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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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dezembro 2013 Archives

Trecho de 'O inventário de Julio Reis´

separador Por Fernando Molica em 01 de dezembro de 2013 | Link | Comentários (0)
Frederico não esboçou reação ao, no fim do jantar, saber de um caso de separação na família. O assunto que tanto mobilizava os que estavam em volta da mesa não pareceu afetá-lo. Ignorou as aflições de Lilina e dos filhos. Fixou os olhos no prato, nos restos de feijão, arroz e bife. Em silêncio, comeu o pedaço de pão com que sempre arrematava suas refeições e, sem pronunciar qualquer palavra, nem mesmo desejar boa-noite, deixou a mesa da cozinha, foi ao banheiro, onde ficou por menos de cinco minutos. Depois, caminhou até seu quarto. Tirou a camiseta branca sem mangas, as calças azuis, as meias; vestiu o pijama, apagou a luz e foi dormir. Repetia gestos de 60 anos antes, quando, num domingo à noite, ao perguntar pelo pai, soube por Isabel que ele não voltaria mais para casa, não moraria mais lá. "Lembra, meu filho, daquela nossa conversa?" Frederico lembrava, mas preferia que ela não tivesse ocorrido. O menino de 10 anos recebia a informação de que aquela não seria mais a casa de Julio, de seu pai. Porta de entrada, sala, sofá, oratório, piano, poltrona, cadeiras, lustres, tapete, cristaleira, jarras de licor, quadros, mesa, cozinha com cerâmica até a metade da parede, quarto do casal, cama, colcha, quarto de Frederico, armário de roupas, paredes azuis, paredes verdes, paredes amareladas, marcas de vazamento da chuva, telhas boas, uma ou outra telha quebrada, casinha no fundo do quintal -- nada daquilo pertenceria mais ao universo de seu pai. Tudo seria desconectado, perderia o sentido com o qual Frederico se acostumara. As poucas árvores, as flores, aquelas rosas, as margaridas, o comigo-ninguém- pode. As três janelas voltadas para o quintal, as duas viradas para a rua. O portão da rua, o rangido do portão que, muitas vezes tarde da noite, anunciava a chegada de Julio Reis, ruído que acalmava o filho, que o protegia, que assegurava uma noite tranquila. Os muros não muito altos que sustentavam o portão e que demarcavam o limite da casa, da sua casa, da casa de sua família, da casa de sua mãe e do seu pai. A casa que desde sempre era de todos não seria mais a mesma casa. Frederico nunca vivera fora dela, sempre estivera ali, ao lado de sua mãe e de seu pai. Aquele portão continuaria a ser aberto e fechado, mas não mais daquele jeito, não produziria o mesmo barulho; o piano não mais receberia os dedos do seu pai, dedos de pianista profissional, dedos de compositor. Dedos que viravam as noites tateando o marfim do teclado em busca da confirmação deste ou daquele som, desta ou daquela velocidade, da oportunidade de um determinado compasso. Dedos que hesitavam na escolha da intensidade de um trecho da composição, um pianissimo, um mezzopiano. A casa não mais estremeceria nos fortissimo ou nos molto fortissimo. Aquelas cordas deixariam de vibrar insistentes, repetindo notas, combinações de sons graves e agudos. Não mais estancariam em um acorde imperfeito, incompleto, que não abria caminhos para a continuação de uma melodia. Acorde que seria repetido à insistência, com dezenas de variações, até que seu destino fosse encontrado. Daquele piano não mais brotariam, pelo menos, não brotariam da maneira com que se acostumara a ouvir, os sons de músicas compostas por seu pai: D. Juan, Alma em flor e sua favorita, Alvorada das rosas. Ele aprenderia a tocar aquelas músicas, pediria à sua mãe para ensinar-lhe. Ela também poderia executá-las, mas não seria o mesmo, Frederico não mais as ouviria nascer dos dedos magros e ossudos de seu pai. Não mais ali, naquela sala, diante daquela parede azul, daquele piano emoldurado por aquele sofá, aquelas cadeiras e aqueles quadros, perto daquela mancha que indicava um vazamento no teto, fruto de uma ou outra telha quebrada. Sua mãe fora bem clara: seu pai não mais moraria com eles.

