Estação Piedade: a biografia de Fernando MolicaEstante: livros públicados pelo MolicaPáginas Amarelas: textos, artigos e outras palavras maisJulio Reis: Biografia, Músicas e PartiturasBlog: Pontos de PartidaFoto MolicaClique para voltar a página principalFoto Molicawww.fernandomolica.com.brEntre em contato com o Fernando MolicaInformações para imprensa

Blog

Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

separador
BG

novembro 2009 Archives

Pornografia

separador Por Fernando Molica em 30 de novembro de 2009 | Link | Comentários (0)

Devo estar ficando meio velho ou mais idiota. Mas confesso que poucas vezes vi algo tão nojento e terrível quanto as cenas daqueles sujeitos de Brasília pegando dinheiro - e orando, e colocando cédulas nas meias, e jogando a grana dentro da bolsa e fazendo cara de que tudo estava muito normal. Hoje cheguei a comentar no jornal que deveríamos repercutir o assunto com atores de filmes pornô: alguma vez eles teriam visto algo mais chocante?

Sempre me perguntei como um sujeito detentor de cargo público faria para receber um dinheiro indevido. Achava que a cena seria meio constrangedora. O corruptor entregaria uma mala ou um envelope? A entrega seria feita em mãos? Ou ele deixaria um pacote, assim como quem não quer nada, num canto do sofá? Como seria esse momento em que a corrupção se concretiza, quando o governante sabe que receberá uma vantagem indevida em troca de deixar de fazer, digamos, melhores escolas ou hospitais? O momento em que o governante sabe que o outro saberá que ele não presta, que é ladrão, desonesto, safado.

Ontem e hoje descobri que não há qualquer constrangimento. É algo simples, usual, faz parte do jogo político. Toma lá, dá cá. Tão simples quanto pedir um café ou pegar um ônibus ou fazer algum comentário sobre o tempo. Pegou, orou, colocou, jogou. Chega a ser banal.


Ah, mas os caras ainda conseguem fazer pior. Ainda cometem a canalhice de tentar explicar o inexplicável, o batom na cueca. Cornos que somos, ainda temos que ouvi-los dizer algo como "não é nada disso que vocês estão pensando".


Livros: Botafogo e jornalismo

separador Por Fernando Molica em 23 de novembro de 2009 | Link | Comentários (0)

Hoje é dia de sair correndo de livraria em livraria:

A partir das 18h, o amigo Paulo Marcelo Sampaio, que mantém o blog Arquiba Botafogo, autografa Os dez mais do Botafogo na Saraiva do Botafogo Praia Shopping. O livro tem a difícilima tarefa de reunir os principais jogadores alvinegros. Ele escalou Heleno de Freitas, Nilton Santos, Garrincha, Didi, Zagallo, Manga, Gérson, Jairzinho, Paulo César e Túlio, um timaço. Mas, não tem jeito, ficaram de fora craques como Roberto Miranda (que jogou a Copa de 70), Rogério (também convocado para 70, acabou cortado por contusão), Marinho Chagas, Amarildo, Quarentinha, Mauro Galvão, Leônidas... No caso do Botafogo, dava para lançar, sem dificuldade, um volume 2 do livro. Fica a sugestão.

E tem mais livro sobre o Botafogo: Roberto Porto estará, a partir das 19h, na Saraiva do Rio Sul, para apresentar seu "Botafogo: o Glorioso".

Companheira de diretoria da Abraji, Ana Estela de Sousa Pinto, responsável pelo programa de treinamento da "Folha de S.Paulo", lança Jornalismo diário: reflexões, recomendações, dicas e exercícios. Vai ser na Travessa de Ipanema a partir das 20h.


Discriminação religiosa

separador Por Fernando Molica em 21 de novembro de 2009 | Link | Comentários (10)

Ontem, sexta, publiquei uma nota lá no Informe do Dia sobre o assunto. Mas o negócio é tão grave que merece mais barulho. O livro do Nei Lopes (citado no post anterior) faz parte de uma coleção da Editora Língua Geral que tem uma característica específica: como naqueles livros policiais da Companhia das Letras, a parte externa do miolo é colorida.

