Estação Piedade: a biografia de Fernando MolicaEstante: livros públicados pelo MolicaPáginas Amarelas: textos, artigos e outras palavras maisJulio Reis: Biografia, Músicas e PartiturasBlog: Pontos de PartidaFoto MolicaClique para voltar a página principalFoto Molicawww.fernandomolica.com.brEntre em contato com o Fernando MolicaInformações para imprensa

Blog

Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

separador
BG

maio 2014 Archives

Os riscos de viajar na maionese

separador Por Fernando Molica em 26 de maio de 2014 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, O DIA, 26/5.

Deve ter sido há uns 20 anos que ouvi pela primeira vez a expressão 'viajar na maionese', que atribui à mistura de gema de ovos com óleo vegetal a culpa por atos alucinados, comparáveis aos provocados por drogas ainda mais pesadas. Em décadas de consumo de maionese, como molho ou na versão salada de batata, nunca notei qualquer alteração no meu estado de espírito; as garfadas, no máximo, geraram algumas dores de barriga.


Uma inegável viagem na maionese é a tendência brasileira de incluir a tal salada cremosa como acompanhamento de churrascos, inclusive aqueles festivos, em pleno verão. O prato é preparado lá pelas oito da manhã e fica no centro da mesa -- pegando calor, coberto por um pano de prato -- até a hora de ser consumido, por volta das três da tarde, quando a mistura já se transformou num playground de salmonelas. Quantas vezes não vimos no 'Fantástico' ou lemos nos jornais de segunda-feira reportagens sobre um almoço beneficente de paróquia que terminou no hospital, com soro fisiológico sendo servido de sobremesa?

Aprendi a tomar tanto cuidado com a salada de batatas com maionese que há um tempão decidi só consumi-la em casa ou em tradicionais bares de comida alemã. Quando trabalhava em TV e viajava pelo interior, chegava ao extremo de, nos incontáveis almoços em churrascarias de beira de estrada, proibir o consumo da iguaria por integrantes da equipe. Maionese, só depois de encerradas todas as gravações. Eram viagens sem maionese.


O idioma, vivo e dinâmico, está sempre aberto para incorporar formas de traduzir e resumir o mundo. Como bem notou o professor Ivan Cavalcanti Proença no livro 'Futebol e palavra', ir na bola como quem vai num prato de comida é algo que só poderia ser criado num país onde a fome era tão presente quanto o gosto pelo futebol. Assim, a tal viagem na maionese não saiu do nada. Suponho que a expressão tenha a ver com a consistência do produto, algo indefinido, entre o líquido e o sólido, escorregadio. Há quem fale em 'escorregar na maionese' para definir casos de estupefação temporária e de privação dos sentidos; é como se alguém tivesse derrapado e perdido, por algum tempo, o controle e os freios.

Na dúvida, respeito a maionese e temo suas consequências. Uma embalagem, mesmo nas versões light e sem colesterol do produto, armazena riscos, possibilidades de destempero, de viagens desagradáveis e de dolorosos escorregões -- nunca se sabe quando o pote está até aqui de mágoas.


Figurinhas que ficaram na infância

separador Por Fernando Molica em 19 de maio de 2014 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 19/5/14.

Ao contrário de muita gente, eu, apesar de gostar de futebol, não estou fazendo o álbum da Copa. Acho que isso tem a ver com um trauma de infância. Lá pelos meus 7 anos, havia, em Piedade, uma febre em torno de um álbum, nem sei mais qual era o seu tema. Mas lembro que penei para conseguir uma figurinha difícil. A imagem completava a página em que um misterioso personagem envergava a camisa da Seleção -- a figurinha trazia o rosto do sujeito.

Depois de comprar muitos e muitos envelopes, de reunir um bolo imenso de cromos (só editor paulista deve chamar figurinha de cromo), consegui o que faltava; acho que o adquiri no mercado paralelo, sei lá. O tal jogador era o... Roberto Carlos, ele mesmo, o cantor, Rei da Juventude, Rei da Jovem Guarda, o rei daquele álbum.


