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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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abril 2014 Archives

Pedi pra sair

separador Por Fernando Molica em 24 de abril de 2014 | Link | Comentários (2)

No início deste mês, solicitei ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro minha desfiliação da entidade. Esta decisão vinha sendo cogitada desde o segundo semestre do ano passado, quando a diretoria do sindicato teve um comportamento parcial diante das agressões a jornalistas ocorridas em manifestações. Condenou de forma veemente apenas as cometidas por policiais; as que partiam de manifestantes eram relativizadas e até justificadas. Ao falar dos episódios, a presidente do sindicato, Paula Máiran, fez questão de ressaltar que os agredidos trabalhavam em empresas de comunicação que, segundo ela, deturpavam o noticiário sobre os atos públicos. A hora era de repudiar as agressões, não de atenuá-las (quem admite razões para agressões a jornalistas não pode condenar policiais que agridem assassinos, bandidos em geral ou repórteres).

Mais: a diretoria do sindicato tornou-se avalista do que, na época, chamava de "comunicadores populares", jovens militantes que, munidos de câmeras ou celulares, transmitiam manifestações pela internet. A democratização e diversificação de vozes é saudável, o problema é que, a expressão "comunicadores populares" é excludente. Se eles são os populares, nós, jornalistas profissionais, seríamos os "impopulares", inimigos do povo. Havia uma contradição óbvia: manifestantes e "comunicadores populares" que diziam pregar a liberdade de expressão agrediam e tentavam calar aqueles que, segundo eles, não compactuavam com suas supostas verdades. Houve casos em que alguns dos tais comunicadores deduraram repórteres obrigados, por conta das hostilidades, a trabalhar sem revelar que eram jornalistas.

A gota d'água para minha decisão ocorreu há cerca de um mês, quando a diretoria emitiu uma nota para condenar a cobertura do "oligopólio da mídia" à ocupação das favelas da Maré. A nota não aponta erros factuais nas reportagens, foca na linha editorial dos veículos e parte de um pressuposto de caráter autoritário e ditatorial, o de que existe apenas uma verdade. Na lógica da diretoria, o que não corresponde a esta verdade merece ser condenado. Uma lida mais atenta dos jornais revelaria que não houve tamanha unidade editorial.

Ao fazer a condenação genérica à imprensa, a nota voltou a fornecer argumentos aos que usam a violência para tentar impedir o trabalho dos repórteres que vão às ruas para apurar informações, se expõem a policiais e a manifestantes. Afinal de contas, o texto dá a entender que os jornais, rádios e TVs publicam apenas versões falsas dos fatos. A nota comete ainda o absurdo de classificar a cobertura de "atentado ao Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros". Atentado à ética profissional é fazer este tipo de acusação genérica aos profissionais que trabalharam naquele domingo. Eu, na época de férias, não estava entre eles, mas me senti ofendido pelo texto.

A diretoria do sindicato aproveitou a nota para manifestar sua oposição à política de segurança pública do governo estadual. A julgar pelo documento, nós, jornalistas cariocas, consideramos que ocupações como a da Maré não passam de "propaganda enganosa". Diretores do sindicato têm todo o direito de ter esta opinião, mas não podem achar que a maioria da categoria concorde com ela. Tenho muitas críticas ao processo de ocupação de favelas, evito ao máximo publicar a palavra "pacificação", o caso Pavão/Pavãozinho demonstra que há muito a ser feito, mas considero que o tema é complexo demais para ser resumido na expressão "propaganda enganosa".

A nota ainda diz que "a cobertura do oligopólio da mídia, ao invés de servir à defesa dos direitos humanos, tem exposto a ameaças de vida e à integridade física e psicológica dos moradores". Na ânsia de condenar as empresas de comunicação, a diretoria ofendeu a categoria, foi injusta com o trabalho de todos nós. Não nego erros, omissões e, mesmo, limitações, mas é um escândalo dizer que o trabalho dos jornalistas contribui para piorar a vida dos moradores expostos à violência de bandidos e de policiais. Muito pelo contrário: se não fosse o trabalho dos jornalistas - repórteres, fotógrafos, colunistas, editores - esta violência seria incomparavelmente pior. Claro que a cobertura da violência contra os mais pobres deveria ser maior, mas não se pode dizer que, de alguma forma, somos cúmplices da barbárie.

Ao condenar a ocupação, a nota dá a entender que o melhor seria não fazer nada e, portanto, deixar a população da Maré entregue ao domínio das quadrilhas que lá atuavam/atuam. Um poder que, de acordo com a nota, resume-se a "pressões dos traficantes de drogas". Não é preciso ser jornalista para desconhecer a violência cotidiana promovida por essas quadrilhas, algo que vai muito além de "pressões". Nosso colega Tim Lopes foi apenas uma das incontáveis vítimas desses bandidos. A PM tem um lamentável histórico de violações aos direitos humanos - casos que chegaram ao público, veja só, graças ao tal "oligopólio da mídia"-, mas trata-se de uma instituição do Estado, sujeita ao controle da sociedade, a quem deve satisfações. Recentemente, a própria presidente do sindicato denunciou ao Comando da PM a arbitrariedade de que foi vítima (a ameaça praticada por um subtenente) e recebeu uma resposta da corporação - uma resposta insuficiente, o caso, gravíssimo, pode ser considerado como crime de ameaça e não deve se esgotar com uma punição administrativa. Mas houve uma resposta, a presidente teve com quem reclamar de forma institucional, não seria possível fazer o mesmo caso a ameaça tivesse vindo de bandidos como os que dominavam a Maré.

