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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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julho 2011 Archives

MP QUER PARAR OBRA DO MARACA

separador Por Fernando Molica em 29 de julho de 2011 | Link | Comentários (0)

Aí vai o abre do Informe do Dia de hoje. Agora, cabe à Justiça avaliar o que ocorre no Maracanã:

O procurador Maurício Andreiuolo, do Ministério Público Federal, vai pedir à Justiça a paralisação da reforma do Maracanã. Segundo ele, a permissão para a obra, concedida pela Superintendência Regional do Instituto Histórico e Artístico Nacional, é ilegal e desrespeita o tombamento do estádio.

Até segunda, Andreiuolo dará entrada em Ação Civil Pública com pedido de liminar contra o Iphan e a Emop, Empresa de Obras Públicas. Afirma que, com a demolição de sua marquise, o estádio ficará descaracterizado: "Haverá, na prática, a construção de um novo estádio". Neste sábado ocorrerá, no Rio, sorteio dos grupos das eliminatórias da Copa.

Iphan desrespeitou legislação

Andreiuolo destaca que bens tombados não podem ser destruídos, demolidos ou mutilados. Na ação, afirma que o superintendente regional do Iphan, Carlos Fernando Andrade, "exorbitou de suas funções" e violou "dispositivos legais" ao permitir a demolição da marquise. Ressalta que ele não consultou a área técnica do instituto antes de tomar sua decisão. O procurador lembra que a autorização, "prévia e precária", não permitiria o início das obras.

Ele quer que o Iphan seja condenado a admitir a ilegalidade da permissão e a expedir uma outra, que respeite o tombamento. As irregularidades na obra foram destacadas pelo Informe em notas publicadas a partir do dia 6 de maio.

Audiência pública

Nesta quinta-feira, o MPF promoveu audiência pública para discutir a reforma. O economista Carlos Lessa, ex-presidente do BNDES, defendeu que a marquise do Maracanã seja reconstruída. Também participaram da audiência a vereadora Sonia Rabello e representantes da Emop, do Iphan e da Frente Nacional dos Torcedores.

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O RENOVADO CHICO BUARQUE DE SEMPRE

separador Por Fernando Molica em 27 de julho de 2011 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O DIA, 27/6:

Há alguns anos, meu filho mais velho, então adolescente, chegou espantado. Acabara de conhecer 'Eu te amo', música de Tom Jobim com letra de Chico Buarque, e ficara impactado com os versos "Meu paletó enlaça o teu vestido/E o meu sapato inda pisa no teu". Feliz com a descoberta, apenas murmurei algo como "Pois é, é o Chico Buarque".

Hoje, continuo a me emocionar com essa e outras músicas do sujeito que é, para muita gente, o melhor intérprete de sonhos, alegrias, desilusões, angústias, protestos e amores. Quando jovem, aguardava ansioso a chegada de cada novo disco do já então meu compositor favorito. Decifrar metáforas e encontrar nas entrelinhas algum protesto que conseguira escapar dos censores dava mais ânimo para esperar o amanhã, o outro dia que viria após a queda da ditadura.

Não deixo de me surpreender com sua capacidade de, nas letras, produzir dribles simples e sofisticados, fintas que só os craques sabem inventar e fazer. Ao duvidar da sinceridade da musa, diz não saber se ela chora "dos olhos pra fora"; ao interpretar a mágoa de uma mulher abandonada, a faz confessar que seu ódio era uma forma de adorar o amado "pelo avesso". Em outra música, a vítima de um marido controlador, inverte o padrão de comportamento e dispara para o companheiro: "Te perdoo/Por te trair". Em 'Grande Hotel', composta com Wilson das Neves, o narrador não diz que a amante passa diante da TV; ele a vê "atravessando a novela". Isto sem falar no cara que, desencantado com o amor, admite mudar de calçada "quando aparece uma flor". Em 'Biscate', Chico criou um efeito percussivo com a repetição dos sons "ti/te/de" e "que": "Quem que te mandou tomar conhaque/Com o tíquete que te dei pro leite". Soa como um reco-reco ou um chocalho. Eu seria feliz o resto da vida se tivesse composto 'Futuros amantes' -- aqueles que "Se amarão sem saber/ Com o amor que eu um dia/Deixei pra você".

O lançamento do novo CD cria expectativa -- será bom, ótimo, apenas regular? Comecei a ouvi-lo no domingo, gostei de umas canções, estranhei outras, sei que terei muito o que descobrir. Hoje, percebi que Chico enfiou um caco num verso de 'Barafunda'. Ao repetir "E salve este samba antes que o esquecimento", ele achou um espaço para incluir a palavra "uísque" no verso. Ficou "(...) antes que o uísque, usquecimento/Baixe seu manto/Seu manto cinzento". Uísque, manto cinzento -- faz o maior sentido. Grande Chico!


