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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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abril 2012 Archives

O trailer do 'Inventário'

separador Por Fernando Molica em 20 de abril de 2012 | Link | Comentários (0)

Aí vai o trailer de 'O inventário de Julio Reis' preparado pela Editora Record. A trilha sonora é 'Vigília d'armas', aqui executada por um programa de computador.


Enfim, a 'Vigília d'armas'

separador Por Fernando Molica em 18 de abril de 2012 | Link | Comentários (1)

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Nesta quinta, dia 19, às 19h, a Sala Villa-Lobos, da UniRio, será palco de uma reestréia. Quase cem anos depois de ter sido apresentada pela primeira vez, a sinfonia 'Vigília d'armas', de Julio Reis, "esboço de um poemeto", segundo o autor, voltará a ser ouvida em público. A última audição documentada ocorreu em julho de 1923, no encerramento da Exposição do Centenário da Independência. A Orquestra Sinfônica UniRio é que será responsável pela execução de 'Vigília' - isto, graças ao esforço do maestro Branco Bernardes, com quem comecei a conversar sobre Julio Reis há alguns anos, muito antes da ideia de escrever um livro baseado na vida do compositor.

Por muitas vezes manuseei a partitura original de 'Vigília', à direita da tela. Fui testemunha dos esforços do meu avô Mário, filho de Julio Reis, em tentar fazer com que alguma orquestra a executasse. Meu avô morreu há 20 anos sem conseguir voltar a ouvir a sinfonia. Uma vez, há uns 15 anos, dei de cara com o quadro que inspirou a composição, 'Le rêve' ('O sonho'), de Edouard Detaille - estava, como está até hoje, exposto no Museu d'Orsay. Levei um baita susto, o quadro é imenso, tem uns 12 metros quadrados. Chega a ser engraçado tê-lo conhecido em Piedade, na casa dos meus avós, folheando a partitura de 'Vigília'.

Hoje tudo seria mais simples, é possível ouvir o que está escrito na partitura graças a um simples programa de computador que simula o som dos instrumentos (o link está na parte deste site dedicada a Julio Reis). Meu avô morreu antes de todas essas modernidades. Amanhã, enfim, ouvirei 'Vigília d'armas' ao vivo. Sim, perdão, não há como fugir do indesculpável chavão, ao lugar mais do que comum: pena que o vô Mário não esteja mais por aqui.


Bibi: uma garotinha de 89 anos no palco

separador Por Fernando Molica em 18 de abril de 2012 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 18/4:

Na introdução do espetáculo, uma doce ironia: Bibi Ferreira sobe ao palco do Teatro Net Rio ao som de 'Malandragem' (Frejat-Cazuza), canção em que Cássia Eller dizia ser, quem sabe, uma garotinha. Às vésperas dos 90 anos, Bibi está longe de uma garotinha, mas não perdeu o humor. Logo no início do show, revela um episódio de sua vida e o situa no século 17.
Não é garotinha, mas no palco, de pé diante do microfone, não tem nada de velhinha. A voz continua jovem, clara e potente, capaz de acompanhar a orquestra em perigosos graves e em audaciosos agudos.
Ao longo de uma hora e quinze minutos, ela conta histórias e apresenta clássicos da música brasileira e internacional, entre eles, temas de 'Hello Dolly', 'O homem de La Mancha' e 'Gota d'água'. E ainda brinca com óperas como o 'Barbeiro de Sevilha' -- Bibi troca a letra de forma proposital, o que não a livra de percorrer todas as notas da partitura. Em outro momento, sem qualquer mudança de figurino ou de maquiagem, Bibi, atriz, fica a cara de Edith Piaf ao cantar algumas suas canções. "Ela (Piaf) me sustenta há 27 anos", ressalta, entre risos. Não é preciso condescendência para gostar do espetáculo. Não é necessário dar qualquer desconto pelo fato de a estrela ter 89 anos. Quem se apresenta é uma artista cujo talento não requer paternalismo -- como ela tem dito, está ali trabalhando, o teatro é seu ganha-pão. Rigorosa, não admitiria apresentar-se ao público sem condições.
Terminado o show, ela volta ao palco para receber uma nova leva de aplausos. Agradece, elogia a plateia e retorna aos bastidores, apoiada em seu empresário. Neste momento é como se a Bibi artista -- aquela, de idade indefinível -- desse lugar à senhora Abigail Izquierdo, uma quase nonagenária. A segurança demonstrada em cena é trocada por passos cuidadosos, as mãos buscam apoio nos braços de seu acompanhante. A cena apenas reafirma o talento da atriz capaz de interpretar uma mulher muito mais jovem. A vida é amiga da arte, disse Caetano Veloso.
*
Em 1923, um ano depois do nascimento de Bibi, a sinfonia 'Vigília d'armas', composta por Julio Reis (1863-1933), foi ouvida pela última vez num palco. Amanhã, às 19h, a peça será executada pela Orquestra Sinfônica UniRio regida pelo maestro Branco Bernardes. O concerto será na Sala Villa-Lobos, na Avenida Pasteur 436, fundos. A entrada é franca.


