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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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junho 2010 Archives

Clube fechado

separador Por Fernando Molica em 30 de junho de 2010 | Link | Comentários (0)

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Entrar para o clube dos campeões do mundo é quase tão díficil quanto conseguir uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU, privilégio de apenas cinco países. Os vencedores de copas são sete - só que, em tese, essa última confraria não é fechada. Dos que levantaram a taça, quatro ( Brasil, Alemanha, Argentina e Uruguai) ainda estão vivos na África do Sul. Este grupo têm 12 dos 18 títulos até hoje disputados, 66% do total.

O bloqueio é muito difícil de ser furado - a Inglaterra e a França só foram campeãs uma vez; assim mesmo, quando disputaram copas em suas próprias casas. Além da óbvia qualidade de bons jogadores - o Brasil já é um dos favoritos para as copas de 2018 e 2022, alguém duvida? -, há diversos outros fatores que ajudam os campeões. O peso de uma camisa cheia de estrelinhas conta muito, para os adversários e mesmo para os juízes. Marcar um pênalti contra o Brasil ou Alemanha é, na prática, muito mais difícil do que fazer o mesmo com seleções menos vencedoras.

Não é fácil furar o bloqueio. A Holanda bateu na trave duas vezes, a Espanha mal chegou perto da grande área (até parece o Brasil em busca da tal vaga na ONU). Como bem lembrou o Galvão - sim, ele - Argentina, Itália, Brasil e Alemanha (14 títulos juntos!) são escandalosamente hegemônicos, uma dessas quatro equipes sempre esteve presente em todas as decisões de copas. Por seis vezes - um terço do total - o último jogo da competição reuniu dois dos quatro grandes. E daí? Daí que Brasil, Alemanha e Argentina são os favoritas. O Uruguai, se perder o medo de ganhar (e parar de recuar quando está na frente), tem chances (principalmente se o Loco Abreu for escalado). No mais, Holanda e Espanha conquistaram outra oportunidade de tomar vergonha na cara. Engraçado mesmo é se der Gana ou Paraguai - mas nem eles acreditam nisso.


Jazz e Cortázar com Antônio Torres

separador Por Fernando Molica em 28 de junho de 2010 | Link | Comentários (2)

antonio_torres.jpg
Tão bom quanto ler Antônio Torres - autor de, entre outros, Um cão uivando para a lua e Essa terra - é ouvi-lo falar. O sujeito é um grande contador de histórias, profundo conhecedor de literatura e de jazz, tem uma excelente capacidade de relacionar autores, livros, músicos e compositores. Consegue fazer ótimas conexões entre tal livro/conto e uma determinada interpretação de um tema jazzístico - o mais curioso é dá certo.

Desde o ano passado que ele vem ministrando cursos na Casa do Saber, no Rio. As aulas são imperdíveis. No próximo dia 6, ele começará uma nova oficina, Ritmos do Jazz em Prosa & Imagens. Serão quatro reuniões em torno do conto O perseguidor, obra-prima de Júlio Cortázar, ao som de Charlie Parker e imagens dos filmes Bird, de Clint Eastwood, e Round Midnight, de Bertrand Tavernier (dois espetaculares longas sobre jazz). Haverá espaço para a leitura e análise de textos dos participantes.

Se eu fosse você, correria para me inscrever (eu bem que gostaria, mas saio muito tarde do jornal).


Casa do Saber - Rio de Janeiro

Oficina Literária Ritmos de Jazz em Prosa & Imagens
Início: 6 julho

Duração: 4 encontros
Terças-feiras, às 19h (06/07, 13/07, 20/07, 27/07)
Valor: R$ 200,00 na inscrição + 1 parcela de R$ 240,00
Tel.: (21) 2227-2237 222-SABER
E-mail: inforio@casadosaber.com.br


Vila Belmira na CBN e na Pelada como ela é

separador Por Fernando Molica em 23 de junho de 2010 | Link | Comentários (0)

Na segunda passada, a Lúcia Hippolito, âncora da CBN, fez uma simpática entrevista comigo sobre O misterioso craque da Vila Belmira. Ela havia lido o livro, o que ajudou a tornar a conversa mais legal. E, mais importante, disse que gostou muito do que leu. A conversa pode ser ouvida aqui.