Em uma de suas manifestações, a diretoria cometeu a bobagem de falar em "imprensa comercial", como se, num sistema capitalista, fosse absurdo haver empresas jornalísticas (imagino a OAB condenando escritórios de advocacia, o Cremerj dizendo que todos os hospitais privados não prestam, sindicatos do ABC reclamando da fabricação de carros por multinacionais). Ao longo de minha carreira, trabalhei em empresas que, no entender da diretoria do sindicato, integram o oligopólio da mídia: O Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo, O Globo, TV Globo, O DIA. Seria uma inverdade negar a existência de eventuais pressões e de limites, mas isso não impede que se pratique, na grande maioria dos casos, um jornalismo digno, comprometido com os direitos humanos e com a apuração correta dos fatos. Tenho muito orgulho de minha carreira, das matérias que fiz e continuo a fazer. Isso vale para tantos e tantos colegas. Não somos movidos pelo cinismo, não admito que nosso esforço diário seja desrespeitado pela insistência da diretoria de condenar, a priori, o jornalismo praticado em empresas jornalísticas. Ninguém está acima de críticas, mas estas devem ser feitas de maneira específica, pontual. Não vejo na diretoria qualquer crítica às publicações feitas por partidos e sindicatos - nestas redações, pelo visto, reina uma absoluta e irrestrita liberdade de expressão.

Ainda no ano passado, diante das minhas críticas públicas, feitas no Facebook, a diretoria do sindicato me convidou para um café da manhã. Aceitei, mas depois, pensei melhor e achei melhor não ir - avisei previamente que não iria. O fato tem sido citado pela diretoria como um exemplo de que me nego a conversar. Nada disso. Nosso trabalho é público, estamos diariamente expostos a aplausos e vaias, a discussão, portanto, tem que ser travada de maneira aberta. Uma diretoria que divulga notas absurdas não pode querer discuti-las apenas em espaços privados.

Voltando ao início: deixei o quadro de associados do sindicato por notar que críticas públicas, feitas por mim e por outros colegas, não tiveram qualquer resultado, a diretoria continua achando que atua de maneira correta. Esta diretoria não me representa, não tinha a menor vontade de continuar a pagar mensalidades, nem achava correto ficar sem pagá-las. Assim, achei melhor sair, não quero financiar quem tanto desqualifica o jornalismo e, por consequência, os jornalistas - jornais, afinal, são feitos por jornalistas. Qualquer dia eu volto.


O repórter e o Prêmio Nobel

separador Por Fernando Molica em 22 de abril de 2014 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, O DIA, 21/4/13:

Gostamos de lembrar dos fatos agradáveis, de alardeá-los em mesas, publicá-los no Facebook -- a viagem, o novo amor, um elogio, um campeonato. Mas trancamos na gaveta os episódios tristes, fracassos profissionais, um pé no traseiro, o gol em impedimento feito pelo adversário. O problema é que derrotas nunca são esquecidas, ficam se fingindo de mortas e, de vez em quando, avançam na nossa jugular como um tigre faminto.


Na quinta, li que Gabriel García Márquez havia morrido. Tinha nota para apurar, coluna pra escrever, não dava pra entrar em estágio de velório virtual do querido escritor. Mas os diabinhos da memória trataram de sabotar meu trabalho com a lembrança de uma página infeliz de minha história, episódio -- patético na época, engraçado hoje em dia -- que teve como protagonista o autor de 'Cem anos de solidão'.


Aos 24 anos, fui a Cuba cobrir um festival de cinema. O Brasil não havia reatado relações com o país de Fidel, pernoitamos no aeroporto de Lima para pegar uma conexão. O avião com a delegação brasileira ainda foi obrigado a fazer uma escala imprevista no Panamá, onde passamos outra noite. Desembarcamos em Havana dois dias depois de sair do Rio e fomos direto para a abertura do festival.

Cheguei cansado, envergando uma daquelas ridículas camisetas de turista que comprara no Panamá para não chegar em Havana com a roupa que usara por 48 horas. Cheio de disposição -- era a primeira viagem internacional que fazia como jornalista --, pisei no Teatro Karl Marx pensando nas futuras reportagens. Nisso, o cineasta Silvio Tendler fez a gentileza de me apresentar ao Gabriel García Márquez.

Cara de enfado, o escritor fingiu um sorriso ao apertar a mão daquele assustado jovem repórter que vestia a camiseta com motivos folclóricos panamenhos. Sem saber o que fazer, fiz o óbvio, de forma desastrada. Com a sutileza de deputado que negocia propina com doleiro ao telefone, balbuciei, em portunhol: "Usted me daria una entrevista?". Sem largar a minha mão, o escritor pronunciou a palavra que, a exemplo da frase que abre o romance 'Crônica de uma morte anunciada', eu jamais esqueceria: "No."

