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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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maio 2011 Archives

O dia em que todos fomos McCartney

separador Por Fernando Molica em 25 de maio de 2011 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O Dia, 25/5.

Boa parte dos jovens que foram ao Engenhão ver Paul McCartney sequer era nascida em 1990, ano em que ele cantou no Maracanã. Quando os Beatles se separaram, eu tinha 9 anos. Em tese, eles seriam referência para a geração anterior à minha, pessoas que, quando eu era bebê, estavam na juventude. Mas eles ultrapassaram esta e outras barreiras etárias e não param de conquistar admirado-res. De certa forma, Paul, John, George e Ringo continuaram juntos -- a separação foi um problema deles; a permanência do grupo e de suas canções foi assegurada por todos nós. Dois dos ex-beatles morreram? Só pra você, fã ingrato.

Chega a ser assustador ver McCartney ali no palco. É como ir ao Municipal assistir a um recital de Mozart, em pessoa. Não é sempre que podemos ficar a dezenas de metros de um clássico, uma referência mundial, alguém que, daqui a dois séculos, continuará a ser ouvido. Paul tinha uns 20 e poucos anos quando eu era menino; cresci, fiquei mais velho, mas ele continua jovem. De alguma forma, o sujeito nos mostra que é possível continuarmos jovens, apesar de nossas idades. Suas canções -- e as de Lennon e de Harrison -- parecem que acabaram de ser compostas, continuam a nos animar, a nos emocionar. Ao fim de 'The Long and Widing Road', um jovem que eu não conhecia virou-se para mim e se disse tocado por aquela triste história de amor. Concordei, também fiquei emocionado.

O assassinato de Lennon encerrou de forma trágica o Fla x Flu que dividia os fãs; uns ficavam com ele, outros com Paul. No Engenhão, todos éramos McCartney, garotos que, como eu, já tentaram aprender violão para lutar contra a timidez e, assim, chegar mais perto de alguma menina. Todos estávamos no palco, pulávamos meio sem jeito, falávamos obviedades, cantávamos as canções que são de todos nós. Será que Paul tem ideia do número de casais que suas músicas ajudaram a formar? Dos milhões de pessoas que se beijaram graças a um empurrãozinho de 'And I Love Her', 'Yesterday' ou 'My Love'? Enfim, velho amigo Paul. Obrigado pelas canções, pela alegria quase inacreditável de me ver de novo na plateia -- caramba, é mesmo o Paul McCartney! --, pelo prazer de viver aquela noite inesquecível. Obrigado, principalmente, porque saí do Engenhão mais jovem do que entrei, com os dedos machucados pelas cordas da guitarra imaginária que tanto toquei durante o show. Ah, volte sempre, não dá pra esperar por mais 21 anos.


Escola não é igreja

separador Por Fernando Molica em 18 de maio de 2011 | Link | Comentários (1)

Coluna Estação Carioca, jornal O Dia, 18/5


A compra de carros para os vereadores é um fato grave, mas a Câmara do Rio se prepara para, em segunda votação, aprovar algo pior, o projeto da prefeitura que cria a categoria de professor de ensino religioso. Trata-se da regulamentação de uma lei sancionada ainda na gestão de Cesar Maia. Ao longo de três anos serão contratadas 600 pessoas; em 2013, a despesa anual com o novo quadro chegará a quase R$ 16 milhões.

Tão grave quanto o uso de dinheiro público para tratar de um tema relacionado às convicções individuais é a adoção de um ensino de caráter confessional -- as aulas, de presença não obrigatória, serão ministradas por professores de diferentes religiões. A lei federal que trata do assunto diz que não poderá haver proselitismo -- doutrinação -- em sala de aula, mas isto será inevitável. Católicos e evangélicos vão afirmar que Jesus é o Salvador, muçulmanos dirão que ele é apenas um profeta, judeus continuarão a esperar pelo Messias, candomblecistas passarão ao largo da briga. Ah, ateus aproveitarão o tempo de aula para jogar bola no pátio. Cada professor vai defender seu ponto de vista, sua verdade religiosa, todas igualmente respeitáveis e questionáveis. Não é possível deixar de fazer proselitismo; em matéria de religião, as verdades se excluem.

