Estação Piedade: a biografia de Fernando MolicaEstante: livros públicados pelo MolicaPáginas Amarelas: textos, artigos e outras palavras maisJulio Reis: Biografia, Músicas e PartiturasBlog: Pontos de PartidaFoto MolicaClique para voltar a página principalFoto Molicawww.fernandomolica.com.brEntre em contato com o Fernando MolicaInformações para imprensa

Blog

Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

separador
BG

julho 2013 Archives

A desestatização das mentes

separador Por Fernando Molica em 15 de julho de 2013 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 26/6:

A recém-aberta temporada de manifestações públicas representa, talvez, a derradeira etapa da desestatização iniciada há mais de 20 anos, durante o governo Collor. Agora, a situação é diferente, estamos diante de um processo que, na prática, diminui o poder do Estado. Ao gritar que partidos políticos são desnecessários, parte da multidão reivindica o papel principal no jogo político, não quer ser mais figurante.

Ao revelar que não se sente representada pelos atuais políticos -- eleitos por nós, vale frisar --, o povo da rua deixa clara a insatisfação com as instituições que, em tese, viabilizariam o exercício de nossa democracia. O pessoal erra ao fazer uma condenação genérica aos partidos: eles são necessários, fundamentais. Mas precisavam mesmo tomar um sacode para entender que existem para representar não os interesses de seus caciques, mas as diversas correntes de pensamento existentes na sociedade. Somos quase 200 milhões de pessoas, temos divergências entre nós, é bom que essas posições estejam presentes na briga política, no Congresso.

Ao rejeitar o atual modelo de representação, as ruas ajudam a quebrar nossa dependência em relação ao Estado. Até como uma espécie de herança das longas ditaduras, aprendemos a responsabilizar governos por nossos problemas. Uma postura confortável, que nos absolvia de muitos deveres. É como se não tivéssemos qualquer compromisso com nossa cidade, nosso estado ou país. Tudo era problema "deles", dos políticos, só eles é que seriam incompetentes ou safados. Isto dava uma espécie de carta branca para transgressões: parar carro na calçada, dar grana para o PM, entrar pela janela no serviço público, não assinar a carteira da empregada, não fornecer nota fiscal.

Como diria Leonel Brizola, ao dar um não rotundo a tudo o que está aí, as passeatas apertam os políticos, mas também colocam o dedo nas feridas de cada manifestante. Ao propor uma refundação das instituições, a sociedade assume o compromisso de olhar para a própria cara. É hora de garantir uma participação mais efetiva e permanente, de delegar menos, de refletir sobre o que cada um pode fazer para melhorar uma sociedade tão injusta. Isto vale também para nós, jornalistas, ainda muito viciados na cobertura do poder institucional. Parte do poder mudou de mãos, está espalhado pelas ruas, é bom prestar mais atenção nesses novos protagonistas.


Os cobradores tomaram as ruas

separador Por Fernando Molica em 15 de julho de 2013 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 19/6:

Bastou um pretexto, nada mais do que um estopim. Pequenas manifestações contra o aumento das passagens de ônibus liberaram uma energia que não se sabia tão grande, tão forte. A violência da repressão policial serviu para amplificar o sentimento de revolta e dar a certeza da exclusão, da necessidade de partir para o ataque.

Contra o que são os protestos? São contra o que você quiser, escolha um motivo. É como a piada, eles sabem por que apanham: passagens caras, transporte desumano, obras bilionárias para a Copa do Mundo que atropelaram leis, direitos adquiridos e bom-senso, ameaça de retirada de poderes do Ministério Público, conchavos, subordinação de setores do Judiciário ao Executivo, auxílio-alimentação retroativo para o Tribunal de Contas da União, licitações fraudadas, políticos de um modo geral.

