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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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dezembro 2009 Archives

Os meninos da árvore

separador Por Fernando Molica em 28 de dezembro de 2009 | Link | Comentários (11)

arvorelagoa.jpgQuem, de um modo geral, se queixa da árvore de Natal da Lagoa não reclama da árvore. Até pode fazer comentários sobre a dita cuja, realçar seu anacronismo, seu caráter um tanto quanto kitsch. A maioria finge se importar com o aumento no trânsito, com o estacionamento ilegal. Mas, no fundo, o que lhes incomoda não está dentro da Lagoa nem em suas pistas destinadas a carros, ônibus e motos. O calo que lhes irrita e ofende é o povo que se aglomera para ver a árvore.

Se não atraísse tanta gente do além-túnel, a árvore seria quase ignorada, passaria assim batida, como há até bem pouco tempo eram tolerados o frescobol e o altinho à beira-mar, como ainda é admissível o baseado que rola na areia. Frescobol, altinho e baseado seriam, digamos assim, coisas nossas, práticas consagradas pelos que vivem do lado de cá do túnel. Yes, we can. Mas só we que can. A praia é nossa, assim como a Lagoa.

A curiosa - e bela - geografia do Rio facilitou a segregação. Há um acúmulo de beleza (e de riqueza) do lado de cá. A pequena Zona Sul é um dos melhores lugares do mundo para se viver. Outras grandes cidades do mundo têm áreas nobres espalhadas; as nossas, graças à proximidade do mar, acabaram concentradas. Num processo agravado nas últimas décadas, a Zona Sul virou sinônimo de Rio; pelo menos, do Rio desejado, que exporta gostos, modas e costumes. Nem a produção literária escapou disso - de um modo geral, a perspectiva é a de quem mora do lado de cá (mesmo que o livro trate de favelas, pobres, subúrbios e que tais).

Lembro que, menino de Piedade, gostava de passear pela Zona Sul, volta e meia pedia a meu pai que desviasse o caminho e passasse por Copacabana, Ipanema e Leblon. Naquela época, o subúrbio era mais bonito e tranquilo, menos degradado e violento. Mas, mesmo assim, gostava de ver aquele Rio diferente, mais iluminado. Um Rio que tinha praia, que olhava de perto para o Cristo e para o Pão de Acúcar.

Se, na minha infância, houvesse a árvore na Lagoa, insistiria com meus pais para levar-me até ela. Iria querer participar da festa, compartilhar daquele Rio que saia bem na foto dos jornais. Às margens da Lagoa, comeria pipoca e algodão doce, tomaria mate, tiraria fotos, me encontraria com algum colega de escola - quem sabe, com aquela menina que tanto desejava. Sonharia com uma foto de nós dois abraçados, tendo a árvore como fundo. Foto que, tímido, nunca ousaria pedir.

Nas margens da Lagoa de hoje, vejo muitos meninos como fui. Meninos que vieram de Piedade, do Engenho de Dentro, de Quintino, de Realengo. Eles acreditam que a cidade também é deles, que o Rio não é apenas dos que são louros, têm pele mais clara e muito, muito mais dinheiro. Meninos que, de tão felizes com a árvore, com a pipoca, com o algodão doce, com o mate e com o sonho da menina amada, não notam que às suas costas, do alto dos prédios, muita gente reclama de sua presença, ironiza seus hábitos, suas fotos, seu entusiasmo, suas roupas, seus gritos e, mesmo, sua cor. Pessoas que defendem o banimento da árvore, seu exílio no Piscinão de Ramos. Para elas, apenas os locais podem parar seus carros sobre as calçadas da Zona Sul.

