Estação Piedade: a biografia de Fernando MolicaEstante: livros públicados pelo MolicaPáginas Amarelas: textos, artigos e outras palavras maisJulio Reis: Biografia, Músicas e PartiturasBlog: Pontos de PartidaFoto MolicaClique para voltar a página principalFoto Molicawww.fernandomolica.com.brEntre em contato com o Fernando MolicaInformações para imprensa

Blog

Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

separador
BG

fevereiro 2013 Archives

A praia carioca é de todos

separador Por Fernando Molica em 27 de fevereiro de 2013 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 27/2:

Pelo visto, setores do Exército acham que podem ignorar a existência de algumas leis. Vamos lá. A Lei 7.661, de 16 de maio de 1988, é bem clara: "As praias são bens públicos de uso comum do povo, sendo assegurado, sempre, livre e franco acesso a elas e ao mar, em qualquer direção e sentido, ressalvados os trechos considerados de interesse de segurança nacional ou incluídos em áreas protegidas por legislação específica".

Mas, neste verão, o Exército resolveu ganhar um troco com uma praia que fica no Forte de Copacabana. Arrendou a área, por R$ 300 mil, a um grupo privado. Pelo acesso àquele nosso pedaço de orla, os empresários passaram a cobrar ingressos que chegam a R$ 250. O uso de um camarote pode custar R$ 20 mil por dia.

A construção já não tem qualquer função militar; desde 1987 que funciona apenas como centro cultural (lá fica o Museu Histórico do Exército), de lazer e de turismo. Desativado, o forte não pode ser considerado área de interesse de segurança nacional. Não se enquadra, portanto, na exceção prevista pela lei.

A privatização daquela área é injustificável e ilegal. Qualquer um de nós tem o sagrado direito de usufruir daquela praia sem pagar um centavo sequer (um decreto de 2004, que regulamentou a tal lei de 1988, ainda determina: "As áreas de domínio da União abrangidas por servidão de passagem ou vias de acesso às praias e ao mar serão objeto de cessão de uso em favor do Município correspondente").

As praias públicas, de livre acesso, ajudaram a criar a alma desta cidade, estimularam nossa capacidade de convivência, de tolerância, de respeito pela diferença. O Rio é o que é pela troca de experiências, de culturas, de identidades -- o samba cresceu ainda mais ao ser adotado pelo asfalto, passou a ser música de todos, não apenas do morro.

O precedente criado no Forte de Copacabana abre espaço para outras iniciativas semelhantes, crava uma flecha no espírito carioca, mancha nossa história e até compromete o futuro do nosso jeito de ser. É só conferir o que uma das frequentadoras da praia privê declarou à revista 'Veja Rio'. Afirmou que, naquele pedaço de areia, o público "é mais selecionado".

Faz até lembrar aqueles anúncios de emprego que, há algumas poucas décadas, barravam negros ao exigir uma suposta "boa aparência". O nome disso é preconceito -- não se põe corda na praia que é de todos nós.


Escolas, patronos e profissionalização

separador Por Fernando Molica em 27 de fevereiro de 2013 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 20/02:

Rio - A profissionalização do Carnaval, em particular das escolas de samba, esbarra numa espécie de pecado original, a falta de tradição democrática em quase todas elas. Basta dar uma olhada nas que compõem o Grupo Especial. É fácil associá-las a padrinhos, aos tais homens fortes que agiram e agem como se fossem seus donos. Uma situação que, de certa forma, replica um viés autoritário da sociedade brasileira. Movida por carinho e/ou por outros interesses, esta dedicação atrapalha uma administração mais eficiente dessas agremiações.

Em busca de proteção social e prestígio, muitos bicheiros seguiram o caminho desbravado por Natal na Portela e abriram os cofres para as escolas. Este foi um dos fatores determinantes para a ascensão, nos últimos anos, da Vila Isabel. Ter um contraventor para chamar de seu ajuda muito nos desfiles, mas também gera problemas.