Só que a operação para dar este colorido não é muito simples, apenas uma gráfica no Brasil faz isso. E a tal gráfica se recusou a fazer isso no livro do Nei. O motivo? A palavra "mandinga" que consta do título do romance (Mandingas da mulata velha na Cidade Nova). A tal gráfica é ligada a evangélicos (ou pertence a religiosos ou faz muitos serviços para eles) e, portanto, não topou fazer um serviço em um livro que, no título, faz referência a algo que eles associam ao capeta.

Isso é um escândalo, uma afronta, algo que poderia ser enquadrado como discriminação religiosa. O fato de a gráfica ser uma empresa privada não lhe dá direito de agir assim. É como um hotel - por ser privado - dizer que não aceita negros (ou judeus ou católicos ou evangélicos ou torcedores do Botafogo). Sei não, acho que a brincadeira está ficando séria e perigosa demais.


Mandingas de Nei Lopes

separador Por Fernando Molica em 17 de novembro de 2009 | Link | Comentários (0)

Covite_Mandingas_da_Mulata.jpg

O grande Nei Lopes lança nesta quarta, a partir das 19h, na livraria do Unibanco Arteplex, seu primeiro romance, Mandingas da mulata velha na Cidade Nova (Língua Geral). O cinema fica na Praia de Botafogo, 316. Este ano, Nei faturou o Jabuti na categoria didático e paradidático com História e cultura africana e agro-brasileira.


Pelo direito de sonhar

separador Por Fernando Molica em 16 de novembro de 2009 | Link | Comentários (7)

Na saída do Engenhão, pouco depois da derrota do Botafogo para o Cerro Porteño, ouvi o comentário de um cara que estava mais ou menos ao meu lado. O sujeito fez um desabafo para o filho, um rapaz de uns 15/16 anos.

- Errei ao fazer de você um torcedor do Botafogo. Esse time não tem mais nada a ver com os times de antigamente. Garrincha, Nilton Santos, Didi, Jairzinho - é tudo passado. Você devia ter sido Flamengo.

Diante de tamanha heresia, interferi na conversa. Disse que não, como assim, besteira, meu amigo. Isso tudo vai passar.

Mas, no caminho para casa, pensei em algo um tanto quanto dramático: não dá para garantir que meus netos - que sequer foram concebidos - serão alvinegros. Sou Botafogo porque meu pai é Botafogo. Adotou o time ao ver Garrincha jogar. Ele não sabia, descobriu anos depois, mas meu avô, seu pai, era Botafogo. Virou alvinegro porque, uma vez, viu Didi jogar em Viçosa (lá pelos anos 50, o Madureira, onde Didi jogava, disputou amistosos no interior de Minas. Meu vô Almiro ficou impressionado o sujeito, passou a acompanhá-lo. Por Didi, virou Botafogo).

Meus filhos são Botafogo por minha influência direta - até que deram sorte, foram campeões brasileiros em 1995, conquistaram alguns estaduais e um Rio-SP. Mas, do jeito que vamos, começo a duvidar da continuidade da permanência dessa quase herança genética. Arrisco dizer que o Botafogo corre o risco de virar Portuguesa ou, pior, um América. Seria um processo mais lento, nenhum dos dois times tem um percentual mínimo da importância do Botafogo - mas o risco não está afastado.