O novo Lulu das mulheres

separador Por Fernando Molica em 01 de dezembro de 2013 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 27 de novembro:

Soube que a moda dos últimos quinze minutos na internet é um aplicativo, um tal de Lulu, que dá às mulheres a possibilidade de divulgar o que pensam de determinados homens. O programa permite que elas nos deem notas, digam se somos assim, assado ou muito pelo contrário. Uma bolsa de valores em que vale apostar e blefar -- duvido que sejam sinceras na hora de sair por aí alardeando qualidades de seus ex ou de eventuais futuros amantes.

Para algumas, trata-se de uma espécie de revanche das canalhices masculinas. Ou seja, assim elas apenas reproduzem uma atitude machista, demonstram querer se igualar aos manés que alardeiam suspostas conquistas em mesa de bar. Como alguém disse outro dia, esse negócio de julgar os outros é perigoso, costuma dizer mais sobre o avaliador do que sobre o avaliado.

O aplicativo, sintoma desses tempos de evasão de privacidade, parte do pressuposto errado, o da existência de um parâmetro, de um modelo de ser humano como aquela bailarina da música do Edu Lobo e do Chico Buarque, a que não tinha qualquer defeito. Besteira, o que nos enriquece não é a perfeição, são os limites que nos humanizam. Uma vez, me apresentei a uma moça de maneira quase suicida: botafoguense, recém-separado e pai de dois filhos. Por incrível que pareça, deu certo, ela deve ter ficado comovida com tamanha sinceridade.

Pecamos por ser míopes ou por enxergarmos até o que não deveríamos ver, somos baixos ou altos demais, sérios ou bobos, petistas, black blocs ou tucanos. Já bebemos demais, erramos feio no voto, acordamos em camas onde sequer deveríamos ter dormido. Mais de uma vez gritamos gol e a bola foi pra fora; aqui, ousamos em excesso, ali nos ferramos pela falta de coragem de mudar. Nossos defeitos e qualidades não são absolutos, não dependem apenas de nossa avaliação, são construídos e reconhecidos por nossos amigos, filhos, amantes e, mesmo, adversários -- alguns destes nos dignificam. A régua que nos mede varia a cada momento, é capaz de mudar diante de uma nova história, o que soa terrível aos olhos de alguns será visto com muito carinho por outros. Mutantes, alternamos acertos e falhas e até mesmo a avaliação sobre atitudes pretéritas, o erro do passado pode, ao longo dos anos, se transformar em fonte de alívio e alegria. Tudo muda o tempo todo no mundo, como canta um outro e mais esperto Lulu.


A vingança dos nomes

separador Por Fernando Molica em 01 de dezembro de 2013 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 20 de novembro:

Os Hyuris, Rhayners e Adryans do futebol brasileiro terão sucessores à altura nas próximas décadas. Nota publicada domingo no 'Informe do DIA' revela que nas maternidades da prefeitura quase 20% dos bebês ostentam Y, K ou W em suas certidões de nascimento. E tome de Danubyas, Tiffanys e Keycienes. Até nomes mais comuns ganham versões estrangeiradas, como Julya ou Jhullya e Nycollas ou Nickolas.

O fenômeno não se repete em uma grande maternidade privada do Rio, a Perinatal. Por lá, o índice de nomes mais, digamos, criativos não chega a 3%. Entre os nascidos na última segunda-feira, apenas uma menina recebeu um Y de presente.

