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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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abril 2011 Archives

O CRIME DA MADRUGADA DE SÁBADO

separador Por Fernando Molica em 27 de abril de 2011 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O Dia, 27/4:


O aborto é proibido entre nós, os partidos comunistas foram, por muito tempo, impedidos de atuar, a escravidão era permitida por lei. Bebidas alcoólicas chegaram a ser banidas dos Estados Unidos, país onde, não faz tanto tempo assim, havia racismo oficial. Cigarros, há até alguns anos, podiam ser anunciados na TV.

Leis não são imutáveis, variam de acordo com a época, com os hábitos de cada povo. O que era impensável há algumas décadas hoje é considerado normal. Todos mudamos ao longo da vida, é natural que as normas que regem a sociedade também variem.

O bom da democracia é que nossas divergências podem e devem ser explicitadas. Há os que defendem o casamento gay e os que são contra; muitos querem a liberação do aborto, outros nem querem ouvir falar nisso. Isto vale para a pena de morte, para a redução da maioridade penal, para as cotas em universidades, para a limitação da publicidade de alimentos que fazem mal à saúde. As discussões nos fazem crescer, nos obrigam a pensar, permitem que os argumentos sejam expostos, mostram quem defende o quê.

Isso tudo é para ressaltar a absurda prisão, na madrugada de sábado, de manifestantes que divulgavam um ato em defesa da liberação da maconha. Pelo que os jornais publicaram, os sujeitos não estavam fumando maconha e -- ao contrário do que fazem anunciantes de bebidas alcoólicas ao falar de seus produtos -- não alardeavam supostos benefícios e prazeres relacionados ao uso da erva. Eles apenas exerciam o direito de defender mudanças na lei -- o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o governador Sérgio Cabral fizeram o mesmo e, ainda bem, não foram em cana. Já os manifestantes acabaram presos, acusados de apologia às drogas.

Deu trabalho conquistarmos o direito à liberdade de expressão, é fundamental mantê-lo. Não adianta garantirmos apenas a propagação de ideias com as quais concordamos, isto não tem graça. O legal na democracia está na obrigação de respeitarmos as opiniões contrárias. A Constituição garante a todos a liberdade de expressão e de pensamento e este princípio não pode ser atropelado pelo guarda da esquina e/ou pelo delegado de plantão. Eles não podem decidir o que pode e o que não pode ser dito em praça pública. No caso da madrugada de sábado, a única provável ilegalidade foi a prisão dos manifestantes, um aparente abuso de autoridade que merece ser investigado e punido.


O senador perdeu, a sociedade ganhou

separador Por Fernando Molica em 25 de abril de 2011 | Link | Comentários (0)


Coluna Estação Carioca, jornal O Dia, 20/4:


Sem querer, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) deu uma grande contribuição à vida pública brasileira. Tudo porque veio a público o mico protagonizado por Sua Excelência que, ao ser parado por uma blitz da Lei Seca, se recusou a fazer o teste do bafômetro. Ele e sua assessoria tentam limitar o episódio à carteira de motorista vencida, mas o problema, sabemos, não foi esse. O grave foi a recusa ao teste, sinal de que o senador não deveria estar assim tão sóbrio. Afinal, ele sabia que, ao não soprar no canudinho, receberia multa de R$ 957,69.

O bom dessa história toda é que o constrangimento imposto ao quase carioca Aécio -- senador da República, ex-governador de Minas e possível candidato à Presidência -- revelou algo inusitado entre nós. Mostrou que, ora veja só, a lei, pelo menos a Seca, é para todos. Talvez por isso as operações do bafômetro incomodem tanto. Nelas, até prova em contrário, não é possível dar uma carteirada ou puxar uma conversa relacionada a outro tipo de cervejinha. A Lei Seca tem sido aplicada com rigor, situação talvez explicável pela composição de suas equipes de rua, pessoas ligadas a diferentes setores da administração. As operações não são feitas apenas por integrantes de uma mesma corporação, o que dificulta eventuais acertos.

Não estávamos acostumados com esse negócio de lei para todos. A Lei Seca é quase uma excrescência no país das prisões especiais e do foro privilegiado, país que permite a um assassino confesso -- o jornalista que matou a namorada -- aguardar em liberdade o julgamento de intermináveis recursos. As operações que engarrafam nossas noites são importantes não apenas para reprimir bebuns ao volante, mas também para revelar que ninguém está acima da lei.

