda está relacionada com o número total de votos dados àquele partido e aos seus candidatos. Daí que campeões nas urnas como Wagner Montes ajudam também a eleger outros parceiros da mesma sigla.
A ideia do mecanismo é interessante, parte do princípio de que pessoas reunidas num mesmo partido têm ideias e propostas parecidas. Assim, seria razoável que o voto em uma delas ajudasse a eleger o outro -- ambos, na Câmara dos Deputados, defenderiam as mesmas posições. O problema é que, de um modo geral, os partidos brasileiros não têm qualquer unidade, são formados de acordo com base nos interesses de grupos políticos. O PT, que há algumas décadas tentou ser diferente, acabou caindo na mesma vala comum.
O resultado é que o voto do eleitor que quer, por exemplo, descriminalizar o aborto ajuda a eleger quem é contra a mudança na lei. Esta falta de unidade nos partidos não é por acaso. Isto valoriza cada parlamentar, que assim pode negociar com mais força seu voto em projetos de interesse dos governos.

Como nenhum grande partido tem posições claras sobre temas delicados, como reforma da previdência, a aprovação de cada proposta sobre o tema tem que ser discutida com cada deputado e senador -- os mais sérios sugerem alterações baseadas em suas convicções, os outros aceitam compensações mais concretas e menos confessáveis.
A coligação piora o que já é ruim. No Rio, quem votar no PSB, que hoje faz oposição a Dilma Rousseff, vai ajudar a eleger deputados petistas e do PCdoB -- os três partidos estão coligados. O voto em candidatos do PMDB colabora para aumentar o balaio do PP, que tem, em sua lista, o deputado Jair Bolsonaro. Em São Paulo, na eleição passada, Tiririca levou para a Câmara, de carona na sua votação, três outros deputados, do PRB, do PT e do PCdoB. É como se o dinheiro depositado pelo sócio-torcedor do Botafogo fosse parar nos cofres do Flamengo. Pior é que os partidos não fazem questão de explicar essa história para os eleitores, vítimas deste engodo.


Políticos black blocs

separador Por Fernando Molica em 22 de dezembro de 2014 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, O DIA, 07/7:

Alianças estapafúrdias não são novidade na política brasileira. Um marco na nossa história recente foi que a levou à união entre o PSDB de Fernando Henrique Cardoso e o PFL de Antonio Carlos Magalhães, acordo que viabilizou a eleição do tucano para a Presidência. Na mesma linha, o PT se transformaria em amigo de infância de José Sarney, Jader Barbalho e Fernando Collor de Melo.

Tais conchavos são sempre justificados pela necessidade de união contra um inimigo comum ou pela importância de se conquistar uma base de apoio no Congresso. Até aí, tudo bem, arranjos são necessários no mundo todo. O problema são as bases de negociação. É razoável que, interessado no apoio de um partido conservador, um governo de esquerda aceite diminuir impostos. Ou o contrário: governante de direita pode assumir posições mais progressistas ao buscar uma maioria não obtida nas urnas.
O grave é que nada disso é seguido por aqui. Nunca ouvi dizer que o partido X ganharia o ministério Y para implantar determinada política pública. O negócio é mais simples (e, friso, não começou no governo petista): o partido X ganha o ministério Y em troca de votos no Congresso. O ministério garantirá empregos, prestígio e sabe-se lá mais o quê: num ato de supremo sincericídio, Severino Cavalcanti, então presidente da Câmara, cobrou o direito de indicar, para a Petrobras, alguém para "a diretoria que fura poço e acha petróleo".

Acordos recentes assustariam os mais carniceiros promotores de rinhas de MMA. Vale-tudo é pouco para obter apoios e garantir tempo no horário eleitoral da TV -- o benefício, bancado com dinheiro público, foi criado para democratizar a informação política, mas transformou-se em valiosa moeda de troca. Assim, adversários se tornam amigos, xingamentos trocados são esquecidos, o sujeito que era chamado de ladrão passa a ser designado de valoroso homem público.
Em meio a surubas e bacanais -- para citar definições utilizadas recentemente --, mais pessoas, a cada eleição, não aparecem para votar, pesquisas indicam que o voto nulo deve crescer muito em outubro. Políticos esquecem que o limite da farra é a ressaca que marca o descrédito na lógica representativa. Ao decretarem a ausência de limites para a orgia, atuam como black blocs, aqueles que depredam bancos e prédios públicos para mostrar oposição ao poder e ao capitalismo. Os mascarados atacam alvos físicos, recuperáveis; políticos, com suas joelhadas no sistema institucional, ferem de maneira grave a estrutura que sustenta a nossa democracia.