Laços de família

separador Por Fernando Molica em 14 de abril de 2012 | Link | Comentários (0)

Texto publicado no jornal 'A União', de João Pessoa, no dia 11/4.

Em seu quarto romance, jornalista escreveu uma obra de ficção a partir de fatos reais.

Um romance baseado na vida e obra de seu próprio bisavô, o compositor, maestro, pianista e crítico musical Julio Reis é a nova obra literária de Fernando Molica. Após três romances ambientados na contemporaneidade, o escritor volta ao Rio de Janeiro do início do século XX para compor um rico panorama de uma época de grandes mudanças e resgatar a obra de um grande artista brasileiro que o tempo quis esquecer.

Qual foi sua motivação para escrever este livro?
Soube da existência do Julio Reis no início da adolescência, eu morava em Piedade, perto dos meus avós, e ia muito na casa deles. Foi quando fiquei sabendo que o pai de meu avô Mário, portanto, meu bisavô, tinha sido um compositor clássico, fiquei muito surpreso com a história. A figura de um compositor da chamada música clássica me parecia meio incompatível com a vida simples de Piedade. Desde então, passei a acompanhar a luta do meu avô, que praticamente dedicou sua vida à luta pela divulgação da obra do pai. Ele mandava cartas para autoridades, presidentes da República e diretores de jornais em busca da possibilidade de divulgação da obra do Julio Reis. Tudo o que ele queria era poder voltar a ouvir aquelas composições, em especial, Vigília d'armas, que estreou em 1915, no Theatro Lyrico, que ficava na Avenida 13 de Maio. Depois, ela só voltou a ser executada em 1923. Meu avô foi também o responsável por me levar aos primeiros concertos, de um modo geral, programas gratuitos como vesperais no Theatro Municipal e concertos do Projeto Aquarius. Sou muito grato a ele, que me apresentou a um tipo de música. A história de Julio Reis era algo que me martelava, eu achava que poderia ser contada, que merecia ser contada. Houve também um episódio curioso: há uns anos, creio que em 1996, eu estava no Museu d'Orsay, em Paris, e, ao entrar numa sala, dei de cara com o quadro Le rêve (O sonho), de um pintor francês chamado Édouard Detaille. Um quadro imenso, de uns doze metros quadrados. Este quadro servira de inspiração para Vigília d'armas, uma gravura que o reproduzia fora colada por Julio Reis na capa da partitura. Eu vira aquela imagem dezenas de vezes. Fiquei meio baqueado ao dar de cara com o quadro no museu, nunca pensei em vê-lo exposto. Na época, meu avô já havia morrido e talvez este episódio tenha, de alguma forma, tenha me estimulado um pouco mais a tentar escrever um livro sobre Julio Reis. Não cheguei a ser obcecado por isso, mas por volta de 2007, quando concluía meu segundo romance, comecei a achar que estava chegando a hora de tratar do Julio Reis. Na época, o que restara do acervo dele tinha vindo para minha casa, pois meu avô, que morreu em 1992, queria que eu ficasse responsável pelo material, que tratasse de sua doação para a Biblioteca Nacional. O fato de ter o acervo ao meu alcance facilitou muito o trabalho de pesquisa. O Inventário de Julio Reis é um livro de ficção, mas baseado na vida do personagem, era importante pontuar a história com elementos da realidade em que ele viveu.