Fiquei constrangido, irritado comigo mesmo pela proposta feita de maneira apressada, capenga. Mas levar um passa-fora é do jogo, no jornalismo e na vida. Para citar outro trecho célebre de GGM, o cheiro amargo que ficou daquela cena patética ajuda a amenizar outros tantos desejos contrariados. E ainda ganhei uma história para ser contada -- vivemos para contar.


Catedral de portas fechadas

separador Por Fernando Molica em 22 de abril de 2014 | Link | Comentários (0)

A Arquidiocese do Rio perdeu a grande oportunidade de transmitir uma mensagem de Páscoa. Não seria necessário pronunciar uma palavra sequer, bastaria ter acolhido os ex-ocupantes do prédio da Telemar/Oi que, confiantes na tradição da Igreja, foram parar às portas da Catedral. O fato fez com que fosse cancelada a programação da Semana Santa. Houve uma absurda inversão: aquelas pessoas deveriam ter sido incorporadas às celebrações; são exemplo de uma sociedade que continua a produzir excluídos, a história delas remete à daquele casal que, há mais de dois mil anos, vagou em busca de abrigo, de um lugar em que a mulher pudesse dar à luz. Páscoa tem a ver com renascimento e isso teria sido reafirmado com um simples gesto de carinho. Pensando bem, ainda dá tempo de a Arquidiocese se redimir. São 11h51, basta abrir as portas da Catedral, providenciar banho, roupas e um bom almoço de Páscoa para aquelas pessoas. Seria uma forma de comunhão.


Feriados

separador Por Fernando Molica em 17 de abril de 2014 | Link | Comentários (0)

Feriados heavy metal: um dos homenageados foi crucificado; outro, enforcado. O terceiro encarou dragão pela frente.


Dois livros

separador Por Fernando Molica em 17 de abril de 2014 | Link | Comentários (0)

Li recentemente dois ótimos livros, escritos por amigos de faculdade, dois Sérgios - Leo ( Ser Leo) e Rodrigues (Sérgio Rodrigues). Autor de um premiado livro de contos - 'Mentiras do Rio' -, Leo, desta vez, optou pela pegada jornalística e, em 'Ascensão e queda do Império X', mostra que a Academia de Hollywood foi injusta ao não dar a Eike Batista o Oscar de efeitos especiais. Até em homenagem à sua ex-patroa, o empresário mereceria também nota máxima em alegorias e adereços.

'O drible' é o melhor romance do outro Sérgio, o Rodrigues, um dos grandes livros de ficção lançados no ano passado. Técnico que costuma cobrar de seus jogadores uma grande obediência tática, SR, desta vez, deixou o jogo rolar mais solto, os personagens têm liberdade para construir suas glórias (muitas, no caso do pai) e fracassos (sucessivos rebaixamentos, no caso do filho). Como dizem que Zagallo fez em 70, SR dá a - falsa, claro, fazer o simples dá um trabalho danado - impressão de ter se limitado a distribuir as camisas e a pedir que cada jogador fizesse o que sabia. Permitiu até uma bem-vinda concessão a dramas no melhor estilo a vida como ela é.

O engraçado é que a leitura dos dois livros num curto espaço de tempo me fez confundir ainda mais os sempre delicados limites entre ficção e, vá lá, realidade. Habituado às grandes fantasias e epopeias do futebol, digeri sem qualquer esforço a saga e as magias do craque Peralvo. Botafoguense criado à sombra das superstições imortais de Carlito Rocha e testemunha dos despachos do massagista-macumbeiro (não necessariamente nesta ordem) Pai Santana, do Vasco, não me surpreendi com a ajuda que o Peralvo recebia do além. Isso, claro, só foi possível graças à intermediação do autor, à sua capacidade de tornar a história verossímil.

Mas, como eu dizia: no fim das contas, a história narrada pelo SL é que parece fictícia.Os detalhes da construção do Império X são assustadores, desafiam a imaginação de qualquer ficcionista. Não vale dizer que o Eike se beneficiou apenas da boa vontade de governantes e da direção do BNDES. Grandes investidores estrangeiros acreditaram que ele iria, por exemplo, tirar X toneladas de minério de minas virgens, transportaria o produto num minerioduto que só existia na sua cabeça e o embarcaria num porto que brilhava no power point. O mesmo vale para a petroleira que, depois, EB inventaria. No fim do show, quando as luzes da plateia foram acesas, os acionistas perceberam que seu dinheiro tinha sumido em cartolas nas quais não havia qualquer coelho. Fica, portanto, a dica: os livros são tão bons que superam a classificação de ficção e de não-ficção


Crianças e jovens da Central do Brasil

separador Por Fernando Molica em 15 de abril de 2014 | Link | Comentários (0)

Coluna 'Estação Carioca', jornal O DIA, 14/4/14:

Chocantes, as imagens dos assaltos na área da Central revelam um problema ainda maior que a evidente falta de segurança pública. As fotos e vídeos mostram que os autores daqueles crimes são crianças e jovens -- eles, portanto, não deveriam estar na rua, mas dentro de alguma escola. Darcy Ribeiro, em sua santa indignação, costumava dizer que no Brasil tudo tinha dono, menos criança. Afirmava que, se numa viagem pelo interior alguém tentasse pegar uma galinha solta na estrada, logo apareceria alguém para dizer que era o dono da ave.