A morte ou aposentadoria dos poderosos chefões tende a minar a situação das escolas por eles protegidas -- é só acompanhar a decadência da Mocidade Independente, que, apesar do orgulhoso nome, viveu seus momentos de glória quando dependia de Castor de Andrade. O último campeonato da escola foi em 1996, um ano antes da morte do patrono. Muita gente em Nilópolis teme pelo futuro da Beija-Flor, unha e carne com Aniz Abrahão David, o Anísio. Mas não são apenas os bicheiros. Não são incomuns os casos de dirigentes sem ligações com a contravenção, que, de tão longevos no comando, acabam se confundindo com as escolas.

Não tem jeito: a existência de pessoas com poderes excepcionais nas agremiações aumenta a possibilidade de problemas e facilita o uso descontrolado de verbas. Ditaduras, ainda que consentidas, são incompatíveis com a transparência. A presença dos patronos acirra os ânimos do Ministério Público, constrange investidores, cria problemas para a prefeitura e inibe a maior participação das comunidades nas escolas. O jogo está feito. No momento em que um outro poder paralelo tenta reeditar a saga dos bicheiros e se assanha para aprofundar sua presença no samba, cabe ao poder público criar mecanismos que estimulem a democratização e a transparência neste universo, patrimônio fundamental do Rio e do país. A mudança é importante até para valorizar o sambista e garantir a sobrevivência e o crescimento do espetáculo.


Inocentes, Serguei, papa e Paes: é Carnaval

separador Por Fernando Molica em 13 de fevereiro de 2013 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 13/2

O balanço de uma festa como a do Sambódromo é sempre incompleto. Mas vamos a alguns pontos.

. Ou as escolas enquadram as comissões de frente ou serão engolidas por elas. Talvez seja o caso de diminuir para três o número de julgadores do quesito, o que acabaria com a necessidade de tantas paradas para apresentações completas. Outra possibilidade é a limitação do tempo das coreografias. O excesso de movimentos engarrafa as alas e atrapalha a evolução.

. Tudo bem que desfile de escola de samba não é aula de história. Mas é esquisito ver a Tijuca exaltar a trajetória da Alemanha e sequer insinuar episódios como o nazismo e a Segunda Guerra Mundial. O Fusca, celebrado na Avenida, foi um projeto roubado do engenheiro judeu Josef Ganz. Mostrar como a Alemanha tem encarado esses terríveis momentos seria também uma forma de homenagear seu povo.

. Para usar um jargão do futebol: a apresentação da representante de Belford Roxo mostra que não há mais inocentes no Grupo Especial. Uma eventual queda da escola será mais consequência de sua contestada ascensão no ano passado do que fruto de seu desfile.

. O desastre no fim do desfile da Estação Primeira fez com que mangueirenses como eu se lembrassem da eliminação do Brasil na Copa de 1982. O Sambódromo virou Sarriá.

. A camisa usada por Serguei na comissão de frente da Mocidade e que estampava a frase "Eu comi a Janis Joplin" deveria ser tombada e incorporada a um Museu do Carnaval. Irreverência típica do Carnaval e do melhor rock'n'roll.

. Por falar nisso: a presença de um cover de Raul Seixas na Mocidade representou uma ironia e uma involuntária crítica ao Rock in Rio. Rauzilto foi a grande ausência da primeira edição do festival. Era roqueiro demais para o padrão bem-comportado do rock que então se fazia por aqui.

. Ao dizer que Bill Clinton agira como um pinto no lixo ao visitar a Mangueira, Jamelão não poderia imaginar o que seria a performance de Eduardo Paes durante o desfile das escolas de samba. O prefeito cisca para todos os lados e, sozinho, age como uma ninhada solta no antigo Aterro de Gramacho.

. Com todo o respeito. Papa renunciar no Carnaval parece tema de marchinha dos anos 1950. Aquela história do sujeito que, ao ver a festa, decide mudar tudo em sua vida.