O Botafogo tem pecado pela falta de ambição, se satisfaz com pouco. É absurdo entrar em campeonatos brasileiros sonhando em não cair ou, no máximo, em conquistar uma vaga na Sul-Americana. Essa lógica se traduz no futebol do Lúcio Flávio - um jogo medroso, sem objetividade. Como bem observou o amigo Paulo Marcelo, LF foge do gol, teme o risco, distribui jogo para as laterais. Estamos nos contentando com pouco - uma Taça Guanabara aqui, uma Taça Rio acolá. Substituímos o Vasco na conquista de vice-campeonatos regionais (ok, fomos roubados em duas das últimas três decisões de estaduais, mas o roubo reflete uma certa decadência. Na dúvida, os juízes respeitam os mais fortes. Na final da Taça GB de 2006, fomos favorecidos pela não-marcação de um pênalti escandaloso quando perdíamos de 1 x 0).

Os erros contra o Botafogo - neste Brasileirão foram muitos, ocorridos no momento em que o time se recuperava de um mau início no campeonato - mostram que os juízes já nos consideram menores. O rugido de um Beluzzo incomoda muito mais do que a reclamação de um dirigente alvinegro.

O time atual é ruim, o técnico, além de medroso, não conseguiu criar padrão de jogo - o Cerro Porteño deu o chamado banho tático no Botafogo, estava muito bem armado. Mas o técnico e o time apenas refletem uma lógica perdedora, cabisbaixa, não-ousada. Falta coragem, falta marra. Falta fazer como Manga fazia: dizer que, nos jogos contra o Flamengo, gastava o bicho de véspera.

A gestão Bebeto de Freitas foi importante, principalmente no seu início - organizou o clube, levou o time de volta à primeira divisão. Depois, caiu no rame-rame, na tal da utopia possível enunciada por FHC, uma lógica adotada pela nova diretoria. Caramba: não queremos prudência, não queremos equilíbrio financeiro, time compatível com a realidade econômica. Não queremos um futebol que reflita nossa vida e nossas preocupações cotidianas. Já basta ter que, no meu dia-a-dia, me preocupar com trabalho, grana, contas.

Futebol é muito mais que um jogo - até porque o jogo em si não tem a menor importância. Futebol é sonho, delírio, projeção de vitórias. No futebol, posso ser melhor do que sou. Não quero um sonho possível: sonho assim não é sonho, não tem a menor graça. Não podemos ser medíocres até na hora de sonhar. É preciso que o Botafogo volte a ser ousado, marrento, capaz de gerar orgulho em sua torcida - e medo e respeito entre os adversários. O Botafogo precisa voltar a honrar Garrincha: ser corajoso, agressivo, alegre e - consequência de tudo isso - vitorioso. Saudações alvinegras.


Obs: na semana passada, sonhei - é sério - que conversava com Maradona numa redação de jornal. O sujeito estava magro (e surpreendentemente alto). Lembro que insisti para que ele voltasse a jogar, que viesse para o Botafogo. Acho que ele recusou a oferta. A cena é, claro, risível. Mas é melhor sonhar em ver Maradona com a camisa alvinegra do que se contentar com a volta de Dodô - o sonho possível prometido pela diretoria do clube.


A fortuna das FARCs

separador Por Fernando Molica em 10 de novembro de 2009 | Link | Comentários (2)

ConviteDaconde.jpg

Nesta quinta, a partir das 20h, participarei de um debate com o jornalista colombiano Eccehomo Cetina, autor de O tesouro - uma história de roubo nas Farcs (Record). O livro - muito legal - narra um episódio fantástico: o encontro, em 2004, por soldados do exército colombiano, de uma fortuna estimada em US$ 80 millhões. A grana tinha sido enterrada por guerrilheiros no meio da selva. No livro, Cetina narra como soldados e oficiais ficaram ensandecidos diante de tanto dinheiro.

A conversa será na Livraria da Conde, na Rua Conde de Bernadotte, no Leblon.


Enfermeiras talibãs

separador Por Fernando Molica em 10 de novembro de 2009 | Link | Comentários (2)

Aconteceu de novo: o Conselho Regional de Enfermagem do Rio conseguiu, na Justiça Federal, uma liminar que impede a Fernanda Lima, apresentadora do programa "Amor e sexo", de se apresentar vestida de enfermeira. Para o Coren, a caracterização reforçaria o fetiche masculino em relação às enfermeiras.