Mas, continuava Darcy, se o viajante pegasse uma criança, não haveria qualquer problema, não surgiria ninguém para se apresentar como seu dono, responsável por sua criação. Entusiasta da Educação em tempo integral, criador dos Cieps, ele ressaltava que a escola pública brasileira, com suas quatro horas de aulas por dia, era pior que a paraguaia.

Em países europeus não é incomum encontrar pessoas pedindo dinheiro. A pobreza não é tão evidente como aqui, mas está lá, há desemprego e habitações precárias. Mas é praticamente impossível encontrar crianças nas ruas. Isto, porque todas -- sim, todas -- estão em escolas de tempo integral. A equação é simples: se passam o dia na escola, não é possível que estejam nas ruas.

Há algumas décadas, um amigo brasileiro que vivia em Paris com os pais exilados fugiu da escola para dar uma volta. Logo depois, ele e um colega, companheiro de aventura, foram detidos pela polícia e levados para suas casas. Eles não haviam cometido qualquer crime, apenas não estavam na escola no horário de aulas, o que é irregular. Os pais dos fujões tomaram uma bronca do tamanho da Torre Eiffel. Por lá, descendentes de imigrantes clandestinos têm direito à mesma escola pública frequentada por filhos de médicos, engenheiros, operários, políticos. Este acesso a uma Educação de qualidade permite a possibilidade de rompimento do ciclo que, entre nós, perpetua a pobreza ao longo de gerações.

Por aqui, pecamos até nas boas intenções. O Estatuto da Criança e do Adolescente garante àqueles que busca proteger o direito de "ir, vir e estar nos logradouros públicos". Ao tentar evitar os muitos abusos contra os mais pobres, comete o absurdo de dizer que rua é lugar de criança. Não é, lugar de criança é na escola, em escolas públicas de tempo integral. Sai caro? Que nada. Caro foi refazer o Maracanã, comprar aqueles trens superfaturados do metrô de São Paulo e adquirir a refinaria ferro-velho de Pasadena.


O carnaval que já começou

separador Por Fernando Molica em 15 de abril de 2014 | Link | Comentários (0)

Coluna 'Estação Carioca', O DIA, 10/3/14:

A passagem do último componente da Unidos da Tijuca marcou, na manhã de ontem, o início do Carnaval de 2015. É até engraçado falar assim, destacar que o fim gera o recomeço. Mas é assim mesmo, rituais -- e os desfiles representam um grande ritual --, são cíclicos, não têm começo nem fim, giram num eixo particular que ajuda a marcar a vida de todos nós. Transmitem alguma segurança, sabemos que daqui a um ano, as escolas estarão de volta aos maior dos palcos.

A ideia de ciclo ajuda a relativizar a euforia dos campeões -- a cada dia que passa se aproxima a hora de colocar o título em jogo -- e a aplacar a dor dos derrotados e injustiçados; a contagem regressiva para a hora da virada começou. Derrotas, como frisou Carlos Drummond de Andrade em crônica sobre a eliminação do time brasileiro em 1982, são instrumentos de renovação da vida, nos levam ao começar de novo.

Não sabemos como será o amanhã, mas temos certeza de que haverá desfile. Para a grande maioria, o Carnaval só voltará a dar sinais de vida lá para janeiro, quando as quadras das escolas voltarem a ficar lotadas. Mas a festa ficará dentro de cada um, hibernando em meio a planos para o ano que vem e inevitáveis balanços de perdas e ganhos, melhores e piores momentos, amores e desencantos, beijos dados e perdidos.

Nos próximos dias, as dicussões em torno dos desfiles irão diminuir nas conversas de bar e na internet, ficarão assim como aquele confete encontrado no fundo do tênis, a purpurina que, uma semana depois da festa, teima em brilhar num canto do rosto da moça. Mudarão de assunto quase todos os que tanto falam sobre a criatividade ou mesmice do Paulo Barros, as cuecas da Vila e a crueldade com o Império da Tijuca. Pela frente temos Libertadores, Copa, eleições (e imposto de renda, engarrafamentos, a barca que vai enguiçar, o metrô que ficará superlotado, o trem que deixará muita gente na mão, o mês que teima em durar mais que o salário).

Mas, enquanto isso, o Carnaval de 2015 estará sendo gestado. Fantasias largadas na dispersão logo ganharão nova vida em pequenas escolas de samba do Rio ou do interior. A alegoria que deslumbrou tanta gente virou passado, aquela mesma estrutura ganhará novos formatos e cores. Silenciosos, os artistas do samba começam a preparar a próxima festa, a dar forma aos sonhos de rei, de pirata e jardineira, como cantou Martinho da Vila. Desde já agradeço a todos eles, que tanto colaboram para deixar minha vida mais bonita e feliz, pela beleza de festa que, sei, teremos em 2015.


A cor do goleiro

separador Por Fernando Molica em 15 de abril de 2014 | Link | Comentários (0)

Coluna 'Estação Carioca', O DIA, 03/3/14:

Jefferson, goleiro do Botafogo e candidato a titular da Seleção, tem sido obrigado a conviver com um fantasma. Volta e meia alguém ressalta que ele é negro como Barbosa, goleiro da Copa de 1950 que sofreu com a acusação de ter falhado no gol que deu o título ao Uruguai. Como a próxima Copa será no Brasil e terá partida final no Maracanã...