Já o amigo Sergio Pugliese colocou um depoimento meu sobre o livro em seu ótimo blog A pelada como ela é. Para ver, basta clicar.


21 de junho de 1989

separador Por Fernando Molica em 22 de junho de 2010 | Link | Comentários (0)

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Acabei de chegar do lançamento do livro que conta a história de minha Epopéia, da grande libertação, da ressurreição, da fuga do Egito. O livro 21 depois de 21, de Paulo Marcelo Sampaio e de Rafael Casé, narra a noite gloriosa, o 21 de junho de 1989, quando o Botafogo voltou a conquistar o título carioca. Feliz que nem Garrincha depois de despachar um João, constatei que estou lá, ao lado de tantos e tantos alvinegros. Eu, que tava lá, no Maracanã. A seguir, a íntegra do texto que - para minha alegria - está em parte reproduzido no livro. E - claro - ninguém cala esse nosso amor.

Se eu estava lá? Claro. Tinha comprado ingresso para arquibancada, mas
como o Chico Santos - que iria comigo ao jogo - ficou preso na redação, acabei
na Tribuna de Imprensa, ao lado do Xico Teixeira e algumas cadeiras acima
do Arthur Dapieve. Por estar na Tribuna tentei manter um comportamento
discreto - no fim do jogo, estava de pé sobre os braços da cadeira. Lembro
que pulei abraçado com o Xico e que o Dapieve - inglês como ele só -
limitava-se a aplaudir o time.

Saí do Maracanã sozinho, comprei uma faixa de campeão e tratei de ir casa.
Não havia táxis ou ônibus. Como morava no Grajaú, fui a pé. Passei pela
Universidade do Chope - havia uma filial no caminho - e segui em frente,
faixa orgulhosa no peito. Ao entrar na Barão de Mesquita, em frente ao
Quartel da PE, olhei em frente e tremi: vi um grupo de uns 30/40 sujeitos,
todos parecendo vestir roupas onde predominavam o preto e o vermelho. Sim,
caraca!, eram eles - todos vindo na minha direção. Havia uma rua à
direita, achei melhor não entrar nela. A fuga poderia provocar uma reação dos
rubro-negros. Fui em frente e passei no meio da turba. Primeira fila,
segunda fila - e, ploft!, a minha faixa de campeão foi arrancada. Alguém
gritou algo - identifiquei a palavra "porrada". Achei que viraria um mártir do Botafogo.
Foi quando um outro - um rubro-negro sensato, deve ser o
rubro-negro sensato - gritou: "Deixa o cara!" O cara, claro, era eu. Pra
minha sorte, os outros obedeceram. Eu ainda me dirigi ao Sensato e
perguntei por minha faixa. Ele limitou-se a dizer que eu estava no lucro,
que tratasse de sair logo dali. Achei a proposta razoável.

Em casa, fui até o quarto do meu então único filho, que já se tornara
alvinegro. Ele, com dois anos, dormia. Beijei seu rosto com a alegria de
um campeão, com a certeza de que ele não passaria pela angústia de ficar
quase 21 anos sem comemorar um título. Por alguns segundos, achei que cumpria o
desejo de todo pai, o de deixar um mundo melhor para seus filhos.


Maradona e Dunga; Mozart e Salieri

separador Por Fernando Molica em 18 de junho de 2010 | Link | Comentários (1)

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O contraste entre Dunga e Maradona - que se reflete no desempenho, até agora, das seleções brasileira e argentina - faz lembrar Amadeus, filme dos anos 80 dirigido pelo Milos Forman, com base no roteiro de Peter Shaffer. No filme, um bom compositor, Antonio Salieri, descobre a insignificância de seu talento quando da chegada de Mozart a Viena.