Tamborim

separador Por Fernando Molica em 15 de dezembro de 2014 | Link | Comentários (0)

O pacote destacava-se entre a papelada jogada na mesa atulhada de processos. Uma caixa de papelão com uns 50 centímetros de comprimento, uns 30 de largura, 10 de altura. Já meio encoberta por dois ou três envelopes e por uma revista corporativa que, envolta num envelope transparente, aguardava o momento de ser jogada no lixo. Quem manda tanta besteira? Ninguém lê tantos comunicados, folders, panfletos. Quantas árvores não são assassinadas para gerar publicações insossas, irrelevantes, laudatórias, papéis natimortos, que parecem ser produzidos apenas para alimentar a indústria da reciclagem? Atividade que, assim, contraria sua lógica original, deixa de economizar energia. Ao contrário, gasta mais e mais recursos na reelaboração de inutilidades. Melhor seria interromper o ciclo, abortar a primeira leva de páginas coloridas, atraentes, bem diagramadas, que se expõem como putas em vitrines de Amsterdam, mais notadas do que consumidas. Deixa pra lá, dane-se, todos consideram importante tudo o que escrevem.

Cabia abrir o pacote com cara de presente corporativo fora de época, nada de Natal ou de Dia do Advogado à vista. Pelo peso, menos de um quilo, não deveria ser outro daqueles livros parrudos, cheios de fotos, produzidos por empreiteiras que se valem de leis de incentivos fiscais. Retira uma fita adesiva aqui, abre uma lingueta, e pronto, aí está o conteúdo. Um tamborim e uma baqueta. Objetos que, ali, pareciam reeditar a velha piada da cegonha que troca o endereço e deixa o bebê branco na família de negros, ou o contrário. A cegonha errara ao entregar o instrumento em sua sala - ampla, envidraçada, todos viam o que se passava por lá. Ele, sua mesa, o computador, a papelada, os processos, os envelopes, a revista corporativa, a lata do lixo, o paletó nas costas da cadeira - e, agora, o tamborim e a baqueta presos às suas mãos, à vista de todos. Imaginava-se flagrado com uma revista pornográfica que unisse crianças e zoofilia. Como se livrar de um tamborim e de uma baqueta diante de 40 pessoas? Como dizer não é nada disso que vocês estão pensando, este tamborim não é meu, nem o conheço, apenas passou por aqui, o dono já deve estar voltando para resgatá-lo. Vai ver que precisou ir ao banco, pagar umas contas, foi almoçar. Melhor nem olhar em volta, qualquer movimento o denunciará, amplificará a cena, o imprevisto, o inusitado, os estereótipos, o tamborim, o olha lá, o carioca acha que isso aqui é escola de samba, traz até pandeiro - sim, eles são capazes de errar a designação do objeto - para o trabalho. Mêu, isso aqui é lugar de trabalho, não é lugar de batuque, viu? Merda de tamborim. Por sorte, deixara a mochila aberta, no chão. Bastava se abaixar um pouco e deixar que tamborim e baqueta escorregassem para o interior daquela boca molenga, não seria difícil acertar o alvo. Depois, bastaria puxar o fecho ecler - zíper é coisa de paulista. Deu certo, acabou. Crime perfeito, sem provas, talvez até sem testemunhas.