A dura missão de dar palpites

separador Por Fernando Molica em 22 de julho de 2011 | Link | Comentários (1)

Num dos meus livros, acho que em O ponto da partida, um personagem jornalista reclama dos leitores. Diz que o bom seria trabalhar no jornal de uma instituição de surdos - nenhum deles telefonaria para reclamar. O sujeito, admito, não primava pelo bom humor. Não sou tão radical quanto o personagem; ao contrário, faço questão de responder a todos que me escrevem, para elogiar ou criticar. Só ignoro os que partem para o xingamento ou que não têm coragem de assinar suas broncas.

Na última quarta publiquei, na coluna Estação Carioca, em O DIA, artigo em que abordava alguns pontos relativos à educação no País (reproduzo o artigo abaixo). As reações foram bem diversas: alguns professores concordam com o tom geral dos comentários mas fizeram uma ou outra observação. Outros pegaram mais pesado, concordaram com a defesa de salários melhores para a categoria, mas discordaram de minhas críticas ao que classifiquei de corporativismo da categoria. Enfim, tudo dentro do jogo.

O mais curioso são os leitores que, ao invés de combater argumentos, tentam desqualificar quem os apresentou. Um deles, um professor que enviou sua manifestação para a caixa de comentários do jornal, diz que eu deveria ter ficado quieto. Isto porque, segundo ele, educação não é futebol, "onde qualquer um acha que pode ser técnico". De acordo com o leitor, como eu não nada saberia sobre educação, não poderia falar sobre o assunto. Este tipo de comentário me assusta. Faz lembrar aqueles militares que, para justificar a ditadura, diziam que o povo não sabia votar. Caramba, se não posso palpitar sobre educação (ou sobre economia ou sobre incentivos fiscais ou sobre administração pública ou sobre futebol), não posso também votar.

Podemos e devemos palpitar sobre tudo - cabe aos ouvintes ou leitores avaliarem nossas opiniões. Além do mais, vale lembrar, os professores são pagos pela sociedade, pelos contribuintes. Como contribuinte, tenho direito de me manifestar sobre o uso que é feito com o meu dinheiro. Eu também pago o salário do professor que quer cassar o meu direito de palpitar, logo, posso e devo dar minha opinião, por mais idiota que venha a ser. Além do mais, educação - assim como segurança pública, saúde, jornalismo e futebol - é um assunto sério demais para ficar restrito apenas aos especialistas. Assuntos de interesse público devem ser debatidos por todo mundo - se abrirmos mão disso estaremos justificando qualquer ditadura. Acho que ainda precisamos aprender muito sobre democracia e sobre o embate de ideias.

Aí vai o artigo:

O fim dos professores

Sei não, mas parece que governos e sindicatos fizeram uma espécie de pacto com o inconfessável objetivo de acabar com os professores. Pelo menos, parecem se esforçar para desestimular qualquer pessoa a se dedicar ao magistério e para diminuir a relevância do profissional de ensino. Hoje é difícil encontrar professores para matérias como Física, Química e Matemática; temo que, daqui a alguns anos, o problema se repita em outras disciplinas.

A expansão da rede pública afundou de vez os salários dos professores. Como, de algumas décadas para cá, filhos da elite e dos políticos passaram a estudar em escolas particulares, os governos se lixaram para o ensino público, o que se refletiu nos salários dos integrantes do magistério. OK, são muitos professores, os aumentos têm que ser repassados para os aposentados, não é fácil pagar bem a tanta gente. As justificativas têm seu fundo de razão, mas servem apenas para legitimar uma espécie de suicídio coletivo: com o arrocho salarial, muitos jovens têm fugido da perspectiva de trabalhar nas escolas e buscam outras profissões. Isto representa uma ameaça para as futuras gerações de alunos, do ensino público e do particular, que precisarão de bons professores. Em breve, teremos que importar mestres.

Já sindicatos tendem a insistir na rotina de greves e se fecham na lógica corporativa. Correm de propostas de avaliação assim como secretários de Fazenda ou de Planejamento fogem de percentuais mais razoáveis de reajuste. Ao agirem assim, representantes do magistério tentam se colocar acima dos problemas do setor e procuram transferir para o Estado e para os próprios alunos a culpa pela baixa qualidade do ensino. Claro que os professores não são os únicos culpados por vergonhosos índices de aprendizado na rede pública, mas eles não podem se eximir desta responsabilidade. Ao propor o boicote a um sistema de avaliação, alguns sindicalistas se revelam conservadores, cúmplices de um sistema que condena pobres a continuar pobres. A melhoria da educação passa também pela cobrança de mais qualidade.

Os professores, que enfrentam tantas dificuldades, têm o direito de lutar por melhor remuneração, mas não podem ignorar seus compromissos com os estudantes, prejudicados por sucessivas greves. Um esforço ainda maior pela melhoria da educação daria mais respaldo à luta salarial e à própria categoria, é só lembrar como foi o apoio aos bombeiros.