Como é que foi criar uma ficção a partir de uma realidade, de um personagem real?
Foi meio complicado encontrar um viés para o livro. Julio Reis deixou um acervo bem organizado, reuniu partituras e muitos recortes de jornais -- críticas que escreveu e o material sobre suas composições. Mas praticamente não havia detalhes sobre sua vida particular. O material permitia conhecer o profissional, mas não a pessoa. Eu não queria fazer uma biografia, um livro de não-ficção. O que me interessava era tentar descobrir o que movia aquele homem, quais eram seus sonhos, seus desejos, suas frustrações. Em 2007 e 2008 conversei algumas vezes com uma tia mais velha, Yara, que chegou a conviver com o avô (ela morreria no fim de 2008). Ela me contou algumas histórias sobre ele, sobre seu temperamento. Eu me lembrava também das conversas com meu avô, Frederico Mário. Ao reunir todas as informações, consegui chegar ao que classifico como um perfil bem razoável do personagem -- o desafio era colocá-lo, digamos, para jogar, para atuar. Eu formulei uma hipótese para o Julio Reis a partir de dados concretos: suas críticas, suas composições, suas lutas. Escrevi com muita liberdade, tentei apenas não trair o personagem, um cuidado que também tenho quando crio qualquer outro personagem de ficção. Enfim, não existe uma verdade absoluta, mesmo em biografias, o autor destaca determinadas características, opta por este ou aquele caminho. A produção documental também é, de certa forma, ficcional.

Como era o Rio de Janeiro à época de Julio Reis? E o cenário musical da cidade, qual era?
O Rio era a capital federal, centro da República, aqui se concentrava o que de melhor e mais importante havia na política, na academia, nas artes. O cenário musical era muito interessante, companhias internacionais de ópera se revezavam por aqui, ocupavam quatro, cinco teatros. Grandes estrelas da música lírica faziam temporadas na cidade. O pai de Julio Reis veio para o Rio nomeado pelo governo imperial, veio trabalhar. O início do século 20, uma época fundamental para a vida de Julio Reis, foi também um período de muitas transformações. Houve a I Guerra Mundial, a Revolução Soviética. Por aqui, tivemos revoltas militares, uma série de dificuldades econômicas e politicas relacionadas à substituição do Império pela República. Foi uma época de consolidação de conquistas científicas e industriais, da expansão da eletricidade, da substituição dos bondes puxados por burros pelos elétricos, da chegada do automóvel. Foi quando houve a reformulação do Centro da cidade, a derrubada de milhares de casas, a abertura de avenidas, como a atual Rio Branco, a construção do Theatro Municipal. A modernidade também chegou às artes, à música, é só ver os movimentos artísticos que afloraram naquela época. Julio, de certa forma, foi uma vítima deste choque de modernidade. Ele estava muito atrelado a uma visão mais clássica da música, suas referências estavam nos séculos XVIII e XIX. Ele se assustou com a chegada de compositores como Debussy e Stravinsky e, depois, de Villa-Lobos. Ele não poupava a modernização da música, era ferrenho na defesa de padrões mais clássicos, baseados na melodia e na harmonia. Não deixava de atacar o que chamava de "música sem música". De certa forma, JR foi atropelado pela modernidade.

Julio Reis chegou a ser um compositor de sucesso?
Ele era uma pessoa muito conhecida na cidade, dezenas de suas composições foram editadas e lançadas -- o Rio era uma cidade cheia de pianos, as pessoas compravam partituras para tocá-las em suas casas. Como era um polemista, despertava discussões sobre os rumos da música, publicou livros de crítica e de ficção. Algumas de suas obras de maior peso -- sinfonias e mesmo uma ópera -- foram executadas em teatros da cidade. Ele também se apresentava como pianista, era uma pessoa muito ativa no cenário musical.