Os meninos - ainda bem - ignoram, mas eles não são tolerados por quem acha que a Lagoa, as praias, o Cristo refletido nas águas pertencem a poucos, paisagens hereditárias, excludentes. Pessoas preconceituosas e bobas: não sabem como a presença daqueles meninos e meninas humaniza o Rio,o torna mais afável, tolerante. Acreditam - tolinhos - ser possível construir uma cidade com base na separação, não conseguem ver o quanto isso já nos custou. O Rio se fez diferente porque soube conviver com a diferença; por ser porto e capital, aprendeu a trocar com estrangeiros, com gente de outros estados. O branco Noel subiu o morro; o preto Carlola foi para o asfalto. Num botequim simbólico, eles se encontraram a criaram a música brasileira. Isso vale para Nazareth, Pixinguinha, Chico Buarque, Villa-Lobos, Nelson Cavaquinho.

Os meninos que atravessam o túnel para ver a árvore não sabem, mas a presença deles por aqui - escrevo, fazer o quê?, do ponto de vista de quem agora mora do lado de cá - faz o Rio respirar; renova a cidade, reforça a necessidade de convivência e tolerância, faz com que, como dizia Cazuza, olhemos a nossa própria cara. Que sejam bem-vindos.


Não vale acabar com o Jobson

separador Por Fernando Molica em 19 de dezembro de 2009 | Link | Comentários (12)

Claro que o Jobson, mais uma vez, fez bobagem. Não dá para um atleta profissional cheirar cocaína, priincipalmente, às vésperas de jogos importantes. Ele agiu de forma irresponsável.

Mas é absurda essa ideia de banir o sujeito do futebol. Há no caso uma questão fundamental: o Jobson não se dopou, ele se drogou. Isso é bem diferente. Cheirou pó da mesma forma que poderia ter enchido os cornos (dizem que ele é bom nisso também), fumado uns dez baseados, tomado um ácido. Ou poderia ter feito tudo ao mesmo tempo, sei lá. Mas nada disso o ajudaria em campo, melhoraria sua performance. Ao contrário: pó, maconha, birita e ácido só prejudicam o desempenho de um atleta.

O caso do Jobson é bem diferente daqueles de atletas que tomam bagulhos para aumentar a musculatura, emagrecer ou dar um gás em seu rendimento. O então atacante do Botafogo apenas agiu de forma irresponsável ao consumir uma droga proibida. Se tivesse bebido até cair uns dois dias antes dos jogos, nada de grave iria lhe acontecer, ele não correria o risco de ser punido.

Há um certo consenso entre os dirigentes esportivos e jornalistas: atletas têm que ser exemplos, não podem fazer besteira, têm que ser melhor do que somos. É como se não pudessem ser humanos. O álcool é, de longe, a droga mais consumida no país e a que mais gera problemas de saúde - uma pesquisa publicada hoje mostra que 70% dos jovens brasileiros já beberam. Mas, como é legalizado, tudo bem, pode. Pó, maconha e que tais não podem. Ok, são proibidas e isso deve ser respeitado. Mas, caramba, não se pode impedir um sujeito de 21 anos de exercer sua profissão. A menos, claro, que se queira afundá-lo de vez.

Muita gente usa drogas ilegais - médicos, cineastas, jornalistas, atores, escritores, cantores, corretores de seguro, motoristas de ônibus, empresários, políticos. E nenhum deles é impedido de exercer sua profissão (a menos, claro, que se droguem durante o expediente ou cometam uma sucessão de besteiras). Não faz assim tanto tempo, um famoso ator foi preso quando ia comprar drogas, acabou internado. Ninguém o crucificou - ao contrário, foi abraçado por colegas de profissão, pela empresa em que trabalha e, mesmo, pelos jornais e revistas. Foi tratado como vítima, não como criminoso. Sobre ele não são despejadas manifestações de preconceito quanto as que ameçam afogar o Jobson.

Entre os pecados cometidos no mundo do futebol, o do Jobson é dos menores. Ele não apitou pênalti inexistente, não recebeu comissão para construir estádios ou viabilizar patrocínios, não embolsou dinheiro em transações de jogadores, não surrupiou renda de jogo beneficente, não recebeu ingresso gratuito para torcer por seu time, não provocou brigas, não matou ninguém. A cocaína, insisto, sequer teria como fazê-lo jogar melhor. Jobson cometeu uma irresponsabilidade que prejudicou apenas uma pessoa, ele mesmo.