Viver para contá-la

separador Por Fernando Molica em 13 de fevereiro de 2013 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 06/2

Rio - A Karla Rondon Prado bateu um bolão, aqui neste retângulo, ao tratar dos dilemas e riscos que envolvem a decisão de expor, na primeira página de um jornal, esta ou aquela foto de uma tragédia. É duro editar, é duro cobrir, escrever. Entre os profissionais e voluntários presentes num episódio como o de Santa Maria, nós, jornalistas, somos, em tese, os mais dispensáveis. Não sabemos apagar incêndios nem, muito menos, fazer procedimentos médicos que podem salvar vidas.

Nossa presença incomoda, gera uma espécie de ruído em ambientes ocupados por uma dor sem tamanho. Protegidos por nossos bloquinhos, microfones ou câmeras, nós temos a tarefa de contar aquela história; isso implica em perguntar, em fotografar. É quase obrigatório nos aproximarmos, puxarmos alguma conversa com parentes de vítimas.

Por mais que sejamos cascudos, é impossível não ficarmos comovidos diante daqueles pais, mães, avós, namorados, amigos, vizinhos. Como agir, o que dizer, o que perguntar para os pais de um rapaz de 19 anos que, na madrugada, velam o corpo do filho diante do púlpito de uma igreja evangélica? Como prender o choro ao ouvir a mãe, dona de casa, dizer que ela e o pai, pintor, nunca deixaram faltar nada àquele menino, estudante de Ciências da Computação da Universidade Federal de Santa Maria? Como não pensar nos nossos filhos, nos filhos dos nossos amigos? Como não ficar tocado diante daqueles milhares de jovens que, vestidos de branco, cantam pelas ruas a necessidade de amar como se não houvesse amanhã? Jovens que choravam o amanhã abortado de seus colegas.

O amigo Oscar Valporto me disse, na faculdade, que histórias precisam ser contadas: ele decidira ser jornalista porque queria contá-las. A tragédia da boate não deveria ter ocorrido, mas, como aconteceu, é preciso que seja contada, até para que não se repita e para que os culpados sejam punidos. No mais, contamos histórias porque somos humanos, precisamos compartilhar alegrias, dores, esperanças. Em Santa Maria, conversei com a mãe de um rapaz que estava internado. Depois, agradeci e pedi desculpas pelo incômodo. Para minha surpresa, ela então me agradeceu. Disse que estava precisando conversar, falar do filho, contar sua história. 'Viver para contar' ('Vivir para contarla'), como Gabriel García Márquez, também jornalista, tão bem resumiu no título de seu livro de memórias.


Tragédias que apontam nas esquinas

separador Por Fernando Molica em 13 de fevereiro de 2013 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 30/1

Em 1968, diante do assassinato do secundarista Edson Luís, estudantes do Rio criaram uma frase simples e contundente para mobilizar a sociedade contra o regime militar: "Mataram um estudante, podia ser seu filho". A palavra de ordem mostrava que ninguém estava de todo protegido dos tentáculos da ditadura. No caso de Santa Maria não é preciso qualquer estímulo externo para que possamos contextualizar o tamanho da tragédia. A dor que sentimos ao pensar nas inacreditáveis centenas de vítimas vem acompanhada de um medo abissal e incomensurável. Ninguém está livre de arapucas como aquela boate.

É como se conhecêssemos cada um daqueles jovens, eles poderiam ser nossos amigos, filhos de nossos amigos, ou amigos de nossos filhos. Estavam num lugar em que qualquer um poderia estar. Havia jovens de famílias ricas, pobres e de classe média. Conversei com um pintor, pai de um estudante (de Ciências da Computação) que morreu; com a mãe, empregada doméstica, de um outro (aluno de Design Industrial) que permanece internado.