Quais foram as referências musicais do compositor? E que músicos ele detestava?
Ele adorava os clássicos: Beethoven, Chopin, Verdi, Wagner. Entre os brasileiros, admirava Carlos Gomes, que chegou a indicá-lo para um período de estudos na Europa. Tinha horror a tudo o que era moderno, que rompia com o convencionalismo da música. Dizia que a nova forma de compor desprezava a melodia, chegou a dizer que a música de Debussy imitava o cair da chuva, "traduz em música o sono e o vozerio dos sapos num charco; revela as confidências de um casal de cegonhas e reproduz o mutismo filosófico de um orangotango em êxtase ao aparecimento da lua-nova".

Quais foram os motivos para a sua decadência como artista?
Em primeiro lugar, havia as dificuldades naturais de quem se dedica à chamada música clássica ou de concerto. Mesmo hoje, pouquíssimos são os compositores brasileiros que integram o repertório das orquestras. Há quanto tempo as óperas de Carlos Gomes não são montadas no Rio? Lembro que assisti a uma montagem de O Guarani há uns 20 anos, acho que foi a última no Municipal. Volta e meia temos programas que incluem peças de Villa-Lobos, de Carmargo Guarnieri, mas isso não é assim tão comum. O Museu Villa-Lobos, nosso principal compositor, é pequeno, pouco atrativo. Ele mereceria muito mais. Nossos compositores contemporâneos são praticamente desconhecidos e, claro, há muita gente compondo. A, digamos, seleção natural talvez seja mais cruel em algumas formas de expressão artística. Em sua época, Julio Reis já esbravejava contra a falta de apoio aos músicos brasileiros. No século XX, a música de concerto também passou a sofrer a concorrência de outras diversões, como o cinema, o futebol, a própria música popular. Hoje, há -- e é fundamental que isto ocorra -- um grande esforço de recuperação de nossa tradição musical de caráter mais popular, mas a produção de música para concerto continua meio escanteada. Julio também era pobre, tanto que, na velhice, precisou morar com o filho em Piedade, isto também colaborou para seu esquecimento.

Como foi o episódio da ópera que teria verbas governamentais para sua montagem?
Esse episódio, o da Sóror Mariana foi fundamental na vida de meu bisavô. Ele usou como libreto uma peça do português Júlio Dantas, o mesmo autor de A ceia dos cardeais. Ficou fascinado com o texto e, em pouquíssimo tempo, compôs a ópera. Com seus contatos no Senado, conseguiu a aprovação de uma verba para a montagem de Sóror Mariana, e acabou se desgastando muito para tentar liberar o dinheiro.

Como escritor, você tem romances, contos e uma obra de não-ficção. Como você definiria este livro dentro de sua trajetória literária?
Eu tenho um livro de não-ficção, O homem que morreu três vezes -- o engraçado é que o personagem principal do livro, o Antonio Expedito Carvalho Perera parece ter saído da ficção. Organizei também três livros de reportagens para a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo). Mas, como escritor, me dedico mesmo à ficção. O inventário de Julio Reis é meu quarto romance. Também tenho contos incluídos em três coletâneas. A opção pela ficção me parece bem clara, é que gosto mais de fazer na literatura. Acho que minhas obsessões e preocupações estão em todos os livros, deve haver uma certa unidade em todos eles Assim, de cara, dá pra notar uma mudança no tempo. Notícias do Mirandão (2002), Bandeira negra, amor (2005) e O ponto da partida (2008) tratam de um Rio contemporâneo, daria até para dizer que formam uma trilogia. Em O inventário, eu pulo para o início do século XX, há um deslocamento bem forte. Todos estes livros tratam também de personagens com dificuldades para se situar no mundo, com muitas dúvidas. Talvez seja uma outra característica, não sei.

Você crê que o livro pode ajudar a resgatar a obra de Julio Reis?
Espero que sim, ficarei feliz se isso acontecer. De certa forma, isso permitiria a realização de um sonho do meu avô.