Mas isso também ainda não é o pior. Nos últimos anos, temos assistido a um crescimento da intolerância religiosa. Para setores de algumas igrejas evangélicas pentecostais, as entidades cultuadas em religiões de matriz africana não passam de sorrateiras manifestações demoníacas. Também enxergam o dedo do Capeta na tradição católica de venerar imagens. O que para muitos pode parecer intolerância é, para eles, uma Verdade, creem ser necessário salvar ovelhas desgarradas. No mercado religioso há também os que tendem a desqualificar e estigmatizar os evangélicos. Vamos nós, cidadãos de todas as religiões, e, mesmo, ateus, levar tantos preconceitos para as salas de aula? Vamos ajudar a dividir os alunos, a incentivar o que os desune?

Segundo o projeto, os professores deverão seguir "orientações emanadas da respectiva Autoridade Religiosa", ou seja, farão o que seu mestre mandar -- e não dá para garantir que estes irão valorizar todas as religiões. Seria melhor que o Estado tratasse de garantir a liberdade de fé, cada religião cuidaria de seus próprios fiéis. Não custa aplicar o velho ensinamento de separar o que é de César do que pertence a Deus.


O Maraca é nosso - notas do 'Informe do Dia'

separador Por Fernando Molica em 14 de maio de 2011 | Link | Comentários (0)

Aí vai a sequência de notas publicadas no Informe do Dia sobre as reformas no Maracanã. A apuração começou com uma consulta ao processo de tombamento no estádio - a documentação está no Palácio Gustavo Capanema, no Rio. Até agora já possível derrubar duas versões: 1. ao contrário do que vinha sendo repetido, o tombamento do estádio não protege apenas sua estrutura externa; 2. a Fifa não exigiu que a cobertura fosse ampliada. Hoje, dia 14, o Informe revela uma série de providências tomadas pelo Ministério Público Federal, que chega a recomendar ao Iphan e ao governador Sérgio Cabral o respeito aos limites impostos pelo tombamento do Maracanã. O MPF ressalta que a legislação proíbe demolir, destruir ou mutilar bens tombados - ou seja nem mesmo o Iphan poderia ter autorizado o que já foi feito no estádio. Até agora, a reforma destruiu parte das arquibancadas e todo o anel inferior, onde ficavam as cadeiras azuis. O governo do Estado já anunciou que recebeu autorização do Iphan para demolir a marquise do estádio, que estaria condenada.

6/5 - MARACANÃ: REVOLTA COM OBRAS

A autorização do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) para a derrubada da cobertura do Maracanã revoltou profissionais que participaram do tombamento do estádio, em 2000. Relator do processo de tombamento, o arquiteto Nestor Goulart Reis Filho afirma que a cobertura não poderia ser demolida "em hipótese nenhuma". Para ele, retirar a "marquise é como cortar a cabeça de uma pessoa". Segundo o arquiteto, "um bem tombado é intocável". O Iphan permitiu que a marquise seja substituída por um teto de lona.

Italo Campofiorito, que também participou do tombamento, é direto: "As reformas estão destruindo o Maracanã, o Iphan não protegeu o estádio". Em texto entregue, no mês passado, a colegas do Iphan, Claudia Girão, ex-chefe da Divisão de Proteção Legal do Instituto, afirma que a demolição da marquise é "uma descaracterização fundamental".


A decisão do superintendente do Iphan-RJ

Em 2010, o superintendente regional do Iphan, Carlos Fernando Andrade, permitiu a demolição do anel inferior do estádio; em abril passado autorizou a derrubada da marquise -- segundo laudos apresentados pelo governo do Estado, o teto não resistiria à estrutura que iria complementar a cobertura do estádio. No parecer, Andrade diz que a modificação não teria consequências paisagísticas, pois as alterações ocorreriam "abaixo do ponto focal do observador". Afirma que a estrutura do Maracanã não foi citada nos pareceres do tombamento.


A decisão de tombar o estádio

O processo de tombamento do Maracanã -- consultado ontem pelo Informe -- está arquivado no Palácio Gustavo Capanema, no Centro do Rio. Iniciados em 1983, os trabalhos foram retomados em em 1997, quando houve o anúncio de uma nova reforma no estádio. Em ofício ao governo do Estado, o então diretor do Departamento de Proteção do Iphan, Sabino Barroso se disse preocupado com a possibilidade de as obras descaracterizarem um bem "mundialmente conhecido". Na época, Claudia Girão escreveu que as modificações no estádio deveriam "respeitar a essência da obra e se condicionar às premissas de sua preservação como patrimônio histórico e artístico nacional".