Em recente entrevista com Jefferson, o assunto rendeu três perguntas. Falou-se em estigma e desconfiança -- tudo porque o goleiro é negro como Barbosa. A insistência no assunto faz lembrar teses que andaram em moda depois das derrotas de 1950 e 1954. Dizia-se então que negros não eram confiáveis, que tremiam diante de adversários fortes, que o melhor seria escalar jogadores brancos. Nas duas primeiras partidas da Copa de 1958, o único negro era Didi, que, além de jogar um bolão, tinha como reserva um outro negro -- não havia branco disponível para aquela posição. Ao longo da Copa, o negro Pelé e o mulato Garrincha entraram no time e garantiram o primeiro campeonato do mundo para o Brasil.

Negros se tornaram presença constante na Seleção, mas não no gol: apenas na Copa de 2006 voltamos a ter um titular negro, Dida. O fato de ele, na época, jogar pelo Milan ajudou a quebrar preconceitos, mas, de vez em quando, o nome de Barbosa era associado ao seu. Chega a ser assustadora a naturalidade com que o assunto era e é abordado. Não se trata de avaliar detalhes como altura, envergadura, elasticidade. É feita uma absurda relação entre a cor da pele de um jogador e o seu desempenho em campo. A exemplo do que ocorreu na década de 1950, se atribui valor a uma tese fundada apenas num preconceito disfarçado de superstição. Dá pra imaginar o tamanho dos justos protestos que ocorreriam caso Barbosa fosse judeu e sua pretensa falha tivesse representado um veto à presença de outros judeus no gol da Seleção.

Ótimo goleiro, Jefferson, assim como todos os profissionais, deve ser analisado por suas qualidades e limitações (poderia repor melhor a bola, por exemplo). Insistir na lembrança de Barbosa representa uma ofensa a todos nós, ninguém está livre de ser vítima de algum preconceito. Ser negro não faz de Jefferson um goleiro melhor ou pior. É bem provável que ele tenha uma grande Copa, mas também poderá falhar -- não por ser negro, mas porque é humano, assim como eu e você (ninguém diz que Julio Cesar falhou em 2010 porque é branco). Enxergar Jefferson pela memória de Barbosa é uma forma -- ainda que involuntária -- de perpetuar o racismo.


Um novo rosto da mesma Igreja

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Coluna 'Estação Carioca', 24/02/14:

Para muita gente, o Papa Francisco é uma espécie de ponto fora da curva na Igreja. Isto, por conta de sua informalidade, pelas diferenças em relação ao seu antecessor. Esta análise é feita principalmente por quem tenta aplicar à Igreja Católica, instituição de dois mil anos, conceitos usados, no dia a dia, para tratar de temas como a política.

A disputa de poder entre partidos envolve divergências muitas vezes inconciliáveis, propostas antagônicas, excludentes. Na Igreja, são todos de um mesmo partido. Por mais diferenças que haja num universo tão grande de religiosos e leigos, todos vestem a mesma camisa, obedecem a um mesmo homem -- o papa -- e têm uma referência comum, Jesus Cristo. Ao longo de tantos séculos, papas, cardeais, bispos e padres notaram que, juntos, seriam quase imbatíveis. Dependendo da situação, muda o esquema do jogo. Em alguns períodos, a bola fica mais com os seguidores de Paulo, o pregador, que viajava para converter os povos. Em outros, o jogo se concentra nos afeitos a Pedro, o construtor da instituição. Mas todos, insisto, jogam no mesmo time.

No anos 1970 e 1980, as ditaduras na América Latina aprofundaram as brigas na Igreja. O surgimento da Teologia da Libertação ajudou a dividir seus integrantes entre progressistas e conservadores -- a queda de braço entre os dois setores foi tema de muitas páginas de jornais. A enquadrada promovida pelo Papa João Paulo II e seu lugar-tenente, Joseph Ratzinger, jogou para escanteio os principais teólogos da libertação. Batalha vencida? Nada disso. A eleição de Ratzinger para papa foi como aquele drible a mais, a jogada que compromete uma partida já ganha. Sob Bento XVI, a Igreja se mostrou excessivamente dura, o que provocou muita grita.

A renúncia de Bento XVI e a eleição de Francisco corrigiram os excessos. No lugar do tímido teólogo alemão veio um argentino alegre, brincalhão, fã de futebol. Ao forçar a partida por outro lado do campo, ele compensa excessos anteriores: em menos de um ano, tocou em temas incômodos como pedofilia, detonou a antiga direção do Banco do Vaticano, acenou com mudanças no campo moral. Francisco, porém, não representa uma ruptura, é apenas a prova que a Igreja continua forte, pedra muito bem assentada em Roma. Ele encarna a outra face de uma instituição que, ao longo dos séculos, soube mudar para permanecer viva e atual. Voltando ao futebol, é como se, dependendo do jogo, o atacante optasse em driblar pela direita ou pela esquerda. A posicao do gol, porém, é a mesma.