O que deve ser feito? Não sei. Talvez um gancho, uma suspensão. É preciso ter um mínimo de responsabilidade em qualquer profissão, o Jobson tem que aprender isso. Mas sei que não se pode acabar com a vida de um jovem que, como tantos outros, fez algumas bobagens. Burrices que - não custa ser redundante - não machucaram ninguém


Cariocas na Argentina

separador Por Fernando Molica em 15 de dezembro de 2009 | Link | Comentários (2)

Tapa_10_cariocas_flyer.jpgNesta sexta, dia 18, o escritor argentino Federico Lavezzo lançará, em Rosário, a coletânea de contos 10 cariocas (Ferreyra Editor). Estou entre os autores, ao lado de Marcelo Moutinho, Cecilia Gianetti, Ana Paula Maia, Paulo Henriques Brito, Bráulio Tavares, João Paulo Cuenca, Leandro Salgueirinho, Manoela Sawitzki e Sérgio Sant'Anna.

Como alguém já teve ter notado, nem todos os autores nasceram no Rio, o Bráulio Tavares, por exemplo, veio da Paraíba, a Manoela é gauchíssima. Lavezzo acabou utilizando uma lógica há muito consagrada aqui no Rio - carioca é quem vive por aqui; os que adotam a cidade e por ela são adotados. No processo de organização, o Lavezzo - morador de Copacabana - apenas pediu que os os contos fizessem alguma referência à cidade. Como a edição é bilíngue, é possível que chegue por aqui.


Livros, abismos e o canto do ringue

separador Por Fernando Molica em 12 de dezembro de 2009 | Link | Comentários (2)

O ponto da partida foi mais cedo para o chuveiro. Após ganhar de Acenos e afagos, de João Gilberto Noll, acabou derrotado por Flores azuis, de Carola Saavedra, nas quartas de final da Copa de Literatura Brasileira. O jogo foi decidido por Leandro de Oliveira.

Nada a reclamar, claro: como já ressaltei aqui, o mais importante da Copa é a oportunidade de se discutir a produção literária. Para fazer isso, o torneio brinca com a possibilidade de enfrentamento entre romances. Este quase paradoxo - livros não são escritos para participar de disputas - dá gás e areja esse pequeno universo. No caso específico, o Leandro foi equilibrado, ressaltou qualidades nas duas obras e fez uma escolha baseada em suas próprias expectativas como leitor. E é bom que tenha julgado na condição de leitor, livros existem para serem lidos.

Aproveito o embalo para levantar um tema que considero fundamental. A relação - ou melhor, a inexistência de uma relação - do público com a produção literária contemporânea brasileira. De um modo geral, não somos lidos por muita gente, é só conferir as listas de mais vendidos. Disse no outro parágrafo que livros existem para serem lidos. Deveria ser assim. Na prática, sofremos todos com uma incômoda ausência de leitores. Exceções como os livros de Chico Buarque não contam - o ótimo Budapeste vendeu muito porque nasceu assinado por um nome que é referência de qualidade para boa parte da população. Como diria nosso presidente, Chico não faz merda. Dá pra comprar sem muito risco.

Talvez estejamos todos - autores, editores, críticos - fascinados por uma festa em que somos os únicos convidados. Melhor, uma festa que só tem melhorado: os encontros literários se multiplicam, ganham visibilidade, charme e, volta e meia, rendem um cachê. Mas, como diz o Marçal Aquino, não saímos da nossa confraria, nos consumimos, nos frequentamos, nos elogiamos - nem brigar temos brigado. Nossa produção pouco circula fora do universo do leitor profissional. Não dá para achar que isso é normal, que podemos abrir mão do diálogo com leitores comuns, não ligados ao mercado editorial.

Não chego ao radicalismo dos que veem numa certa busca da inovação pela inovação a responsabilidade por esse não-encanto do leitor. Para eles, o jogo literário teria assim se transformado numa brincadeira auto-referente. Algo para iniciados, que excluiria os que estivessem de fora do baile. Mas este argumento radical não deve ser descartado, é bom trazê-lo para a discussão.