O país melhorou muito, mas continua pobre, desigual ao extremo, incapaz de oferecer uma educação de qualidade,que permita alternativas de ascensão social. Entra governo e sai governo e os hospitais públicos continuam a impedir que jornais fiquem sem notícias; boa parte da polícia dedica-se a provar que existe apenas para garantir o poder de quem manda. Como bem detectou o deputado federal Miro Teixeira (PDT), a busca do consenso a qualquer preço acabou com as necessárias divergências políticas. Na grande maioria dos casos, eleições não revelam uma disputa entre concepções ou propostas, mas apenas conflitos de interesses: em busca de votos, Fernando Henrique Cardoso se aliou a Antônio Carlos Magalhães; Lula se tornou companheiro de Maluf. Manifestantes erram ao propor uma política sem políticos ou partidos, isso era o que pregavam os fascistas, foi assim que Collor se elegeu. Mas não dá para culpar os novos donos das ruas pela visão equivocada. Foi a atuação de políticos que desqualificou a política, eles plantaram a revolta que hoje se vê pelo país.

'O cobrador', conto de Rubem Fonseca, ajuda a entender um pouco esta revolta. O personagem principal comete crimes em série para cobrar tudo o que a vida havia lhe negado: "Tão me devendo colégio, namorada, aparelho de som, respeito, sanduíche de mortadela no botequim da rua Vieira Fazenda, sorvete, bola de futebol." As ruas estão cheias de cobradores, cabe aos governos negociar o pagamento de tantas dívidas acumuladas e evitar que a cobrança se torne intolerável e perigosa.


Trilha sonora para os corações solitários

separador Por Fernando Molica em 15 de julho de 2013 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 12/6:

Neste Dia dos Namorados, um conselho para os desiludidos, os que tomaram chute no traseiro, aqueles cujos cotovelos fazem buracos em mesa de bar. A trilha sonora para hoje deve passar longe dos CDs em que Jamelão canta Lupicínio Rodrigues (estes deveriam ser vendidos apenas com receita médica) e de Chico Buarque.

Nosso maior compositor é impiedoso ao falar de separações e da permanência de amores desfeitos. Faca só lâmina, perfura o peito ao descrever o sangue que erra de veia, o pijama largado ao pé da cama, o adorar pelo avesso. Com ele não tem conversa, a tristeza é infinita, cheia de cicatrizes; o amor liga afobado, deixa confissões e confusões na secretária eletrônica. Não adianta disfarçar, mudar de calçada quando aparece uma flor: fica patente o sentimento de perda, a melancolia de um amor a ser deixado para amantes que, no futuro, dele desfrutarão. Sobra também um amor-contemplação, perdido num improvável tempo da delicadeza, "Onde não diremos nada;/ Nada aconteceu./Apenas seguirei/Como encantado ao lado teu."

A esta altura você já deve estar certo de que, por hoje, é melhor deixar o Chico fora do ar. Sugiro então um mergulho em Paulinho da Viola. Mestre no diagnóstico de amores findos, do beijo que já não arde, ele, apesar da dureza das constatações, tem uma postura mais plácida, menos hemorrágica em relação ao que passou e consegue até transmitir alguma expectativa de felicidade. Em 'Pra fugir da saudade' (com Elton Medeiros), confessa que, num samba, desfaz o que lhe fora feito. Vale chorar e, depois, retirar "De todo amor o espinho/Profundamente deixado" ('Coração imprudente', com Capinam). Conforma-se até em saber da paixão irrealizável por um coração leviano, que nunca será de ninguém. Não quer viver enganado.