Proteção total

Ao contrárido do que já foi divulgado, a proteção não é apenas para a parte externa do estádio. Quando discutiram o tombamento, os técnicos examinaram a colocação de cadeiras nas arquibancadas e se disseram preocupados com o fim da Geral, que só ocorreria anos depois.


Projeto audacioso

No processo de tombamento, os pesquisadores Adler Homero Castro e Regina Coeli Pinheiro da Silva destacaram que o projeto arquitetônico do estádio tinha "particularidades audaciosas para sua época, no que se refere à concepção e técnica".


Estádio é emblema da cidade

Campofiorito não aceita a tese de que a mudança da cobertura não afetaria a visão do estádio. "O Maracanã é sempre mostrado do alto, é um emblema da cidade", diz. Reis Filho frisa que obras em bens tombados só podem ser realizadas para preservá-los ou para restituir suas características. Em seu texto, Claudia Girão afirma que a remoção da marquise seria "uma das mais radicais intervenções realizadas até hoje em bens tombados que não sofreram incêndio ou outra calamidade."

Ao contrário das obras no Maracanã, mudanças na Marina da Glória foram levadas ao Conselho Consultivo do Iphan -- o anteprojeto foi aprovado na quarta passada. Até agora, a direção nacional do Instituto não se manifestou sobre o estádio.


Aplauso do Informe

Para o Maracanã, que é de todos nós
Ao longo de seis décadas, o Maracanã se firmou como o principal estádio brasileiro, palco de grandes alegrias e tristezas - o grito "o Maraca é nosso" pertence a todas as torcidas. Gerações e gerações aprenderam a gostar e a respeitar a beleza e a imponência de suas formas.


Bronca do Informe

Para a demolição da cobertura
Segundo organizadores da Copa, a ampliação da marquise do Maracanã seria uma exigência da Fifa: em jogos do torneio, todos os espectadores teriam que ficar cobertos. Vale lembrar que, na Copa passada, isto não foi cobrado dos sul-africanos.

8/5 - O MARACA É NOSSO 1

O presidente da Comissão da Câmara dos Deputados que estuda o legado da Copa e das Olimpíadas, Alessandro Molon (PT), quer submeter ao Conselho Consultivo do Iphan a decisão de permitir a demolição da cobertura do Maracanã.


O Maraca é nosso 2

Já o deputado Marcelo Freixo (PSOL) vai propor à Comissão de Cultura da Alerj uma audiência pública para discutir a reforma. Quer convocar o superintendente do Iphan no Rio, Carlos Fernando Andrade, que autorizou a obra.


Difícil tombar, fácil derrubar

Proposto em 1983, o tombamento do Maracanã só começou a andar em 1997, diante da ameaça de alterações no estádio. O caso envolveu vários laudos, muitos técnicos foram consultados. A decisão, em 2000, foi do Conselho Consultivo do Iphan: o tombamento, portanto, levou 17 anos. Para permitir obras que mudam a estrutura do estádio bastou o OK do superintendente regional do Iphan. É razoável exigir que o Conselho Consultivo do Instituto, obrigado a se manifestar a respeito de obras na Marina da Glória, seja ouvido sobre o Maracanã.

11/5 - FIFA NÃO EXIGIU TETO

A Fifa não exigiu a ampliação da cobertura do Maracanã. Documento da entidade apenas classifica de "particularmente desejável" a existência de um teto sobre todo o público dos estádios, inclusive os utilizados em Copas.

A Secretaria Estadual de Obras e o Comitê Organizador Local confirmaram que a Fifa não fez a exigência. Segundo a Secretaria, a decisão de ampliar a cobertura foi do governo do Estado: isto, para modernizar o estádio e dar conforto ao público. A reforma previa a ampliação da atual cobertura que, agora, será substituída por uma de lona.

"Determinações"

Ao autorizar a derrubada da marquise, a Superintendência do Iphan-RJ, baseada em informações da Emop (empresa do governo estadual), citou problemas na estrutura do teto e as "determinações da Fifa" para "aumentar a área coberta do estádio".