Já maduro, Salieri atribuia seus dons musicais à sua fidelidade aos princípios cristãos. Era casto, rígido, obediente. Via na sua inspiração uma recompensa divina ao bom comportamento. Diante de Mozart, desaba: aquele jovem desbocado, sensual e irreverente era um compositor muito melhor que ele. Ao contrário de Salieri, Mozart não pautava sua vida pelos tais princípios religiosos. O filme mostra um Salieri surpreso e inconformado com a decisão divina de dar a um libertino debochado uma capacidade insuperável de produzir beleza.

Dunga é rígido, zeloso, respeitador, hierárquico; comporta-se como um comandante militar. Seu bom e limitado futebol era resultado de sua disciplina técnica, física e tática. Sente-se confortável quando manda e quando obedece - daí não questionar ditaduras nem regimes como o apartheid. Se há uma ordem, ela tem que ser respeitada. Não admite a bagunça, o vinho, o sorvete e, claro, o sexo. Tudo tem que estar sob seu controle, no vestiário, no campo e na cama. O prazer é visto como um risco que ameaça o objetivo final. Abre apenas uma exceção quando tira do armário um modelito Herchcovitch.

Maradona é anárquico, provocante, abusado. Seu futebol era criativo, surpreendente, arrogante e, mesmo, debochado. Quando jogador, não se preocupava em posar de atleta, era gorducho, foi flagrado quando usava doping numa Copa do Mundo. Seu desrespeito ao poder o levou a brigar com a Fifa, com Pelé (rival e, de certa forma, representante do establishment futebolístico). Maradona se diz amigo de Fidel Castro, tatuou a imagem de Che Guevara no braço. Irresponsável, queimou sua fortuna, cheirou quilos de cocaína, esteve à beira da morte em um hospital argentino. Beija seus jogadores, mas ressalta que gosta muito de mulher.

Em seu primeiro jogo, o Brasil foi lento, burocrático, chato. Dunga armou um time defensivo, cauteloso. Em suas duas apresentações, a Argentina foi criativa, arrojada, ofensiva; demonstrou, na estreia, ter uma defesa pouco confiável. Como outras grandes equipes do futebol mundial, aposta que, no ataque, conseguirá compensar as fragilidades da zaga. O time de camisa listrada parece nos dizer que jogar, assim como viver, é muito arriscado, mas que só assim a brincadeira tem alguma graça. De certa forma, reconhecemos na equipe argentina o futebol que gostaríamos de ver vestido com a camisa amarela. Historicamente, somos rivais da Argentina porque, no fundo, sabemos que eles têm um futebol tão criativo quanto o nosso. O que nos afasta são as semelhanças; não as diferenças.

A Copa mal começou, é cedo para fazer previsões. Mas acho que a eventual vitória da Argentina irá gerar em Dunga um sentimento parecido ao causado em Salieri pelo triunfo de Mozart. Como uma seleção liderada por um sujeito como aquele pode vencer uma competição cada vez mais marcada pelo rigor? Como ele, Dunga, um sujeito sério e exigente, pode ser superado por um gordinho que ameaça ficar pelado caso seu time seja o campeão? Bem, a vida é assim: injusta, surpreendente. Com todo respeito aos esforços de Dunga e de nossos jogadores, o talento é fundamental. A vida já é dura o suficiente, no futebol queremos um pouco mais do que a repetição da chatice do cotidiano. Mozart, que morreu aos 35 anos, permanece muito mais vivo que Salieri, que carregou seu amargor e sua inveja até o fim dos seus 75 anos.


Saramago

separador Por Fernando Molica em 18 de junho de 2010 | Link | Comentários (0)

É triste acordar com a notícia da morte do Saramago. A leitura, há muitos anos, de seu Memorial do convento foi impactante, gosto do jeito como ele submete a língua, usa e abusa do idioma como um cozinheiro que, mão na massa, não teme o misturar de ingredientes, a produção de inusitadas combinações. Apertada, jogada, esticada, nossa língua saiu engradencida do contato com Saramago.