Aqui, ele recorre a Cartola e Bide e roga para que a malvada, ao ouvir os seus ais, volte ao lar pra viver em paz; ali, admite sofrimento e a dificuldade de ficar sem a companheira. Porém, na maior parte das músicas sobre o tema, Paulinho transpira mais resignação e menos desespero, tateia alguma esperança, fala, também com Elton Medeiros, de um coração que seja um lago tranquilo onde a dor não tenha razão. Ele não aponta saídas, mas, craque experiente, ajuda a acalmar o jogo, a botar a bola no chão. E, como ressalta em 'Coisas do mundo, minha nêga', não deixa de buscar a melhor forma de se viver


O amor que teria sido inventado

separador Por Fernando Molica em 15 de julho de 2013 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 05/6:

Dando uma das minhas habituais voltas nesse mundão sem porteiras que é a internet, me deparei com artigo que cita um livro do psicanalista Jurandir Costa Freire, 'Sem fraude e sem favor -- estudos sobre o amor romântico'. Nele, o autor sustenta que o amor "é uma crença emocional e, como toda crença, pode ser mantida, alterada, dispensada, trocada, melhorada, piorada ou abolida".

Mais, diz que o amor como o conhecemos foi inventado, assim como a roda, o casamento, o computador, a democracia, o nazismo e os deuses. É como se a ideia do amor fosse uma espécie de casca de banana em que voluntariamente nos dispuséssemos a pisar e a escorregar. Assim, nos arriscaríamos a cair em depressão ao comparar nossos amores -- capengas, cheios de medos, dúvidas e limites -- com as paixões perfeitas e arrebatadoras dos filmes e novelas. Cultivaríamos sarnas para nos coçar e frustrar.

Faz sentido, mas não dá para jogar em Hollywood e nos velhos e adocicados livros a, vá lá, culpa por essa tal invenção do amor, por sua imposição. As referências ao sentimento e às sensações que provoca são bem anteriores. Quem duvida pode dar uma folheada no 'Cântico dos cânticos' da Bíblia, apenas um entre os muitos exemplos possíveis. Por mais imperfeito, frágil e volúvel que seja, o amor é algo humano, não tem necessariamente a ver com o suprimento de necessidades. Um animal se afeiçoa a quem o alimenta e abriga, mas resisto a classificar como amor algo que me parece mais próximo a uma lógica de sobrevivência.

Talvez o problema esteja relacionado ao ângulo de observação. Ao equiparar o amor a objetos e crenças, Freire parece, digamos, disposto a rebaixá-lo, a colocá-lo no seu devido lugar. Mas pode ser o contrário. Ao incluí-lo numa lista de criações humanas -- nem todas positivas; dela consta, por exemplo, o nazismo --, ele o encaixou numa honrada posição. Prefiro acreditar que o amor não foi inventado, mas, sim, sintetizado numa palavra que -- com todas as limitações e imperfeições da linguagem -- tenta traduzir, definir e enquadrar aquela intraduzível, indefinível e inenquadrável profusão de sentimentos e desejos; nem todos nobres, mas inegavelmente humanos. O suposto ato intelectual que teria criado o amor não seria, assim, fruto de mentes dispostas a nos fazer sofrer, mas apenas uma resposta aos anseios que deveras já carregávamos.


O eterno retorno de um outro Nelson

separador Por Fernando Molica em 15 de julho de 2013 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 29/5:

Companheiro de uma mulher bem mais nova, ele chega em casa e encontra a prova da traição: o cigarro deixado no quarto é da marca preferida pelo amigo. Parte para a vingança? Não, cita seus cabelos brancos para justificar o perdão a "uma criança" e deseja que o sujeito viva em paz com aquela que manchou seu nome. A solução parece inusitada apenas para quem não conhece um pouco da obra de Nelson Cavaquinho (1911-1986), um dos maiores compositores da música brasileira e que, com Guilherme de Brito, fez uma parceria do nível João Bosco e Aldir Blanc, Tom e Vinicius, Pelé e Coutinho.

'Notícia' (composto com Alcides Caminha e Nourival Bahia) é apenas um dos grandes exemplos dos dribles que Nelson/Garrincha pregava no óbvio, no senso comum. Suas canções, quase todas noturnas, melancólicas, transpiravam ceticismo, não cultivavam ilusões. Sua poesia vinha da dureza do mundo, da quase certeza de ser esquecido depois da morte ("Se alguém quiser fazer por mim/que faça agora", 'Quando eu me chamar saudade'). A inevitável passagem desta para a supostamente melhor era ressaltada nos mais improváveis momentos: "Quando eu passo/perto das flores/Quase elas dizem assim:/Vai que amanhã enfeitaremos o seu fim" ('Eu e as flores', com Jair do Cavaquinho).