Demolição

Segundo a Secretaria de Obras, a demolição teria que ser feita mesmo se não houvesse o projeto de aumento do teto. Diz que estudos demonstraram o comprometimento da estrutura. O governo só vai divulgar os laudos no dia 17.


Obras feitas para o Pan de 2007

Integrante do consórcio responsável pela atual obra, a Odebrecht também atuou na reforma do estádio para o Pan. Em 2007, o diretor da empresa Marcos Vidigal disse, para uma publicação da construtora, que a cobertura da arquibancada havia sido impermeabilizada. "O que é estruturante foi feito", declarou. Texto disponível no site da Emop cita que, na época, houve "recuperação estrutural das instalações" do Maracanã e "tratamento e impermeabilização das lajes da cobertura".

12/5 - MPF QUER DOCUMENTOS

O procurador Maurício Andreiuolo, do Ministério Público Federal, pediu ao Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) cópias dos documentos relacionados ao tombamento do Maracanã.

Andreiuolo também decidiu se reunir com o superintendente do Iphan no Estado, Carlos Fernando Andrade -- que autorizou a demolição da cobertura do estádio --, e com a Delegacia do Meio Ambiente da Polícia Federal. Quer avaliar se as obras no Maracanã desrespeitam seu tombamento, decidido há 11 anos.


Formato original

O deputado Otavio Leite (PSDB) se reuniu, no Tribunal de Contas da União, com o ministro Valmir Campelo, que acompanha as obras no Maracanã. Solicitou a Campelo garantias de que a reforma não irá descaracterizar "o formato original" do estádio.


Conselho do Iphan

Ao saber que o aumento do teto do estádio não foi exigido pela Fifa, o deputado Alessandro Molon (PT) decidiu: encaminha hoje ao Iphan pedido para que a autorização concedida às obras seja submetida ao seu Conselho Consultivo

13/5 - MARACANÃ NA ALERJ

Presidente da Comissão de Cultura da Assembleia Legislativa, o deputado Robson Leite (PT) decidiu convocar audiência pública que discutirá as obras para a Copa de 2014, entre elas, a reforma do Maracanã. Ele quer ouvir representantes do Iphan, da Secretaria Estadual de Cultura e da comissão responsável pelas obras. Uma das principais questões envolve as alterações no estádio. "Queremos saber se o projeto está respeitando o desenho cultural do Maracanã", afirma.

14/5 - MARACANÃ: MPF ATACA

O Ministério Público Federal tomou uma série de providências para evitar a descaracterização do Maracanã, que está sendo reformado para a Copa. O procurador Maurício Andreiuolo recomendou a diversos órgãos e autoridades -- entre eles, o Iphan e o governador Sérgio Cabral -- "o estrito cumprimento da legislação" em relação às obras, "em especial aos limites impostos pelo tombamento" do estádio.

Andreiuolo converteu em inquérito civil público o procedimento administrativo que abrira para apurar as modificações na estrutura do Maracanã e eventuais irregularidades nas obras. Ícaro Moreno Júnior, presidente da Emop (empresa do governo estadual que coordena os trabalhos), foi intimado para prestar esclarecimentos.


Proibido destruir ou mutilar

Em ofícios,o procurador deu prazo de dez dias para que responsáveis por órgãos públicos digam que medidas foram tomadas para assegurar, no decorrer das obras, "a preservação das características integrais" do Maracanã. O estádio foi tombado há onze anos pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Ele cita a Lei do Tombamento -- o artigo 17 determina que "as coisas tombadas não poderão, em caso nenhum ser destruídas, demolidas ou mutiladas". Estes ofícios foram enviados para o superintendente do Iphan no Estado, Carlos Fernando Andrade (que autorizou as obras e a demolição da cobertura do Maracanã); o secretário de Obras, Luiz Fernando Pezão; o secretário da Casa Civil do Estado, Regis Fichtner; o superintendente da Suderj, Everardo da Silva; e o secretário municipal de Urbanismo, Sérgio Dias.


"Sérias dúvidas" sobre licenças

Maurício Andreiuolo cita reportagens sobre as obras e diversas notas publicadas no Informe. Entre elas, as que, no último dia 6, revelaram a revolta de arquitetos com a autorização para a derrubada da marquise do estádio: relator do processo de tombamento, Nestor Goulart Reis Filho foi um dos que protestaram contra a decisão. Nos documentos, o procurador ressalta a demolição do anel inferior do estádio e a destruição do seu teto.

