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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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maio 2013 Archives

Julio Reis de volta à casa de Ruy Barbosa

separador Por Fernando Molica em 17 de maio de 2013 | Link | Comentários (0)

Na manhã desta quinta, dia 16, a música de Julio Reis voltou a ser tocada na casa de Ruy Barbosa. Amigo do advogado e político, JR frequentava o casarão de Botafogo e costumava executar suas canções no piano que fica na sala de música, de frente para a Rua São Clemente.

Ontem, o local serviu de cenário para fotos de divulgação do CD 'João Bittencourt apresenta Julio Reis', que será lançado em julho. Devidamente autorizado, João sentou-se diante do mesmo piano usado por JR e dedilhou algumas músicas, entre elas, esta bela 'Valsa Serenade', que está no CD. Para ouvi-la, basta clicar no link:

Valse Serenade video.mp4


A casa que é da mãe Fifa

separador Por Fernando Molica em 17 de maio de 2013 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 15/5:

Às voltas com o pibinho, com o PMDB e com torturadores que mantêm a mesma postura covarde exibida nos porões da ditadura, Dilma Rousseff merece umas folgas. Dica: aproveitar as duas semanas da Copa das Confederações. De quebra, poderia programar férias de mês inteiro durante a Copa do Mundo de 2014. Não me leve a mal, presidenta, mas sua ausência não será notada. Nesses períodos, quem vai mandar por aqui é a Fifa, feliz proprietária do futebol mundial e dos grandes eventos relacionados ao mais popular dos esportes.

Quem duvida do poder dessas quatro letrinhas deve consultar as leis que o país criou sob sua encomenda. Vistos não poderão ser negados a quem tiver comprado ingressos para os jogos, a Fifa e seus prestadores de serviço terão direito a isenção de impostos e caberá à entidade definir quem poderá fazer publicidade num perímetro de dois quilômetros em torno de cada estádio. A Fifa está protegida até contra prejuízos causados pela violência. O Brasil se responsabilizará "por todo e qualquer dano resultante ou que tenha surgido em função de qualquer incidente ou acidente de segurança relacionado aos eventos". Eu também quero ter a mesma garantia do governo do meu país.

A entidade, é bom ressalvar, apenas estabelece regras para quem quiser sediar a Copa. O grave é aceitá-las sem contestação. Em nome dos acordos, o Iphan atropelou o tombamento do Maracanã, o governo estadual deu bom-dia com o chapéu alheio e ignorou o direito dos proprietários das 4.968 cadeiras cativas. Deveria ter avisado que não é dono de todo o Maracanã; isto não inviabilizaria a final da Copa no Rio, sobrariam umas 70 mil cadeiras (a Fifa exige 60.000 lugares). Até a presidenta do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, desembargadora Leila Mariano, citou os tais compromissos internacionais para legitimar a quebra do direito de propriedade das cadeiras. Postos na rua, donos das cativas devem estar se sentindo como os proprietários de imóveis que, em 1808, foram obrigados a ceder seus imóveis para a comitiva real portuguesa.

Enfim, presidenta Dilma, apareça na abertura e nas finais das copas e, no intervalo, trate de viajar, pegar uma praia. Eu ficarei por aqui, terei que trabalhar. Poderia ser pior, pelo menos meu apartamento e meu carro não foram confiscados para serem usados pelos figurões da Fifa.


João Cabral e a fé no espetáculo da vida

separador Por Fernando Molica em 17 de maio de 2013 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 8/5:

Deve até estar dentro da média, mas o noticiário dos últimos dias foi duro de engolir, tamanha a quantidade de casos de agressão à vida: a menina de Goiânia baleada ao defender o pai, a dentista queimada viva em São Bernardo do Campo, o homossexual atropelado e morto em São Gonçalo, os estupros no Rio e -- por que não? -- a caçada ao bandido transformada num videogame em que a busca pelo alvo se revela mais importante do que o respeito à integridade de quem passava pela rua. É como se, nesses casos, a vida fosse equiparada às mortes que ocorrem num filme do 007, sem sangue, sem dor.
Diante de tanta insanidade, vale lembrar de um dos mais bonitos e emocionantes textos de exaltação à vida escritos em português, o quase sexagenário poema e auto de Natal 'Morte e vida severina', do pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999). Não sou um bom leitor de poesia, tenho dificuldades de me enquadrar no ritmo dos poetas, de embarcar em suas divisões. Mas me apaixonei pelo poema ao ouvi-lo, pela primeira vez, num belíssimo especial produzido pela Globo em 1981 e que foi estrelado pelo grande José Dumont (que, por sinal, anda meio sumido). O programa se baseava na versão musicada por Chico Buarque.
O poema narra a migração de um Severino que cruza o Sertão em busca do mar. Na jornada, tropeça várias vezes com a morte. A "indesejada das gentes", como a chamou outro grande poeta pernambucano, Manuel Bandeira, atravessa de diversas formas o caminho do retirante. Diante de tanta tristeza, ele desabafa: "Desde que estou retirando/só a morte vejo ativa."
Desencantado com a miséria dos mangues, Severino vê o Rio Capibaribe e questiona a própria vida: "E chegando, aprendo que,/nessa viagem que eu fazia,/sem saber desde o Sertão,/ meu próprio enterro eu seguia." Mas sua tristeza é interrompida pelo nascimento de um menino, "uma criança pálida,/é uma criança franzina,/mas tem a marca de homem,/marca de humana oficina." Apesar de magro, é belo "porque com o novo/todo o velho contagia." O retirante ouve então que não há melhor resposta "que o espetáculo da vida"; "vê-la desfiar seu fio,/ que também se chama vida". No fim, João Cabral ressalta a beleza e o valor de qualquer vida que brota e explode, "mesmo quando é uma explosão/como a de há pouco, franzina;/mesmo quando é a explosão/de uma vida severina."