Registro que sempre achei esquisita e boba a tal rivalidade entre o Saramago e o Lobo Antunes. Gosto muito dos dois. De propósito, os obrigo a uma convivência forçada: os livros de ambos ficam lado a lado na estante (faço o mesmo com os de García Márquez e Vargas Llosa). Que briguem lá fora, aqui em casa mando eu.


A perfeição é amarela

separador Por Fernando Molica em 17 de junho de 2010 | Link | Comentários (2)

O texto abaixo foi publicado há quatro anos, em 'O Globo', durante a Copa da Alemanha. Na época, a seleção brasileira acumulava quatro vitórias, mas, mesmo assim, estava sendo muito criticada. Para muita gente, a bronca era exagerada, afinal, os resultados eram positivos. As fragilidades ficariam evidentes logo depois, no jogo contra a França.

Caros jogadores da seleção brasileira. Acho que a essa hora vocês devem estar se perguntando algo como "caramba, quatro jogos, quatro vitórias, recordes coletivos e pessoais batidos, e os caras ainda reclamam?" Pois é, nós ainda reclamamos - eu mesmo tenho xingado alguns de vocês. Creio não ser o caso de pedir desculpas pelo destempero, pelo excesso de exigência: jogar bem, dar espetáculo, não falhar, e, claro, ganhar sempre e conquistar o hexa. Talvez seja melhor tentar entender o que nos faz assim.

Com nossos clubes de coração não somos tão exigentes. De alguma forma aprendemos a absorver algumas das características de nossos times, a considerar como nossas qualidades e, vá lá, alguns defeitos dessa nossa paixão primordial, a única que não pode ser trocada, que admite todo o tipo de desfeita e traição - o amor por um clube é eterno e sempre dura. Como escreveu Paulo Mendes Campos: "Nos meus torneios, quando mais preciso manter os números do placar, bobeio num lance, faço gol contra, comprometo, tal qual o Botafogo, uma difícil campanha". É ele também que diz: "O Botafogo, às vezes, se maltrata, como eu; o Botafogo é meio boêmio, como eu;(...) o Botafogo é mais surpreendente do que conseqüente, como eu (...)".

Há quase dez anos a jornalista Cláudia Mattos lançou Cem anos de paixão, livro em que tenta rastrear o que há por trás das relações entre os quatro principais times cariocas e suas torcidas. Acabou fazendo um livro sobre o Rio, tamanha a identificação entre a cidade, seus clubes e seus apaixonados torcedores. De alguma forma, todos somos ou achamos que somos parecidos com nossos clubes, para o bem e para o mal.

Mas com a seleção é diferente. Com a seleção, nossa relação é outra. Com os clubes, somos o que somos, com a seleção, somos aquilo que desejamos ser: bonitos, elegantes, eficentes, eternamente vencedores. O time é como um amor cotidiano, apaixonado, mas com cara de dia-a-dia. Daqueles que admitem uma ausência, uma falha, uma camisa meio desbotada, uma barriguinha, uma celulite, uma noite de amor assim-assim. De vez quando, um dia dos namorados, um aniversário, rola um jogo especial, um jantar com vinho, uma viagem, uma decisão de campeonato (gloriosa, mesmo que contra o Madureira). Seleção é diferente. Seleção, ainda mais em Copa do Mundo, é sempre dia de festa, de roupas novas, Copacabana Palace, corpo malhado, performances impecáveis em noites cheias de gols de placa.