No ofício enviado para a Superintendência do Iphan, ele pergunta se o órgão autorizou "as obras já iniciadas e quaisquer outras possíveis, em especial, no que tange à demolição da marquise do estádio". Requisita também o envio de "todos os documentos relativos ao Maracanã", em especial os relacionados à cobertura do estádio. Para o procurador, há "sérias dúvidas" sobre os processos de licenciamento e realização da reforma que está sendo feita no Maracanã.


Vistorias

O procurador também pergunta às autoridades se foram realizadas vistorias nas obras e requisita o envio de eventuais laudos técnicos. Solicita à Suderj cópia da ata da audiência pública referente à licitação para a reforma no estádio. A decisão de demolir a cobertura do Maracanã foi tomada pelo governo do Estado -- de acordo com laudos ainda não divulgados, a estrutura da marquise estaria comprometida.


16/5 - MARACANÃ: TÉCNICOS DO IPHAN NÃO FORAM OUVIDOS"


A reforma do Maracanã não poderia ter sido autorizada sem o parecer de um grupo de técnicos do Iphan, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Para a vereadora Sonia Rabello (PV), ex-diretora do Patrimônio Material e Fiscalização do Iphan e ex-integrante do Conselho de Tombamento da Secretaria de Cultura do Estado, a gravidade das intervenções exigiria um consenso técnico.

-- A lei que impede demolição, destruição ou mutilação de bem tombado foi cumprida no caso do Maracanã?
-- O processo não ocorreu devidamente, por falta de parecer técnico e pelo nível de mudança no estádio.Eu acredito que houve o descumprimento do que propõe o decreto-lei. Nunca vi se aprovar uma intervenção tão radical.

-- Mas a superintendência do Iphan não pode avaliar intervenções?
-- O tombamento não congela o bem, mas preserva suas características materiais. Além disso, a lei fala em superintendência, não em superintendente. O Iphan tem um corpo técnico de funcionários efetivos, concursados, teria que ter havido um parecer destes técnicos. Houve apenas a manifestação do superintendente, um ocupante de cargo comissionado.

-- Como o governo do Estado deveria ter agido?
-- Quando o Brasil se candidatou para a Copa, sabia que o Maracanã era tombado. O governo poderia ter pedido seu destombamento ou feito um outro estádio. Para permitir a obra no Sambódromo, um bem tombado pelo Estado, o governador assumiu a responsabilidade de destombá-lo.

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Antônio Torres na ABL

separador Por Fernando Molica em 14 de maio de 2011 | Link | Comentários (0)

O amigo Altamir Tojal escreveu um ótimo texto/manifesto em defesa da eleição de Antônio Torres para a Academia Brasileira de Letras. Basta clicar aqui.


O gosto que não se discute

separador Por Fernando Molica em 12 de maio de 2011 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O Dia, 11/5:

A qui entre nós: a decisão do Supremo Tribunal Federal sobre a união estável entre gays apenas reconhece algo que já havia na sociedade. Homossexuais existem desde que o mundo é mundo, e isso nunca dependeu de leis ou de autorizações judiciais. São pessoas como quaisquer outras, que estudam, trabalham, pagam seus impostos. Têm, portanto, o direito de se unirem com quem bem entenderem e de desfrutarem de um mínimo de segurança institucional. Não custa ressaltar que a decisão judicial não obriga ninguém a se unir a uma pessoa do mesmo sexo, vai quem quiser.

Reconhecer a diferença em relação à orientação sexual não é lá muito constrastante como a admissão de outras particularidades. Somos todos iguais e diferentes: na aparência, nos gostos, nas vocações profissionais, na preferência por um time de futebol ou por um candidato a presidente da República. Gostamos de ser aceitos como somos, não custa retribuir do mesmo jeito. Tenho que aceitar quem cultiva gostos que me soam estranhos, como torcer para o Flamengo, ouvir música sertaneja ou frequentar micaretas. Todos merecem ser respeitados. Isto vale também para quem vê um lugar diferente para colocar o seu desejo. O problema não é meu -- cada um com seu cada um, ou com cada uma, sei lá.