Desde então comecei a implicar com essa história de investir uma grana para comprar algo no escuro; o gasto e a frustração aumentam na medida em que o álbum vai sendo preenchido, as figurinhas repetidas passam a se acumular. Suspeito que, aí, passei a ficar adulto, o sentido prático começou a dar uns dribles na fantasia. Anos depois, quando meus filhos eram pequenos, as figurinhas voltaram à minha vida. As editoras já então incluíam nos álbuns uma cartela que, se preenchida e enviada pelo correio, permitia a compra das imagens que faltavam. Em tese, o recurso -- uma espécie de Tapetão infantojuvenil, de embargo infringente --, deveria ser usado apenas em última instância; afinal, eliminava o efeito-surpresa, a emoção de abrir o envelope e encontrar aquela imagem necessária para concluir o álbum.

Uma vez, porém, perdi a paciência e saí marcando todas as muitas figurinhas que faltavam, umas 80 de um total de 200 e poucas. Fiz uma espécie de gol com a mão, um roubado que nem de longe foi mais gostoso. Sei que hoje tenho até uma certa inveja de amigos ainda fascinados pelas figurinhas, é como se eles conservassem algo dos tempos de criança.Como consolo, acho que a fixação nos álbuns aponta para um outro tipo de lógica infantil, a que busca um mundo de falsas surpresas. Naquelas páginas, todos têm lugar definido, a brincadeira termina quando tudo fica arrumadinho. Ao crescer, percebemos que o tal mundo de comercial de margarina só existe nos comerciais de margarina. A vida é bagunçada, figurinhas se misturam, nem sempre dá para trocá-las, a repetição de imagens pode cansar. Volta e meia dolorosa, a vida é surpreendente e desarrumada, ninguém tem lugar marcado, não dá sequer para imaginar o que vem nos envelopes.



Informação também mata

separador Por Fernando Molica em 19 de maio de 2014 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 12/5/2014:

Quando eu era criança, o padrão de verdade era a Rádio Relógio, emissora que alternava a narração de curiosidades com a divulgação da hora oficial. Dizer que o relógio de pulso fora acertado com base na emissora era suficiente para encerrar qualquer discussão relacionada a minutos e segundos. Jornais, noticiários de rádios e o Repórter Esso vinham logo atrás no quesito credibilidade. Afirmar algo como "Isto deu no jornal" conferia à informação uma aura de respeitabilidade, avalizava o que fora contado.


Até boatos se socorriam daquilo que viria a ser chamado de mídia. A citação de programa de TV ou de rádio como fonte de determinada história era importante para respaldá-la. Nem tudo o que era publicado poderia ser chamado de verdadeiro, mas, como no caso dos vinhos, a existência de uma denominação de origem facilitava muito a tarefa de convencer o interlocutor. Isso, porém, não impedia que fofocas ganhassem corpo sem a ajuda de qualquer suporte, que o diga Glória Maria, transformada em testemunha do tiro que Tancredo Neves jamais levou.


A internet bagunçou de vez o coreto. A expressão "Deu na internet" passou a ser utilizada para conferir fumos de veracidade aos maiores absurdos. Incontrolável, a rede de computadores, com sua infinidade de blogs, redes sociais e correntes disparadas por e-mails, aceita tudo o que é escrito. Nem todo mundo tem o cuidado de conferir se aquela informação está num site confiável ou se foi arremessada com a mesma irresponsabilidade de quem joga uma privada ou lança um rojão no meio de uma concentração de pessoas.

Para muitos, a simples exposição de frases numa tela de computador é suficiente para transformá-las em verdadeiras. Informação errada é capaz de matar, tem a mesma capacidade letal dos tiros, porradas e bombas citados naquele funk. Foi uma reportagem que, embora falsa, deflagrou a ação dos assassinos que, no Guarujá, lincharam a dona de casa Fabiane Maria de Jesus.

O crime foi cometido pelos agressores, mas o responsável pela divulgação da mentira e de um retrato falado requentado sabe que colaborou para a tragédia. Em tempos de tantas notícias, vale redobrar os cuidados com que é dito ou publicado.