O problema é que a inanição do público também afeta autores que, em tese, poderiam ser mais populares. Nem dá para se falar numa conspiração formalista - ainda que o aspecto da suposta inovação seja volta e meia alardeado como fundamental para se definir a qualidade de um livro. Não é difícil encontrar resenhas que insistem em enfatizar, de uma maneira mais elaborada e sofisticada, a separação entre forma e conteúdo: aquela costuma ser apontada como mais relevante do que este. Tenho dificuldades para separar uma boa história de um bom jeito de narrá-la - um quesito depende do outro.

Tendo também a desconfiar desta busca pela suposta novidade. Antes de ser escritor, sou um leitor; um leitor desorganizado e não-sistemático, meus gostos são muito variados e não-enquadráveis - não consigo dizer que um livro é bom porque inova ou que é ruim pelo mesmo motivo. Um livro é bom porque se impôs, despertou meu interesse, me fez ter vontade de retomar logo a leitura. Não dá para medir a qualidade de um improviso pelo tempo em que o saxofonista ficou sem respirar. Machado de Assis morreu há cem anos, mas continua jovem, inovador. Ao mesmo tempo, há novidades que nascem caquéticas.

Talvez por isso - o critério é mais do leitor do que do escritor - me assusto pela busca literária do equivalente a um duplo twist carpado (ou esticado, ou com mortal na segunda pirueta). Na literatura, o tamanho do salto e seu índice de dificuldade não podem ser usados como referências finais de qualidade - até porque, na vida e nos livros, quedas costumam ser muito mais interessantes que as vitórias. Temo que uma eventual hegemonia desses critérios leve a literatura a um impasse como o que, de certa forma, empurrou as artes plásticas para o canto do ringue. A menos que, a exemplo do personagem de Cordilheiras, do Galera, estejamos todos fascinados pelo abismo.

Claro que nenhuma opção pode ser condenada de cara - ainda mais num momento que nem mesmo o livro em si, o próprio objeto, capas e miolo, se vê ameaçado por suas versões eletrônicas. Repito: não quero ser excludente nem separar e qualificar livros por suas características mais ou menos formais. Como dizem os bicheiros, vale o escrito, o publicado.

Admito, claro, que na literatura, não dá para associar qualidade a um bom desempenho de vendas. Mas não podemos cair no oposto: passarmos a considerar como bom o livro que não vende, que não é lido. Ter uma boa história não é sempre garantia de qualidade de um livro; assim como a ausência de um enredo mais palpável não deve ser vista como sinônimo de excelência. Talvez seja preciso um pouco menos de arrogância, de predisposições contra e a favor. O livro tem que valer pelo que é, pelo impacto que nos causa. Tanto melhor se essa experiência vier a ser compartilhada por muitas pessoas - não nos orgulhemos da exclusão deliberada. As melhores saídas não podem ser o desejo do canto do ringue ou o fascínio pelo pulo no abismo.


O Glorioso com seu segundo uniforme - edição revista

separador Por Fernando Molica em 08 de dezembro de 2009 | Link | Comentários (7)

SeleFogo0001.jpg


No dia do aniversário do Botafogo de Futebol e Regatas, exponho uma foto que traduz muito do nosso orgulho. Essa seleção brasileira é formada por 8 - oito! - jogadores do Botafogo (na primeira versão deste texto, disse que eram dez os alvinegros. Uma consulta ao Google mostrou que eram oito. O primeiro que está agachado não é o Rogério, mas o Nado, um jogador do Vasco). Além do Nado e do Brito (também do Vasco - em 71 foi para o Botafogo), apenas Félix, goleiro tricolor, não jogava no Alvinegro. O jogo foi no dia 7 de agosto de 1968, um amistoso contra a Argentina, no Maracanã. Sapecamos nos caras uma goleada de 4 x 1. Todos os gols foram alvinegros - Valtencir, Roberto, Jairzinho e Paulo César (este último foi marcado depois de um olé de 53 passes).