No clube, erguemos as mãos aos céus para agradecer o amor que sabemos merecer - ainda que o goleiro seja meio frangueiro; a zaga, inconfiável; o meio-campo, pouco criativo; o ataque, sonolento. No Maracanã de cada dia, admitimos o gol de canela, o chutão, não nos envergonhamos do erro do juiz que nos ajuda. Sabemos que seria impossível cobrar perfeição de nossos times, de nós mesmos. Perfeição não é para todo dia, só acontece de vez em quando; para ser exato, de quatro em quatro anos. É quando temos chance de reafirmar que somos os melhores. Na seleção não cabe todo mundo, não é para qualquer um: nenhum jogador do Rio foi convocado mas torcida alguma reclamou, sabemos das nossas limitações. Nesse nosso olimpo canarinho, os deuses têm que ser perfeitos. Na seleção, fazemos restrição a gol de bico - mesmo que ele seja salvador, como o do Ronaldo, na Copa passada, contra a Turquia. Na seleção não se pode dar cotovelada, Leonardo; não se perde pênalti, Zico. A condenação à falha pode ser perpétua, como a que experimentou Barbosa.

Então, meus caros, entendam que não é bem de vocês que estamos cobrando tanto. Estamos cobrando de nós mesmos, uma cobrança cruel, absurda, irracional, que nos levaria ao suicídio coletivo caso exigida no cotidiano. Por favor, compreendam: vocês, queiram ou não queiram, são o que temos e somos de melhor. E não fica bem, Ronaldo, aparecer em público com aquela barriga; não dá, Roberto Carlos, mandar a bola para a arquibancada; é ridículo errar o drible e simular pênalti, Adriano; Ronaldinho, você tem que ser genial sempre; Cafu, não é admissível envelhecer. É desumano pedir tanto? É claro que é. Por isso que a gente só pede de quatro em quatro anos, quando todos ficamos infalíveis, bonitos, imbatíveis; é por isso nunca ficamos satisfeitos. Nosso desejo de perfeição veste amarelo.


Dunga, o Libertador

separador Por Fernando Molica em 12 de junho de 2010 | Link | Comentários (2)

Tenho que fazer um agradecimento público ao Dunga. Acompanho copas do mundo desde 1970 e esta é a primeira vez que não estou nervoso, ansioso pela estreia da seleção brasileira. O mau humor do Dunga, sua teimosia, seu amargor, sua tentativa de se apropriar de algo que pertence a todos nós e seus apelos patrióticos minaram o meu espírito de torcedor.

O Dunga e o Jorginho resolveram que o eventual sucesso do time será deles; o improvável fracasso, nosso. De todos nós - e não falo especificamente dos jornalistas - que ousamos criticar a não convocação do Ganso, a ida do Kléberson, a formação de um esquadrão de cabeças de áreas. Cismou que todos somos defensores da bagunça, da falta de compromisso, da zona que foi a temporada pré-Copa de 2006. Dunga e Jorginho - ex-jogadores de sucesso, reconhecidos e admirados pela grande maioria dos que gostam de futebol - cultuam a amargura, vão à Copa movidos não pelo desejo de vitória, mas pelo entusiasmo da vingança. Vale lembrar que, em 1994, o hoje técnico e então capitão da seleção, disparou palavrões ao levantar o troféu em Los Angeles. Na hora da grande conquista, Dunga não celebrou a felicidade, preferiu lembrar-se de antigos críticos.

A escolha de Dunga para técnico foi vista até com um certo entusiasmo. As primeiras partidas da seleção foram ruins, sua demissão foi dada como certa. Mas, depois, o time se acertou, conquistou torneios importantes, a situação se acalmou - e o Dunga até abriu mão daquelas roupas esquisitas. Ou seja, tudo caminhava para uma relativa paz. Só que o sujeito não admite críticas: herdeiro de uma tradição autoritária tão comum aos brasileiros, Dunga - aquele que não se acha capaz de condenar ditaduras e o apartheid porque não viveu nas duas situações - acha que técnico de seleção brasileira não pode ser criticado. Acha que ele é o cara, o dono de todas as verdades, senhor de todos os destinos. Vê a crítica como ofensa pessoal.