Retrato de um compositor quando ficção

separador Por Fernando Molica em 11 de abril de 2012 | Link | Comentários (0)

Matéria publicada em 'O Globo', 10/4.

O jornalista Fernando Molica lança hoje romance sobre Julio Reis, seu bisavô

O jornalista Fernando Molica se firmou como romancista na década passada com
três livros ("Notícias do Mirandão", "Bandeira negra,amor" e "O ponto da partida") nos quais podia até transparecer sua experiência profissional, mas nada de sua vida pessoal. Já a quarta incursão pela ficção -- com lançamento hoje, às 19h, na livraria Saraiva do shopping Rio Sul -- tem um pé dentro de casa: os protagonistas de "O inventário de Julio Reis" (Record) são seu bisavô e seu avô.
Mas é só um pé, ressalta ele, pois as informações que tinha sobre o compositor Julio
Reis, seu bisavô, não seriam suficientes para escrever biografia, caso optasse
por esse caminho.
-- Eu tinha um personagem muito duro, rígido, de cartola. Não tinha nada da emoção desse cara, daquilo que o movia na música. Precisava dar alma a esse personagem. Achei que a ficção criaria essa possibilidade -- conta Molica, ex-O GLOBO, TV Globo e atualmente titular da coluna "Informe do Dia", do jornal "O Dia".

Final de vida sem prestígio
Julio Reis (1863-1933) foi um compositor que teve sua notoriedade no cenário da música clássica do Rio no fim do século XIX. Compôs várias peças de concerto, sendo "Vigília d'armas" a mais conhecida, a ópera "Heliophar" e uma outra ópera que deixou inacabada, "Sóror Mariana".
A luta para fazer valer uma promessa de subsídio público para encenar a segunda ópera lhe custou tempo e prestígio, contribuindo para que terminasse a vida pobre e desgostoso. Mas a razão maior de sua decadência foi ter, tanto como compositor quanto como crítico que escreveu para diversas publicações, fincado pé contra
a modernização da música de concerto, a ponto de revelar que saíra no meio de uma
apresentação de Villa-Lobos.
-- Ele foi um Carlos Gomes (1836-1896) fora do tempo, chegou 20 anos depois -- afirma Molica, que reveste o livro de informações sobre as mudanças pelas quais o Rio passou no início do século XX, um projeto de modernização urbana que também soterrou tradições culturais como as que o solene Julio Reis cultivava.
O escritor chegou ao compositor por meio do avô, a quem chamava de Mário, mas que no livro é Frederico (seu primeiro nome), artifício que usou para distanciar-se do vínculo afetivo que prejudicaria a ficção.
-- Digo que tive uma inspiração de caráter bíblico, pois vi que não chegaria ao pai sem
passar pelo filho. Meu avô levou a vida inteira buscando o pai, com quem teve uma relação distanciada. E ele acabou tendo uma relação distanciada com os próprios filhos -- conta Molica, que alternou os capítulos: os da época de Julio Reis são narrados pelo próprio; os que mostram a angústia de Frederico por rever as
obras do pai sendo tocadas são em terceira pessoa.
Julio Reis documentou bem sua vida, guardando críticas dele e sobre ele, notícias da
época e cartas que escreveu, como as da batalha por "Sóror Mariana". O acervo foi herdado pelo filho, que passou para uma filha, que em 2008 repassou para Molica, já conhecedor da história do compositor.
Após muito ler o material, ele decidiu criar uma obra de ficção em que, se possível, o
leitor sequer precisasse saber de suas relações familiares com os personagens.
-- Não queria que o livro se subordinasse a isso -- diz.
Mas ele se empenhou em realizar um desejo do avô: "Vigília d'armas" será novamente
tocada no dia 19, na UniRio, com regência do maestro Branco Bernardes. E,
ainda, um do bisavô: doou o arquivo que tinha sobre Julio Reis para a Biblioteca Nacional.
Luiz Fernando Vianna


O 'Inventário' em O DIA

separador Por Fernando Molica em 09 de abril de 2012 | Link | Comentários (0)

O jornal O DIA, onde trabalho há quase quatro anos, publicou hoje duas carinhosas matérias sobre 'O inventário de Julio Reis'.