Por algumas poucas vezes, a então CBD driblava rivalidades regionais e a trabalheira de convocar a seleção. Assim, transferia para um time ou combinado a tarefa de honrar a amarelinha. No caso, a responsabilidade coube a uma seleção carioca; na prática, ao Botafogo. O técnico era o Zagallo que, bicampeão pelo Fogão, usou a base do time para armar o, como se dizia na época, escrete. Tudo a ver: o clube, afinal, mandou para a seleção jogadores como Garrincha, Nilton Santos, Didi, Amarildo, Jairzinho, Paulo Cesar, Roberto, Marinho, o próprio Zagallo. É, até hoje, o time que mais cedeu jogadores para a Seleção Brasileira.

O importante é que não fiquemos no saudosismo. A foto no blog deve servir de inspiração, de compromisso de mudança. Não podemos nos conformar com a mediocridade, com a sina do risco do rebaixamento. Isso não é compatível com o Botafogo nem com o futebol brasileiro.

Em tempo: o Botafogo Football Club nasceu, em 1904, no Largo dos Leões, aqui pertinho de casa, numa reunião de garotos. Surgiu a partir do sonho de uns meninos que queriam jogar bola. A fusão com o Club de Regatas Botafogo (criado em 1894) ganhou força com uma tragédia. Em junho de 1942, num jogo de basquete entre o time do Football e o de Regatas, um jogador do primeiro, Armando Albano, foi vítima de uma síncope e morreu na quadra. A dor cimentou a união dos dois clubes, sacramentada em 8 de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, nosso dia da Criação.


Ah, para não esquecer: o time aí de cima é formado por Moreira, Félix, Brito, Leônidas, Carlos Roberto e Valtencir; Nado, Gérson, Roberto, Jairzinho e Paulo César. Os quatro últimos (além do Brito) estiveram na Copa de 70. Rogério, que não participou deste jogo, chegou a ser convocado para o Mundial do México, mas foi cortado por contusão.

Mais detalhes sobre este jogo em:

http://200.159.15.35/brasilnacopa/ler_historia.aspx?c=4775

http://blog.arquibabotafogo.com/2008/08/07/a-noite-em-que-o-botafogo-se-vestiu-se-selecao/

http://www.ebfnet.com.br/port/ate_voce/entrevistas_detalhe.php?codigo=13&tipo=Artigo


Hexa com asterisco

separador Por Fernando Molica em 07 de dezembro de 2009 | Link | Comentários (15)

Em meio às comemorações pela vitória do Flamengo, vale lembrar: de acordo com o site da entidade que organiza o campeonato brasileiro, a CBF, o time da Gávea conquistou, neste domingo, seu quinto título brasileiro - o que, vale ressaltar, é um grande mérito. O campeonato de 1987 (um dos contabilizados pelo Flamengo para formar o hexa) foi, segundo a CBF, conquistado pelo Sport Recife. É por isso que, volta e meia, jornais publicam um asterisco ao lado do título que o Flamengo sustenta ter conquistado. Um asterisco que remete para uma explicação sobre o caso.

A história é meio complicada: em 1987, em meio ao caos do nosso futebol (o campeonato brasileiro anterior teve 80 times!), grandes clubes, ancorados em bons patrocinadores (Varig, Rede Globo e Coca-Cola), escantearam a CBF, fundaram o Clube dos 13 e decidiram fazer sua própria competição, a Copa União, que teria 16 participantes. Do torneio fizeram parte alguns dos mais importantes clubes brasileiros, todos convidados pelo Clube dos 13.

A tal Copa já começou de forma errada: seus organizadores, de olho na rentabilidade da competição, deixaram de fora times na época importantes, como o Guarani, vice do Campeonato Brasileiro de 1986, e o América do Rio, quarto colocado naquela mesma disputa. O problema é que eles tinham poucos torcedores. Ou seja, a Copa União não pode ser chamada de primeira divisão do campeonato brasileiro: dois dos principais times de então ficaram de fora (no lugar deles entraram Goiás, Coritiba e Santa Cruz, clubes populares que atrairiam mais público e audiência).

