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Dilma, Serra e as Unidades Antiabortivas

separador Por Fernando Molica em 13 de outubro de 2010 | Link | Comentários (0)

Estação Carioca de hoje, 13/10 - jornal "O DIA"

Dilma Rousseff até que tentou virar o jogo numa pergunta a José Serra: quis saber se mulheres que tivessem recorrido ao aborto deveriam ser atendidas pelo serviço público de saúde ou se deveriam ser presas. O tucano não respondeu; Dilma não insistiu no assunto. Até porque ela, assim como seu adversário, diz que o aborto não deve ser descriminalizado. O atendimento médico, portanto, não elimina a possibilidade de cadeia para mulheres e médicos.

Dilma e Serra não estão sós. Segundo pesquisa do Datafolha, 71% dos brasileiros também acham que o aborto só pode ser admitido nos casos previstos em lei -- estupro e risco de vida para a gestante.

Mas não basta falar. Os candidatos e a grande maioria dos brasileiros têm a obrigação de mostrar que não são hipócritas. Aborto, diz a lei, é crime doloso contra a vida, os acusados de provocá-lo teriam que ser levados ao Tribunal do Júri, mas isto quase nunca acontece. Já que são contra a sua legalização, os candidatos deveriam anunciar planos para combater e punir este crime. Podem, talvez, propor a criação de Unidades de Polícia Antiabortiva, especializadas na repressão a mulheres, profissionais de saúde e contrabandistas de Cytotec.

Não faltaria trabalho para essas novas UPAs. Segundo estimativas, haveria, por ano, em torno de um milhão de abortamentos induzidos no País. Ou seja, o governo teria que investir pesado na repressão. Seria preciso contratar mais policiais, investir na estrutura do Ministério Público e do Judiciário e, claro, construir mais penitenciárias: a mulher que aborta deve ser condenada a até três anos de detenção.

Dilma e Serra terão que enfrentar constrangimentos, ambos certamente conhecem algumas, vá lá, criminosas. Soninha Francine, uma das coordenadoras da campanha do candidato do PSDB, já admitiu à revista TPM ter feito um aborto. Mas o constrangimento em nome da lei não será apenas deles. Talvez tenhamos que nos acostumar com a ideia de, de vez em quando, irmos a uma penitenciária visitar amigas, colegas de trabalho, irmãs, namoradas ou esposas.

Não se trata de ironia. Todos, candidatos ou não, devemos manifestar nossas opiniões. O aborto é um tema delicado, está relacionado a posturas éticas, humanísticas e religiosas. Temos o direito de ser contra ou a favor de sua legalização. Mas somos obrigados a medir as consequências de nossas palavras. Isto, antes de atirarmos a primeira pedra.


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