No quarto do hotel, como se abrisse a tal revista de pedofilia zoológica. Pelo menos, a salvo de olhares de recriminação. Ele e o tamborim, me Tarzan, you Jane. Plec. Plec. Plec. De novo, e mais uma vez. Plec. Plec. Plec. E o plect correspondente àquele movimento de virada? Virada para dentro ou para fora? Outro plec cuidadoso, quase em surdina, tamborins não são tocados em aparts de Moema, ainda mais à noite. Não estou em Piedade, a Avenida Santo Amaro não é a Suburbana, tamborins devem ser raros por aqui. Num hotel carioca, bastaria exibir o tamborim para que algum garçom, mensageiro ou manobrista viesse puxar assunto, quiçá pedisse para testá-lo. Ninguém deve saber tocar tamborim nesse prédio, nem eu sei. Hora de admitir outro medo que o assaltara à tarde, na volta do almoço, quando da descoberta do conteúdo do pacote: o de ser desmascarado no escritório. Fácil imaginar um ou outro colega, um daqueles que vão para o Rio no carnaval - ensaio no Salgueiro, feijoada na Portela, desfile na Mangueira, Simpatia, Boitatá - entrando em sua sala. Toca aí. Como assim, tocar? Como assim? Você não é carioca, suburbano, Madureira, Méier, Piedade? Toca aí. E aí viriam os gestos, braços esticados, mãos segurando invisíveis baqueta e tamborim, sons feitos com a boca: poctc, capotc, capotc. Puta que pariu, nem com a boca eles acertam. Mas como dizer, confessar? Sim, de Piedade, muitos carnavais no River, no Oposição. Testemunha de muitos desfiles na Suburbana, a avó levava cadeira para a calçada, o avô se refugiava na rádio MEC. Os blocos de sujo. Homens com fronhas enfiadas na cabeça, percussão feita com latões, um outro tambor (na infância, tudo é tambor), um bumbo (surdo, aprenderia anos depois), e tamborins. Estes, pequenos, agudos, irritadiços, baixinhos folgados que, aos gritos, se impunham aos instrumentos mais graves, pesados e sérios. Abusados como a Maria Clara (na escola, respeitávamos nomes duplos), que interrompia o professor, que ria das outras meninas e de suas bonecas, que dizia querer jogar bola com a gente. Maria Clara que, um dia, na volta do recreio, aproveitou a falta de luz e me deu um beijo. No rosto, mas beijo. Nunca tive coragem de retribuir aquele beijo.

Tamborins eram como Maria Clara, assanhados, metidos, intrometidos. Tocá-los, tocá-la. Aprender o ritmo, pegar o jeito, ganhar ousadia de tentar conquistá-la, de derrotar os garotos mais altos e fortes, bons de briga e melhores no futebol. De que adiantava ser craque em português e matemática? Ganhara um beijo de Maria Clara, mas cadê coragem para buscar outro? Quem sabe ela errara o alvo, culpa da falta de luz. O beijo talvez fosse para outro menino, não para mim. Eu, mais para a previsível lerdeza do surdo - tum, tum - do que para agilidade de tamborim, incapaz de ser folgado e surpreendente como os tamborins dos blocos de sujo. Além de abusados, independentes, autônomos. Cada qual com seu ritmo, todos solistas, pouco preocupados com o todo, com o bloco. Plec, plec, plect, plec. Ou o contrário, tanto fazia. Valia era o tamborim, som que desfilava pela esquina com a Belmira, seguia na direção da Abolição, passava pela Bernardino de Campos, pela João Pinheiro. Som que abria os caminhos, que reverberava nas portas de ferro das lojas fechadas, sapateiro, padaria, barbeiro, armarinho, farmácia, que antecipava a chegada daqueles homens que abriam buracos para os olhos nas fronhas usadas na cabeça, fantasias toscas e simples. Ninguém ensinava a namorar, a pedir em namoro, já procurara em livros, no Mundo da Criança. Mas talvez se ensinasse tocar tamborim, instrumento pequeno, levinho, bom para crianças. Até falara com a mãe. Como assim, tamborim? Nem pensar, nem se sabe como e onde, nem deve ter escola para isso. Instrumento de preto, de pobre, de favelado. Pra você, violão, ou mesmo piano; tamborim, não. Ora se, ora veja só. Ora, ora. Hoje, nem toco, nem sambo, pés que parecem espalhar poeira enquanto se movem como se desconectados do tronco duro, impávido e assustado com aquele estranho tremor abaixo dos joelhos. Carioca? Méier, Madureira ou Piedade, né? E nada de sambar, e nada de tamborim. Tu é mais paulista do que eu, mêu!

