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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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BG

setembro 2009 Archives

Vidas e mortes

separador Por Fernando Molica em 30 de setembro de 2009 | Link | Comentários (0)

Tenho andado meio ausente, mas é que tudo tem andado depressa demais. Numa velocidade de twitter, não de blog. Mas vou tentar:

1. Sobre a morte daquele bandido aqui no Rio, atingido por um tiro de um oficial da PM. A posição mais sensata foi da vítima, a dona da farmácia. Talvez por ter passado por uma tragédia - a morte de um filho ainda criança - ela soube colocar a situação em seu ponto correto. Frisou a justa e elogiável atuação da PM e ressaltou sua intenção de ajudar a família daquele que, por pouco, não a matou. Agradeceu por sua vida - ao contrário de muitos, da grande maioria, ela não comemorou a morte de seu quase algoz. E olha que ela quase foi explodida. É preocupante viver numa sociedade que comemora mortes.

2. Ainda sob o impacto do caso da refém, vi pela TV, na manhã de domingo, parte de uma competição esportiva em São Paulo. Skatistas, alguns dos melhores do mundo, aceitaram se jogar de uma altura de, se não me engano, um prédio de nove andares - uns 47 metros. Entre os competidores havia um garoto de 14 anos. Um menor de idade que queira desfilar numa escola de samba tem que ter autorização da Justiça; menores de idade não podem dirigir, não podem beber, não podem frequentar motéis, entrar em boates-puteiros, viajar para o exterior sem autorização dos pais. Menores ou maiores de idade não podem fumar maconha ou cometer suicídio. Mas menores (e maiores) de idade podem se jogar lá da casa do cacete, podem arriscar a própria vida. Isto é considerado razoável, admissível. E os caras ainda são considerados atletas, exemplos. Seus pais são tidos como gente legal. Os promotores e patrocinadores daquele negócio são recebidos como pessoas corretas.

3. Sei não, de vez em quando me sinto como aquele soldado que marcha errado na parada militar - e acha que todos os outros estão errados.


João e Clarice

separador Por Fernando Molica em 16 de setembro de 2009 | Link | Comentários (0)

Tenho lá - admito - um problema com a poesia. Leitor e escritor de prosa, tropeço no ritmo dos versos, nos sentidos implícitos, nas armadilhas que se escondem em cada linha. Mas volta e meia me rendo. Como me rendi, sábado, ao abrir um livro do João Cabral. Dei de cara com o espetacular Contam de Clarice Lispector. É de tirar todas as crianças da sala.


Um dia, Clarice Lispector
intercambiava com amigos
dez mil anedotas de morte,
e do que tem de sério e circo.

Nisso, chegam outros amigos,
vindos do último futebol,
comentando o jogo, recontando-o,
refazendo-o, de gol a gol.

Quando o futebol esmorece,
abre a boca um silêncio enorme
e ouve-se a voz de Clarice:
Vamos voltar a falar na morte?


Dores e livros

separador Por Fernando Molica em 13 de setembro de 2009 | Link | Comentários (2)

Ontem à tarde eu vi boa parte da mesa que reuniu, no Café Literário da Bienal, os romancistas Adriana Lisboa e Eli Gottlieb. Vi de casa, pela internet, depois de chegar de uma caminhada e enquanto ajeitava o almoço - ou seja, não deu para acompanhar tudo. Mas foi ótimo ter assistido.

Os dois tocaram em aspectos fundamentais do processo de criação literária. A importância de se ter um olhar distanciado, a capacidade de o escritor reciclar suas experiências de vida e, ponto fundamental citado pela alvinegra Adriana, o tratamento a ser dado às tragédias.

Segundo ela, os momentos de tristeza superam os de alegria. Tragédias - pequenas ou grandes - nos acompanham, estão sempre prontas para o bote. A questão é como trabalhar estas tragédias na literatura, não pintá-las de cores óbvias e melodramáticas que apenas reforçam sentimentos explicitados no próprio drama. A graça da brincadeira está em descobrir o que não é evidente, a sucessão de pequenas tragédias e o acúmulo de dores que antecipam o gesto final.

O bom é quando o livro consegue captar o que não ficou óbvio, a quase imperceptível - e dilacerante - dor que nos mata um pouco a cada dia. A dor que não sai no jornal.



Que o amigo Hermann me desculpe, mas...

separador Por Fernando Molica em 11 de setembro de 2009 | Link | Comentários (2)

...ão, ão, ão, o Nelsinho (Piquet, claro) é alemão!

(Heidelberg, 25 de Julho de 1985 - ok, foi criado em Brasília...)


Pessoas domésticas

separador Por Fernando Molica em 09 de setembro de 2009 | Link | Comentários (1)

Outro dia, pesquei uma conversa entre duas colegas que falavam sobre a procura de uma empregada doméstica. Foi feita uma lista de umas cinco candidatas - e cada menção de nome vinha com uma informação complementar. A possibilidade de a moça poder ou não "poder domir". Não se tratava de privilegiar ou discriminar insones; "poder dormir" quer dizer que a candidata pode passar a semana na casa dos patrões.

E daí, qual a novidade? Nenhuma, claro. Na minha infância, algumas empregadas chegaram a dormir na casa dos meus pais. O quarto de empregada (assim como o elevador de serviço) já havia sido incorporado à lógica dos lançamentos imobiliários - os dois, quarto de empregada e elevador de serviço em prédios de padrão apenas mediano, devem ser das maiores contribuições brasileiras à arquitetura mundial. Ou seja, não havia por que ficar espantado, a senzala há muito migrara para a casa grande, no caso, apartamento pequeno. Mas fiquei espantado assim mesmo. Há uns dois anos, ainda na TV, fiz uma viagem de trem até a Baixada, enquanto gravava uma reportagem. No caminho, entrevistei várias passageiras. Era uma sexta-feira, todas, sem exceção, eram empregadas domésticas que voltavam para casa, onde passariam o fim-de-semana.

Pode parecer normal - e ficou normal. Mas não deixa de ser esquisito. A sociedade brasileira, em sua maior parte, acha razoável que trabalhadores durmam nas casas de seus patrões. É muito curioso que seja normal admitirmos que essas pessoas - empregadas domésticas - não possam ver os filhos, maridos/namorados e vizinhos todos os dias. Que sejam pessoas cujas vidas, na prática, fiquem subordinadas à lógica de outras famílias. Que participem mais da vida da família alheia do que da sua.

Claro que há muitas razões práticas para isso. A péssima qualidade dos transportes públicos, o preço das passagens - que pode inviabilizar a contratação de pessoas que morem em locais mais distantes -, a necessidade de ter alguém com quem deixar filhos pequenos, a importância de se ter acompanhantes para idosos. Tudo isso é razoável, admissível. Mas nada disso pode ser visto como normal. Ter empregada doméstica em casa é um luxo só acessível a uma parcela da classe média porque este país é vergonhoso. Dispor de alguém que durma em casa, que bote a mesa do café e lave a louça do jantar é escandaloso. Não se pode privar alguém de sua própria vida.

Enfim, nada contra quem tem empregada que durma em casa, ainda mais se os patrões cumprirem com suas obrigações trabalhistas. Mas não custa ressaltar que isso é absurdo.


BG
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