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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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abril 2013 Archives

O Maraca que era nosso

separador Por Fernando Molica em 30 de abril de 2013 | Link | Comentários (0)

Não aguentei ficar mais de dez minutos no novo estádio do bairro do Maracanã. Convidado, cheguei de micro-ônibus, entrei por um portão ao lado do Julio Delamare, outro estádio prestes a ser destruído, crônica de uma nova demolição anunciada. Pisei num lobby com piso de granito, algo como a sala de espera de um bom e moderno teatro. Encontrei o Alexandre Freeland e admiti que temia atravessar o túnel que levava às cadeiras. Temia pela certeza de não encontrar o Maracanã, o Maraca que também era meu. Um estádio que conheci menino, levado por meu pai - ele que então ressaltou a particularidade de a marquise, monumental, não ser sustentada por colunas. Não há mais a tal marquise.

Tomei fôlego e atravessei o túnel, e fiquei triste, muito triste, com muita vontade de chorar. O que vi nada se comparava com o impacto, antes sempre renovado, de encarar a arquibancada cheia, desafiadora e, ao mesmo tempo, acolhedora. Arquibancada que me abraçava e me ameaçava, que me encantava. O novo estádio do bairro do Maracanã é bonito, bonito e funcional como um ginásio da NBA. No lugar da quadra há um gramado, talvez pouco maior do que o de futebol society. Insisto, é bonito. Mas não é o Maracanã. Fiquei perdido, não sabia onde estava, onde estavam as antigas tribunas de Honra e de Impresa. Não havia referências, apenas uma gradação de cadeiras amarelas e azuis.

Não há mais aquele espaço vazio entre a arquibancada e as cadeiras, uma quase caverna circular, buraco negro que recebia nossas alegrias e lamentos. Já não sei em que lado do campo o Maurício fez, em 1989, o gol que lavou duas décadas de tristezas naquele que foi um dos dias mais felizes da minha vida. Não sei mais também onde foi que o Jefferson defendeu o pênalti cobrado pelo Adriano, onde ficava o gol que Garrincha, em sua despedida, tentou acertar. Não sei mais onde chorei derrotas e comemorei vitórias, o pedaço da arquibancada onde me encontrava com o Sérgio França, com o Ivan. Não sei onde que recebi a ligação de um dos meus filhos que, da Itália, telefonava para comemorar um campeonato do Botafogo.

Ao olhar para o alto, não vi de novo a marquise sem colunas. Ainda fiz algumas fotos, forcei um sorriso, ressaltei para mim a relevância de estar ali. Mas fui embora. Confesso que chorei ao atravessar volta o túnel, ao pisar o chão de granito, ao cruzar a porta de vidro e o portão ao lado de um Bellini que, creio, estava tão perdido quanto eu. Lamento que uma intervenção do porte da que foi feita não tenha sido sequer discutida e avaliada pela população do Rio de Janeiro, a dona daquele imóvel. Não tenho a menor vontade de voltar lá, mas em breve, na Copa das Confederações, retornarei. Vida que segue, como dizia o Saldanha. Estarei de novo no estádio construído no lugar do Maraca que era nosso.


A demora cúmplice de Justiça

separador Por Fernando Molica em 22 de abril de 2013 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 17/4:

Levei um susto com o julgamento de policiais militares acusados do massacre do Carandiru, em São Paulo. É quase inacreditável saber que alguns dos supostos responsáveis pela chacina só venham a encarar a Justiça quase 22 anos depois do fato. Assim como é absurdo notar que a apuração do crime tratou de, ao longo dos anos, livrar a cara de autoridades como o então governador de São Paulo, Luiz Antonio Fleury Filho, e seu secretário de Segurança, Pedro Franco de Campos.

O intervalo entre o caso Carandiru e seu julgamento diz muito sobre a nossa Justiça. É uma agressão, um desrespeito a quem acredita numa sociedade capaz de respeitar os direitos básicos de cada um de nós. O prazo de mais de duas décadas não é por acaso, não reflete apenas a competência de advogados encarregados de garantir a impunidade de seus clientes.

O longo período reforça a existência de pessoas -- entre elas, policiais e autoridades -- que se dispuseram a, tardiamente, assumir a cumplicidade dos que determinaram e praticaram uma das maiores barbáries de nossa história recente: a invasão de um presídio e a execução de 111 homens desarmados. Sei que alguns gostariam de fazer uma correção na frase anterior; substituiriam a expressão "homens desarmados" por "bandidos". Mas, desculpe, vou deixar do jeito que está. O o fato de as vítimas serem criminosos condenados não retira delas a condição de homens, seres humanos como eu e você.

Não, não gosto de bandidos, não carregaria nenhum deles pra casa. Os que foram mortos no Carandiru cometeram atos que os levaram para a cadeia, onde cumpririam uma pena determinada pela sociedade. Lá, deveriam ter sua integridade física respeitada -- a tarefa está incluída nos salários que pagamos a carcereiros, policiais, secretários de segurança e governadores. Sim, muita gente defende que criminosos não deveriam ter qualquer direito, sugerem até prêmios para os policiais que invadiram o presídio. Os adeptos do extermínio, porém, esquecem que ninguém está livre da violência praticada pelas forças do Estado. Qualquer um de nós -- jornalistas, médicos, operários, faxineiros, advogados -- pode ser vítima da arbitrariedade de um policial. A condenação da chacina e da lerdeza cúmplice da Justiça representa um gesto humanista, de defesa da civilidade e das leis, mas é também uma espécie de habeas corpus preventivo para todos.