Os times que ficaram de fora reclamaram. Depois de definido o regulamento da tal Copa, a CBF entrou em campo e resolveu tentar ajeitar aquela história, até porque a rebelião dos clubes poderia trazer problemas com a Fifa. A solução encontrada foi meio esquisita: a entidade incorporou a Copa União a um novo campeonato, dividido em quatro módulos: Verde (a própria Copa União), Amarelo, Azul e Branco. O campeão sairia do cruzamento entre os dois primeiros colocados do Verde e dois primeiros do Amarelo. O Clube dos 13, que apoiara a tentativa de conciliação, chiou com a história do cruzamento - mas bola rolou: no dia 11/9/87, Palmeiras e Cruzeiro disputaram o primeiro jogo da Copa União/Módulo Verde; dois dias depois, começou o Módulo Amarelo. Ah, a bola não rolou para todos: revoltado por ter ficado de fora da Copa União,o América resolveu não disputar o Módulo Amarelo.

No fim das contas, na hora do cruzamento final, Flamengo e Internacional (vencedores do Verde) bateram pé e não participaram dos jogos contra Sport e Guarani (os mais bem colocados do Amarelo). As partidas foram marcadas, mas jogadores de Flamengo e Inter não apareceram para jogar - os times perderam por WO. As imagens dos estádios vazios são patéticas. Gostaria de revê-las.

Resultado: Sport campeão brasileiro; Guarani, vice. É o que aparece no site da CBF (ver lista abaixo), apesar das reclamações do rubro-negro carioca. Um troféu de bolinhas para quem descobrir quem foram os representantes brasileiros na Libertadores de 1988 (na época, eram dois os times escalados): claro, Sport e Guarani.

Há justiça na decisão da CBF? Não sei, o Flamengo e o Inter eram melhores que Sport e Guarani, ganhar o Módulo Verde certamente foi complicado. Os times da Copa União eram, de um modo geral, bem mais fortes que os do Módulo Amarelo.Mas, insisto, a exclusão de Guarani e América do torneio representou um pecado original, que descaracterizou a tal primeira divisão. Talvez tivesse sido melhor que Flamengo e Inter tivessem entrado em campo e disputado o tal cruzamento. A CBF, afinal, é tão boa ou tão ruim quanto os clubes e seus dirigentes. Não há anjos nesta história.

A solução para o problema não é simples: a eventual divisão do título entre Flamengo e Sport equalizaria os módulos Verde e Amarelo, ambos passariam a ter o mesmo peso, o que consagraria a solução criada, na época, pela CBF. Neste caso, teria sido melhor fazer mesmo o cruzamento. Também seria injusto cassar o título do Sport, que cumpriu as regras da CBF. É provável que o Flamengo - que tinha um belo time, com Zico, Andrade, Leonardo, Leandro - tivesse vencido os confrontos. Isso o teria livrado daquele asterisco que, até hoje, para a alegria dos não-rubro-negros, relativiza a conquista de 1987.

