Estação Piedade: a biografia de Fernando MolicaEstante: livros públicados pelo MolicaPáginas Amarelas: textos, artigos e outras palavras maisJulio Reis: Biografia, Músicas e PartiturasBlog: Pontos de PartidaFoto MolicaClique para voltar a página principalFoto Molicawww.fernandomolica.com.brEntre em contato com o Fernando MolicaInformações para imprensa

Blog

Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

separador
BG

setembro 2011 Archives

Uma suspeita nada surpreendente

separador Por Fernando Molica em 29 de setembro de 2011 | Link | Comentários (0)

Coluna 'Estação Carioca', jornal O DIA, 28/9:


Ainda é cedo para dizer se o tenente-coronel Cláudio Luiz de Oliveira, ex-comandante do 7º Batalhão de Polícia Militar, foi mesmo o mandante do assassinato da juíza Patrícia Acioli. Os outros PMs acusados pelo crime também não foram a julgamento e têm o direito de não serem considerados culpados. O problema é que ninguém duvida da possibilidade de o crime ter sido obra de policiais, agentes pagos pelo Estado para proteger a sociedade. Podemos até ficar chocados com o suposto envolvimento de um oficial superior, mas ninguém que acompanhe a segurança pública no Rio tem o direito de ficar surpreso.

De uns anos pra cá virou quase rotina esbarrar em notícias que apontavam policiais ou ex-policiais como suspeitos de crimes. Uma situação levada ao extremo com a proliferação das milícias, quadrilhas que, de um modo geral, surgem dentro do Estado. O problema é que, com algumas exceções, governos, corporações, a Justiça e a própria sociedade não demonstraram muita vontade de punir os tais maus policiais. Pior: o desespero gerado pelo aumento da violência fez com que muitos ficassem tolerantes com a violência policial. Jornais passaram a receber cartas furibundas cada vez que mostravam policiais praticando algum tipo de violência contra supostos bandidos. Com o tempo, a expressão "direitos humanos" ganhou até um viés negativo. Defender o respeito à lei passou a ser sinônimo de defender bandidos.

E aí, tome de dar poder para a polícia, de permitir, de maneira tácita, que policiais agredissem ou matassem suspeitos: vale lembrar a vibração de muita gente quando o personagem Capitão Nascimento torturava um marginal. Aquele é que deveria ser o tratamento-padrão dispensado a traficantes e assassinos, quem protestava era porque gostava de bandidos. Amedrontada, boa parte da sociedade deu à polícia o direito de fazer justiça achava que nunca seria vítima de um abuso de poder, acreditou que policiais autorizados a torturar e a matar agiriam apenas contra bandidos, não abusariam de tamanha força. Essas pessoas acreditaram que o Capitão Nascimento existia na vida real. Deu no que deu.

A tolerância de comandantes, autoridades, políticos e de cidadãos ajudou a criar uma polícia cujos desvios não deixam ninguém surpreso. Que a morte da juíza Patrícia Acioli sirva de alerta para os riscos de um desatino, o de permitir que qualquer pessoa ou corporação se sinta acima da lei.


Notícias alemães 2

separador Por Fernando Molica em 17 de setembro de 2011 | Link | Comentários (0)

. Engraçado é conhecer em Berlim uma romena que aprendeu a falar português graças à exibição de Avenida paulista em sua terra. Por lá, a novelinha foi mostrada em português, com legendas em romeno, uma língua também originada do latim. A moça gostou do seriado e se apaixonou pelo Antônio Fagundes. O resultado é que resolveu aprender a língua do então galã.

. O programa do Metropolitan, o festival literário que me levou a Frankfurt, previa uma leitura numa escola pública em uma cidade vizinha. Conhecer a tal escola foi uma das experiências mais interessantes da viagem. As crianças são como as nossas, crianças são parecidas. Mas a escola é comparável a qualquer uma de nossas melhores escolas privadas. Grande, bonita, limpa, flexível a ponto de levar um escritor brasileiro para falar de seu livro. OK, a Alemanha é uma grande economia, não dá para comparar nossa situação com a deles. Mas também não dá para admitirmos que muitas de nossas escolas públicas sejam tão ruins, tão miseráveis.

. É engraçado como os conceitos de luxo e sofisticação ganham outro significado, menos relacionado à posse de bens, mais ligado à possibilidade de se desfrutar de uma cidade agradável, que respeita pedestres e ciclistas. Como é bom poder passar um dia pedalando por Frankfurt. As margens do rio Main, que corta a cidade, são ocupadas por imensas áreas verdes, é como se o Aterro tivesse um rio - limpo - no meio. Fiquei com uma saudável inveja do Michael Hohmann, um dos organizadores do Metropolitan. Uma noite, fizemos uma sessão numa cidade vizinha, Darmstadt. Depois da leitura, saímos para jantar, só voltamos para Frankfurt depois da meia-noite. Quando chegamos ao meu hotel, o Michael também saltou do carro, deu boa noite ao motorista e voltou pra casa de bicicleta. Isso é muito bom.