Agora, ao menos, há internet, lá tudo se diz, se ensina, de bolos de laranja a bombas atômicas. Uma voz em off diz para segurar o instrumento como se fizesse aquele cumprimento de surfista. Close no tamborim que surge na tela. Dedos polegar e mínimo da mão esquerda esticados; indicador, médio e anelar fechados. A baqueta pode ter várias pontas, ganhei uma de três. Primeira batida é forte; a segunda, mais fraca. A terceira é a da virada - virada feita para dentro. A quarta nota é de, novo, forte. Forte, fraca, virada, forte. Forte, fraca, virada, forte. Assim, devagar, até que sai. Mas sai um som chocho, incapaz de animar, de gerar movimento, de sustentar qualquer cantoria. Som que, na madrugada, teme o barulho, os vizinhos, os que dormem no quarto ao lado. Na tela, o professor acelera, tão fácil em suas mãos, plecs, pects, toques ágeis, precisos, ritmados. Outro instrutor, ainda mais sofisticado, mostra o rosto na tela, fala em toque telecoteco, em pergunta e resposta, exibe uma partitura, esmiúça compassos. Diz que, nas escolas de samba, o toque é o carreteiro, assim, ó - e faz uma rápida demonstração. Assim, ó, e acabou. Nunca ouvira falar nisso, carreteiro remetia a comida, arroz de carreteiro, coisa de gaúcho, inimaginável associar bombachas a tamborins. Ao menos decorara o nome do toque, isso poderia ser útil em alguma conversa. Mas só aprendera o nome, nem tentara executá-lo. Para mais e detalhadas aulas seria preciso pagar R$ 30 por mês.

Meio inimaginável ter lições de tamborim pela internet, uma versão atualizada daqueles cursos profissionalizantes por correspondência que eram anunciados em revistas pelo Instituto Universal Brasileiro. Mecânico de geladeiras, pedreiro, secretária executiva, pintor de automóveis, gerente administrativo. Cupons recortados, colocados em envelopes e despachados na agência dos Correios da rua Goiás, quase em frente à passarela da estação que ligava os dois lados do bairro separados pela linha do trem - em subúrbios, morar deste ou daquele lado da linha é mais ou menos equivalente a, no padrão Zona Sul, morar perto ou longe da praia. Suburbano, sabia disso. Semanas depois recebia os catálogos completos. Não seria honesto reclamar das revistas coloridas e inúteis de hoje. Na infância, ajudara a derrubar algumas árvores ao requisitar o envio de informações sobre cursos que jamais viria a fazer. Até porque não havia curso por correspondência para piloto de avião. E quem é que iria entrar num avião cujo piloto se formara num curso por correspondência?

Aprender a tocar tamborim num curso online era quase tão arriscado quanto tentar decifrar em apostilas o segredo de pilotar. Sim, a falha no tamborim não arriscaria a vida de ninguém, mas poderia fazer com que a reputação de carioca-suburbano-sambista despencasse em queda livre, como aviõezinhos de desenhos animados, caindo em parafuso, expelindo fumacinha negra. Mas, ao contrário do que ocorria naqueles filmezinhos, não haveria paraquedas capazes de salvar o protagonista. Mais provável que ficasse como os antagonistas dos desenhos, vítimas das explosões planejadas pelos maus para matar os heróis, os protagonistas. Bombas pretas redondas de pavio curto ou charutos recheados de pólvora que se viravam contra seus criadores, que deixavam seus cabelos, penas ou pelos desalinhados e a cara preta de fuligem. Ficaria assim, explodido, exposto, talvez alguém propusesse a cassação de sua cidadania carioca. Não seria impossível que um daqueles putos do escritório negociasse com algum vereador a concessão de título de paulistano honorário para o carioca que toca tamborim como um de nós. Ou nóis, como eles preferem. É nóis.