É fundamental punir os responsáveis pelo crime ocorrido na Kiss, mas vale também lembrar das armadilhas que infestam nosso cotidiano e com as quais acabamos nos acostumando. Temos facilidade de apontar o dedo para os outros, mas resistimos na hora de aceitarmos nossas falhas. Até outro dia, muita gente achava normal beber e dirigir. Quem condena o Estado pela Operação Lei Seca também deve considerar absurdo que governos determinem o número mínimo de portas de emergência de um estabelecimento privado.

Na música 'Haiti', Caetano Veloso e Gilberto Gil enfileiraram transgressões brasileiras de cada dia -- entre elas, o furar o sinal, "o velho sinal vermelho habitual" -- e concluíram: o Haiti é aqui. É bom então, em meio ao luto pela catástrofe gaúcha, pensar no nosso Haiti quando o taxista, ao dirigir, vê TV e fala ao celular; quando o motorista do ônibus acelera muito além da velocidade permitida; quando, a cada Réveillon, Copacabana fica ainda mais superlotada; ou quando aceitamos que aquela boa casa de shows entupa o salão de mesas e cadeiras -- obstáculos que, num incêndio, podem tornar quase inúteis as saídas de emergência, a maioria do público não conseguirá chegar até elas. Os exemplos são intermináveis, refletir sobre eles é essencial para que Santa Maria não seja aqui.


Nossa santinha merece descansar em paz

separador Por Fernando Molica em 13 de fevereiro de 2013 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 23/01

Carioca praticante, confesso: nunca ouvira falar na Odetinha, na possibilidade de uma conterrânea ser elevada à santidade. Levando-se em conta a quantidade de gente que passou por este nosso belo vale de lágrimas, samba e cerveja, ter apenas um candidato aos altares é até preocupante. Mas estamos bem representados. Ela, entre outras qualidades, foi criada em Botafogo, é possível até que gostasse dos clubes alvinegros -- havia o de Futebol e o de Regatas -- que já então enobreciam ainda mais o bairro.

A menina, que morreu aos nove anos depois de uma longa doença, acabou sendo venerada por muita gente. Seu túmulo virou ponto de peregrinação de quem buscava uma ajuda divina. Odetinha ganhou fama de ser uma boa embaixadora, alguém capaz de interceder a nosso favor. Diante disto, autoridades religiosas acharam por bem tentar fazer com que a Igreja Católica atestasse sua santidade, a velha história da voz do povo ser a voz de Deus.

Rejeitados pelos evangélicos, os santos são como amigos dos fiéis. Quase herdeiros dos deuses gregos e romanos, têm características humanas: heróis como Sebastião, caridosos como Francisco de Assis, intelectuais como Tomás de Aquino, guerreiros como Jorge, protetores como Maria. Uns aceitam papéis curiosos, como Antônio, que exerce com eficiência a função de casamenteiro. Caridosa e devota, Odetinha seria mais uma a facilitar nossa aproximação com os mistérios do Céu.

Nada contra o pleito, mas implico com a, digamos, campanha. Religiões têm o direito de reconhecer ou criar seus mitos, mas é meio esquisito ver o corpo de Odetinha ser exumado e colocado em uma urna que passou a ser exposta em igrejas e procissões. É como se a menina fosse, depois de morta, obrigada a fazer como o político que vai para as ruas arrebanhar simpatias e votos. Esta ênfase se choca com um princípio cristão, o que proclama a vitória da vida sobre a morte. A vida é que deveria ser ressaltada no momento em que a carioquinha começa a conquistar seu lugar nos templos católicos.

Torço para que Odetinha, a menina de Botafogo, estrela solitária de santidade neste Rio de tantos e doces pecados, seja reconhecida pelo Vaticano. E assim, legitimada, continue a olhar por nós. Mas essa trajetória poderia ser feita de modo a garantir que seus restos mortais, testemunhas de sua passagem por aqui, tivessem o santo direito de descansar em paz.