Isto, no caso de veículos tradicionais -- jornais, rádios e TVs --, mas também, e principalmente, em relação aos que ainda precisam mostrar serviço, que surfam na onda deste mais do que admirável, fascinante e assustador mundo novo. Muitas vezes, novidades sofrem de envelhecimento precoce.


O FIM

separador Por Fernando Molica em 09 de maio de 2014 | Link | Comentários (0)

Amanhã, sábado, às 14h, eu e os camaradas Luis Pimentel e Álvaro Costa e Silva participaremos de uma conversa no FIM de Semana no Porto sobre jornalismo e literatura, batizada pelo Luiz Antonio Simas, cambono do evento, de 'A dor da gente não sai no jornal'. A frase, muita gente deve lembrar, é um verso de um samba espetacular 'Notícia de jornal', do Luis Reis e do Haroldo Barbosa (aqui, https://www.youtube.com/watch?v=ykVq1624ws8, numa gravação de Chico e Miltinho).

Ouvi o dito cujo pela primeira vez no LP que registrou o show de Chico e Bethânia, no Canecão. Tinha 14/15 anos e já havia decidido ser jornalista. Desde então, meio que adotei o samba, narrado em forma de notícia. Sempre achei que, um dia, o citaria numa eventual peça que viesse a escrever. Acabei o incluindo no meu primeiro romance, 'Notícias do Mirandão', lançado em 2002 - um dos personagens principais é jornalista. Os versos iniciais da canção abrem um dos capítulos, servem de mote para que seja contado o fim do segundo casamento do Fontoura, o tal repórter.

"A história dele com Sônia acabara, a dor da gente não sai mesmo no jornal. Pelo menos, ela não tentara o suicídio ou mesmo um homicídio no humilde barracão, um dois-quartos em Botafogo. Apenas dera-lhe um glorioso e retumbante pé na bunda. Era esperado. Quatro anos é muito tempo - um casamento pra lá de duradouro no ranking das redações cariocas. Ela também era jornalista - repórter como ele, fazia Geral e trabalhava logo ali, a menos de um quilômetro. (...) Sônia teve certeza de que a relação acabara quando Fontoura chegou bêbado e atrasado a um jantar na casa dois pais dela. Para espanto dos sogros, gritava para a mulher, referindo-se à queda do secretário de Saúde causada por uma matéria publicada no jornal em que ele trabalhava: "Fodemos com vocês! Fodemos com vocês!" O pior é que Fontoura sequer participara da matéria.
O casamento terminou naquela noite; na semana seguinte, Sônia deixou o jornal e aceitou o convite para trabalhar como assessora de um banco. "Enfim, virei bancária", brincou, lembrando a frase com que muitos jornalistas justificavam a falta de rotina no exercício da profissão: "Quem quer cumprir horário deve trabalhar em banco."

A programação completa do FIM está em http://casaporto.org/fim/ .


Eu e as copas

separador Por Fernando Molica em 07 de maio de 2014 | Link | Comentários (0)

Na pilha do César Seabra:

1970 - Descobri que havia Tchecoslováquia, e que o Pelé era quase tão bom quanto o Jairzinho. Em Quintino ouvi que Ó Therezinha, ó Therezinha, o Brasil botou na b&$%#&da da Rainha. Final em Piedade, faltou luz, não vimos o gol da Itália. No fim do jogo, um italiano - jornaleiro, claro - que morava na rua Goiás nos dava parabéns.
1974 - Marinho Chagas. Paulo César e Jairzinho não foram assim tão bem. Acho que vi uns holandeses correndo. Você os viu, Zagallo?
1978 - Zico começando a nos ajudar a perder quatro copas, mantém a tradição rubro-negra em Copas. Gramado descartável em Mar del Plata, Peru comprado, belo gol do Nelinho na disputa pelo terceiro lugar.
1982 - Valdir Peres, Serginho e a teimosia siderúrgica (frase do João Saldanha) do Telê Santana. Deu no que deu. Zico melhorzinho, bom no ataque, longe do grande armador que era no time da Gávea. Segunda Copa perdida por ele.
1986 - Telê perde outra Copa. Zico perde pênalti e sua terceira Copa (registro: só houve aquele pênalti porque ele, capenga, meteu uma bola de 30 metros pro Branco). Josimar fez o que pôde.
1990 - Confiava no Romário, mas bebemos água que argentino não bebe. Com Lazaroni, vocês queriam o quê?
1994 - Ganhamos com empate, a cara do Parreira.
1998 - "Quem é que sobe? Quem é que sobe?" Zidane. Zico barra Romário, quarta Copa perdida para sua coleção.
2002 - Final de filme americano, o sem-joelho se supera, faz o impossível e ganha a Copa.
2006 - Foi na Alemanha, né? Preparação animada, festa antes do trabalho. Meião arriado, quem é que sobe, quem é que sobe?
2010 - Torci contra, temia que a ortodoxia dunguista contaminasse o país, seríamos obrigados a cantar o hino nacional ao acordar, ao almoçar, ao dormir e ao fazer sexo - apenas para reprodução, uma vez por semestre. Ainda teríamos que aprender o hino da Revolução Farroupilha. Jogamos bem um jogo, ameacei torcer pelo Brasil, e o rubro-negro mostrou o que fora fazer sob as traves. Loco repetiu a cavadinha, rodei a redação com a bandeirinha do Botafogo. Somos bons nesse negócio de Copa.
2014 - O goleiro titular, o mesmo que entregou a Copa passada, era segundo reserva num time da segunda divisão inglesa e, agora, joga no Canadá.


Adjetivos

separador Por Fernando Molica em 06 de maio de 2014 | Link | Comentários (0)

Existe alguma chacina que não seja bárbara? Algum assassinato que não seja cruel? Alguém aí já viu chacina fofa? Um assassinato com requintes de carinho?


FIM no Porto

separador Por Fernando Molica em 06 de maio de 2014 | Link | Comentários (0)

No próximo sábado, às 14h, eu e os camaradas Luis Pimentel e Álvaro Costa e Silva - sim, o Marecha - vamos conversar sobre jornalismo e ficção durante o FIM - Fim de Semana do Livro no Porto. . Será na Casa Porto, no Largo da Prainha. Abaixo, a programação completa das sessões de bate-papo.

Sábado, 10 de maio de 2014

10h
"No fio da navalha"
A voz das ruas, o rumor das esquinas, a subversão pelas letras e batuques dos sambas. A zona portuária assiste ao encontro entre Antônio Fraga, João Antônio, Zé Pilintra, Mano Elói e os bambas do Império Serrano - escritores das encruzilhadas e sambistas doa estiva - na mesma margem do Rio.
Giovanna Dealtry
Maria Célia Barbosa Reis da Silva
Rachel Valença

12h
"Toca de tatu, linguiça e paio e boi zebu, rabada com angu, rabo-de-saia"
Nos botequins, esquinas, balcões, praças, mercados e terreiros cariocas, a invenção da vida pela cultura se estabelece, à margem dos restaurantes suntuosos, entre marafos, cervejas, costelas, lombos, linguiças, maminhas e similares.
Sergio Bloch
Guilherme Studart
Rolf Malungo

14h
"A dor da gente não sai no jornal"
Realidade e ficção ao sabor da palavra: o jornalismo e a literatura cariocas na fronteira entre a fidelidade ao real e a fabulação.
Luis Pimentel
Fernando Molica
Álvaro Costa e Silva

16h
"Sou Vagabundo, né? Gosto de corriola, de botequim"
Nome maior dos desfiles das escolas de samba, Fernando Pamplona fez da avenida um quilombo, trouxe a academia para as esquinas e se tornou um dos pais do Brasil. O porto, parte do parto dessas áfricas cariocas, reverencia o mestre.
Fábio Fabato
Rosa Magalhães

18h
Saideira: Rio bandido
Alberto Mussa, instigado pelo amigo de letras e copos Carlos Alves, conta histórias do Rio de Janeiro e fala da cidade como o espaço imaginado de sua literatura.
Alberto Mussa
Carlos Alves