Nóis, nada. Em cinco anos, mantinha-se fiel ao sotaque que, antes, dizia não ter. Carioca não tem sotaque, os outros é que têm. Mas rendeu-se ao perceber os chiados, o som emitido ao falar aspargos frescos, o jeito de dizer mermão - bastava falar mermão para entregar-se -, a mantega e o brasilero que eram emitidos assim, sem o 'i' depois do 'e' ('é' com acento agudo, no Rio; 'ê' com circunflexo, em São Paulo). Mesmo amigos do Rio estranhavam um falar cada vez mais carioca, que não admitia a possibilidade de alongar advérbios, de cortar o 's' de palavras plurais, incapaz de chamar biscoito de bolacha, calçada de guia, sinal de semáforo. Em São Paulo, tornara-se mais carioca. Quase um carioca de piada, estereotipado, não perdia os raros shows do Almir Guineto, outro exilado, batia ponto em todas as apresentações do Moacyr Luz por lá. Um carioca que temia ficar como os filhos e mesmo netos de imigrantes alemães que viviam em pequenas cidades do sul, aqueles que, no dia a dia, preferiam conversar no idioma de seus antepassados. Com o tempo, viravam objeto de estudos, de teses. Pesquisadores desembarcavam para gravar aquele jeito de falar alemão que ficara parado no tempo, que não evoluíra, que usava palavras equivalentes ao vosmecê de nossos bisavós. Ia de short e chinelos à padaria - padoca não pode... -, reclamava dos que chamavam de creme a espuma do chope, tentara entrar de bermudas num restaurante. Barrado, protestara. Uma vez, bêbado, só de sacanagem fechou um cruzamento, prática que abominava no Rio.

Era carioca. Carioca do River, do Oposição, do Bruni Piedade, do jogo de bola na rua, da Igreja Batista na esquina, do show do Jerry Adriani na inauguração do Guanabara. Piedade da feira de sábado, da Igreja do Divino Salvador, da Gama Filho, dos portugueses donos de lojas e de casas de vila, da vizinha da vila que recebia santo no Réveillon, Réveillon que em Piedade era apenas virada de ano. Ao deixar o tamborim na minha mesa, aquela cegonha desnorteada me jogou num bairro que já não existia. Não mais sapateiro - no lugar, loja de cabos de velocímetro, grudada numa ótica. Sem padaria, barbeiro e armarinho, agora havia loja de roupa, clínica dentária, oficina de costura. Restara a farmácia, diferente, alardeada, como os outros estabelecimentos, por cartazes que cobriam prédios amputados de suas características originais. Por lá, passado era sinônimo de velho, de ultrapassado, não se demonstrava orgulho em cultuá-lo, era preciso matá-lo, esconder sua presença. Nas fachadas, não mais ornamentos que entregavam a idade das construções, quase todos arrancados, substituídos por paredes retas que, por sua vez, eram tampadas por letreiros que, aos gritos, disputavam a atenção de quem passava pela Suburbana. E mais e mais esquadrias de alumínio, cerâmicas, luzes fluorescentes, lojas de automóveis que entulhavam as calçadas de carros, e grades, e grades, e grades. Por ali morou Dilermando, amante de Ana, mulher de Euclides da Cunha. Foi numa daquelas casas que o escritor foi morto. Ana, mulher que jamais deveria ser cumprimentada, dizia a avó para a filha, futura mãe daquele que, em São Paulo, via-se na Suburbana, hoje Dom Hélder Câmara, Estrada Real de Santa Cruz na época do crime. Só adolescente soubera ter sido criado perto do local onde Euclides da Cunha fora morto, não sabe qual é a casa, se ainda há casa, nunca houve placa na porta. Seus vizinhos em Piedade nunca falavam de Euclides da Cunha. Lima Barreto era apenas uma rua, desconectada do escritor que também vivera no bairro. A Piedade da infância se perdera nas mudanças de casa, nas mortes de avós, tios e vizinhos, no espaçamento e posterior fim das antigas amizades. Nunca mais ouvira falar em blocos de sujos, os blocos da Zona Sul eram limpinhos, cheios de jovens brancos, fantasiados, ninguém precisava apelar para fronhas velhas no carnaval. Muitos deles aprendiam a tocar tamborim, caixa e repique em escolas de percussão.