Resultado: estou vendo jogos sem o menor compromisso, torço pelo bom futebol, vibrei com a atuação do Messi, lamentei gols perdidos pela Argentina e pela Nigéria. Torço pelo sucesso do Loco Abreu, descobri semelhanças entre o Uruguai e o Botafogo (ambos já foram potências, andam meio decadentes, são respeitados e, ao mesmo tempo, estão um tanto quanto desacreditados). Estou ao lado dos times africanos - me emocionei com a alegria dos jogadores da África do Sul no túnel que dá acesso ao gramado, reconheci nossos desfiles de blocos naquele cortejo. Hoje cedo, aplaudi o Elia, o Robinho da Holanda. Graças ao mau humor do Dunga, estou livre para torcer, para fazer alianças passageiras.

Claro que será legal se o Brasil conquistar o título, mas não vou entrar no jogo proposto pelo Dunga. Ao contrário do que ele pode imaginar (se soubesse que eu existo, claro), não me sentirei vitorioso com sua derrota. A seleção representa, historicamente, o que temos de melhor, é resultado de nossa história, da conjugação de nossos talentos, da miscigenação, da mistura de culturas - povos mais lúdicos e outros mais ligados à eficiência se juntaram e criaram este futebol que tanto admiramos. A seleção é muito maior que o Dunga, maior que todos nós. Se ganhar será por seus talentos, não pela opressão de seu, vá lá, comandante.

Mas não pretendo sofrer como em 82 e em 86; me irritar como em 74, 78 e 2006, ficar deprimido como em 90 e em 98. Não creio que venha a vibrar como em 70, 94 e 2002. Pode ser que isso mude, a seleção pode até me seduzir, me conquistar. Mas a minha seleção não será nunca a proposta pelo Dunga. Não falo do time, mas da concepção de seleção. A ideia de transformá-la como encarnação de uma pátria é opressora, marcial. A própria noção de Pátria - assim, com maiúscula - é complicada, dá margem a propostas de exclusão, de separação, de preconceito. A Copa não é uma guerra, o destino da Nação e das criancinhas brasileiras não está em jogo. Guardarei meus excessos de torcedor para o Botafogo. Espero que o Kaká e o Robinho injetem um pouco de alegria nos jogos e, repito, deixo registrado ao agradecimento ao Dunga - estou mais lúcido nesta Copa do que nas anteriores.

Por último: sei não, mas acho que esse negócio de confinar os jogadores ainda vai dar problema. Imagine ficar preso num hotel com uns 20 marmanjos, dividindo quarto, olhando para todos eles na hora de trabalhar, de almoçar, de jantar. Até onde sei, os jogadores sequer podem ficar algum tempo com suas mulheres ou namoradas. Estão presos, isolados. Viraram personagens de um Big Brother sem câmera e sem aquelas gostosonas. Isso, em meio a uma competição pesada, estressante. Será uma surpresa se eles não saírem na porrada entre si. Veremos.


Hotsite

separador Por Fernando Molica em 10 de junho de 2010 | Link | Comentários (3)

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Eu e Moacyr Luz no lançamento de "O misterioso craque da Vila Belmira" e "Short, camisa e meião". Por falar nisso: a Rocco Jovens Leitores fez um ótimo hotsite sobre a coleção Gol de Letras. Lá estão também informações sobre os outros dois livros já lançados, do Luis Fernando Verissimo e do Junior. O endereço é www.goldeletras.com.br .


A orelha do livro

separador Por Fernando Molica em 08 de junho de 2010 | Link | Comentários (0)

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O amigo Marcelo Moutinho é o autor da orelha de O misterioso craque da Vila Belmira. Aí vai o texto - e, não custa lembrar, o lançamento do livro é nesta quarta, a partir das 19h, na Saraiva do Rio-Sul.


Acredite, leitor: antigamente não havia Fifa Soccer ou campo de grama sintética. A gente jogava bola no meio da rua, com os pés descalços sobre o asfalto ou a terra batida e traves improvisadas com chinelos. A pelada só era interrompida quando um carro se aproximava, ou quando uma moça passava a caminho de casa, desenhando em seu andar uma beleza que só mais tarde entenderíamos.

