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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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março 2011 Archives

Subúrbio de samba e de armas

separador Por Fernando Molica em 30 de março de 2011 | Link | Comentários (0)

Coluna Estação Carioca, jornal O Dia, 30/3/11:


As reportagens publicadas em O DIA sobre a paz ainda distante em subúrbios do Rio -- entre eles, Madureira -- me fizeram lembrar um episódio ocorrido há pouco mais de dois anos, quando fui assistir a um show promovido pelo Império Serrano. Naquela noite, consegui, pela primeira vez, prestar atenção na letra de 'Meu lugar', samba de Arlindo Cruz e Mauro Diniz.

Meu coração suburbano ficou impactado pela beleza expressa em versos como "O meu lugar/ É cercado de luta e suor/ Esperança num mundo melhor". Luta, suor e esperança que nunca faltaram em Piedade, bairro onde fui criado.

Na época, comentei no meu blog que o samba chamava a atenção por sua simplicidade, não havia nele qualquer grandiloquência, arroubo, drible de efeito. Feito em homenagem a Madureira, abraçava tantos e tantos outros subúrbios do Rio. Tinha jeito de tarde quente, de sol refletido no quarador, cheiro de pão trazido pelo padeiro em cesto de vime colocado na bicicleta; remetia ao movimento de garotos correndo descalços atrás de uma bola em rua de paralelepípedos e à delicadeza de pipas que dançavam no céu. Recuperava o carinho de avó sentada à porta de casa tomando a fresca no fim da tarde.

'Meu lugar' trata um subúrbio eterno. Samba enredo que permite a evolução de alas com a menina bonita da outra rua, o sapateiro português da esquina, a feira livre, o Colégio Guarani, a passarela sobre a estação, a vila de 18 casas, a alegria de ganhar bicicleta no Natal, os carnavais no River, os filmes no Bruni Piedade, os blocos de sujo da Avenida Suburbana, o santo que baixava na vizinha a cada virada de ano. Samba que traz imagens de parentes, de vizinhos, amigos - e, claro, a minha própria imagem.

O samba ressaltou minha saudade de um subúrbio mais generoso, que não se trancava tão cedo em casa. Nas últimas décadas, o subúrbio perdeu espaço, é como se tivesse ficado mais distante, fora do mapa, como notou Chico Buarque. A violência expulsou moradores e empresas, o que agravou ainda mais a situação de quem permaneceu por lá. As imagens mostradas nas reportagens revelam que não basta apenas resolver parte dos problemas da cidade. Claro que não dá para fazer tudo ao mesmo tempo, mas não se pode falar em pacificação enquanto bandidos continuarem a dar as cartas em Madureira, Senador Camará e Parada de Lucas. O Rio não vai apenas do Leme ao Pontal.


Coragem e alegria em campo

separador Por Fernando Molica em 23 de março de 2011 | Link | Comentários (4)

'Estação Carioca', O Dia, 23/3/11

O futebol passou a envolver tantos interesses e tanta grana que muita gente esquece do principal. Trata-se de um esporte, algo que não tem lá muita importância prática. Vitórias e derrotas alteram nosso humor, mas não geram mudanças significativas em nossas vidas. Com exceção de alguns jogadores e dirigentes, ninguém fica mais rico por causa do futebol.

Mas nossa ligação com este esporte é tamanha que projetamos nos campos muitas de nossas esperanças. Lá compensamos frustrações e derrotas; nos consolamos com um drible, um gol, um campeonato. Um bom jogo de nosso clube nos enche de orgulho, nos faz sorrir.

A identificação com nossos times é tamanha que, ao falarmos deles, usamos a primeira pessoa do plural: "Nós atacamos, nós marcamos tantos gols, nós vencemos." Nós, portanto, é que estamos em campo, os jogadores são apenas nossos representantes -- assim, é razoável esperar que se comportem direito. Que sejam talentosos, esforçados, competentes, criativos, tenham um eterno e inegociável compromisso com a vitória. É só ver os hinos: "Não podes perder / perder pra ninguém", "Vencer, vencer, vencer", "Sou do clube tantas vezes campeão". Ninguém quer saber de resultados ruins, bastam as derrotas e os empates que somos obrigados a aturar fora dos estádios. Não é à toa que o verbo 'empatar' é usado para indicar algo que não deu certo.

No futebol, podemos superar barreiras, rir de poderosos e de chefes. Para nós, torcedores, o que importa é ser herói em cada jogo, ver a imensa torcida bem feliz. Daí que muitos rubro-negros querem o Adriano de volta. Desejam gols e alegria -- os dirigentes que tratem de dar um jeito no cara. E é por isso que a torcida do Botafogo não aguentava mais ver o time retrancado e com medo. Na vida, nem sempre podemos dizer o que queremos, xingar quem desejamos, chutar todos os baldes. Não dá para aturarmos as mesmas precauções em nossos times, depositários de muitas de nossas expectativas e sonhos. Claro que não devemos amarrar nossa felicidade a um grupo de jogadores, a vida é bem maior que isso. Mas é impossível nos identificarmos com uma equipe que não ousa, que não busca a vitória. A falta de coragem de um time deprime toda a torcida, é chato ver nossos representantes jogando de forma covarde. Não foram as derrotas que derrubaram Joel Santana, ele caiu porque tinha medo de vencer. Não dá para ser medíocre até na hora de sonhar


Pelo direito de espernear

separador Por Fernando Molica em 16 de março de 2011 | Link | Comentários (0)

Coluna 'Estação Carioca', jornal O Dia, 16/3/11

Um direito fundamental do ser humano corre risco. De uns tempos pra cá, qualquer um que reclame de algo -- arbitragem de um jogo, resultado de desfile de escola de samba ou critérios da Justiça Eleitoral -- recebe, na lata, a reposta pronta: é ironizado e convocado a deixar "de chororô". Não importa se o sujeito tem ou não tem razão, se o juiz roubou, se o deputado X comprou votos ou se a comissão de frente da campeã do Carnaval não merecia ganhar aquela sucessão de notas 10. Basta protestar para ser chorão.