Domingo, 11 de maio de 2014

10h
"Capoeira me mandou dizer que já chegou"
Margeando a cidade oficial, capoeiras e bicheiros se apropriaram dos mistérios das gingas e jogos para marcar, driblando a lei, o terreiro grande da Guanabara como um espaço de desafios.
Felipe Magalhães
Maurício Barros de Castro
Marco Carvalho

12h
"Angola, Congo, Benguela, Monjolo, Cabinda, Mina"
O tempo para a convivência e a troca de saberes são instrumentos de defesa e dinamização da cultura. A tradição, ao contrário de ser estática, aponta para renovações constantes dos meios de reinvenção da vida pela arte. Especulação e preservação: caiçaras, quilombolas e o defeso cultural.
Maurício Hora
Luís Perequê
Delcio Teobaldo

14h
"Um cantar à vontade"
As histórias de um povo que busca, nas frestas da cidade oficial, inventar a vida nas festas; entre batuques, danças, folguedos, sambas e gritos de gol.
Marcos Alvito
Luiz Antonio Simas

16h
"Quero antes o lirismo dos loucos"
Nas dobras, encruzilhadas e margens de um território de incertezas, o fazer poético como caminho para o pertencimento do mundo.
Alberto Pucheu
Sergio Cohn
Marcelino Freire

18h
Saideira: "Minha cachaça é a imprensa"
Uma saideira com o artista, carioca de São Cristóvão, que ilustra há décadas as páginas dos jornais brasileiros e coleciona dicionários, incluindo títulos exóticos como o de termos africanos em português do Brasil
Cássio Loredano
Rodrigo Ferrari


O chute dos leitores

separador Por Fernando Molica em 05 de maio de 2014 | Link | Comentários (0)

Artigo publicado em "O Globo" em 09/6/05:

"Vá entender leitor: não se diz, o tempo todo, que o público está cansado de más notícias, que ninguém agüenta mais ler/assistir informações sobre violência, corrupção, salários de parlamentares? Pois. Na última sexta-feira, O GLOBO publicou, em sua primeira página, uma foto que deveria fazer a alegria do Carlos, da Cynthia, do Claubert, da Laura, do Marcelo e de tantos e tantos outros leitores que mandaram cartas ao jornal para apoiar ou justificar a atitude do policial que deu um chute na cara de um bandido detido e algemado.

De uma ou outra maneira, com maior ou menor ênfase, a grande maioria das cartas dos leitores acha que é assim mesmo que devem ser tratados os marginais - com chute na cara, mesmo depois de dominados pelo Estado. Se eles acham isso mesmo, deveriam ter ficado alegres com a publicação da foto na primeira página do jornal. Deveriam, isto sim, ter mandado cartas e e-mails de apoio aos editores do GLOBO: enfim, uma boa notícia, um exemplo construtivo, que aponta para uma saída neste beco escuro em que todos vivemos.

Mas não. As cartas criticavam o jornal, ironizavam a suposta parceria entre jornalistas e bandidos; leitores ameaçavam até cancelar assinaturas. Daí o espanto que abre este texto: por que será que eles não queriam que o gesto do policial fosse divulgado? Por que viram a foto na primeira página como uma denúncia e não como um bom exemplo? O texto que acompanha a imagem é correto, equilibrado. Não xinga o policial, não classifica o bandido de 'coitadinho'. Por que será que leitores viram na publicação da foto de Berg Silva um manifesto contra a violência policial?

Arrisco uma resposta: os tais leitores eram favoráveis à omissão da foto porque sabem que o gesto do PM está errado; envergonham-se de viver numa sociedade que, perplexa diante da violência, vê como única saída o abandono aos princípios básicos da civilização. Uma sociedade que, ao chutar o bandido, iguala-se aos marginais. Os leitores talvez, no fundo, envergonhem-se até mesmo de defender o que defendem - o que é errado a gente esconde, como disse aquele então ministro, o flagrado pela parabólica.