Acordou com o dia que se revelava pelas frestas da cortina. Dormira sentado na poltrona, não jantara, sequer tomara banho ou trocara de roupa. Recolheu o tamborim e a baqueta que deixara cair no chão, colocou-os sobre a mesa ao lado do computador. Ligou a TV, soube do frio, da falta d'água, do trânsito nas marginais, do engarrafamento de não sei quantas centenas quilômetros daquela manhã. Foi ao banheiro, lavou o rosto, escovou os dentes, abriu o chuveiro. Colocaria o terno, desceria, tomaria café e sairia mais cedo para o escritório, adiantaria o serviço. Na noite de sexta embarcaria para o Rio, avião cheio de caras conhecidas, aves que volta e meia se encontravam na revoada de retorno para casa. Domingo, no almoço com a mulher e filho, teria como sobremesa a quase depressão que indicava a proximidade do horário do voo de volta. Casamento mantido na ponte aérea, ela sem ter como se transferir para São Paulo, ele - toque de surdo, tum, tum - preso ao escritório, ao bom salário, à carreira. Levaria o tamborim na mala, não seria difícil encontrar um curso de fim de semana, um daqueles frequentados por jovens que não tinham a menor ideia de como chegar em Piedade. Talvez tomasse coragem de se matricular, de tentar aprender, de se ver assanhado, intrometido, folgado, marrento. Havia muitos carnavais pela frente.


A censura pede passagem

separador Por Fernando Molica em 15 de dezembro de 2014 | Link | Comentários (0)

Semana passada, anunciei, aqui no Facebook, que teria um conto publicado no projeto Rio: Passagens, organizado pelo Vinicius Jatobá e patrocinado pela Prefeitura do Rio. O site foi colocado hoje cedo no ar, mas meu conto - 'Tamborim' - não está lá. Fui excluído pelos organizadores por não concordar com a mutilação de meu texto. Eu e o Marcelo Moutinho, outro autor convidado, descobrimos, sábado à noite, que, sem nossa autorização, nossos contos haviam sofrido cortes e mudanças. A descoberta foi meio por acaso - consegui, por meio de terceiros, o link que levava ao site provisório, mantido em sigilo até para os autores. Pelo menos dois outros contos foram alterados; suspeito que o número seja ainda maior - naquela noite de sábado, Vinicius me pediu para não repassar o link para outros autores. No dia seguinte, domingo, o site provisório saiu do ar.

Entreguei a versão definitiva de 'Tamborim' ( disponibilizada hoje no meu site, www.fernandomolica.com.br ) há quatro meses, no dia 13 de agosto. Desde então, não fui procurado para tratar de eventuais modificações ou adaptações. Ontem, contei 36 alterações: foram cortadas diversas palavras ou expressões; sete frases inteiras e trechos importantes de outras oito. No word, os cortes de frases atingem o equivalente a 13 linhas de texto. Os editores também decidiram abrir sete parágrafos em blocos de texto.

Ontem à tarde, um integrante da Arrastão de Ideias, empresa de Jatobá, atribuiu os cortes à necessidade de adequação dos textos, que, pelo projeto, deveriam ser adotados em escolas. Daí, a eliminação de quatro palavrões, pronunciados/pensados pelo único personagem do conto. Argumentei que não havia sido avisado dessa restrição, mas disse que, para não ser intransigente, aceitaria trocar aquelas palavras. Isso, apesar de rejeitar e repudiar qualquer censura. Como escritor, não discrimino palavras. Além disso, a densidade dos contos praticamente inviabiliza sua leitura por crianças. Os adolescentes que tivessem acesso aos textos não se chocariam com palavras que conhecem e costumam pronunciar - há sites bem mais atrativos para quem busca algum tipo de prazer não literário.

A frase seguinte está entre as cortadas: "Pelo peso, menos de quilo, não deveria ser outro daqueles livros parrudos, cheios de fotos, produzidos por empreiteiras que se valem de leis de incentivos fiscais." Não há qualquer palavrão aqui, mas suspeito que os organizadores não gostaram da referência a leis de incentivo. Empreiteiras e incentivos fiscais devem ter sido considerados danosos à formação de nossos jovens. Houve cortes em brincadeiras com o sotaque paulistano, houve muitos cortes. Todos afetam e desrespeitam o trabalho do autor.

O tal integrante da Arrastão de Ideias (Evaristo, se não me engano) e Vitor Jatobá, produtor da empresa, alegaram, ontem, que não haveria tempo para fazer mudanças no site. Discordei, não se tratava de texto impresso, mas de publicação na internet. Esclareci que não exigiria, para hoje, a adaptação das traduções. Essa tarefa, assim como a regravação da leitura dos contos em português, poderia ser feita depois.

