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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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setembro 2012 Archives

CD de Julio Reis

separador Por Fernando Molica em 30 de setembro de 2012 | Link | Comentários (0)

Uma boa notícia. O João Bittencourt, pianista que tocou no lançamento do meu 'O inventário de Julio Reis', vai gravar um CD apenas com obras do JR. O João nunca tinha ouvido falar no Julio Reis quando recebeu algumas partituras para escolher as músicas que interpretaria no lançamento do livro. Quando saiu da livraria, ele me disse que tentaria gravar um CD: foi rápido, descobriu que havia um edital aberto, inscreveu o projeto e conseguiu aprová-lo; a gravação deverá ocorrer no fim deste ano. Como o JR morreu há mais de 70 anos, as obras estão em domínio público, o que facilitou todo o processo, já que não haverá pagamento de direitos autorais. O CD ajudará a marcar os 150 anos de nascimento do compositor, que nasceu em 1863.


A injustiça que entra em campo

separador Por Fernando Molica em 26 de setembro de 2012 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 26/9:

Os que detestam ou ignoram futebol não conseguem entender a gritaria em torno do erro -- ou roubo -- cometido por um árbitro. Consideram despropositado que adultos, profissionais respeitados, pais e mães de família, fiquem exasperados por causa de um apito fora do lugar. Não admitem que chutemos baldes e cachorros, que briguemos com a mulher por causa de um jogo. Alegam que há questões mais importantes na vida, no país, no mundo: filas em hospitais, a eleição de algum corrupto, o Mensalão, a fome, o Oriente Médio.

Nada do que está relacionado acima é irrelevante, tudo nos constrange, tem a ver com um grau de inconformismo. Ficamos incomodados com o que está errado, nos revoltamos com a injustiça das filas, com a corrupção e com as guerras. Mas esse sentimento, acredite, tem muito a ver com futebol. Nossa aproximação com o esporte ocorre cedo, na infância. É quando nos apaixonamos por um time, passamos a acompanhá-lo, a torcer por ele. Somos então apresentados à figura da justiça, personificada naquele sujeito que, antigamente, só se vestia de preto.

Assim, aos 6, 7 anos, às vezes antes mesmo de entrarmos para a escola, descobrimos que o cara do apito e seus dois auxiliares têm o poder de definir o certo e errado, o que pode e o que não pode; são responsáveis por algumas de nossas maiores tristezas. Não devem, portanto, falhar; não podem, principalmente, roubar. Crescemos cercados de injustiças e frustrações: não ganharemos o dinheiro que sonhamos, não evitaremos doenças, aquela menina bonita não nos dará bola. Aos poucos, aprendemos a necessidade de enfrentar os problemas e de nos conformarmos com o que não tem solução. Mas a relação com o futebol é um pouco diferente.

Gostar de futebol, ser apaixonado por um time, é também uma forma de protesto contra o mundo adulto, que se impõe imperfeito, cheio de dores e frustrações. O futebol é o nosso melhor brinquedo; o amor por um clube, inegociável, é o mais desinteressado de todos -- há quem mude de sexo, mas não é admissível trocar de time. No futebol, aceitamos derrotas em nome de vitórias futuras, mas -- crianças -- continuamos a não perdoar o apito comprado.

Fraudar o resultado de um jogo representa uma tentativa de ferir de morte um sentimento de justiça original, algo que, apesar de tudo, insiste em viver em cada um de nós.


Os invasores de um terreno da Zona Sul

separador Por Fernando Molica em 19 de setembro de 2012 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 19/9:

Eu sabia que, bem perto de onde moro, na Zona Sul do Rio, havia uma favela. Acho até que lembro de, ainda criança, ter visto os barracos apertados no morro. Os moradores foram retirados nos anos 1960, no auge da política de remoção de favelas. Já até tinha visto uma ou outra foto daquilo que hoje é classificado de "comunidade carente", mas, no início da semana, um amigo me enviou imagens impressionantes. A favela era muito grande, ocupava até mesmo o terreno onde, décadas depois, seria construído o prédio em que vivo.

Na década de 1980, as remoções foram alvo de intensas críticas, políticos de todas as vertentes passaram a falar em urbanização de favelas. Além de cruel, a prática de despachar moradores para lugares distantes se revelara uma fonte interminável de dramas urbanos e sociais. Como depois frisaria o historiador Marcos Alvito, o verbo remover só é utilizado no Brasil para favelas, lixo e cadáver: um uso que explica muito de nosso país.

A questão não é simples, favela não é apenas um problema habitacional (trata-se mais de uma solução do que problema). As moradias precárias são consequência óbvia da pobreza e de uma lógica de exclusão vigente há séculos. A nova novela das seis, a 'Lado a lado', ajuda a contar um pouco desta história. Algumas favelas cariocas, como a da Praia do Pinto, no Leblon, foram removidas depois de incêndios como os que proliferam hoje em São Paulo. Os terrenos não ficaram vazios, neles foram plantados edifícios destinados a gente com muito mais grana que os antigos donos da área.