As muitas caçambas cariocas

separador Por Fernando Molica em 15 de abril de 2014 | Link | Comentários (0)

Coluna 'Estação Carioca', O DIA, 03/2/14:

Longe de ser uma exceção, Luiz Fernando Costa, o condutor do caminhão que derrubou a passarela da Linha Amarela, é quase um exemplo do motorista carioca. Não o motorista que deveria servir de exemplo, mas o que representa nosso jeitão de circular pela cidade. Atire o primeiro celular quem nunca falou ao telefone enquanto estava ao volante ou que jamais fechou cruzamento ou avançou sinal ou parou na calçada.

A lista de infrações cotidianas só não é maior do que tolerância social com as repetidas violações às regras básicas do trânsito, aquelas que deveriam garantir um mínimo de civilidade nas ruas. Ninguém -- nem eu -- gosta de respeitar limite de velocidade, de ser obrigado a deixar o carro na garagem depois de tomar uns três chopes ou de dividir uma garrafa de vinho no jantar. Nenhum limite -- no trânsito ou na vida em geral -- é agradável. Como Manuel Bandeira, sonhamos com a liberdade absoluta, com prazeres infinitos, com uma existência que seja uma eterna e impune aventura inconsequente. O problema, como disse o sábio Garrincha, é combinar isso com os russos, ou seja, com as milhões de outras pessoas que também se sentem no direito de fazer o que lhes dá na telha.

O direito do outro é que joga de volta para a estante dos desejos irrealizáveis a Pasárgada de cada um de nós. É desolador admitir, chato mesmo, mas não seria possível que todos andássemos por aí desrespeitando todos os sinais, circulando pelos acostamentos das estradas, parando em todas a calçadas e jogando todas as nossas frustrações e expectativas no pé que pressiona o acelerador. Até porque, se todos fizéssemos isso, ninguém sairia do lugar, haveria uma espécie de engarrafamento final, com todos os cruzamentos ocupados, colisões em cada esquina e atropelamentos em série. Ninguém tem direito de, com sua irresponsabilidade, colocar em risco a vida de outras pessoas.

A cada dia ensaiamos no trânsito a interminável disputa entre o agradável impulso da vida e a terrível e castradora civilização, entre o Carnaval e a Quaresma, entre a descompromissada farra noturna e os deveres do casamento. Mas a maioria dos motoristas cariocas se acha capaz de encontrar a quadratura do círculo, um jeito de conciliar o inconciliável, de torcer pelo Flamengo na arquibancada do Botafogo. A caçamba levantada do caminhão assassino é quase um carro alegórico que, todos os dias, desfila pelas ruas e revela o egoísmo e a bestialidade de quem acredita que sinais fechados foram feitos apenas para os outros.


O trem que se via no cinema

separador Por Fernando Molica em 15 de abril de 2014 | Link | Comentários (0)

Coluna 'Estação Carioca', 26/1/14:

Alguns filmes brasileiros produzidos entre os anos 1960 e 1980 começavam mostrando trens. Seus diretores procuravam, assim, deixar claro que o longa-metragem trataria de pobres, que moravam longe da Zona Sul. O meio de transporte, portanto, servia como ilustração da pobreza. De um modo geral, os vagões surgiam na tela se movimentando na direção dos subúrbios ou da Baixada Fluminense.

O rumo dos trens expunha, meio sem querer, que os cineastas não viviam naquelas áreas, precisavam se deslocar até lá. Como eram pessoas legais, interessadas no destino do país e preocupadas em se mostrar identificação com o sofrido povo brasileiro, iam de trem. Na carona, levavam o público -- igualmente legal, bem-intencionado e de esquerda -- para aquela espécie de safari em terras além-túnel e longe do mar. De certa forma, os tais filmes (alguns, por sinal, muito bons) antecipavam as constrangedoras excursões de turistas que, em jipes camuflados, entram em favelas cariocas como quem explora savanas africanas.

Os filmes, por mais que tentassem denunciar as injustiças sociais, ajudaram a reafirmar o conceito de que trem é para pobres. Como pobres nunca foram bem tratados por aqui, seu meio preferencial de transporte foi, ao longo de décadas, sendo sucateado. Não bastava negar salários, escolas, moradias e hospitais decentes, era preciso destruir os vagões que levavam aquela gente toda para o trabalho. E tome investimentos em viadutos, túneis e vias expressas que asfaltariam o caminho de donos de carros. Inaugurado em 1967, o Túnel Rebouças era vedado aos ônibus e, portanto, aos mais pobres. A proibição só seria quebrada quase 20 anos depois, no primeiro governo Leonel Brizola.

O ódio à população mais humilde ajuda a explicar o bombardeio ao sistema ferroviário da Região Metropolitana, criado por Dom Pedro 2º. O custo das desapropriações inviabilizaria, hoje, a construção dessa rede fantástica, que vai do Centro à Baixada e ao extremo oeste carioca. A destruição de um patrimônio como esse não é de graça, só pode ser proposital. Trata-se de uma crueldade imposta de maneira sistemática e eficiente ao longo de muitos e muitos anos, fruto da mistura de interesses privados que priorizavam o transporte em ônibus com o insaciável apetite de governantes. A combinação de vontades só foi possível graças à conivência de muita gente, aqueles que não toleram uma cidade mais democrática e que só gostam de ver pobres na tela do cinema.


