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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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agosto 2013 Archives

Os políticos e o choque de humildade

separador Por Fernando Molica em 15 de agosto de 2013 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 31 de julho:

O governador Sérgio Cabral disse que a passagem do Papa Francisco pelo Brasil fez com que ele ficasse mais humilde. Vai ser divertido se o exemplo do jesuíta-franciscano se disseminar entre nossos políticos, mais afeitos, de um modo geral, ao luxo que costumava emanar do Vaticano. Nas viagens de fim de semana, nada de helicópteros, aviões ou lanchas. Veremos governador, senadores, deputados e juízes presos no engarrafamento da Ponte Rio-Niterói, animados com a feijoada, em Iguabinha, na casa de praia de um amigo de infância. Sim, os sofisticados encantos da Costa Verde -- Angra, Mangaratiba -- serão substituídos pelos ares agradáveis e mais populares da Região dos Lagos. Nos carros -- particulares -- de suas excelências se apertarão a patroa, as crianças, o filho do vizinho e a sogra. Ventiladores, repelente, TV de 14 polegadas, garrafão de Sangue de Boi, geladeira de isopor, um vira-lata e uns quatro travesseiros disputarão espaço na bagagem.

Nas férias, nada de Paris, Barcelona ou de jantar naquele restaurante exclusivíssimo na Dinamarca. Estação de águas em São Lourenço, praia em Guarapari e visita à tia em Aracaju voltarão ao cotidiano de nossas autoridades. No máximo, haverá a chance de uma esticada em Buenos Aires graças a um daqueles pacotes vendidos em dez prestações sem juros.

Contatos com grandes empresários serão menos frequentes. O jeito será promover churrasquinho na calçada com aquele ex-bilionário que, sempre antenado com os novos tempos, antecipou, com a derrocada de seu império, as dificuldades que viriam pela frente. Os jornais é que sairão perdendo com a mudança. Escândalos envolvendo políticos e empreiteiros serão substituídos por notícias mais prosaicas: um padeiro favorecido em licitação para fornecer brioches para algum palácio, o caso do empresário que deu uma bicicleta usada para o filho do prefeito de cidade do interior. Esposas do poder, saudosas de seus tempos de glória, farão fila nos sapateiros para pintar de vermelho-Louboutin as solas de seus escarpins.

Mas, com o tempo, nossos homens públicos se cansarão de tantas restrições, ficarão deprimidos, terão dificuldade até para governar. E, assim como quem não quer nada, encaminharão à Embraer pedido para a fabricação de aviões e helicópteros populares, de motor 1.0 -- sem ar-condicionado, direção hidráulica ou vidros elétricos. Tudo bem básico.


O papa que não tem jeito de papa

separador Por Fernando Molica em 15 de agosto de 2013 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 24 de julho:

O mais interessante na figura de Francisco é que ele não tem menor cara de Papa, parece um ator mal escalado para o papel. Não exibe o ar missionário de João Paulo II nem a austeridade de Bento XVI. O primeiro tentava a conversão pelas benesses da fé, se angustiava ao ver que boa parte do mundo se divorciava da rigidez de dogmas católicos, parecia não entender como tanta gente abria mão de uma salvação incontestável.

Ex-responsável pela doutrina da fé, o intelectual Ratzinger articulou sua eleição com a certeza de que iria para o sacrifício em nome de um bem maior. Rígido, acenava com o inferno, não vacilava ao apontar o castigo que esperava as ovelhas desgarradas. Tanta firmeza, porém, deixava transparecer a nostalgia de suas bibliotecas e gabinetes de trabalho. Sabia que não era amado como seu antecessor; abatido pela idade e pelos sucessivos escândalos à sua volta, optou pelo gesto inesperado da renúncia e voltou para sua confortável clausura.

Ambos pareciam encarnar dois dos pilares da Igreja: o carismático e peregrino João Paulo lembrava São Paulo, que percorria o mundo em busca de novos fiéis. Bento era São Pedro, construtor da instituição que se fez igreja e poder. Bergoglio, que optou pelo nome e pelo estilo de São Francisco de Assis, quebrou esta dualidade. Barrigudo, parece um tio interiorano que gosta de contar piadas, driblar dietas e de tomar uma cervejinha de vez em quando (está mais para Lula, assim como Bento XVI exibia um certo jeito Dilma Rousseff de ser).

O despojamento de Francisco lhe garante popularidade neste início de pontificado. Mas, agora, ele passa a encarar um jogo mais difícil. Não são poucas as exigências que a Igreja faz para seus fiéis, em especial, para os jovens. Não será fácil convencê-los de que a virgindade deve ser mantida até o casamento, que o divórcio é inaceitável, que Deus rejeita a homossexualidade de seus filhos. Não será simples carimbar de pecado o desejo e o amor que brotam no ser humano. Isto, num momento em que o Brasil e o mundo debatem temas mais ligados à esfera e à ética públicas, como corrupção, espionagem e crise econômica. Francisco, com seu jeito de gente como a gente, tentará mostrar que esses descaminhos têm a ver com o comportamento privado de cada um, vale conferir seu poder de persuasão. No mais, como diz o escritor Carlos Heitor Cony, um ex-seminarista, ser católico não é pra quem quer, é pra quem pode.


A pátria não precisa de um salvador

separador Por Fernando Molica em 15 de agosto de 2013 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA,03q7:

As especulações sobre uma possível candidatura do ministro Joaquim Barbosa à Presidência da República revelam o quanto muita gente insiste em apostar na figura do salvador da pátria. O presidente do STF é citado como presidenciável não por suas posições políticas, por eventuais planos de governo. É lembrado porque passou a encarnar a imagem de incorruptível, de moralizador, de um homem que não se dobra a outros poderosos. Barbosa é citado por não ser político; mais, por ter sido um dos principais responsáveis pela condenação de políticos. É como se fosse alguém maior que todos nós.

Pelo visto, muita gente anda em busca não de um presidente da República, mas de um paizão daqueles de outrora. Rígido, autoritário, inflexível, exigente na cobrança de horários e notas escolares; atento para amizades, namoros e comprimento das saias. Alguém que zele pela nação já que o povo brasileiro -- pelo menos, parte dele -- se confessa incapaz de cuidar de suas instituições. É como afirmássemos que ainda não somos crescidos o suficiente para debater nossos problemas em busca de uma solução. Precisamos de alguém que nos diga o que fazer.

Tenho lá minhas críticas ao ministro, mas reconheço nele uma série de qualidades e o direito de almejar a um cargo eletivo. Mas não tenho paciência com a negação da política, política aqui entendida como a disputa entre diferentes pontos de vista (corrupção não tem nada a ver com a política; pelo menos, não deveria ter). Se num grupo de seis pessoas não é fácil obter consenso, imagine então quando do debate participam quase 200 milhões de brasileiros. Daí a necessidade de buscar maiorias, de aparar arestas, de negociar. E é aí que entra a política.

O caminho para a diminuição da roubalheira não passa pela eleição de apenas uma pessoa. Até porque, por melhores que sejam o caráter e as intenções do escolhido, ninguém está livre de sucumbir às necessidades de um governo ou mesmo às tentações que se apresentam. A construção de uma política mais digna passa, principalmente, pela existência de instituições capazes de dificultar as safadezas e de punir quem fizer o que não deve. Não precisamos de um super-homem que domine e enquadre as instituições; mas de uma sociedade capaz de criar instituições que impeçam bandalhas cometidas por homens e mulheres. A tarefa de salvar a pátria é de todos nós.


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