Parte da sociedade se acostumou a olhar para as favelas como se aquelas pessoas não tivessem o direito de viver ali. Seus moradores passaram a ser visto de forma coletiva -- os favelados --, não como pessoas: o João, a Maria, o Zé, a Cristina. Imagino o que deve ter passado pela cabeça de uma criança ao saber que ela, seus pais, amigos e vizinhos seriam retirados de onde viviam. Todos iriam para um local desconhecido, teriam que refazer amizades e contatos, perderiam parte de sua história. O importante para o poder não era combater a pobreza e suas consequências -- bastava varrer os pobres para debaixo de algum tapete. Ao ver a foto dos antigos moradores da minha rua, sinto uma certa contradição. É como se eu e meus atuais vizinhos -- todos beneficiados pela expulsão daquelas pessoas -- fôssemos os invasores do pedaço.


Na 'Ilustríssima', o umbiguismo da literatura brasileira

separador Por Fernando Molica em 02 de setembro de 2012 | Link | Comentários (0)

Muito interessante a análise que o Luís Augusto Fischer faz hoje, na Ilustríssima ('Folha de S.Paulo'), sobre os textos publicados na edição brasileira da 'Granta' ( ver resumo em http://sergyovitro.blogspot.com.br/2012/09/letras-em-numeros-luis-augusto-fischer.html ). Os comentários, guardadas as preocupações de praxe, podem servir para a maior parte da produção literária brasileira contemporânea. Ele procurou fazer uma avaliação bem objetiva do material; isto, a partir de da
dos como os temas abordados pelos autores (há também informações sobre origem e formação sobre cada um dos escolhidos, todos com até 40 anos). Fischer também compara a produção da 'Granta' com a publicada em antologias editadas em 2000 ('Os cem melhores contos brasileiros do século') e 2001 ('Geração 90 - manuscritos de computador').

Algumas conclusões sobre os 20 textos da revista são impressionantes: em 50% há presença de escritores como personagens centrais; 60% têm, no centro dos enredos, relações de filhos ou pais ou mães; 55% contêm "citações ou alusões cultas, da moda intelectual". Fischer conclui que "não há empenho em aproximar do escrito as modalidades de fala popular".

Outros dados: dos 20 contos, "seis ou sete podem ser enquadrados no campo da autoficção", "Onze têm narradores em primeira pessoa, testemunhais", "90% dos personagens relevantes se encontram nas classes confortáveis (da classe média-média para cima (...) )", 55% dos contos apresentam cenas passadas fora do Brasil. Estas características não apareciam, ou apareciam de forma bem menos significativa, nas outas duas antologias.

A matéria da Ilustríssima fala por si, mas é impressionante constatar - e aí não faço qualquer juízo de valor temático - como a 'Granta', na prática, mostra uma vitória daquilo que se costuma chamar de umbiguismo, a tendência de se falar apenas de si. Lembro que há alguns anos tento, sem muito sucesso, rechaçar a ideia de que a literatura brasileira estaria presa, em sua maior parte, ao cenário da favela (comentário que, de um modo geral, carrega um juízo de valor). Acho que agora terei mais argumentos. O amigo Marcelo Moutinho, por sua vez, se ressente de temas ligados à baixa classe média.

Insisto: livros não são bons ou ruins porque tratam deste ou daquele tema, desta ou daquela classe social. Ainda não li a 'Granta', não posso falar nada sobre os textos, alguns deles produzidos por autores que respeito muito. Mas confesso um certo assombro com os dados citados pelo Fischer. Sempre achei que a literatura, assim como as artes de um modo geral, ajuda na compreensão do outro, permitem algum tipo de diálogo entre diferentes. Ao contrário do jornalismo - preso a uma lógica moralizante e conservadora -, a literatura possibilita melhor a compreensão daquele que desconhecemos e, em alguns casos, daquele que odiamos ou tememos.

Claro que o recorte da 'Granta' não é definitivo, não define nem abraça toda a produção contemporânea de qualidade. Mas a seleção permite uma reflexão sobre até que ponto estamos conseguindo dialogar com uma sociedade tão complexa quanto a nossa, até que ponto estamos com dificuldade de nos aproximarmos dos diferentes, dos feios, sujos e malvados - para citar aquele ótimo e velho filme italiano.

Não sou tão radical quanto o Fischer, cada autor tem o sagrado direito de escrever sobre o que bem entender, mas acho que os parágrafos finais da matéria merecem uma boa discussão:

"A 'Granta' parece ter fotografado um momento cosmopolitizante, antipovo e autorreferente, na geração mais nova, que surfa num mercado muito mais maduro do que jamais foi, em todos os níveis, na renda, nos circuitos de difusão, no consenso da importância da leitura.

"Olhando panoramicamente, duas linhas se mostram. Uma convergente: a economia brasileira de fato se volta para fora, como um "global player", e a nova geração se afina com isso.
Outra divergente: a nação segue chafurdada em mazelas, como por exemplo a corrupção sistêmica, para não mencionar as enormes desigualdades sociais já quase invisíveis de tão antigas, mas a nova geração parece passar ao largo disso."





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