Compromissos para todo mundo

separador Por Fernando Molica em 15 de abril de 2014 | Link | Comentários (0)

Coluna 'Estação Carioca', 30/12/13:

Neste finalzinho de 2013 (xô!), conjugo no plural aquelas velhas promessas de Ano Novo. Listo aqui algumas para governos, administradores públicos e para todos que vivemos em coletividade. Ninguém costuma dar muita bola aos compromissos assumidos diante de fogos e taças de espumante, mas, se um ficar de olho no outro, quem sabe?

A primeira parte da lista vai para aqueles que elegemos. Fica proibido culpar São Pedro pelas enchentes, nada daquela história de que choveu em 12 horas o previsto para chover no mês inteiro. Isto é previsível, no verão é assim mesmo, o aguaceiro vem pesado, derruba encostas e as casas nelas construídas, faz com que os rios -- espremidos por loteamentos e obras de canalização -- retomem seu curso original. Culpar a quantidade de água que caiu é como esquimó reclamar de neve, não cola.

Ao longo de 2014 não serão aceitas também desculpas relacionadas à falta de professores, à má qualidade do ensino, às vergonhosas participações de estudantes brasileiros em exames internacionais que medem grau de aprendizagem. Governos e políticos que promovem Copa do Mundo e Olimpíadas, que compram caças suecos, constroem submarinos nucleares e transformam a FAB em empresa de táxi-aéreo não podem alegar falta de dinheiro para a Educação. O mesmo vale para a Saúde. Não serão admitidas justificativas para filas em hospitais, para a crônica falta de vagas em centros cirúrgicos ou UTIs. O país é grande e rico, os serviços têm que ser dimensionados para o tamanho da população.

Sindicatos e outras entidades de professores e médicos passarão a priorizar os interesses de seus patrões, os cidadãos que pagam impostos. Ninguém aguenta ver alunos e doentes transformados em barricadas involuntárias de lutas que dizem respeito às categorias profissionais. Brigar por salários é justo, mas não vale ter apenas a questionável coragem de fazer greve apenas no setor público, que não demite ninguém. Pra não dizer que não falei em transportes: nenhum ser humano merece levar mais de uma hora para chegar ao seu local de estudo ou trabalho, a vida não pode ser desperdiçada dentro de ônibus ou trens. Governante que não der um jeito nisso nem deveria ter sido candidato.

Antes que o espaço acabe, vale lembrar a nossa parte. Não há perdão para estacionar carro na calçada, rodar pelo acostamento, furar fila, fechar cruzamento e votar em bandidos. Ah, não vale qualquer justificativa para impedir uma eventual nova queda do Fluminense. No mais, feliz 2014.


Páginas tão belas

separador Por Fernando Molica em 15 de abril de 2014 | Link | Comentários (0)

Coluna 'Estação Carioca', O DIA, 16/12/13:


A presença no palco de Waldir 59 era um sinal de que a Portela, tão maltratada nas últimas décadas, decidira, enfim, respeitar um dos elementos fundamentais da tradição africana, o culto ao passado, aos ancestrais. Aos 86 anos, o mais antigo sócio vivo da escola foi colocado numa cadeira de onde acompanharia a noite em que se apresentariam, bem na sua frente, a Velha Guarda, Paulinho da Viola e Marisa Monte

Compositor de cinco sambas-enredos portelenses, Waldir 59 estava ali na condição de homenageado, mas também exercia uma espécie de vigilância, algo essencial a uma agremiação que sonha em retomar seus melhores dias, seu passado de glória.

A cegueira causada por um glaucoma não o impediria de ver se a escola -- que no ápice do desatino chegou a barrar a entrada de seus baluartes na Avenida -- estava mesmo disposta a fazer as pazes com sua história, ponto de partida para novas conquistas. Não foi à toa que Paulinho, sempre atento às pontes entre passado e futuro, iniciou sua apresentação com um samba de Zé Keti, outro portelense ilustre e que anda meio esquecido.

Conduzido ao microfone por Monarco, Waldir 59 cantou 'Riquezas do meu Brasil', samba-enredo ufanista de 1956, composto com Candeia: ao gritar o 'Brasil, Brasil, Brasil' da letra, parecia dizer 'Portela, Portela, Portela'. Na madrugada de domingo, ele deve ter ido para casa feliz, certo de que sua escola reencontrou seu caminho. Quem esteve sábado no Portelão tem direito de usar todos os chavões e adjetivos para definir a noite: inesquecível, espetacular, emocionante.

O show foi pensado para arrecadar recursos para a escola, mas representou muito mais do que isso. Marcou -- meu coração mangueirense está certo disto -- o renascimento de uma das principais instituições cariocas. Uma escola que gerou páginas tão belas e sambas tão lindos não pode deixar de ser protagonista no maior de todos os espetáculos.