Tio Patinhas e os incentivos fiscais

separador Por Fernando Molica em 13 de julho de 2011 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O Dia, 13/7/2011

Não é nada fácil definir que atividades artísticas e culturais merecem receber dinheiro público, a decisão sempre será subjetiva. A legislação brasileira tem o mérito de evitar o dirigismo estatal, mas abre margens para muitas distorções. A maioria dos empresários prefere apoiar artistas consagrados, que possam agregar prestígio às suas marcas. Até aí, tudo bem, o problema é que esta publicidade é feita com dinheiro público: o valor do patrocínio pode ser abatido do imposto de renda das empresas.

Ainda neste ano, gerou muita polêmica a concessão de incentivos fiscais para a produção de um site em que a cantora Maria Bethânia declamaria poesias. Para muita gente, uma artista de tanto prestígio não precisaria utilizar aquele mecanismo. Há alguns anos, a briga foi ainda maior: descobriu-se que o governo federal abriu mão de receber R$ 9,4 milhões em impostos para ajudar a promover a primeira temporada do milionário Cirque du Soleil no Brasil. A repercussão do caso fez com que os promotores das temporadas seguintes abrissem mão do benefício.

Nada contra o Cirque du Soleil, mas é razoável acreditar tratar-se de um espetáculo capaz de ser viabilizado com recursos privados. A mesma lógica que passou a valer para o grupo poderia ter servido de referência para outras atrações. Em 2011, o Ministério da Cultura aceitou conceder incentivos fiscais para espetáculos criados em torno de personagens da Disney. Por mais que adoremos Mickey e Donald, é meio esquisito dar dinheiro público para uma das maiores multinacionais do entretenimento. Será que o governo norte-americano daria alguns milhões de dólares para ajudar numa eventual turnê da Turma da Mônica por lá? Sei não, mas acho que a simpática dentuça e seu coelhinho não seriam recebidos com tanta deferência por lá. Afinal, os personagens de Mauricio de Sousa são concorrentes dos que geram empregos nos Estados Unidos.

Que Mickey continue a encantar crianças de todo o mundo, inclusive as brasileiras. Mas seria mais interessante que ele usasse, digamos, os recursos do Tio Patinhas. Não é justo usar o dinheiro de todos nós para subsidiar os ingressos de algumas poucas milhares de pessoas que verão seus shows.

...

Correção: no artigo da semana passada, errei o nome de Fabiana, uma das filhas do ex-presidente Itamar Franco.


As discretas filhas de Itamar Franco

separador Por Fernando Molica em 06 de julho de 2011 | Link | Comentários (8)

Coluna Estação Carioca, O Dia, 06/7.

Com a morte de Itamar Franco, os brasileiros, enfim, puderam conhecer as filhas do ex-presidente. Exemplos raros de discrição, Fabiana e Georgiana mantiveram-se longe dos flashes durante todo o período em que Itamar exerceu a Presidência. Elas só mostrariam seus rostos no velório do pai. Vale lembrar: os anos que antecederam à posse de Itamar foram marcados pelo exibicionismo do então presidente Fernando Collor, de seus parentes e amigos. Especialista na criação de fatos que gerassem notícias fúteis, Collor transformou em ritual suas corridas dominicais, adorava se mostrar pilotando jet-skis, chegou a pegar carona num caça da FAB.

A ânsia pela exibição marcava aquele grupo de deslumbrados com o poder e com suas aparências e oportunidades. Na chamada República de Alagoas, referência à origem política do presidente, mesmo a separação de Collor precisava ser alardeada. Numa solenidade pública, ele fez questão de mostrar a ausência da aliança em sua mão. Expulso da Presidência após o impeachment, Collor soube transformar em espetáculo até sua saída do Palácio do Planalto.

Em meio à tamanha exposição, jornais, revistas e TVs se assanharam com a ascensão de um novo presidente. Divorciado, era pai de duas jovens -- tinham em torno de 20 anos. Nós, jornalistas, queríamos entrevistá-las, fotografá-las, transformá-las em celebridades. Publicações especializadas se excitavam diante de futuras capas, de reportagens que revelariam namoros, separações e escândalos. Uma das filhas do presidente haveria de ser vista com algum ator, que logo seria trocado pelo herdeiro de um empresário. A outra, quem sabe?, se envolveria com um jogador de futebol e acabaria flagrada em poses comprometedoras num baile funk ou numa boite depois de algumas doses a mais. Seria inevitável que uma das duas demonstrasse arrogância, um sabe-com-quem-você-está-falando, diante de um policial.

As expectativas foram frustradas. Até hoje ignoramos quem elas namoraram, com quem se casaram, se é que são casadas. Juliana e Georgiana não protagonizaram escândalos, não usaram o nome do pai. Pelo que se sabe, não levaram amigos para passear em avião da FAB, não receberam passaporte diplomático, não ganharam empregos públicos, não montaram consultorias nem frequentaram festas de empresários. Um comportamento que, pela correção, se destaca em nosso universo político. Solidário, o País agradece.


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