. Por falar em carro. Os caras lá inventaram um curioso drink para escapar da Lei Seca. Alguns restaurantes servem uma mistura de vinho branco com água, uma espécie de refresco de uva turbinado. Deve estragar o vinho e a água.


A construção da esperança

separador Por Fernando Molica em 14 de setembro de 2011 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 14/9:

A implantação das UPPs mostrou que apenas a polícia não é suficiente para resolver a série de problemas acumulados em favelas. Constatou-se o óbvio: não se precisa apenas de segurança, mas também de boas escolas, atendimento básico de saúde, emprego, qualificação profissional, saneamento, urbanização. Mas além de tudo isso, há algo menos palpável, mas que pode ser percebido com facilidade. O fundamental é permitir que os moradores tenham direito à esperança de um futuro melhor.

Basta parar numa praça ou num larguinho de qualquer favela e perceber muitos jovens à toa, sem ter o fazer. Gente que fica por ali em busca de um biscate, de uma conversa, de uma cerveja, de algo que sirva para matar o tempo. Um tempo que, por demorar tanto a passar, estica de maneira insuportável a duração dos dias. Um tempo que ilustra a falta de opções de muitos daqueles jovens, com frequência condenados ao subemprego. Um tempo tão excessivo que contribui para, diante da falta de caminhos institucionais, estimular a opção por atalhos cheios de emoções e riscos. A grande maioria é esperta o suficiente para ficar de fora das alternaltivas ilegais, mas o número dos que aceitam esta possibilidade é muito grande.

A educação é essencial para a construção de uma esperança real para aquelas crianças e jovens. Não dá para continuarmos a aceitar que a maior parte dos filhos de pobres tenha que continuar na pobreza. Admite-se como normal que filhos dos ricos tenham ótimas escolas e, fora acidentes de percurso, um caminho asfaltado na direção de uma boa universidade e de um bom trabalho. Da mesma forma perversa, considera-se razoável que filhos de pobres tenham apenas o direito de estudar um pouco mais que seus pais; com sorte concluirão o Ensino Médio numa dessas escolas que ficam na rabeira de qualquer avaliação. É absurdo aceitar que as escolas públicas preparem tão mal nossas crianças e jovens. Não dá pra admitir que o campus da UFRJ do Fundão subverta a geografia e fique mais perto dos jovens da Zona Sul do que dos seus vizinhos, moradores das favelas da Maré.

Só teremos uma sociedade razoavelmente justa quando as crianças do Timbau e Nova Holanda tiverem as mesmas oportunidades que as do Leblon e Ipanema. Não é justo admitir que a possibilidade de uma vida melhor lhes seja negada desde a infância. Construir uma esperança viável e não ilusória é talvez o desafio mais importante para todos nós.


Mirandão digital

separador Por Fernando Molica em 13 de setembro de 2011 | Link | Comentários (0)

Por falar no Notícias do Mirandão. Lançado em 2002, meu primeiro romance ganhou uma edição digital. O livro já está à venda - veja aqui.


Notícias alemãs 1

separador Por Fernando Molica em 12 de setembro de 2011 | Link | Comentários (0)

Na entrada, muitos livros de autores brasileiros, portugueses, angolanos, moçambicanos e italianos - todos protegidos por aquele verso de Pessoa, pintado sobre as estantes, que fala do poeta e da dor que ele deveras sente. Ao fundo, uma exposição de produtos capazes de fazer salivar qualquer um que esteja saudoso da terra onde canta o sabiá; guaraná Antarctica, feijão preto, rapadura. O nome da loja é A Livraria, fica em Berlim, na Torstraße 159.

Aberta em 2006, a livraria pertence ao pernambucano Edney Meirelles e à sua mulher, a italiana Catia Russo. É um ótimo lugar para escapar do frio deste fim de verão berlinense (9ºC no verão é de fazer qualquer um duvidar da história do aquecimento global). Foi lá que, na quinta passada, fui recebido para uma leitura do Notícias do Mirandão, lançado na Alemanha, pela editora Nautilus, em 2006. O evento foi organizado em conjunto com a Sociedade Brasil-Alemanha (DBG) e teve a mediação do meu novo amigo de infância, o Michael Kegler, tradutor do livro.