*

Por conta das mudanças no DIA , esta 'Estação Carioca' passa a ser publicada às segundas. O jornal, amanhã, retomará seu formato tradicional, standard, e chegará às bancas maior e mais bonito. Esta volta às origens tem a mesma lógica citada por Paulinho da Viola em 'Dança da solidão': ao pensar no futuro não podemos esquecer do nosso passado. Como diz o samba do portelense Alvaiade ('O mundo é assim'), o dia se renova todo dia


Apertos no conforto do táxi

separador Por Fernando Molica em 15 de abril de 2014 | Link | Comentários (0)

Coluna 'Estação Carioca', jornal O DIA, 11/12/13:

Entendo o sufoco de quem dirige táxi. Não é fácil rodar numa cidade engarrafada, que se transforma em Veneza dos trópicos quando chove mais forte. Quem paga diária ainda sofre para conseguir levar alguma grana para casa. Mas passageiros também penam. Além do pecado mortal da cobrança fora do taxímetro, no tiro, são vítimas de uma série de outras situações. É chato quando o taxista pergunta pelo destino antes de o cliente embarcar. Táxi é serviço público, não cabe ao concessionário definir a corrida. Quando isso ocorre, costumo não responder, busco outro carro. Uma vez, irritado, expliquei que não buscava uma carona, que pagaria pelo serviço, logo, tinha o direito de escolher para onde ir.

O assédio também é irritante. Em locais de muito movimento -- aeroportos, shoppings, casas de shows -- é comum ouvirmos os insistentes gritos de táxi!, táxi!, táxi! Algumas vezes, apelei para a ironia, ressaltei que cabe ao passageiro chamar o táxi, não ao táxi chamar o passageiro. Há também os motoristas DJs e MCs. E tome pancadão, dance, pagode e gospels durante a viagem. Nesses casos, simulo uma conversa ao telefone para justificar o pedido de diminuição do volume do som. E os taxistas que gostam de acompanhar novelas e ver filmes ou musicais enquanto dirigem? A legislação diz que monitores de TV só podem ser colocados na parte dianteira do veículo caso tenham mecanismo que os tornem inoperantes quando o carro estiver em movimento. Quase ninguém respeita isso, o que aumenta a possibilidade de acidentes e eleva a impaciência do passageiro. O mesmo abuso, cometem taxistas que falam ao celular enquanto dirigem. O passageiro, locatário daquele veículo durante a corrida, que se conforme em ouvir relatos de problemas financeiros ou de brigas conjugais.

Tantas mazelas se apoiam na falta de punição e de um transporte público decente. Como em qualquer campo, serviços tendem a melhorar quando expostos à concorrência. A prefeitura, por exemplo, poderia imitar outras cidades no transporte para o aeroporto. Bastaria aproveitar os futuros BRTs e criar ônibus para o Galeão que teriam espaço para bagagem na própria cabine de passageiros. Uns veículos iriam para Jacarepaguá e Barra pela Transcarioca; outros -- bastaria construir uma alça que ligasse as duas vias expressas -- pegariam a Transbrasil assim que deixassem a Ilha do Fundão e seguiriam para o Centro e a Zona Oeste. Já seria um avanço.


Os arrastões dos invisíveis

separador Por Fernando Molica em 15 de abril de 2014 | Link | Comentários (0)

Coluna 'Estação Carioca',O DIA, 4/12/13:

Desde o primeiro arrastão ocorrido em praia carioca, isto há uns 20 anos, que o balanço dos casos revela um paradoxo. O volume de objetos roubados não é nem de longe compatível com a confusão e o pânico revelados pelos vídeos e fotos. Na TV, vemos uma espécie de corrida rumo ao apocalipse, centenas de milhares de pessoas apavoradas, buscando algum refúgio. Imagens mais fechadas mostram a movimentação de jovens magrelos, prováveis responsáveis pelo caos. Na maior parte das vezes, eles não aparecem furtando, mas exercitando uma violência mais voltada para a geração daquele tumulto. Parecem interessados em brincar de brigar, algo suficiente para deixar todo mundo apavorado.

Não é que não ocorram crimes, há furtos, roubos e agressões, mas a lista de delitos costuma, no fim das contas, ser bem pequena. Daí, arrisco dizer que os arrastões são, principalmente, uma espécie estranha e violenta de lazer praiano que tem como objetivo principal botar os outros para correr. Os 'outros' são os que se julgam donos da praia, que moram ali por perto, ou dizem que moram. São aqueles ali de pele mais branca e cabelos mais lisos, os que lamentam os ônibus que, no Posto 6, despejam suburbanos pretos ou quase pretos. São eles, os mesmos que alardeiam os valores de seu IPTU nas redes sociais; filhos ou netos dos que, há quase 30 anos, não tiveram vergonha de reivindicar que ônibus vindos do subúrbio pelo Rebouças não circulassem nos domingos e feriados. Como não podem evitar a presença dos visitantes indesejáveis, fazem o possível para deixá-los desconfortáveis, procuram tornar ainda mais evidente o abismo social que os separa daquela gente diferenciada. Levantam o nariz, viram a cara e fingem que não veem ou ouvem os que chegam do além-túnel.

Contra a humilhação imposta pela invisibilidade forçada vale aumentar o volume do funk nos carros, exagerar nos passos ensaiados na areia, andar em grupo, assumir a postura de que o espaço hostil está dominado. Aqueles jovens gritam para ser ouvidos e vistos. Em dias mais quentes, a diversão pode ser outra, uma vingança que se manifesta em botar pra correr os que gostariam de vê-los longe dali. Não é difícil, as vítimas têm celulares caros, carteiras, filhos pequenos; têm, principalmente, medo daqueles que tentam não ver. De vez em quando, acabam sendo obrigados a ouvi-los, a enxergá-los, e a correr deles.


BG
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