Ao defenderem um Estado marginal - porque feito à margem, fora da lei - cidadãos fazem uma aposta arriscada. Entregam aos homens calçados com aquelas botas o direito de meter o pé na cara de quem bem entendam, partem do princípio de que seus rostos - ou o rosto de seus filhos, de seus amigos, dos seus empregados - nunca serão atingidos pelo pontapé de um agente do Estado. Estão convictos de que nunca serão achacados, sofrerão extorsão, nunca serão - nem eles nem os seus - vítimas de um flagrante armado ou mesmo de um mal-entendido (ou será que nossa polícia é tão boa que só prende culpados, tão precisa que é incapaz de chutar, bater ou, admita-se, em tese, matar um inocente?). Os leitores das cartas têm certeza de que nunca serão detidos, nem precisarão, em benefício próprio, exigir o respeito aos direitos humanos; estão certos de que nunca correrão o risco de levarem tiros disparados a esmo em ruas da Baixada Fluminense.

Quando justificam e estimulam o comportamento ilegal dos agentes do Estado, os leitores contribuem para desvalorizar a PM, para humilhar a instituição e todos aqueles que nela trabalham e que, diariamente, em nosso nome, arriscam suas vidas. As cartas que apoiaram o chute na cara defendem uma polícia de atitudes clandestinas, inconfessáveis, feitas à sombra. Uma polícia que se envergonhe de seus gestos. Nas cartas, os leitores manifestam a incapacidade de admitir uma PM eficiente, que atue com firmeza, dentro dos parâmetros da legalidade. Uma instituição madura que saiba - como qualquer outra instituição - da impossibilidade de controlar todos os seus integrantes, mas que se mostre justa na apuração e punição de eventuais desvios.

Talvez os leitores que defenderam o PM do chute não tenham notado, mas a capa do GLOBO de sábado é tão interessante e didática quanto a da véspera. Registra o protesto contra a publicação da foto e, logo acima, destaca uma manifestação de parentes de vítimas da recente chacina na Baixada, que, ao que tudo indica, foi praticada por policiais militares. Os manifestantes usavam toucas ninjas iguais às utilizadas pelos autores da chacina, iguais às usadas na chacina de Vigário Geral e em tantas e tantas outras. As duas notícias - o protesto contra a foto e o registro da manifestação - são correlatas. A indignação dos leitores ajuda a entender a ocorrência das chacinas. Ao estimularem a violência do Estado, cidadãos se tornam um pouco responsáveis por uma polícia que não ousa mostrar o rosto e que pode chutar a cara de qualquer um de nós.


O destino de Lily Braun

separador Por Fernando Molica em 05 de maio de 2014 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 05/5.

A estreia do musical 'O grande circo místico' despertou em mim a curiosidade de saber qual teria sido o futuro de Lily Braun, personagem de uma das canções compostas por Edu Lobo e Chico Buarque para a primeira versão do espetáculo, um balé criado pelo Teatro Guaíra. A música fala de uma artista que larga a carreira para se casar com o homem dos seus sonhos, que conhecera num dancing.

O sujeito jogou pesado para conquistar a moça. Ofereceu drinque, lhe deu rosas e poemas. Lily, talvez cansada de tantas danças e tantos amores, preocupada com seu destino, aceitou se casar com o cara. A decepção veio logo. Como diz na canção, composta em primeira pessoa, ele passou a amá-la como esposa, não mais como estrela: "Me amassou as rosas/ Me queimou as fotos/ Me beijou no altar." O resto da música é de cortar o coração. A pobre ficou sem prazeres como cinema, espeluncas, drinques no dancing. Deixou de receber rosas, nunca mais foi feliz.

Como o balé estreou em 1983, dá para imaginar que Lily tenha hoje entre 50 e 55 anos de idade. Em nome dos dois filhos, manteve por um bom tempo o casamento com aquele mala. O sacrifício não adiantou muito. Há uns dez anos, ele encontrou outra jovem para fazer infeliz e largou esposa e prole na casinha de Pindamonhangaba (sempre achei que o casal fora morar no interior de São Paulo). Quarentona, meio gorducha, sem os encantos da juventude e com dois pré-adolescentes em casa, a ex-dançarina não teve como retomar a vida boêmia. Sequer caberia naquele vestido preto que conseguira salvar da fúria do esposo -- ele destruíra também roupas e outros objetos que remetiam aos bons, divertidos e loucos tempos. Ela não conservara nem o nome, o Lily fora banido, restara o Maria Elizabete, tão provinciano que sequer levava um 'h' como o da rainha inglesa.