Bem, a atitude não representaria muito escândalo em tempos em que jovens vaiam loura de pernas grossas e saia curta. Mas é um escândalo, um atentado contra a liberdade de expressão. Entidades que representam as enfermeiras acham ofensivo que estas profissionais sejam vistas como mulheres bonitas e sensuais? O problema é delas. Preferem ser vistas como barangas, grosseiras, desatentas, insensíveis? Problema delas (antes que me processem: não disse que enfermeiras são gostosas, nem que são barangas, grosseiras, desatentas ou insensíveis).

As tais entidades tem o direito de defender a categoria: ninguém pode dizer que toda a enfermeira é vagaba ou que todo o policial é corrupto ou que todo jornalista é safado. Nesses casos, vale a chiadeira, processo, o escambau. Mas o problema é outro: as senhoras do conselho acham que ninguém - nem mesmo na ficção - pode caracterizar uma enfermeira como sensual, como uma pessoa capaz de atrair desejos, representar um fetiche. Elas querem controlar o desejo alheio!

Claro que ninguém pode atacar uma enfermeira, estuprá-la - ninguém pode fazer isso com ninguém. Mas não se pode impedir que uma pessoa tenha desejos em relação a enfermeiras, aeromoças, pilotos de avião, entregadores de pizza, estagiárias, bombeiros (há uns anos, a Renata Ceribelli fez, no Fantástico, uma matéria hilariante com uma mulher que tinha tesão em bombeiros. A tal senhora foi colocada num carro da corporação e quase teve um orgasmo quando a sirene foi ligada. Será que os bombeiros se sentiram agredidos com a fantasia - real - da tal senhora?). Será que os jornalistas deveriam ter entrado na Justiça contra o filme "Cidade de Deus" só porque um personagem diz que jornalista é ruim de cama?

Enfim, deixemos de talibanismo. É fundamental combater preconceitos assim como é essencial garantir a liberdade de expressão. Que as enfermeiras não tentem controlar a representação dos desejos e se concentrem em lutas mais importantes.


Vitória na primeira rodada

separador Por Fernando Molica em 05 de novembro de 2009 | Link | Comentários (2)

Depois de perder para o Cerro Porteño, não deixa de ser reconfortante ganhar do João Gilberto Noll. Enfim, uma vitória - meio suada, como costumam ser as vitórias alvinegras, mas uma vitória. A partida foi pela primeira fase da versão 2009 da Copa de Literatura Brasileira, um - digamos - torneio que reúne 16 livros e os coloca para - digamos, de novo - jogar um mata-mata. A vitória é definida por um juiz, um leitor que analisa os romances em disputa. No caso, meu O ponto da partida entrou em campo para enfrentar Acenos e afagos, do Noll.

Como eu disse aqui, em julho passado, a Copa é bem divertida, é séria sem ser chata - ainda que volta e meia ocorra uma confusão no meio do gramado (é um jogo, né?). As resenhas, de um modo geral muito interessantes, costumam ser arejadas, amadoras no melhor sentido da palavra, feitas por pessoas que gostam de literatura. Fundamental: os juízes leem os livros, são obrigados a justificar seus votos. Isso é um grande avanço. A existência desta justificativa dá maior responsabilidade ao julgador, não se trata apenas de apontar que A é melhor que B. É preciso dizer por que A é melhor que B. Ou seja, quem julga também é julgado, o que é bem democrático.

Talvez a ideia da Copa represente algo que gostaríamos ver mais: livros tratados com seriedade e graça, como numa boa conversa de bar. E, claro, com a sempre presente possibilidade de se xingar o juiz. No caso desta Copa, o jogo é mais interessante do que seu resultado. Até porque o placar nunca pode ser visto como definitivo, como verdade absoluta.

