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A hora de aterrissar

separador Por Fernando Molica em 07 de novembro de 2013 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, O DIA, 30/10:

Combinemos o óbvio: ninguém pode ser agredido. Isso vale para quem esteja em manifestações públicas, em estádios de futebol, dentro de casa, em presídios, em qualquer lugar. O respeito à integridade física do outro é um valor fundamental, básico, qualquer exceção abre margem para todo tipo de abuso. A violência não pode ser tolerada -- quem a pratica deve ser preso e punido --, mas é preciso tentar entendê-la. Buscar compreendê-la não significa anistiar seus autores, é um esforço necessário até para evitar sua repetição.

A prática de atos violentos não pode ser vista apenas como uma reação tardia às balas de borracha disparadas na exagerada repressão às primeiras passeatas. Atitudes como depredar agências bancárias, incendiar ônibus, saquear lojas e agredir policiais e jornalistas foram banalizadas. A violência passou a ser estratégica, incorporou-se à lógica dos protestos.

Manifestantes envolvidos em depredações e saques não são muitos, mas o número é suficiente para acender a tal luz amarela diante do nariz de todos que exercem o poder ou que dele se beneficiam. Os mascarados são arrogantes, mimados, se acham acima das leis, utilizam táticas fascistas, procuram se impor pela força, não demonstram qualquer apreço pelo contraditório.

Apesar disso tudo, expressam um descontentamento difuso de uma população que mora mal, sofre nos transportes públicos, tem pouco acesso aos serviços de saúde, é vítima de uma polícia tantas vezes violenta e corrupta, fica escandalizada com a roubalheira generalizada no setor público e que percebe na escola um mecanismo não de mobilidade social, mas de manutenção de nossa indecente desigualdade.

O aumento da renda da população e o maior acesso a informações despertaram o desejo de mais justiça e evidenciaram a exclusão. A desordem nas ruas ressalta a precariedade da ordem em que nos acostumamos a viver e reforça a ideia de que ninguém representa o cidadão. Esta ausência de representação leva à busca de uma intervenção direta, autoritária e até violenta. Viciados no exercício de um poder que tem origem pública e objetivos privados, muitos de nossos políticos parecem não entender bem o que se passa. Acham possível escapar da crise num jatinho de empreiteira ou da FAB. Excelências, pelo bem de todos, já passou da hora de aterrissar. Aproveitem que as pistas de pouso ainda não foram ocupadas.


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