O novo estádio do bairro do Maracanã

separador Por Fernando Molica em 17 de maio de 2013 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 01/5:

As aparências -- externas -- enganam. O moderno e bonito estádio de futebol localizado no bairro do Maracanã não é o Maracanã. Não se trata de saudosismo, mas de uma constatação. Sábado, me vi perdido num local que frequentava desde os meus 6, 7 anos e comprovei minha certeza de não encontrar o o Maraca que também era meu. Um estádio que conheci menino, levado por meu pai. Ele que então ressaltou a particularidade de a marquise não ser sustentada por colunas. Não há mais a tal marquise.
O novo estádio, que lembra ginásios do basquete americano, é bonito e terá papel importante na cidade. Isto, apesar de alguns poréns, como a decisão de colocar a primeira fila de cadeiras no nível do gramado, o que afeta a visibilidade do público e pode comprometer a segurança. Mas, insisto, não é o Maracanã: fiquei triste ao, pela primeira vez, não receber o impacto, antes sempre renovado, de encarar a imensidão da arquibancada, desafiadora e acolhedora. Arquibancada que abraçava, surpreendia e encantava. Bateu a sensação esquisita de não reconhecer minha própria casa; a reconstrução do estádio não teve o cuidado de preservar, na área interna, referências do Maracanã -- sequer consegui localizar onde ficavam as cabines de rádio. O fim do espaço que separava arquibancadas das cadeiras azuis, uma caverna quase circular, tirou volume e parte da grandiosidade do espaço ocupado pelo público, que ficou parecendo uma forma de empada.
Os responsáveis pela reforma do Estádio Olímpico de Berlim mantiveram a tribuna tantas vezes usadas por Hitler -- a história não pode ser esquecida -- e a pista onde o negro Jesse Owens derrubou a suposta superioridade branca. Eu, sábado, sequer conseguia saber em que lado do campo o Maurício fez, em 1989, num dos dias mais felizes da minha vida, o gol que lavou duas décadas de decepções. Não identifiquei também o trecho da arquibancada onde encontrava meus amigos.
Claro que o Maracanã precisava ser reformado, mas o processo deveria ter sido diferente: o tombamento do estádio foi atropelado, não houve sequer um concurso público para a escolha de um projeto capaz de conciliar conforto, segurança, tradição e modernidade. Mas, enfim, temos um novo espaço. Cabe a nós, torcedores, o desafio de humanizá-lo, de fazer com que, ao longo do tempo, também passe a ser nosso.


Ecos da escravidão à beira da Lagoa

separador Por Fernando Molica em 17 de maio de 2013 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 24/4:

Por volta das 11h30 de ontem, aquele canto da Lagoa chamado de Baixo Bebê estava como nos outros dias da semana. Mulheres negras, vestidas de branco, cuidavam de crianças branquinhas. São Jorge não foi suficiente para livrá-las da obrigação de levar os filhos dos patrões para brincar. Muitas devem dormir no trabalho, não tiveram como aproveitar o feriado.
O contraste remetia às gravuras de Debret, ao Brasil escravocrata. Aquele canto reforçou a certeza de que o passado continua muito presente. Ainda que valorizada, a mão-de-obra doméstica ainda é abundante e disponível até nos feriados.
A emenda que garante aos empregados domésticos os direitos dos outros trabalhadores escancarou o óbvio: o setor reproduz práticas vindas, sem escalas, da escravidão. Esta herança é que permitia se achar normal que uma pessoa ficasse à disposição de uma família das 8h de segunda até as 17h de sexta. Isso representa uma jornada de 105 horas semanais.
Sim, o empregado descansa parte desse tempo, mas está a mão para qualquer emergência, não se deita com quem gostaria de dormir, não pode sequer dar um beijinho de boa noite em seus próprios filhos, zelar por eles. É como se a empregada doméstica fosse uma pessoa diferente, que não tivesse família e a necessidade de dar e receber afetos.
É só comparar com o regime de quem trabalha em plataformas de petróleo -- por cada 14 dias embarcados, eles chegam a gozar de 21 folgas. Amarradas a uma jornada pesada, algumas babás deixam seus filhos, durante toda a semana, em instituições como a Obra do Berço, ali perto do Baixo Bebê. Isto, para que possam cuidar dos filhos dos outros.
Crianças que são acostumadas a, desde pequenas, mandar em outros seres humanos, que não terão o privilégio de ser obrigadas a arrumar a cama e a lavar seus pratos -- é assim que se faz nos países desenvolvidos, onde o serviço doméstico é raro.
A mudança na lei deverá gerar algum desemprego, mas arrisco dizer que até isto será bom, servirá como estímulo a jovens que deixavam de estudar diante da perspectiva de um bom salário como babás. O custo de uma doméstica também pressionará empresas a flexibilizar jornadas de trabalho -- pais precisarão sair mais cedo para pegar seus filhos -- e a aumentar a grita por mais creches públicas para todos. E, claro, obrigará muitos pais a cuidar de seus próprios filhos.


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