O menino e o lanche na Apoteose

separador Por Fernando Molica em 13 de fevereiro de 2013 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 16/1


Rio - Como em qualquer show, muitas vezes o melhor dos desfiles do Sambódromo ocorre em seus bastidores, na armação das escolas ou na dispersão. É nesses setores fora da pista que rolam cenas engraçadas (como o içamento dos destaques até os carros alegóricos), reveladoras (como a retirada do robe que encobre a nudez de rainhas e que tais) e mesmo emocionantes.

Domingo passado, por exemplo. Ao fim do ensaio da Mangueira, crianças, idosos e integrantes da bateria (no caso, das baterias) faziam fila, num cantinho sob o Setor 12, na Apoteose, para pegar um lanche oferecido pela organização do evento -- um sanduíche e um suco à base de guaraná.

Nisso surgiu um menino de uns 8 anos. Negro, mochila meio puída às costas, ele não usava fantasia ou roupa que o identificasse como integrante da Estação Primeira. Entrara na Passarela pelos fundos, fora até lá em busca de algo mais concreto que a beleza proporcionada pelo desfile. Esperto, logo identificou um sujeito magro, branco, com jeito de quem detinha algum poder na organização da festa. Deu uma leve cutucada no suposto mandachuva e disparou: "Moço, me arruma um lanche?" Meio constrangido, o abordado -- o garoto acertara, ele mandava mesmo no pedaço -- tentou negociar. Disse que os sanduíches se destinavam aos integrantes das escolas e que, como de praxe, o que sobrasse seria distribuído. Era só aguardar mais um pouquinho.

Mas, como dizia Betinho, quem tem fome tem pressa; o bife não comido um dia jamais será compensado. O menino ficou insatisfeito, o evento iria demorar, a Grande Rio acabara de entrar na Avenida, haveria o risco de sobrar apenas o copinho de suco. Tentou argumentar, mas acabou interrompido por um segurança, que o retirou dali. Não, a insistência não acabaria punida com um cartão vermelho. O novo personagem, negro como o garoto, o pegou pela mão e, logo depois, bem ali na frente, com ele dividiu seu próprio lanche. Segurança e garoto se pareciam, passariam até por pai e filho. Mas não havia qualquer parentesco, o homem apenas demonstrava se reconhecer naquele menino, talvez um dia já tenha pedido um sanduíche a alguém. Ao repartir sua comida, foi solidário também à sua própria história, em tudo semelhante à da maioria daqueles homens e mulheres que, a cada ano, produzem o mais belo e grandioso de todos os espetáculos.


O temporal que traduz o descaso

separador Por Fernando Molica em 13 de fevereiro de 2013 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 09/1

As dramáticas imagens dos estragos provocados pela chuva na Baixada são tão semelhantes às de outras enchentes que chegam a questionar o conceito de notícia: algo novo, inesperado como o homem que morde o cachorro. Em inglês, usa-se a palavra "news" para se designar notícia. Ou seja, notícia é o novo -- e nada é mais velho que o descaso que, meio submerso ao longo do ano, aflora com as águas de dezembro, janeiro, fevereiro e março. As cenas das ruas inundadas e do tal rastro de destruição só competem em falta de novidade com a foto do governador de plantão sobrevoando a área atingida ao lado de algum ministro.

Com raras exceções, como no caso da tragédia da Região Serrana em 2011, as consequências da chuvarada se concentram em áreas pobres. A chuva apenas agrava a tragédia cotidiana que assola habitações precárias em bairros sem urbanização. É difícil ver alguém rico ou de classe média alta dizer, na TV, que perdeu tudo. Quem perde tudo são aqueles que já tinham muito pouco, que moram em ruas não calçadas, cortadas por valões de esgoto. Pessoas que vivem no tipo de construção que melhor representa a arquitetura popular brasileira: casas sem emboço cujos tijolos aparentes gritam a pobreza de seus moradores. Muito mais que as curvas de Oscar Niemeyer, essas construções traduzem o nosso jeito de construir. Elas estão pelo país inteiro, no Rio, em São Paulo, em periferias de cidades do Sul, no Nordeste e no Centro-Oeste. Como diria Noel, são nossas coisas, são coisas nossas.