A Fifa e o novo chute no nosso traseiro

separador Por Fernando Molica em 22 de abril de 2013 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 10/4:

Rio - Além de nos fazer gastar os tubos com estádios e de obter diversos privilégios, a Fifa deu mais um chute no nosso traseiro ao vetar o nome do Garrincha. Nas copas das Confederações e do Mundo, o nome de um dos maiores jogadores da história não poderá ser citado nas referências oficiais ao palco brasiliense das competições. O Estádio Nacional Mané Garrincha perderá, nas duas ocasiões, seu ilustre sobrenome.

A história tem óbvias razões comerciais. A Fifa não quer saber de nada que fuja do seu controle ou do seu caixa. É tão insaciável que, mesmo diante da perspectiva de uma nova goleada de lucros, não abre mão de imitar as torcidas e de gritar "mais um, mais um" -- no caso, mais um milhão.

Pior é que, no fundo, as razões da Fifa fazem sentido. Garrincha, com suas pernas tortas, com sua imprevisibilidade, com sua alegria de jogar, representa o avesso da lógica que move o futebol contemporâneo. O jeito Fifa pressupõe um futebol empresarial, de plateias insossas, jogado em estádios assépticos, que cobram ingressos caros e mostram cartão vermelho ao torcedor mais pobre. Um futebol que pouco se constrange com escândalos que envolvem entidades e cartolas.

Mais grave que a arrogância da Fifa é a subserviência de nossos governantes e dirigentes esportivos. Fiel ao seu nome, o governador do Distrito Federal, Agnelo (cordeiro em italiano) Queiroz, preparou projeto que autoriza a adoção, no estádio, da denominação escolhida pela Fifa. O exemplo não veio só dele: na construção e reforma dos estádios, recomendações da entidade foram traduzidas como se fossem ordens. Tanta passividade estimulou absurdos como a omissão de Garrincha.

Há poucos anos, encontrei uma autoridade envolvida com a organização da Copa brasileira. Ela revelou que, nos preparativos da competição de 2006, a Fifa implicara com a pista de atletismo do Estádio Olímpico de Berlim, que distanciava o público do campo de futebol. O problema é que tal pista é histórica: foi nela que, em 1936, o negro americano Jesse Owens deu um vareio em Hitler e em suas teses de superioridade ariana. Os alemães bateram o pé, mandaram a Fifa catar salsicha no bar da esquina, mantiveram a pista e promoveram a final da Copa no estádio. "Não sei como eles conseguiram isso", comentou a tal autoridade. "Deve ser porque eles falaram grosso e em alemão", respondi. A Fifa sabe quais traseiros pode chutar.


Arrá, urru, o absurdo é nosso

separador Por Fernando Molica em 22 de abril de 2013 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 03/4:

O almoço de trabalho chegava ao fim quando meu interlocutor, baiano, citou uma frase de Octávio Mangabeira, ex-governador de seu estado: "Pense num absurdo, na Bahia tem precedente." Na saída do restaurante, o manobrista resolveu mostrar que nós, por aqui, não ficamos muito atrás nessa história de precedentes e trouxe meu carro pela contramão.

Nossos exemplos de absurdos garantem uma boa disputa com os baianos. A alguns meses da Copa das Confederações, engenheiros e operários correm para tentar aprontar a nova versão do Maracanã. Estádio que, depois de perder o título de maior do mundo, pode disputar vaga no Guinness, o livro de recordes, como o mais reformado da Terra. Parece aquelas mulheres que, depois de tantas plásticas, têm dificuldades de encontrar partes fundamentais de sua anatomia.

Não bastasse o bota-abaixo no Maraca, o governo estadual resolveu que a privatização do estádio só seria possível caso houvesse a construção de dois edifícios-garagem, monstrengos que podem chegar à altura de um prédio de sete andares. Para viabilizar essas obras, não previstas nos planos originais de reforma do estádio, determinou a demolição de duas instalações esportivas importantes -- o Parque Aquático Julio Delamare e o Estádio de Atletismo Célio de Barros. Isso, antes de fazer o projeto dos edifícios com as vagas, tarefa que caberá ao concessionário do Maracanã. Ou seja, três anos antes da Olimpíada, dois centros de treinamento e de competições dos mais nobres esportes olímpicos serão derrubados. As instalações que os substituirão sequer foram projetadas. Ainda há o risco de, no futuro, o Iphan não aprovar a construção dos tais edifícios-garagem no entorno do Maracanã, um bem tombado (tombamento desmoralizado pelo pelo próprio Iphan). Ou seja: poderemos ficar sem os estádios e sem as vagas.

Para aumentar nossas chances na briga de absurdos com os baianos, vale lembrar problemas em três dos principais palcos do Pan: o velódromo será desmontado, o Parque Maria Lenk foi vetado para a natação olímpica, e o Engenhão acabou interditado. Às vésperas da mais importante competição esportiva internacional, atletas estão sem ter onde treinar, e o público não sabe onde verá as competições. Até agora, não há culpados nem presos. Desculpe, Mangabeira, a precedência é nossa.


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