Na ânsia de discriminar, tem gente que se escandaliza mais com o casamento gay do que com um bando de corruptos reunidos em um governo. Há pessoas que convivem bem com a miséria, mas se horrorizam diante de um beijo entre personagens homossexuais numa novela. Há os que não cansam de criticar as diferenças sociais no Brasil, mas se arrepiam ao ouvir falar em cotas para negros em universidades. Quem é mais velho lembra da aparentemente interminável polêmica em torno da instituição do divórcio. Dizia-se que sua adoção acabaria com a família, com a sociedade, com o País. As previsões, claro, não deram certo.

Muitos reclamam de um eventual excesso de exposição de temas relacionados a homossexuais na TV, nas revistas e nos jornais. É possível que haja um exagero, mas isto é causado pela própria intolerância e falta de uma legislação mais compatível com a realidade social. O tema deixará de ocupar tanto espaço na medida em que seja absorvido e naturalizado. Talvez aí possamos nos dedicar a problemas que afetam a todos, hétero ou homossexuais. Questões como a miséria, as injustiças e a falta de oportunidades iguais.


O Maraca é nosso

separador Por Fernando Molica em 07 de maio de 2011 | Link | Comentários (0)

O Informe do Dia de ontem, dia 6, foi todo dedicado à absurda (perdão, não consigo encontrar outra palavra) destruição do Maracanã. O governo do Estado - com a anuência do Iphan - optou por driblar a proposta de demolição do estádio, feita pelo João Havelange. Uma proposta pra lá de questionável, mas que tinha a vantagem de ser clara e objetiva. Para não enfrentar o debate sobre a demolição, optou-se por uma alternativa que, em tese, seria menos radical. Decidiu-se pela reforma. Uma obra que - diante do espantoso silêncio da maioria da imprensa, dos arquitetos e da própria sociedade - desrespeita o tombamento do Maracanã.

Bem, pessoas envolvidas no processo que decidiu pela proteção do estádio podem falar sobre o assunto melhor do que eu. Aí vão as notas da coluna de ontem.


Maracanã: revolta com obra

A autorização do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) para a derrubada da cobertura do Maracanã revoltou profissionais que participaram do tombamento do estádio, em 2000. Relator do processo de tombamento, o arquiteto Nestor Goulart Reis Filho afirma que a cobertura não poderia ser demolida "em hipótese nenhuma". Para ele, retirar a "marquise é como cortar a cabeça de uma pessoa". Segundo o arquiteto, "um bem tombado é intocável". O Iphan permitiu que a marquise seja substituída por um teto de lona.
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Italo Campofiorito, que também participou do tombamento, é direto: "As reformas estão destruindo o Maracanã, o Iphan não protegeu o estádio". Em texto entregue, no mês passado, a colegas do Iphan, Claudia Girão, ex-chefe da Divisão de Proteção Legal do Instituto, afirma que a demolição da marquise é "uma descaracterização fundamental".


A decisão do superintendente do Iphan-RJ

Em 2010, o superintendente regional do Iphan, Carlos Fernando Andrade, permitiu a demolição do anel inferior do estádio; em abril passado autorizou a derrubada da marquise -- segundo laudos apresentados pelo governo do Estado, o teto não resistiria à estrutura que iria complementar a cobertura do estádio. No parecer, Andrade diz que a modificação não teria consequências paisagísticas, pois as alterações ocorreriam "abaixo do ponto focal do observador". Afirma que a estrutura do Maracanã não foi citada nos pareceres do tombamento.


A decisão de tombar o estádio

O processo de tombamento do Maracanã -- consultado ontem pelo Informe -- está arquivado no Palácio Gustavo Capanema, no Centro do Rio. Iniciados em 1983, os trabalhos foram retomados em em 1997, quando houve o anúncio de uma nova reforma no estádio. Em ofício ao governo do Estado, o então diretor do Departamento de Proteção do Iphan, Sabino Barroso se disse preocupado com a possibilidade de as obras descaracterizarem um bem "mundialmente conhecido". Na época, Claudia Girão escreveu que as modificações no estádio deveriam "respeitar a essência da obra e se condicionar às premissas de sua preservação como patrimônio histórico e artístico nacional".


Proteção total

Ao contrárido do que já foi divulgado, a proteção não é apenas para a parte externa do estádio. Quando discutiram o tombamento, os técnicos examinaram a colocação de cadeiras nas arquibancadas e se disseram preocupados com o fim da Geral, que só ocorreria anos depois.