Bem, aí vai o comentário de Fabio Silvestre Cardoso que decidiu o sexto jogo. Vale dar uma passada no site da Copa, as discussões pós-jogos costumam ser bem interessantes. Ah, nas quartas de final, meu O ponto da partida enfrenta Flores azuis, de Carola Saavedra.


No sexto jogo da Copa da Literatura Brasileira, Acenos e afagos, de João Gilberto Noll, e O ponto da partida, de Fernando Molica, travaram um duelo bastante disputado, pois ambos os livros apresentaram virtudes que sobrepuseram seus eventuais vícios. A princípio, a obra de João Gilberto Noll levava certa vantagem, sobretudo porque o autor é daqueles que se pode considerar adepto de uma literatura vistosa, dessas que conseguem encantar o leitor e o amante dos romances tanto pelo lirismo como pelo estilo bem acabado, extremamente calculado, que sabe exatamente onde quer chegar. De sua parte, Fernando Molica é um autor com repertório literário mais modesto, sem esbanjar tantos recursos estilísticos; em contrapartida, é detentor de uma narrativa bastante envolvente, dessas que conquistam o leitor já no primeiro parágrafo. É como se fossem escolas diferentes, o que só poderia produzir um grande jogo. E nessa disputa, contrariando os prognósticos, O ponto da partida, de Fernando Molica, foi o vencedor.

A chave para a vitória, para utilizar o jargão dos comentaristas de futebol, está justamente na maneira como Molica conduziu sua história, tratando de um tema aparentemente banal: a crise de meia-idade de um jornalista carioca, apaixonado por Nelson Cavaquinho, que durante um plantão na madrugada revisita sua trajetória profissional, sua vida afetiva e seu relacionamento com os filhos. Nessa jornada rígida e ordinária, o protagonista Ricardo Menezes consegue cativar o leitor porque, homem desprovido de qualidades, mostra-se demasiadamente humano. Assim, mesmo sendo um personagem um tanto amargurado e vivendo (a suspeita é deste juiz) uma espécie de depressão silenciosa, escondida apenas pelos picos de euforia, Menezes não deixa de encarar seus problemas, numa postura divertidamente iconoclasta.

Até aí, alguém pode dizer, isso não sustenta a supremacia de um livro. De fato, não. Todavia, é necessário ressaltar que o autor constrói uma galeria de personagens à altura do protagonista. O sucesso da caracterização é tamanho que em determinado momento o leitor pode crer que as histórias do livro são desses casos fortuitos do cotidiano, algo como uma seleção do que não coube nos jornais. Que fique claro: a despeito da verossimilhança, trata-se de uma obra de ficção, obviamente arrematada por um autor experiente no ofício de articular boas histórias e que não deixa o leitor perder o interesse pela sequência dos acontecimentos. Assim, seja nos diálogos, seja no encadeamento dos capítulos, Fernando Molica é hábil em construir um relato bastante conciso e objetivo, mas, principalmente, um romance que cumpre seu papel de fazer o leitor desfrutar o texto. Assim, se é verdade que em determinados momentos o autor faz com que o leitor reflita sobre as escolhas que os homens, e mulheres, fazem em sua vida para ter mais status, qualidade de vida e dinheiro, também é verdade que ele propõe isso de forma suave e lúdica, deixando sedimentadas as impressões para o leitor. É nesse quesito de, digamos, cumprimento de proposta autoral que o livro de Molica bate o de João Gilberto Noll.

Para quem não sabe, João Gilberto Noll é um dos grandes romancistas brasileiros, mencionado em antologias da literatura brasileira, e um dos autores de prosa vivos mais traduzidos para fora do país. A celebração em torno de João Gilberto Noll se dá porque ele é um autor que se propõe a elaborar uma literatura decididamente mais sofisticada, com um projeto literário a ser seguido. No caso da obra em questão, Acenos e afagos se destaca (a começar pelo título) por ser um romance dotado de uma voz poética bastante peculiar, que pode ser identificada já na maneira como o narrador se dispõe a contar sua história para o leitor.