Secretária de uma revendedora de carros, ela, de vez em quando, consegue um amor. Apesar dos esforços do ex-marido, fiapos de sua história chegaram ao conhecimento de vizinhos e colegas de trabalho. Quem mandou fazer confidências à manicure? Por que subir na mesa e simular um strip na festa de fim de ano da firma? Desempenho de profissional, comentou-se na cidade. Em nome deste profissionalismo, alguns respeitáveis senhores de Pinda arriscam seus casamentos para passar uma noite com Maria Elizabete. Mas ela não se queixa, tem mais com o que se preocupar: com aqueles cigarros esquisitos que encontrou na gaveta do filho, com as bebedeiras da filha, que quase já não dorme mais em casa.


"Macaco, macaco, macaco"

separador Por Fernando Molica em 01 de maio de 2014 | Link | Comentários (0)

"Às vezes, comentários mais agressivos. A ofensa de sempre: eterna, lugar-comum, óbvia, mas, nem por isso, menos letal. Um xingamento prêt-à-porter, pronto para o uso; democrático, ao alcance de qualquer um, até de quem fosse mais preto - não contava a cor da pele, mas a necessidade de subjugar, de humilhar, de colocar no devido lugar: "Macaco, macaco, macaco." Quantas vezes tive que ouvir? Macaco, macaco, macaco, assim, repetido muitas vezes, meio cantado, ofensa insistente, irrespondível, mantra que resistia a qualquer argumentação. Minhas respostas e meus palavrões sequer eram ouvidos. Era só o coro, macaco, macaco, macaco,macaco, macaco. Eu xingava, tapava os ouvidos, corria; as palavras ficavam, furavam tímpanos, me acordavam, meio da noite, macaco, macaco, macaco. Às vezes nem chega a ouvir, mas pressentia. Dava para ler, para prever; as intenções, o filho-da-puta da vez. Eu olhava o rosto do sujeito, adivinhava o bote, a abertura dos lábios na minha direção. Eu sabia como, a sílaba que se ameaçava, a deformação que causava na boca de quem a vomitava, a boca que se abria, movimento ao mesmo tempo vertical e horizontal, buraco que surge numa parede e deixa passar um vento fétido, pesado, vento-soco, vento-porrada. Lá vinha ela, maldita sílaba, "ma", ma de macaco.

Feito um jogo que eu tinha que jogar, jogo cheio de sacanagens, obstáculos, regras feitas pelo inimigo, modificadas no meio da partida. Hoje eu sei: comentários, expressões de preconceito, até elogios funcionavam como balizas, placas de trânsito. Siga nesta direção, não pare na pista, não ultrapasse, cuidado. Fundamental calcular a velocidade máxima permitida, até onde poderiam ir meus avanços, o limite de meus desvios de rota. O tempo todo me movida numa estreita margem de tolerância. Não podia errar, se preto joga mal é porque se vendeu. Preto não podia acordar indisposto, preto não poderia errar chute, se driblado. Porque era preto, Barbosa não podia levar o gol de Ghiggia. Não fez na entrada, fez na saída, no último jogo, na decisão da Copa. Crioulo burro, crioulo safado, amarelão, raça ruim.

