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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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março 2013 Archives

Corações partidos, por Herbert e Paulinho

separador Por Fernando Molica em 31 de março de 2013 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 27/3:

Com atraso de alguns meses, coloquei pra tocar no carro o 'Victoria', CD que Herbert Vianna lançou no ano passado. Difícil agora é apertar o stop no meio de qualquer uma das 20 faixas em que o cantor e compositor, com a habilidade e frieza de um cirurgião, corta e costura corações.

O líder do Paralamas é o mais discreto entre os popstars do rock brasileiro. Daí, talvez, venha parte de minha identificação com ele. Herbert usa óculos, é meio sem jeito, era esnobado pelas meninas do Leblon. Mas a capa de timidez esconde uma crueza explicitada em versos como os que, em 'Pense bem', alertam para o risco de uma separação: "Se deixar morrer/ Nada traz o amor de volta".

Intimista como se gravado num quarto atulhado de livros, discos e alguma memória praiana, o CD, aqui e ali, atinge o alvo crucial, o momento em que se constata o fim de uma história: "Pra começar/ Dizer que o amor chegou ao fim" ('Pra terminar'). Em 'Eu não sei nada de você', o cara admite lutar "por algo que já não é meu"; na faixa seguinte ('Junto ao mar'), chuta de vez o balde: "Estranho é o amor/ Quando já não está".

A ênfase no tema faz lembrar Paulinho da Viola, mestre em detectar, no beijo que já não arde, "o reverso inevitável da paixão" ('Quando bate uma saudade'). Arrisco dizer que Herbert adoraria assinar versos como "Nenhum sinal de emoção/ Não quero você assim" ou "Não quero sentir em tua boca/ Esse beijo frio é caso perdido", presentes em 'Não quero você assim' e 'Estamos noutra' (esta, composta com Elton Medeiros).

Outro que parece se sentir pouco à vontade no papel de estrela, Paulinho não se constrange em arremessar petardos como o presente em 'Tudo se transformou': "A razão desta tristeza/É saber que nosso amor passou". Em 'Momento de fraqueza', se dá ao luxo de brincar: "Um samba/ Sem querer cantei errado/ Não era amor sem fim/ Mas sim amor já terminado."

Integrantes de gerações diferentes, ligados a movimentos musicais que, vindos da mesma raiz, seguem caminhos que pouco se cruzam, Herbert e Paulinho construíram, sem querer, uma tabelinha de fazer inveja a Pelé e Coutinho. É quando, por exemplo, o roqueiro lança a bola em 'Sinto muito' -- "Dentro de você existe alguém/ Existe alguém que quer nos afastar" -- e o sambista arremata com "Hoje vejo nos teus olhos/ Que a flor do nosso amor morreu" ('Não é assim'). Cruéis, muito cruéis, como dizia aquele velho locutor esportivo.


O trote não é brincadeira

separador Por Fernando Molica em 31 de março de 2013 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 20/3:

Muita gente se espantou com as manifestações nazistas e racistas ocorridas em trote promovido por estudantes de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais. Não me surpreendi nem um pouco. Trote é, por definição, autoritário e fascista. É praticado por trogloditas que sentem prazer em humilhar o outro. Em sua mediocridade, intuem que só assim poderão ser vistos e notados.

Somos um país violento -- e não falo aqui apenas de atrocidades cometidas por bandidos. Nascida e criada na escravidão, a sociedade brasileira conviveu, durante séculos, com a tortura escancarada e legalizada, com espancamentos, com o racismo, com o açoitamento de seres humanos em praças públicas.

Até hoje, muita gente ainda defende -- até em voz alta -- castigos físicos a suspeitos de cometer crimes. O pelourinho não foi de todo abolido entre nós. A resistência de chefes militares em admitir o uso indiscriminado da tortura durante a ditadura implantada em 1964 demonstra conivência com a prática e uma não-indignação com a barbárie -- este silêncio é revelador.

A presença dessa herança autoritária ajuda a explicar a cumplicidade com o trote. Alunos, pais, professores, diretores e reitores são, no mínimo por omissão, parceiros da brutalidade e do preconceito. Fecham os olhos, tratam os casos como apenas uma travessura cometida por jovens. Talvez achem até que alguns merecem passar por isso -- quem mandou ser negro, pobre, homossexual? Já houve até homicídios praticados sob a capa de trote; pelo que sei, ninguém está preso por conta disso.

O trote é inadmissível mesmo em suas formas, digamos, mais leves. Não dá para aceitar como normal ver, nas ruas, calouros de corpos pintados -- chamados de "bichos" ou "bixos" -- obrigados a pedir dinheiro para pagar a cerveja de veteranos. Alguns destes dizem que apenas se vingam do que sofreram, lógica tacanha que perpetua a indignidade. A polícia, o Ministério Público e a Reitoria da UFMG têm a obrigação de punir os culpados pelos atos de violência explícita. Trata-se de uma instituição federal, não admito que meu dinheiro seja usado para bancar os estudos de um sujeito que, para citar apenas um exemplo, pinta uma colega de preto e nela pendura um cartaz racista. Quem fez isso tem que ser expulso da universidade e processado. Não se trata de brincadeira, mas de crime.