O caso do Daniel da Silva Soares -- o menino de Nova Iguaçu levado pela correnteza -- ilustra a falta de cuidado do poder público. Ele não teria caído se a pinguela que atravessou fosse uma ponte decente, com muretas de proteção. Aquele rio de esgoto também não deveria existir. É inacreditável a passividade com que o País admite tantas habitações em áreas sem saneamento. Qualquer rua cortada por um valão é uma área de risco; morar diante de um rio de esgoto é tão grave quanto viver pendurado numa encosta ou num vale inundável aos primeiros pingos de chuva. Ao cruzar os braços, governos apontam para o caminho dos valões. Um jeito prático, cômodo e educado de mandar cidadãos para o lugar designado por aquela palavra que costumamos dizer em momentos de irritação. Essa mesma em que você pensou, que começa com a letra 'm'.


A esperança dos fogos e o calor da ressaca

separador Por Fernando Molica em 13 de fevereiro de 2013 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 02/1


Graças ao verão, nosso primeiro dia do ano é sempre abafado. A festa que rola pela madrugada faz com que acabemos acordando mais tarde, hora em que o sol já aqueceu nossas ruas e casas. O resultado é que associo o 1º de janeiro a um certo sufoco. É como se aquele agradável entorpecimento causado pela festa, pela bebida, pelos fogos -- e mesmo pela esperança no novo ano -- desse lugar à pesada realidade que vem logo depois do primeiro amanhecer. Sensação agravada por alguma ressaca.

Este choque gera uma decepção, mas ajuda a nos trazer de volta para a vida como ela é, sem tantos fogos, beijos, abraços e desejos de felicidade. Uma vida volta e meia abafada por angústias, dúvidas, problemas, falta de grana e até de amor. É como se dormíssemos na Apoteose depois de um desfile e despertássemos na Quarta-Feira de Cinzas.

Mas sempre sobra algum gosto bom de festa: os desenhos coloridos no céu, as explosões, o carinho, os olhares que, apesar de tudo, insistem em apontar para um futuro melhor. Consequências do que o poeta Mário Quintana chamou de "bendito truque do calendário". A possibilidade que os primeiros dias -- o da semana, o do mês e o do ano -- nos dão de pensar que a vida não simplesmente continua, mas recomeça. Uma brincadeira que ajuda a recarregar nossas baterias emocionais para que possamos enfrentar desafios, novos ou antigos. Dificuldades que nos atormentam como um velho vazamento no teto ou a necessidade de resolver um chatíssimo problema burocrático.

E, enfim, 2013 chegou. Chegou chegando: a barulheira, os fogos, a praia, o sol que fritou nossos miolos logo pela manhã. Prefeitos e vereadores tomaram posse, jornais falam dos problemas relacionados ao transporte para a festa de Copacabana, dos médicos que deixaram de aparecer em plantões, das mortes nas estradas, dos crimes que, incentivados pela bebedeira, ocorreram aqui e ali. Hoje é dia útil, hora de encarar engarrafamento, trabalho, filas de banco e os aumentos que chegam no vácuo de cada janeiro. Resta tentar impedir que a ressaca encalorada do dia 1º e as obrigações cotidianas travem por completo a alegria e a esperança do Réveillon. E aí vale citar outro poeta, Carlos Drummond de Andrade. Ele acertou na mosca ao dizer que é dentro de cada um de nós que o Ano Novo cochila e espera desde sempre.


BG
© Todos os direitos reservados. Todos os textos por Fernando Molica, exceto quando indicado. Antes de usar algum texto, consulte o autor. créditos do site    Clique para ver os créditos do site