Projeto audacioso
No processo de tombamento, os pesquisadores Adler Homero Castro e Regina Coeli Pinheiro da Silva destacaram que o projeto arquitetônico do estádio tinha "particularidades audaciosas para sua época, no que se refere à concepção e técnica".


Estádio é emblema da cidade

Campofiorito não aceita a tese de que a mudança da cobertura não afetaria a visão do estádio. "O Maracanã é sempre mostrado do alto, é um emblema da cidade", diz. Reis Filho frisa que obras em bens tombados só podem ser realizadas para preservá-los ou para restituir suas características. Em seu texto, Claudia Girão afirma que a remoção da marquise seria "uma das mais radicais intervenções realizadas até hoje em bens tombados que não sofreram incêndio ou outra calamidade."

Ao contrário das obras no Maracanã, mudanças na Marina da Glória foram levadas ao Conselho Consultivo do Iphan -- o anteprojeto foi aprovado na quarta passada. Até agora, a direção nacional do Instituto não se manifestou sobre o estádio.


Aplauso do Informe

Para o Maracanã, que é de todos nós
Ao longo de seis décadas, o Maracanã se firmou como o principal estádio brasileiro, palco de grandes alegrias e tristezas - o grito "o Maraca é nosso" pertence a todas as torcidas. Gerações e gerações aprenderam a gostar e a respeitar a beleza e a imponência de suas formas.


Bronca do Informe

Para a demolição da cobertura
Segundo organizadores da Copa, a ampliação da marquise do Maracanã seria uma exigência da Fifa: em jogos do torneio, todos os espectadores teriam que ficar cobertos. Vale lembrar que, na Copa passada, isto não foi cobrado dos sul-africanos.


Dias difíceis e irritantes

separador Por Fernando Molica em 04 de maio de 2011 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O Dia, 04/5/11

Posso estar ficando velho, as sucessivas eliminações do Botafogo devem ter afetado minha relação com o mundo, a descaracterização do Maracanã complicou de vez a minha gastrite. Tenho, portanto, alguns bons motivos para ficar de mau humor. Mas será que é exagero ficar irritado com os motoristas que fecham cruzamentos? Ou com aqueles que estacionam nas calçadas? E o que dizer da carinhosa mamãe que acredita ser razoável parar o carro em fila dupla até que seu filhinho saia da escola? Dá para considerar razoável o comportamento do sujeito que, no transporte público, se aboleta nos lugares de idosos, deficientes e grávidas? Alguns, ainda mais cínicos, fingem dormir nos tais bancos. Por falar nisso: como classificar os motoristas de ônibus que se recusam a parar para idosos? Será que eles não conseguem imaginar que o pai ou a mãe deles poderia estar ali no ponto?

Há os que, no supermercado, são incapazes de estacionar o carrinho num canto enquanto escolhem entre o cream-craker ou o biscoito com recheio de chocolate. Admito que eles podem ser apenas distraídos, não são tão danosos quanto os que vão às compras em dupla para conseguir furar a fila. É simples: assim que o primeiro carrinho está cheio, Dona Fulana corre para um caixa. Quando termina de passar seus produtos, avisa que ainda não é hora de fazer o pagamento. É que seu marido, o Seu Beltrano, está chegando, carregado de outras compras. Azar do mané que, após avaliar o comprimento de todas as filas, escolheu ficar bem atrás daquela senhora que aparentava ter apenas um carrinho.

Aí chega o fim de semana. Você segue a recomendação de uns amigos e vai para um bar legal, de bons preços e ótima comida. Enquanto espera lugar, vê um integrante do elenco de apoio de 'Malhação' chegar com outras sete ou oito pessoas e conseguir mesa em menos de dois minutos. Cineminha? Sim, um ótimo programa, desde que ao seu lado não se sentem candidatos a críticos -- aqueles que não conseguem assistir a uma cena sem comentá-la -- ou algum fujão dos Vigilantes do Peso que, bem naquela noite, resolveu se vingar das restrições alimentares e se atracar com alimentos embrulhados em embalagens barulhentas.

Enfim, meus dias têm sido meio tensos. Como não posso ficar mais novo, nem pretendo me mudar para a Suíça, seria bom o Botafogo contratar logo um lateral esquerdo e um meia armador. Isso já me deixaria mais animado.


BG
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