Como os nomes recheados de letrinhas que andaram banidas da língua portuguesa ocorrem principalmente nas maternidades públicas, dá para dizer que esta é uma opção que vinga entre os mais pobres. São eles que levam adiante a versão brasileira da Geracão Y cubana -- os berçários particulares, dos nenéns mais ricos, estão cheios de Bentos e Joaquins. Mas por que razão tanta gente resolve deixar pra trás nomes tão sonoros e bonitos como Maria, José, Benedita, Sebastião, Pedro? Arrisco dizer que isto está relacionado a uma necessidade, ainda que simbólica, de fuga da miséria. Mais, representa uma negação do vínculo com o país.

Tanto tempo depois da independência, ainda não nos livramos da lógica, comum em países colonizados, de valorizar o que vem de fora. Aqui, tivemos o agravante da escravidão -- suas vítimas eram obrigadas a dar aos filhos nomes cristãos, impostos por seus donos e pela Igreja. O batismo reforçava a permanência da servidão, a projetava para o futuro.

Esses nomes de escravos passaram a ser identificados com os pobres. Dar ao filho um nome estrangeiro ou que remete a outras culturas representaria a tentativa de apagar marcas dolorosas, de impedir a perpetuação de um dos sinais da pobreza. Funcionaria também como protesto, um jeito de mostrar uma certa vergonha do país que, ao longo dos séculos, não tem oferecido berço esplêndido à maioria de seus filhos. Não vale ironizar a profusão de Ys, Ks e Ws -- as letras representam uma espécie de vingança, o troco daqueles que não receberam, na língua materna, o carinho e o respeito que lhes eram devidos. Ao negar sua origem, os pais desses bebês deixam clara a exclusão de que foram vítimas.


O menino que mergulha no lixo e no esgoto

separador Por Fernando Molica em 01 de dezembro de 2013 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 13 de novembro:

É impossível não ficar chocado com uma das imagens mais terríveis que vi nos últimos tempos. Há onze dias, o 'Jornal do Commercio', do Recife, publicou fotos, feitas por Diego Nigro, de um menino de nove anos nadando num mar de esgoto e de lixo. Morador da favela Saramandaia, Paulo Henrique, a exemplo de outros amigos, mergulha no imundo Canal do Arruda para catar latas de alumínio. As imagens do garoto envolto por embalagens, garrafas, sacos plásticos percorreram o mundo, mas, por aqui, parecem esquecidas.

Chega a ser assustador o silêncio cúmplice de governantes e da sociedade. A foto não foi suficiente para derrubar qualquer governo ou provocar uma passeata, a repercussão foi bem menor que a ocorrida no caso dos beagles. Pesquiso no Google e não encontro uma declaração da presidenta Dilma Rousseff, uma frase do ex-presidente Lula -- pernambucano como o menino --, um gesto do governador do estado, Eduardo Campos, hoje tão envolvido com sua candidatura ao Planalto.

Marina Silva parece ter ficado muda diante do garoto. Nem mesmo Aécio Neves e José Serra, do PSDB, lembraram-se de citá-lo. Nos jornais, vemos apenas a preocupação de todos esses políticos com as eleições de 2014, com a formação de alianças. É como se Paulinho e outros tantos meninos e meninas não existissem, ou morassem em Marte. Black blocs que gritam por qualquer causa, quebram bancos, incendeiam ônibus, depredam assembleias legislativas e câmaras municipais não se mostraram dispostos a ocupar Saramadaia, onde a miséria não se esconde atrás de máscaras.

Acionada pelo Conselho Tutelar, a Prefeitura do Recife anunciou alguns benefícios para as famílias das crianças. É pouco. Paulinho não mergulhou apenas no esgoto e no lixo, ficou imerso nos escândalos que se revezam na TV e nas páginas dos jornais e revistas, no superfaturamento de obras, no roubo mas faço, na lentidão da Justiça, na impunidade, na troca de votos no Congresso por lucrativos cargos no governo, na falta de escolas decentes, na ausência de obras de saneamento, na falta de vergonha na cara. Na foto, o menino está cercado de Brasil por todos os lados.


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