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A vingança dos nomes

separador Por Fernando Molica em 01 de dezembro de 2013 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 20 de novembro:

Os Hyuris, Rhayners e Adryans do futebol brasileiro terão sucessores à altura nas próximas décadas. Nota publicada domingo no 'Informe do DIA' revela que nas maternidades da prefeitura quase 20% dos bebês ostentam Y, K ou W em suas certidões de nascimento. E tome de Danubyas, Tiffanys e Keycienes. Até nomes mais comuns ganham versões estrangeiradas, como Julya ou Jhullya e Nycollas ou Nickolas.

O fenômeno não se repete em uma grande maternidade privada do Rio, a Perinatal. Por lá, o índice de nomes mais, digamos, criativos não chega a 3%. Entre os nascidos na última segunda-feira, apenas uma menina recebeu um Y de presente.

Como os nomes recheados de letrinhas que andaram banidas da língua portuguesa ocorrem principalmente nas maternidades públicas, dá para dizer que esta é uma opção que vinga entre os mais pobres. São eles que levam adiante a versão brasileira da Geracão Y cubana -- os berçários particulares, dos nenéns mais ricos, estão cheios de Bentos e Joaquins. Mas por que razão tanta gente resolve deixar pra trás nomes tão sonoros e bonitos como Maria, José, Benedita, Sebastião, Pedro? Arrisco dizer que isto está relacionado a uma necessidade, ainda que simbólica, de fuga da miséria. Mais, representa uma negação do vínculo com o país.

Tanto tempo depois da independência, ainda não nos livramos da lógica, comum em países colonizados, de valorizar o que vem de fora. Aqui, tivemos o agravante da escravidão -- suas vítimas eram obrigadas a dar aos filhos nomes cristãos, impostos por seus donos e pela Igreja. O batismo reforçava a permanência da servidão, a projetava para o futuro.

Esses nomes de escravos passaram a ser identificados com os pobres. Dar ao filho um nome estrangeiro ou que remete a outras culturas representaria a tentativa de apagar marcas dolorosas, de impedir a perpetuação de um dos sinais da pobreza. Funcionaria também como protesto, um jeito de mostrar uma certa vergonha do país que, ao longo dos séculos, não tem oferecido berço esplêndido à maioria de seus filhos. Não vale ironizar a profusão de Ys, Ks e Ws -- as letras representam uma espécie de vingança, o troco daqueles que não receberam, na língua materna, o carinho e o respeito que lhes eram devidos. Ao negar sua origem, os pais desses bebês deixam clara a exclusão de que foram vítimas.


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