Como minha argumentação não foi aceita, fui excluído do projeto. O mesmo aconteceu com o Moutinho. Publiquei meu primeiro romance há 12 anos, escrevi seis livros, participei de três antologias de contos - e nunca havia passado por uma situação como essa. Até a editora alemã que publicou meu 'Notícias do Mirandão' me consultou sobre uma alteração em ordem de capítulos (e olha que seria difícil descobrir a mudança num texto em alemão).

O projeto conta com patrocínio oficial. A Secretaria Municipal de Cultura, entregou R$ 149 mil para a Arrastão de Ideias tocar o Rio: Passagens. A prefeitura não é responsável pelos cortes, acabou sendo envolvida num projeto que acabaria marcado pela censura e pelo desrespeito aos autores. Por falar em respeito: segundo o site Rio Transparente, o dinheiro do projeto foi repassado para a produtora em 30 de dezembro de 2013, há quase um ano. Até agora, a maioria dos autores não recebeu por seu trabalho (quantias pequenas, se não me engano, entre R$ 300 e R$ 500). Ontem, o Vitor me disse que, por conta de minha ausência do site, eu não receberia nada. É injusto, já que o trabalho foi feito e entregue no prazo. Mas deixa pra lá - espero, porém, que eles devolvam para a prefeitura, para os cofres públicos, o dinheiro que economizaram com os autores excluídos.


O assassino e seus cúmplices silenciosos

separador Por Fernando Molica em 15 de dezembro de 2014 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 15/10:

Quase tão chocante quanto os assassinatos de 43 pessoas cometidos por uma mesma pessoa é o silêncio em torno dessas mortes. Por nove anos, Saílson José das Graças, de 26 anos, o criminoso confesso, contou com a indiferença da polícia, do Ministério Público e da imprensa. Não me lembro de, em todo esse tempo, ter lido ou visto nada a respeito de homicídios em série ocorridos em Nova Iguaçu ou sobre o 'Monstro de Corumbá' (bairro em que ele morava).

Segundo os jornais, o autor dos homicídios só foi preso graças a uma investigação conduzida por vizinhos de uma das mortas. Pelo que disse o assassino, havia um padrão na sequência de crimes. Não seria difícil, portanto, descobrir uma ligação entre tantos episódios: quase todas as vítimas eram mulheres brancas; os assassinatos ocorreram na Baixada; para matar, o homicida não usava armas de fogo, mas facas ou apenas as mãos. Mesmo com todas as evidências e pistas, nada foi feito. Uma jovem de 21 anos que sobreviveu a um ataque de Saílson disse que sequer foi atendida quando foi à delegacia prestar queixa.
Não é difícil imaginar o que teria ocorrido se os homicídios tivessem ocorrido na Zona Sul carioca, ou mesmo em bairros como Tijuca ou Méier. É mais do que razoável supor a indignação do ministro da Justiça, do governador, das autoridades da área de segurança, dos promotores, das entidades que estudam a criminalidade, dos jornais, das revistas, das TVs e das rádios -- este artigo teria sido escrito assim que fosse caracterizada a existência de um assassino em série.

A mobilização da sociedade e de suas instituições pouparia muitas vítimas, o homicida seria preso bem antes de chegar ao 43º cadáver. Crimes bem menos graves ocorridos em áreas mais ricas da cidade têm muito mais repercussão. Não basta processar e condenar Saílson. É fundamental que todos, autoridades ou não, paremos de hierarquizar vidas, considerar normal que pessoas que moram em áreas pobres sejam mortas, e que esses crimes não sejam investigados.

Isso só vai mudar quando passarmos a achar que vivemos em Corumbá, que somos vizinhos daquelas vítimas. Quando nos indignarmos com a falta de segurança mas também com as ruas sem calçamento, com a falta de transporte decente, com a ausência de saneamento básico, com as escolas precárias, com o racismo, com a crônica deficiência dos postos de saúde e hospitais. Com a nossa omissão, todos, de alguma forma, somos responsáveis por aquelas mortes, cúmplices no abandono, no descaso e no silêncio.


BG
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