Uma, da Kamille Viola, está no jornal impresso e pode ser lida aqui .

A outra, do Elcio Braga, está na TV O DIA e pode ser vista com um clique neste link .


Orelha de 'O inventário de Julio Reis'

separador Por Fernando Molica em 04 de abril de 2012 | Link | Comentários (1)

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Autor do ótimo 'Habitante irreal', Paulo Scott escreveu a orelha de 'O inventário de Julio Reis'. Aí vai ela:


Literatura não é apenas entretenimento; acima de tantas outras justificativas, literatura é acerto de contas que poderá ser refeito sobre realidades históricas e suas linguagens recriando, pela voz do narrador, uma lógica autopoética, mas nunca imparcial e muito menos impermeável. Voltar a fatos singulares engendrados sob a lente da ancestralidade é uma prerrogativa que poucos escritores têm a coragem de assumir às claras e enfrentar sob as pretensões da arte literária. Fernando Molica, por certo um dos escritores brasileiros mais significativos de sua geração, encara com minúcias a história, e dentro da história a tragédia, de seu bisavô, Julio Reis, um maestro autodidata, resistente, alguém que nem sempre aceitou compor com as facilidades e conveniências das transições políticas e artísticas ocorridas entre o fim do século XIX e o início do século XX.

O termo inventário do título não é gratuito e não é resumo: ao lado desse sutil inventariar se afirma um nada leviano inventar. Fernando Molica, com dicção literária ágil, assume cumplicidades tremendas diante de seus protagonistas. Este inventário não dispensa o olhar crítico sobre uma época e sobre a cidade que ainda é a alma deste país, híbrido e com tanta dificuldade em se reconhecer. O centro do Rio de Janeiro, fabuloso e sempre tendendo a labirintos, figura quase como um protagonista desta breve e delicada aventura moldada em torno da coragem, e de certa ingenuidade rara, de um homem que poderia ter sido o bisavô impressionante de qualquer um de nós. Não esqueça, portanto, que as personagens deste livro existiram e que ainda assim se trata de uma obra de ficção.

Os caminhos escolhidos pelo autor, seus panoramas e seus motivos configuram um conflito que parece não ter fim: a necessidade da arte e da manutenção da sua presença, justificando a pertinência de sonhos capazes de empolgar mesmo quando a vida que os originou há muito tenha acabado. Insisto, é acerto de contas, um acerto de contas capaz de mover a melhor das literaturas.

Paulo Scott


O lançamento do 'Inventário', vale lembrar, é na próxima terça, a partir das 19h, na Saraiva do Rio Sul.


Eduardo Paes ainda nos deve uma cidade limpa

separador Por Fernando Molica em 04 de abril de 2012 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 4/4:


Eduardo Paes fez e desfez; desapropriou, mexeu nos transportes, começou a obra no porto, demoliu e prometeu demolir -- é o caso da Perimetral. Radicalizou no choque de ordem, limitou o frescobol e o altinho. Também cometeu absurdos como autorizar o adensamento de áreas de Jacarepaguá e Recreio e ao bancar a contratação de professores para o ensino religioso. Equilibra-se entre virtudes e concessões.
O prefeito que tanto faz e acontece se aproxima do fim do mandato sem tocar num ponto importante: a adoção de uma lei como a da Cidade Limpa, implantada em São Paulo. Paes chegou a analisar uma proposta, mas mandou refazer tudo. Pelo jeito, o assunto não andou.
Não é ofensa dizer que São Paulo não prima pela beleza. Construída por quem buscava produzir e fazer dinheiro, a cidade é um amontoado de prédios e avenidas. Suas fachadas ainda foram ocupadas por placas que pareciam disputar o direito de tornar tudo mais feio. Mas, em 2007, começou a vigorar uma lei do prefeito Gilberto Kassab que deu tranco na poluição visual. Ele baniu os outdoors e estabeleceu limites para os letreiros de estabelecimentos comerciais. Não dá para dizer que São Paulo ficou bonita, mas melhorou muito.
Se a Cidade Limpa fez bem a São Paulo, imagine o que não faria em uma cidade linda como a nossa. Isto vale para todos os lugares, para a orla, para a região central e, principalmente, para os subúrbios. Mais afetadas pela violência das últimas décadas, as áreas periféricas se degradaram, perderam moradores e atividades comerciais. Pior, muitos dos que ficaram por lá trataram de destacar mais sua presença -- e tome de placas gigantescas anunciando mercados, bancos, lojas, dentistas, igrejas e serviços daqueles que trazem a pessoa amada em três dias. A decadência do espaço público gera uma competição alucinada -- a placa seguinte é sempre maior que a anterior -- e acelera a piora das condições de vida. O Choque de Ordem de Paes comprou, aqui e ali, algumas brigas com a publicidade ilegal, mas já passou da hora de, pelo bem do Rio, tornar o combate mais regular e efetivo.

*

Na próxima terça, dia 10, lançarei, na Livraria Saraiva do Rio Sul, a partir das 19h, meu romance 'O inventário de Julio Reis'. O pianista João Bittencourt tocará músicas compostas por Julio Reis, um compositor que viveu no Rio até os anos 30 do século 20. Todos serão bem-vindos.


O Partido do Motorista Brasileiro

separador Por Fernando Molica em 01 de abril de 2012 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 28/3

Motoristas formam uma categoria especial no Brasil. Daria até para, com alguma ironia, criar um partido destinado a defender os seus interesses. Há exceções, nem todos comungam dos mesmos princípios, mas basta dirigir ou andar pelas ruas para perceber que os prováveis filiados ao PMB (Partido do Motorista Brasileiro) têm ideias e práticas parecidas.
Os integrantes do PMB dividiriam o mundo em dois -- os que possuem e os que não possuem carro. Esta segunda categoria não tem a menor importância para os peemebistas: direitos dos pedestres e, eventualmente, os próprios pedestres têm mais é que ser atropelados.
Os princípios programáticos do PMB defendem limites à velocidade dos veículos -- desde que estabelecidos pelo próprio motorista. Estuda-se a adoção do lema 'Fé em Deus e pé na tábua' -- agnósticos e ateus preferem ficar só com a parte final da frase. O estatuto do partido dá ao motorista o direito de piscar faróis e colar na traseira de qualquer mané que, na pista da esquerda, ousar respeitar os limites estabelecidos pelas autoridades de trânsito. Prováveis filiados ao PMB defenderão a livre caça aos pardais e a quaisquer outros mecanismos de controle de velocidade. Promoverão concursos anuais de tiro ao radar.
Se depender dos peemebistas, a Lei Seca será desidratada. Todo motorista terá o direito de encher a cara e dirigir. Em caso de acidente, a culpa será transferida à vítima -- quem mandou ficar andando na calçada mesmo sabendo que havia vários bêbados ao volante? A proposta do partido para revisão do Código de Trânsito Brasileiro equipara placas e sinais a alegorias carnavalescas: as luzes verde e vermelha (esta, principalmente) terão efeito decorativo.
Sinais exclusivos para pedestres serão retirados das ruas assim que o PMB chegar ao poder -- não servem nem como enfeite. Qualquer espaço poderá ser utilizado como estacionamento gratuito. Calçada é lugar de carro -- ponto. Pedestres que aprendam a voar. Multas terão o mesmo destino dado por jogadores do Flamengo ao manual que mandava todos irem cedinho para a cama: virarão bolinhas ou aviõezinhos de papel.
Defensor da livre iniciativa ao volante, o PMB prega uma espécie de seleção natural; crê que, matando uns aos outros, teremos uma sociedade melhor. Não vai sobrar muita gente, os próprios motoristas serão vítimas da selvageria, mas, em compensação, o trânsito vai ficar bem menos engarrafado.


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