Nessa época, eu e Fernando Molica, o autor deste livro, éramos garotos e vivíamos no subúrbio de um Rio de Janeiro muito diferente do atual. O mesmo subúrbio que reaparece, com saudade mas sem saudosismo, na lembrança de Marcelo, o narrador da trama que você lerá nas próximas páginas.

Por conta de uma pergunta a respeito da origem da expressão "pegar o bonde andando", Marcelo conta aos filhos sobre um time-contra que marcou a sua infância. Tudo começa quando a bola cai na casa de Dona Lili, a vizinha mal humorada que costumava acabar com o jogo furando o principal objeto de diversão dos meninos. Para surpresa de todos, a bola é devolvida.

No dia seguinte, um novo jogador surge na pelada. Baixinho, magrinho, mais jovem que os demais garotos, mas muito habilidoso, o recém-chegado e misterioso peladeiro vai se tornar protagonista da surpreendente história narrada por Marcelo. Uma história que trata de futebol, de descobertas, de amadurecimento e, sobretudo, de amor.


Anistia a jovens armados

separador Por Fernando Molica em 06 de junho de 2010 | Link | Comentários (1)

O José Junior, do AfroReggae, levanta uma discussão bem interessante: uma possível anistia para jovens envolvidos com o tráfico de drogas, algo que viabilizasse a possibilidade de integração dessas pessoas numa outra lógica social. O Junior merece ser ouvido, ele tem experiência nessas, digamos, migrações. O tema, claro, é delicado, mas o fundamental seria discutir os benefícios que uma medida como essa poderia trazer. Outro ponto importante seria definir quem seriam os anistiáveis - nem todos, claro, poderiam ser beneficiados. Como contribuição, transcrevo aqui artigo que, em janeiro de 1996, publiquei na página 3 da Folha. É meio cabotino dizer isto, mas acho que ele continua atual.

Pacto da Rocinha

RIO DE JANEIRO _ Mesmo os defensores da solução policial para o problema da violência admitem que a raiz da situação de conflito está plantada no solo das carências e desigualdades sociais.

Já há algum tempo, estudiosos da situação carioca detectaram que, em muitas favelas, o poder formal perdeu a batalha para outro _um poder real, de fato, exercido pelo tráfico de drogas e construído com base no medo e em uma espécie de senso difuso que identifica no Estado uma espécie de inimigo, uma entidade que só aparece por ali metido em uniforme de polícia.

Há alguns anos falava-se no Brasil em um pacto social, um acordo inspirado no Pacto de Moncloa (o que viabilizou a transição democrática na Espanha) e que permitiria à sociedade administrar as liberdades recém-conquistadas.

Bem ou mal, o Brasil institucionalizou-se. Esse processo deixou de fora, porém, milhões de pessoas. Muitas dessas, como os sem-terra, continuam dispostos a participar da brincadeira: para isso chegam a arranhar a legalidade, mas seu objetivo final é o de integração na sociedade.

Outros, como os jovens que vivem armados em favelas cariocas, já perderam essa expectativa de integração: seu horizonte institucional aponta apenas para a cadeia.
A reversão desse quadro exigiria atitudes mais corajosas. O pressuposto seria o Estado e a sociedade admitirem sua responsabilidade na criação das condições que permitiram a expansão da miséria e da violência.

Dessa constatação e da vontade de mudança surgiria uma espécie de ''Pacto da Rocinha'' _isso para citar uma das mais célebres favelas cariocas. Seria um acordo pelo qual o Estado, em seus diferentes níveis, se comprometeria a resgatar a tal dívida social, expressa hoje na falta de empregos, saneamento básico, escolas, transporte e atendimento médico.

Seria também necessário desarmar os grupos marginais. Para isso seria possível até pensar em uma solução que incluísse uma anistia em troca das armas. Anistia que viria acompanhada de oportunidades reais de integração social. É uma proposta arriscada, mas que, se bem-sucedida, proporcionaria ganhos para os dois lados. Seria, talvez, o início de uma sociedade mais justa e menos violenta.


BG
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