Eu achava, era preciso manter a calma. Isso, mesmo quando o cartão de estacionamento era esticado na minha direção, altura dos meus olhos, na porta do restaurante. É aquele Golf vermelho, por favor, disso o dono do carro abraçado a uma mulher. Por favor. Por favor é a puta que pariu, vontade de dizer, mas não dizia. Melhor a fazer era não fazer nada, melhor, um quase-nada. Olhar pra cara do babaca, ar que misturasse espanto e ironia, fazer com que o pequeno cartão pesasse na mão do idiota que me confundia com guardador de carro de restaurante. Olhar que fizesse aquele sujeito se dar conta de que negros poderiam frequentar o mesmo lugar que ele, que eu podia estar ali. Olhar que o fizesse sentir culpado, que o constrangesse diante da mulher bonita; quando notasse a merda, ela olharia para o chão, ajeitaria o xale no pescoço, buscaria apoio no batom, dedos que se atropelariam na bolsa. Tudo muito rápido, gestos tortos, empastelados, mal impressos; trilha sonora falha, cheia de ruídos. O dono do Golf iria murmurar um pedido de desculpas, não foi por mal, bebi um pouco, me confundi, enquanto se perguntava em que time joga esse crioulo. O que será que é cantor? O guardador, negro ou nordestino, ou negro e nordestino, se aproximaria, por favor, doutor, arremataria em um bote o cartão do estacionamento e apressaria os passos na direção do Golf vermelho. O carro dele, claro, antes do meu."

(Trecho de 'Bandeira negra, amor', romance que lancei em 2005 pela Objetiva e que sairá em e-book, na Alemanha, pela Edition Diá).


O barulho dos invisíveis

separador Por Fernando Molica em 01 de maio de 2014 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 28/4:

Há algumas décadas, as favelas cariocas eram bem mais visíveis. Na Zona Sul, Catacumba, Praia do Pinto, Pasmado e Macedo Sobrinho ficavam diante dos olhos de todos. Não me lembro delas, todas foram arrasadas há mais de 40 anos. Mas vi as palafitas que pontuavam o caminho até a Ilha do Governador. A lógica de remoção varreu favelas e seus moradores para longe, em geral, para debaixo do tapete de uma então ainda mais distante Zona Oeste. Como diz o antropólogo e pandeirista Marcos Alvito, o verbo remover só é usado para favelas, lixo e cadáveres. Mandar os pobres para longe e abrir caminho às construtoras foi o jeito encontrado por governos na tentativa de fingir que resolviam um problema.

Agumas favelas ainda se impõem na paisagem, como a Rocinha, o Borel, as que formam o Complexo do Alemão. Outras ficaram meio escondidas pelo crescimento dos prédios ou pela colocação de barreiras, como as existentes na Linha Vermelha. A ocultação facilitou a tarefa de tentar esquecê-las, ignorá-las. Volta e meia alguém falava em urbanização, mas as propostas não saíam do papel.

Mas lá pelo início dos anos 80 do século passado, o comércio de cocaína, droga de maior valor, mudou o varejo do tráfico. Vieram as armas pesadas, a luta por domínio territorial, o funk. Os sucessivos embates entre traficantes e entre estes e a polícia quebraram a relativa paz entre morro e asfalto. As favelas e seus moradores ressurgiram, seus problemas passaram a não respeitar os limites dos morros, as balas começaram a se perder em edifícios de nomes estrangeiros. As guerras, afastaram investidores, atrapalharam o trânsito e os negócios.

Foi preciso incomodar o asfalto para que favelas voltassem a ser lembradas. Chegaram algumas melhorias, projetos de urbanização, teleféricos, UPAs e UPPs. Mas os investimentos, importantes, ainda estão muito aquém do necessário. O abismo entre os que vivem dentro e fora das favelas é assustador, basta comparar dados da Rocinha com os da vizinha Gávea, é como se a Etiópia fizesse fronteira com a Alemanha. Tamanha desigualdade volta e meia explode, não é preciso exagerar na faísca diante de tanta pólvora acumulada. Os motivos são muitos, falta de moradia, um novo caso de violência policial. De vez em quando, os invisíveis mostram a cara, e o fazem de jeito escandaloso, agressivo, torto como as vielas e becos das favelas. Sabem, por experiência própria, que só assim serão ouvidos, que o importante é fazer um barulho que não deixe ninguém dormir.


BG
© Todos os direitos reservados. Todos os textos por Fernando Molica, exceto quando indicado. Antes de usar algum texto, consulte o autor. créditos do site    Clique para ver os créditos do site