Esse narrador, protagonista de inúmeras aventuras e desventuras eróticas, a todos relata sobre seus desejos, sua volúpia e sua busca quase incessante pelo prazer carnal. Para ele, nada é mais importante do que agradar seu parceiro: ao mesmo tempo em que se torna a mulher de um engenheiro cuja conduta é misteriosa, ele também assume o papel de homem na intimidade homoerótica. Essa ambivalência causa um nó na cabeça do protagonista, que se vê envolto em inúmeros dilemas morais e existenciais, a ponto de sua fala ser absolutamente errática, caótica, muito embora a organização das ideias seja absolutamente bem feita.

Nessa perspectiva, há de se notar um elemento, a meu ver desnecessário, que compõe a obra de Noll. Trata-se do apelo ao grotesco, um recurso utilizado em demasia pelo autor, que, de forma consciente, arremata o estilo desse livro com uma linguagem chula que usa e abusa dos palavrões para dar cor ao personagem. A mensagem é clara. Experiente no domínio da palavra, JGN tem como objetivo chocar e causar espécie junto ao leitor. A esse respeito, não é descabido lembrar de que Nelson Rodrigues qualificava tal estratagema como a doença infantil do palavrão. Eis um ponto bastante curioso: em Acenos e afagos a verve poética é apimentada por um memorial erótico que em dados momentos, pela riqueza de detalhes, se assemelha aos blogs de garotas de programa que tanto fizeram sucesso na internet neste início de século XXI. Ora, se é verdade que a boa literatura não se faz com bons sentimentos, também é certo que nem tudo é literatura. Assim, quando o narrador revela que, torturado, tinha seu desejo sexual fora de controle, a ponto de deixar a companhia do filho para buscar prazeres proibidos, o leitor tem a impressão de que esse tipo de enredo está mais para filmes de gosto duvidoso nas altas horas da madrugada do que para narrativa ficcional de qualidade.

Esse elemento, no entanto, é acessório. Em verdade, o ponto que faz de Acenos e afagos um livro inferior em relação à obra de Molica é precisamente a condução da narrativa, que no caso da obra de JGN se assume como sofisticada, mas não consegue trazer o leitor comum para seu livro. Quer dizer, o autor até tenta isso com as descrições sexuais em série, mas logo essa arte de causar efeito torna-se estéril. Em outras palavras, Noll acaba por estimular, aguçar e apimentar a imaginação do público, mas, comparado ao texto de Molica, suas inventivas são inócuas e sem sentido.

Se se comparar os textos, há de se notar que ambos os protagonistas passam por experiências extenuantes em sua trajetória. Sim, leitor, são argumentos e histórias totalmente distintos um do outro. Todavia, constata-se que tanto o narrador-protagonista de JGN quanto o herói de Fernando Molica atravessam momentos de tensão ao resgatar suas escolhas, tomar novas decisões e enfrentar novos desafios. Como num jogo em que as duas equipes têm atletas de alto rendimento em ótimas condições, a peleja fica bem interessante ao leitor. Mesmo nesse ponto, contudo, a vantagem é para a obra de Molica, porque a distribuição das personagens ajuda a compor um painel mais rico para a história, enquanto o protagonista de JGN torna-se um contínuo de si mesmo, enredado em suas próprias angústias, e o livro parece claramente tomar a opção da parte em detrimento do todo. No conjunto, o romance de Molica é mais coeso e, sim, mais elaborado.

Entre o estilo vistoso de Noll e a prosa objetiva de Molica, neste embate, O ponto da partida vence Acenos e afagos. De um modo geral, é evidente que nem todos os confrontos entre essas duas escolas teriam esse mesmo resultado. Mas num jogo como esse os detalhes importam mais do que o favoritismo inicial.


BG
© Todos os direitos reservados. Todos os textos por Fernando Molica, exceto quando indicado. Antes de usar algum texto, consulte o autor. créditos do site    Clique para ver os créditos do site