Não deixa de ser engraçado debater o livro numa área de Berlim que, há até pouco mais de 20 anos, pertencia à então República Democrática Alemã, a Alemanha Oriental. Meio que falava de corda em casa de enforcado - afinal, o romance trata de uma articulação entre um grupo de esquerda e traficantes cariocas em torno de uma revolução de caráter socialista.

É claro que, na hora de conversar sobre o livro, o tema acaba se impondo ao romance e o escritor é obrigado a ceder lugar ao repórter que também deveras é. Tudo bem, falamos de favelas, polícia, UPPs. E registro como é curioso falar, no exterior, sobre uma política de pacificação de favelas. Afinal, a busca de paz pressupõe a existência de uma guerra. É doloroso admitir a nossa guerra particular, ainda mais num país de tantas guerras, como a Alemanha.

Coube à professora de Teoria Literária e escritora Ligia Chiappini Moraes Leite, da Universidade Livre de Berlim, recolocar a bola no campo literário, o que permitiu uma discussão mais voltada para uma realidade construída pela ficção e sobre as limitações da lógica jornalística. Tratamos, enfim, para falar de um samba que cito no Mirandão, da dor que não sai no jornal.



Primeiro mundo de verdade

separador Por Fernando Molica em 12 de setembro de 2011 | Link | Comentários (2)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 7/9/2011.

Entre as péssimas contribuições do governo Collor está a vulgarização da expressão "de primeiro mundo". Virou moda utilizá-la para definir o que parece semelhante a produtos, serviços e instituições existentes em países desenvolvidos. Nada contra a busca de equiparação, o problema foram os exemplos utilizados. Passou-se a usar o elogio apenas para o que transmite a impressão de luxo e suntuosidade: shoppings, carros de luxo, prédios comerciais, condomínios fechados, modernos estádios de futebol. Isto tudo passou a ser tratado como "de primeiro mundo".

Há ostentação em países ricos, mas não é o consumo e a exposição do luxo que os fazem ser de primeiro mundo. A necessidade de exibir riqueza é mais característica de subdesenvolvidos -- o mau gosto do palácio do Kadhafi confirma. O que define o alto grau de civilização são itens mais modestos. De primeiro mundo não é o país onde toda a população tem carro, mas aquele que oferece um transporte público de qualidade para todos. Melhor do que ter carro e ficar duas horas engarrafado é pegar o metrô e chegar em casa em 30 minutos. Na Europa, muita gente até prefere um meio de transporte mais simples e saudável, a bicicleta.

Ainda mais sofisticado é ter cidades com rios e praias limpos, o que só é possível se o saneamento básico for levado para todos. Ser de primeiro mundo é privilegiar o público ao privado, é compreender que, numa sociedade democrática, todos têm direitos iguais -- o voto do pobre vale tanto quanto o do rico.

País de primeiro mundo é aquele em que motoristas respeitam pedestres e ciclistas, não avançam sinal. Por lá, não se fala em "indústria de multas", há o reconhecimento de que, sem a perspectiva de punição, até o mais pacato motorista japonês corre o risco de virar um dos trogloditas que enfrentamos nas ruas. Respeitar sinais vermelhos e limites de velocidade é chato, mas necessário quando se pensa mais no coletivo do que no individual.

Entre os tantos serviços que distinguem países desenvolvidos do nosso o mais chocante talvez seja a educação. Eles sabem que sem educação pública de qualidade não teriam se tornado o que são. A visita a uma escola pública de um país desenvolvido deveria constar de roteiros turísticos. O que se vê, no geral, são instituições parecidas com nossas melhores escolas particulares. Com raras exceções, é nas escolas públicas que todos estudam, é nelas que se começa a romper a lógica que, entre nós, tantas vezes condena filhos de pobres à pobreza. Como por lá quase todos estudam em escolas públicas, a pressão para que elas sejam boas é bem maior. Fica a sugestão: a próxima vez que um político afirmar que uma besteira qualquer feita por seu governo "é de primeiro mundo", pergunte se as escolas públicas de sua cidade também são dignas do elogio.


Para o alvinegro Vinicius

separador Por Fernando Molica em 06 de setembro de 2011 | Link | Comentários (0)

IMG_1900.JPGComo diria Vinicius de Moraes: sabe lá, mr. Buster, o que é ouvir 'Tico-tico no fubá' no metrô de Paris?
O cara deve ter feito isso porque me viu com a camisa do Botafogo. E, por falar nisso: sabe lá, mr. Buster, o que é torcer pelo Botafogo?


BG
© Todos os direitos reservados. Todos os textos por Fernando Molica, exceto quando indicado. Antes de usar algum texto, consulte o autor. créditos do site    Clique para ver os créditos do site