Rei vadio, dono das calçadas, íntimo da madrugada e dos becos, chegou a compartilhar a autoria de algumas músicas apenas para pagar a quem o socorrera com um prato de comida ou com um quarto em algum hotel do Centro. Sua festa era breve, a tristeza -- ao contrário do que cantou em 'Minha festa' -- não acabava. Que sorrisos saíssem do caminho, ele precisava passar com sua dor. Por falar nisto: 'A flor e o espinho', de Nelson-Guilherme, merece ficar numa daquelas cápsulas do tempo que testemunham, para gerações futuras, o melhor do que já foi feito pela humanidade.

Talvez nada defina tão bem o espírito do compositor do que 'Rugas' (com Augusto Garcez e Ari Monteiro), aquela em que, para não morrer cedo, ele diz não pensar muito na vida. No samba, admite esconder sua mágoa, finge-se alegre, ressalta que nunca ninguém o viu com os olhos rasos d'água. No último verso surge a impiedosa e derradeira estocada. Dá um chega pra lá no chavão que associa felicidade ao saber viver e dispara, certo da onipresença da dor: "Feliz aquele que sabe sofrer."


A verdade necessária para o país

separador Por Fernando Molica em 15 de julho de 2013 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 22/5:

Volta e meia, algum inconformado com a Comissão Nacional da Verdade reclama que as investigações apuram apenas crimes cometidos por agentes do Estado durante a ditadura e ignoram os atos da esquerda armada. A argumentação parece correta, mas não é: boa parte da atuação da guerrilha contra o regime e pela implantação do socialismo no país foi devassada durante o próprio governo militar. Milhares de pessoas foram presas, interrogadas, processadas. Muitas delas foram vítimas da tortura então institucionalizada pelos donos do poder.

Assaltos a bancos, atentados a instalações financeiras ou quartéis, sequestros de diplomatas, mortes em combate e assassinatos ( "justiçamentos" de adversários e de aliados) cometidos por organizações clandestinas foram quase todos apurados, seus autores são conhecidos; ao contrário dos torturadores, a grande maioria dos guerrilheiros assume o que fez. Além da barbárie a que foram submetidos nos porões do regime, muitos dos antigos militantes contra a ditadura -- inclusive aqueles não aderiram à luta armada -- foram presos, outros foram exilados ou assassinados. Há centenas de casos de desaparecidos.

A grande questão é que só um lado da história foi contado de forma oficial: a versão de quem prendeu, torturou e condenou. Os processos contra as organizações de esquerda são públicos, podem ser consultados nos arquivos da Justiça Militar. É fundamental, agora, que o Estado brasileiro mostre quem foram os autores dos crimes cometidos em seu nome, financiados com os impostos pagos pela população. É preciso saber quem deu choques elétricos em órgãos genitais de mulheres grávidas, quem arrancou unhas de presos, quem deu o tiro de misericórdia, quem incinerou corpos de adversários. É essencial revelar o destino dos cadáveres -- esse direito não é negado nem às famílias dos piores criminosos comuns.

Ex-agentes da ditadura se dizem orgulhosos do que fizeram. Que tenham então a coragem de revelar detalhes de sua prática, de contar o que fizeram, como fizeram, sob as ordens de quem. Não se trata de vingança, mas de um passo necessário para a superação de um trauma. O país não pode ter medo da verdade que sempre liberta. Uma verdade que, conhecida, ajudará a impedir a repetição dos erros e dos crimes cometidos durante aquele triste período de nossa história.


BG
© Todos os direitos reservados. Todos os textos por Fernando Molica, exceto quando indicado. Antes de usar algum texto, consulte o autor. créditos do site    Clique para ver os créditos do site