Portanto, senador, muito obrigado. O episódio da madrugada de domingo acabou sendo uma ótima lição para todos, ajudará a inibir os que insistem em dirigir depois de beber, o que evitará acidentes e vítimas. O recado foi bem claro. Se um homem como Vossa Excelência -- senador, amigo do governador do Rio -- está sujeito aos rigores da lei é melhor todo mundo ter cuidado: é pra valer, ninguém pode beber e dirigir. Como o senhor bem ressaltou em seu primeiro discurso no Senado, "o poder conquistado nas urnas ou a popularidade de um líder não lhe conferem licença para ignorar a Constituição e as leis". De carioca para carioca: boa, cumpadi; valeu, bródi; é isso aí, mermão.


Aniversário do Rei

separador Por Fernando Molica em 19 de abril de 2011 | Link | Comentários (0)

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Acho que já comentei isso aqui: nunca tremi tanto numa entrevista quanto no dia (uma noite, na verdade) em que me vi pela primeira vez diante de Roberto Carlos. Foi em 1985, no primeiro Rock in Rio (confesso: eu tinha idade para ir como jornalista). O Rei tinha ido lá prestigiar a apresentação de Erasmo Carlos, um show que se transformaria num fiasco graças à reação da plateia metaleira.

Não foi uma entrevista coletiva, apenas a troca de algumas palavras. Mesmo assim deu frio na barriga, as pernas bambearam. Eu estava diante do meu ídolo de infância, do sujeito que, anos depois, eu trataria de rejeitar (aquela fase de gordinhas, mulheres pequenas e baleias era insuportável). Cheguei até a recusar um convite para a estreia de um de seus shows no Canecão. Mas, apesar das críticas que a ele eu então fazia, notei, naquela noite, que não adiantava a lutar contra a presença do RC em minha história, uma história que - anos depois entenderia - faz parte de quase todos nós.

De lá pra cá, eu - como dizem os evangélicos em relação a Jesus - aceitei Roberto Carlos. Não adiantava mesmo tentar esquecê-lo. Acompanhei a agonia e morte de Maria Rita, li o espetacular livro 'Roberto Carlos em detalhes'. Lembro que fiquei muito emocionado pela leitura - não apenas por passagens da vida do Rei mas, principalmente, pela beleza que o autor, o Paulo César de Araújo, soube ressaltar em suas músicas. Fiquei irritado com a proibição do livro - até desisti de comprar ingressos para um show de RC no Canecão. Não dava para compactuar com a censura a um livro.

Mas o Rei é contraditório, minha relação com ele, também. Acabei indo ao show no Maracanã, em dezembro estava entre as centenas de milhares de pessoas aglomeradas na Praia de Copacabana. E, em março passado, no Sambódromo, eu - ao lado do Maurício Stycer e da Mônica Bergamo - consegui entrar no camarote do RC (por sorte, eu e o Maurício vestíamos azul). Desta vez, não tremi. Conseguimos fazer algumas perguntas (e até soprar uma respostas, é um sufoco entrevistar um sujeito que, a cada tentativa de resposta, fala uns cinco "bicho" e não para de balançar a cabeça). Um sujeito que procura fugir de perguntas - as mais óbvias possíveis, admito - com alguma frase pronta, bem-humorada. Ah, ele também não para de sorrir, um riso meio sem graça. Um rei modesto, baixinho, que - eu nunca tinha reparado - manca um pouco ao caminhar. Um rei afável, que topa posar na janela no Sambódromo diante da minha pequena câmera amadora e que admite só saber sambar com os braços. Um rei que, ao contrário de um assessor, não pede que seja apagada uma foto feita sem que ele tivesse preparado. Um rei que pede para ser fotografado ao lado da filha e do amigo Tom Cavalcante. Um rei que admitiu ser por mim chamado de "meu rei" (é meio ridículo, eu sei, mas era Carnaval, eu nunca teria outra oportunidade de tratá-lo assim). Um rei que não indica a porta da rua para os jornalistas - a tarefa coube a um de seus subordinados. Um rei cheio de histórias tristes para contar - histórias que o humanizam e que tornam sua vida ainda mais parecida com a de monarcas de verdade.

O rei hoje faz 70 anos. Sinal de que eu estou envelhecendo. Detalhes, detalhes. Parabéns, meu rei.


A dor da gente não sai no jornal

separador Por Fernando Molica em 13 de abril de 2011 | Link | Comentários (2)

Coluna Estação Carioca, jornal O Dia, 13/4:

Nós, jornalistas, adoramos falar mal da nossa profissão. Reclamamos da tensão, da carga horária, dos salários, dos plantões, dos prazos. É quase impossível encontrar, num grupo de três ou quatro jornalistas, uns cinco ou seis que não estejam reclamando da vida e do trabalho (o nível de queixa chega a ultrapassar a lógica matemática). Talvez por cobrarmos tanto de tanta gente -- governantes, policiais, empresários, lideranças sindicais -- não conseguimos ficar sem nos queixarmos da vida que decidimos ter.