Pior se o queixoso for, como eu, torcedor do Botafogo. Aí, não tem jeito. Antes de terminar de falar, perceberá um sorriso no rosto do interlocutor: dali a instantes, o tal sujeito relembrará o lamentável dia em que o técnico Cuca e alguns jogadores alvinegros protestaram, ao prantos, contra a arbitragem da final da Taça Guanabara de 2008. Depois daquele episódio, botafoguenses não podem reclamar de nada. É como se nossa cota tivesse se esgotado no vestiário do Maracanã.

A repressão é mais ampla. Parece ter havido uma atualização do princípio cínico que, há algumas décadas, foi consagrado com o nome de 'Lei de Gérson' (num comercial de cigarro, o ex-jogador disse que o importante era levar vantagem em tudo. Ele apenas leu a frase, mas pagou o pato). Ao constranger quem reclama, o repressor, no fundo, diz que o importante é vencer, não importa como. Assim, quem reclama não passaria de um derrotado. Que tivesse sido mais esperto e vencido, que usasse as armas, por mais espúrias que fossem, do vencedor. O pecado não seria roubar, mas perder.

Mas é engraçado. A mesma sociedade que ironiza quem chia é a mesma que, pelo menos nas aparências, se diz escandalizada com políticos desonestos ou que usam o cargo público para empregar parentes, amigos e amantes. Quem condena o direito de reclamar não deveria se queixar dos tais políticos. Afinal, de alguma forma, eles são vencedores: roubaram, enriqueceram e continuam soltos. Ironizar derrotados também é típico de ditadores -- o egípcio Mubarak e o líbio Kadhafi andaram fazendo isso. Os militares que tomaram o poder em 1964 aqui no Brasil não se cansavam de classificar a oposição de "derrotista". Claro que nem sempre a reclamação é justa, mas, em nome da democracia, não dá para desrespeitar o sagrado direito de espernear.

Ah, vale o registro: o episódio no vestiário foi constrangedor, mas o Botafogo foi mesmo garfado naquele jogo.


Monteiro Lobato era racista

separador Por Fernando Molica em 02 de março de 2011 | Link | Comentários (1)

"Estação carioca", jornal O Dia, 02/3:


É triste dizer, mas Monteiro Lobato, um dos maiores escritores brasileiros, responsável por alguns dos melhores momentos da minha infância, era um racista militante. Como o 'Informe do Dia' registrou em 21 de fevereiro, as evidências do racismo explícito de Lobato foram levantadas pela escritora Ana Maria Gonçalves, autora do premiado romance 'Um defeito de cor' (Record).

Ao saber que o cartunista e escritor Ziraldo desenhara Lobato abraçado a uma mulata de biquíni para a camiseta do bloco Que Merda é Essa?, Ana Maria foi aos arquivos, consultou cartas de Lobato e redigiu uma pedrada em forma de texto. Sua leitura não deixa dúvidas sobre o pensamento racista do criador do 'Sítio do Picapau Amarelo'. Ele, os documentos comprovam, não se sentiria confortável ao abraçar a mulata da camiseta.

Em carta enviada ao amigo Godofredo Rangel, Lobato chegou a dizer que a miscigenação foi uma vingança dos escravos: "Os negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão, vingaram-se do português de maneira mais terrível -- amulatando-o e liquefazendo-o, dando aquela coisa residual que vem dos subúrbios pela manhã e reflui para os subúrbios à tarde." Mulatos e mestiços como quase todos nós foram chamados de "coisa residual que vem dos subúrbios". "E no físico, que feiúra!" -- completou o escritor, um entusiasta da eugenia, teoria que pregava o aperfeiçoamento da espécie humana pela seleção genética. Para ele, a humanidade precisava de uma poda. "É como a vinha", escreveu a outro amigo, o médico Renato Kehl.

Em outra carta, enviada de Nova York em 1928 para Arthur Neiva, o criador de Narizinho deu outro inacreditável palpite, algo pra lá de infeliz. Lamentou a ausência, no Brasil, de uma Ku Klux Klan, aquela organização de mascarados que comandou linchamentos de negros nos Estados Unidos: "Um dia se fará justiça ao Kux Klan; tivéssemos aí uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca -- mulatinho fazendo o jogo do galego", escreveu. Para ele, a mestiçagem do negro destruía "a capacidade construtiva".

Não se deve banir os livros de Lobato. Mas não dá para negar que as referências depreciativas à negra Tia Nastácia em 'Caçadas de Pedrinho' foram escritas por um racista. Vale ter um pouco de cuidado para não ajudarmos a disseminar entre as crianças preconceitos que ferem a todos nós.


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