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Nossa santinha merece descansar em paz

separador Por Fernando Molica em 13 de fevereiro de 2013 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 23/01

Carioca praticante, confesso: nunca ouvira falar na Odetinha, na possibilidade de uma conterrânea ser elevada à santidade. Levando-se em conta a quantidade de gente que passou por este nosso belo vale de lágrimas, samba e cerveja, ter apenas um candidato aos altares é até preocupante. Mas estamos bem representados. Ela, entre outras qualidades, foi criada em Botafogo, é possível até que gostasse dos clubes alvinegros -- havia o de Futebol e o de Regatas -- que já então enobreciam ainda mais o bairro.

A menina, que morreu aos nove anos depois de uma longa doença, acabou sendo venerada por muita gente. Seu túmulo virou ponto de peregrinação de quem buscava uma ajuda divina. Odetinha ganhou fama de ser uma boa embaixadora, alguém capaz de interceder a nosso favor. Diante disto, autoridades religiosas acharam por bem tentar fazer com que a Igreja Católica atestasse sua santidade, a velha história da voz do povo ser a voz de Deus.

Rejeitados pelos evangélicos, os santos são como amigos dos fiéis. Quase herdeiros dos deuses gregos e romanos, têm características humanas: heróis como Sebastião, caridosos como Francisco de Assis, intelectuais como Tomás de Aquino, guerreiros como Jorge, protetores como Maria. Uns aceitam papéis curiosos, como Antônio, que exerce com eficiência a função de casamenteiro. Caridosa e devota, Odetinha seria mais uma a facilitar nossa aproximação com os mistérios do Céu.

Nada contra o pleito, mas implico com a, digamos, campanha. Religiões têm o direito de reconhecer ou criar seus mitos, mas é meio esquisito ver o corpo de Odetinha ser exumado e colocado em uma urna que passou a ser exposta em igrejas e procissões. É como se a menina fosse, depois de morta, obrigada a fazer como o político que vai para as ruas arrebanhar simpatias e votos. Esta ênfase se choca com um princípio cristão, o que proclama a vitória da vida sobre a morte. A vida é que deveria ser ressaltada no momento em que a carioquinha começa a conquistar seu lugar nos templos católicos.

Torço para que Odetinha, a menina de Botafogo, estrela solitária de santidade neste Rio de tantos e doces pecados, seja reconhecida pelo Vaticano. E assim, legitimada, continue a olhar por nós. Mas essa trajetória poderia ser feita de modo a garantir que seus restos mortais, testemunhas de sua passagem por aqui, tivessem o santo direito de descansar em paz.


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