Os queridos times de nossas aldeias

separador Por Fernando Molica em 31 de março de 2013 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 13/3:

Outro dia, topei com reportagem sobre os primeiros dias de Lucas, ex-São Paulo, no Paris Saint-Germain. A matéria revelou um sujeito muito à vontade no moderno universo do futebol. Tanto que ele me surpreendeu ao falar de seu grande objetivo. Perto de uma Copa no Brasil, tentei antecipar sua resposta. Claro que o craque diria estar focado no hexa. Errei. Revelou ser movido pela possibilidade de ser eleito o melhor do mundo.

Ao dizer que seu maior alvo é individual, não coletivo, o jogador, de 20 anos, mostrou adaptação ao meio, à lógica do cada um por si. Astro de um grande negócio, é justo que pense em sua carreira de maneira empresarial, se vê como um produto que vai sendo inserido no mercado. Não por acaso, seu primeiro pouso é na França, país de menor importância no futebol. Depois da Copa, deverá migrar para a Inglaterra, Espanha ou Itália.

É justo que os artistas que movimentam essa máquina sejam muito bem remunerados, sem eles não haveria futebol. Mas talvez o mesmo processo que anima o Lucas ajude a explicar nossa relação meio morna com a seleção brasileira. Os interesses comerciais que envolvem o esporte e a velocidade com que jogadores são revelados e exportados minam nosso entusiasmo. Mal conseguimos identificar muitos dos convocados, alguns saíram do país com menos de 18 anos, não tiveram tempo de conquistar um lugar no coração dos torcedores.

Esse Diego Costa, chamado pelo Felipão, estreou no futebol profissional, aos 17 anos, lá em Portugal. O desconhecimento alimenta desconfianças -- seu empresário é o mesmo do técnico brasileiro -- e contribui para que fiquemos reticentes com a Seleção. Os jogadores, assim como o capital, não têm mais pátria, muitos dos convocados são brasileiros apenas pelo acaso de terem nascido aqui, construíram suas vidas no exterior.

Perdidos neste admirável e desconhecido mundo novo futebolístico, ficamos cada vez mais ancorados em nossos próprios times. Neles, até jogadores estrangeiros se tornam íntimos; acabam, digamos, nacionalizados: foi assim com o Petkovit (que virou Pet) e o Loco Abreu. Arrisco dizer que a maioria dos torcedores brasileiros trocaria a vitória na Copa por uma grande conquista de seu clube. Eu troco. Do meu time eu entendo, conheço virtudes e falhas, sou capaz de aplaudir e cornetar com alguma razão. Em meio a tanto desenraizamento, nada melhor que a companhia do querido time da minha aldeia.


A imagem da palavra

separador Por Fernando Molica em 12 de março de 2013 | Link | Comentários (0)

A Rede Minas veiculou, na quinta e no domingo, no programa 'Imagem da Palavra', a entrevista que gravei no Fórum das Letras de Ouro Preto.

A conversa foi dividida em dois blocos, 'O inventário de Julio Reis' é tema do segundo. A entrevista pode ser vista aqui:


Uma ligação para Abraham Lincoln

separador Por Fernando Molica em 09 de março de 2013 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 6/3:

Tenho um amigo que desistiu de ir ao cinema. Nada contra os filmes atuais, o problema dele é com o comportamento do público nas salas de exibição. Não suporta mais o crec-crec dos comedores de pipoca, o slarpt-ploft do abrir e fechar de embalagens de alimentos, as intermináveis conversas durante a projeção e a profusão de lanterninhas amadores, pessoas que chegam atrasadas e acendem seus celulares em busca de seus lugares. Há também os que insistem em deixar telefones ligados e que não conseguem deixar de conferir ligações e mensagens.

Outro dia, num dos momentos cruciais de 'Lincoln', o fim da escravidão dependia de uma comunicação a ser feita ao presidente norte-americano. Nenhum problema: o celular tocou no gabinete da Casa Branca justo naquele momento. Não, não havia celulares na época da ação, o telefone que rompia a lógica do filme soava dentro do cinema onde eu estava. Deu vontade de gritar "É pra você, Abraham!"

Muitos espectadores padecem de uma espécie de síndrome de Galvão Bueno. Não basta ver o filme, é preciso narrá-lo, comentá-lo, quiçá ouvir a opinião do internauta, solicitar que ele defina o que o Django, personagem-título do filme do Quentin Tarantino, deve fazer com esse ou aquele escravagista. Vai mandar tiro ou não vai?

As trilhas sonoras ganharam a função de servir de fundo musical para as conversas. Talvez influenciados pelas novelas, em que diálogos costumam ter mais importância narrativa que imagens, parte do público acha que aquela musiquinha é apenas enrolação e tem, no filme, o mesmo efeito da bossa nova que torna mais agradáveis as imagens do Leblon.

A barulheira no cinema revela dificuldade de convivência no espaço público, base da lógica democrática. Viver em sociedade implica parar no sinal vermelho, respeitar limites de velocidade, não trafegar pelo acostamento, não pisar na grama, comer de boca fechada, conter a eventual vontade de tomar banho de mar pelado. Mas essas pequenas concessões garantem um mínimo de civilidade -- nós não conseguiríamos ir à esquina se cada um fizesse tudo o que lhe dá na telha. E isso se aplica ao comportamento no cinema: não se pede muita coisa, apenas o respeito a quem também comprou ingresso e que não acha normal ouvir um celular tocando, em 1865, no gabinete do presidente Lincoln.


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