CAMPEÕES
2008 - São Paulo (São Paulo)
2007 - São Paulo (São Paulo)
2006 - São Paulo (São Paulo)
2005 - Corinthians (São Paulo)
2004 - Santos (São Paulo)
2003 - Cruzeiro (Minas Gerais)
2002 - Santos Futebol Clube (São Paulo)
2001 - Atlético Paranaense (Paraná)
2000 - COPA JOÃO HAVELANGE - Vasco da Gama (Rio de Janeiro)
1999 - Corinthians (São Paulo)
1998 - Corinthians (São Paulo)
1997 - Vasco da Gama (Rio de Janeiro)
1996 - Grêmio (Rio Grande do Sul)
1995 - Botafogo (Rio de Janeiro)
1994 - Palmeiras (São Paulo)
1993 - Palmeiras (São Paulo)
1992 - Flamengo (Rio de Janeiro)
1991 - São Paulo (São Paulo)
1990 - Corinthians (São Paulo)
1989 - Vasco da Gama (Rio de Janeiro)
1988 - Bahia (Salvador)
1987 - COPA UNIÃO - Sport Recife (Pernambuco)
1986 - São Paulo (São Paulo)
1985 - Coritiba (Paraná)
1984 - Fluminense (Rio de Janeiro)
1983 - Flamengo (Rio de Janeiro)
1982 - Flamengo (Rio de Janeiro)
1981 - Grêmio (Rio Grande do Sul)
1980 - Flamengo (Rio de Janeiro)
1979 - Internacional (Rio Grande do Sul)
1978 - Guarani (Campinas)
1977 - São Paulo(São Paulo)
1976 - Internacional (Rio Grande do Sul)
1975 - Internacional (Rio Grande do Sul)
1974 - Vasco da Gama (Rio de Janeiro)
1973 - Palmeiras (São Paulo)
1972 - Palmeiras (São Paulo)
1971 - Atlético Mineiro (Minas Gerais)


Nelson Cavaquinho e os rubro-negros

separador Por Fernando Molica em 04 de dezembro de 2009 | Link | Comentários (3)

Diante da possibilidade de o Flamengo conquistar o campeonato brasileiro, reproduzo trecho de O ponto da partida em que Ricardo Menezes, o protagonista, critica a obsessão rubro-negra por vitórias; a compara com a lógica de vida de seu ídolo maior, Nelson Cavaquinho. O livro não diz, mas acho que o Menezes é torcedor do Bangu - isso ajudaria compor sua visão crítica e desencantada do mundo.

"Parece bobo dizer isso. No fundo, é mesmo. Meio chavão, lugar-comum, brega. Se fosse um texto, eu vetaria, não publicaria de jeito nenhum. Mas isso aqui é conversa de
bar, não é jornal, não é livro, posso falar o que quiser. Preste atenção. Nelson Cavaquinho, ele, os sambas que ele compôs, abrem e fecham capítulos da minha vida. Não faça essa cara, sei que a frase não é das melhores. Mas é assim mesmo. Tem a ver com Nelson, com as músicas dele. Vocês, rubro-negros, não entendem isso. Ficam naquela tentativa idiota de vencer, vencer, vencer. Coisa chata, previsível, sem graça, parece time de vôlei do Bernardinho, o escritório daquela minha ex. Pior é que volta e meia acabam perdendo, ficam frustrados porque não venceram, venceram, venceram.
A vida não é assim, na vida a gente se fode mais do que vence. No Campeonato Brasileiro, por exemplo: são quantos times? vinte? vinte e quatro? Pois é, se são vinte,
são sempre dezenove contra um. No fim, um ganha e dezenove perdem. O número de perdedores é sempre maior. É claro também que o um, o vencedor, vai, ao longo dos anos, perder mais do que ganhar. Pode vencer campeonato, ser vice, conquistar aquela taça com nome de carro que vocês ganharam no Japão. Pode ser bi, tri, tetra. Mas, no fim das contas, vai sempre estar no prejuízo. O número de títulos perdidos vai ser sempre maior do que o de títulos ganhos. É matemático, científico, irrecorrível. Aí vocês ficam elogiando esses merdas desses artistas que querem vencer, vencer,
vencer. Que morrem de medo de sair de moda, que lançam disco novo todo ano, que se reciclam, que se atualizam, que param de beber, ficam saudáveis, que não têm barriga. Bando de merdas. O Nelson não tinha nada disso, sempre viveu ferrado, sempre tomou porrada, sempre se lixou pra essa porra de mercado. Tava com fome? Vendia um samba, o dono do boteco virava parceiro porque deixou o Nelson comer de graça. O cara foi o compositor mais generoso da música brasileira. Tem parceiro dono de boteco, de puteiro, gerente de hotel vagabundo, de espelunca. Os herdeiros desses caras devem estar até hoje orgulhosos: papai foi parceiro de Nelson Cavaquinho. É, parceiro: entrou com o bife, com o quarto, com a puta.(...)".



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