Mas a profissão tem suas vantagens. Desfrutamos de uma singular proximidade com os fatos. Bombeiros trabalham em incêndios; policiais, em locais de crimes; atores em teatros; jogadores de futebol em estádios. Nós trabalhamos em incêndios, locais de crimes, teatros, estádios, enterros, Sambódromo, Congresso Nacional, igrejas, sets de filmes pornográficos.

Essa característica acaba tornando nossa casca mais grossa. Na hora do trabalho, tendemos a não chorar em velórios, aprendemos a não comemorar gols de nossos times, a não xingar quem merece ser xingado. A necessidade de concluir nossas matérias acaba se impondo diante de alegrias e tragédias. Esta imposição nos dá um certo sentido de urgência e de utilidade. Na quinta-feira passada, diante da chacina na Escola Tasso da Silveira, cada um de nós tinha algo a fazer. Correr para o jornal, ir para Realengo, telefonar para policiais, para governantes, para entidades da sociedade civil.

Na correria, demonstramos evidente insensibilidade. Entramos onde não deveríamos entrar, falamos alto, importunamos parentes de vítimas. A preocupação com a busca de uma informação exclusiva chega a ocupar, por alguns longos momentos, o lugar da tristeza. Vigiamos sites de concorrentes, vibramos quando os superamos, esticamos o horário do fechamento. É como, se, de alguma forma, tivéssemos necessidade de retardar o momento de dar como concluído o nosso trabalho. Talvez porque, na hora em que o jornal começa a rodar, fiquemos novamente desprotegidos, expostos à barbárie como qualquer outro cidadão. Reunidos já na madrugada de sexta, sentados em torno de uma mesa de bar, sabíamos que não seria fácil dormir: havíamos acabado de perder nossa armadura profissional, o peso da tragédia se impunha sobre todos. Ter algo a fazer é essencial na hora em que tudo parece perder o sentido. Naquele dia terrível, fazer jornal nos ajudou a não sucumbir.

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Dois é bom, três é demais

separador Por Fernando Molica em 06 de abril de 2011 | Link | Comentários (0)

Estação Carioca, jornal 'O Dia', 06/411:

A história do casal paranaense que decidiu abrir mão de uma de suas trigêmeas é muito chocante, mas não deixa de fazer um certo sentido. Afinal, de uns tempos para cá, tudo parece ter ficado programável e descartável. A mesma ciência que viabiliza uma gravidez impossível pelo método natural ajuda a criar a expectativa da perfeição. A aventura humana, que inclui o milagre da reprodução, ficou mais previsível e segura, como a emoção programada de uma montanha-russa.

Na prática, incorporamos às nossas vidas conceitos da evolução tecnológica. Modernos aparelhos de TV nascem velhos, somos induzidos a trocá-los logo. Começamos a não saber o que fazer com celulares e computadores que passamos a considerar obsoletos após pouco tempo de uso. O amor também não resistiu à lógica do descarte: na dúvida, é mais fácil trocar de parceira ou parceiro.

As mudanças são muitas. O sexo da criança só era conhecido depois do nascimento; há uns trinta anos que isso ficou pra trás. As clínicas de reprodução acenam com promessas que envolvem escolha do sexo, da cor dos olhos e dos cabelos. Num futuro próximo, a busca de um corpo ideal será aplicada aos embriões, como se limitações e imperfeições não fossem características humanas. Pesquisas apontam para a possibilidade de detecção precoce de doenças que poderiam atingir um bebê muitos e muitos anos depois. Pelo jeito, em breve poderemos corrigir esses problemas ainda no útero -- ou, simplesmente, interromper a gestação de alguém que, dali a tantas décadas, poderá se tornar um fardo para a família. A doença é vista como incompatível com a modernidade, fica mais simples descartar quem pode trazer incômodos (o tal pai desnaturado preferiu ficar sem a neném que apresentava dificuldades respiratórias).

O pai e a mãe dos trigêmeos agiram como dois consumidores exigentes. Pagaram por um produto e não quiseram saber de problemas. Dá até para imaginá-los esfregando um exemplar do Código de Defesa do Consumidor no nariz do geneticista. Sim, é cruel, mas trata-se uma crueldade compatível com uma lógica perversa tão presente em nosso tempo. Além do mais, desprezar e maltratar crianças não é novidade entre nós. Um país que oferece escolas e hospitais ruins, que desvia dinheiro da merenda e convive com o trabalho infantil e com a exploração sexual de crianças não tem lá muita moral para condenar o casal do dois é bom e três é demais.


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