Estação Piedade: a biografia de Fernando MolicaEstante: livros públicados pelo MolicaPáginas Amarelas: textos, artigos e outras palavras maisJulio Reis: Biografia, Músicas e PartiturasBlog: Pontos de PartidaFoto MolicaClique para voltar a página principalFoto Molicawww.fernandomolica.com.brEntre em contato com o Fernando MolicaInformações para imprensa

Blog

Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

separador
BG

julho 2009 Archives

Viagem adiada

separador Por Fernando Molica em 31 de julho de 2009 | Link | Comentários (0)

31/07/2009 - 16h44
Gripe suína faz universidade adiar jornada de literatura no RS

da Folha Online

O Conselho Universitário da Universidade de Passo Fundo (UPF) informou que decidiu adiar a 13º edição da Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo devido à situação da gripe A, que ficou popularmente conhecida como gripe suína, no município do Estado do Rio Grande do Sul.

A nova data do evento, que estava previsto para 24 a 28 de agosto, ficou para o período de 26 a 30 de outubro.


Maria Gadú: baba baby

separador Por Fernando Molica em 31 de julho de 2009 | Link | Comentários (4)

fotomariagadu.jpg
Saí ontem à noite do Vivo Rio com a impressão de que terei uma (outra) grande história para contar para os netos. Sim, meninos eu vi o primeiro grande show no Rio de uma ótima cantora, a Maria Gadú. Melhor: torço para ter uma boa história para contar. A moça, tão jovem, 22 aninhos, tem tudo para ser uma cantora espetacular - se não se deixar derrapar numa certa breguice djavaniana que alcança seu auge no sucesso-bobo "Shimbalaiê" - um par usado de All Star para quem revelar o que quer dizer esta palavra. A música, com todos os seus açucarados ilêiaiês, tem cara daqueles quadros de feira de artesanato que retratam pôr-do-sol com um veleiro em primeiro plano.

Mas a mulher canta pra cacete. Sem ser roqueira de carteirinha, é roqueira no fundamental: no desrespeito ao óbvio, ao sagrado. Vira parceira de Noel ao desconstruir e reconstruir "Filosofia", se transforma em co-autora de "Ne me quitte pas" - e ninguém cala aquele seu despudor. É ela que, como ninguém, refaz a ótima "Baba" - Kelly Key vai adorar. Aí, nisso tudo, a Cadú é a melhor, herdeira direta de Cássia Eller. Como encarar a moça que, ao notar a calça que se rasgara no palco, diz "Mamãe, fudeu"? Ah, logo depois ela complementa: "Vocês vão ver minha cueca, branca..."

O curioso é que esse lado menino mau-comportado e desbocado é entremeado com manifestações explícitas de timidez e fragilidade. Enquanto canta e toca, Maria Gadú joga pesado, parte para o ataque ignorando cabeças-de-área, zagueiros e goleiros. O violão é empunhado com força, como arma. No fim de cada último acorde surge uma menina meio desamparada e assustada com toda aquela gente que está ali para lhe ver. Baba baby.

Talvez essa carência, talvez relacionada a uma carreira que só agora começa de verdade, ajude a explicar algumas derrapadas. A Gadú - fazer o quê? - volta e meia dá margem para um lado bares da vida, um besteirol cheio de boas intenções e péssimos resultados. Deixa disso, moça. Sua fase barzinho já passou - e, com ela, um repertório glicosado e bobinho, muito aquém de seu talento. Você é muito melhor quando parte para uma doce e ácida porrada, para a reinvenção, para a ousadia. É aí que a gente baba, baby.


Palpite infeliz

separador Por Fernando Molica em 27 de julho de 2009 | Link | Comentários (5)

Claro que a busca de uma linguagem politicamente correta tem lá seus exageros. Aquela história de chamar anão de "verticalmente prejudicado" é quase risível (tá bom, é risível mesmo). A adoção de termos como afro-brasileiro também soa esquisita: pior, embute a idéia de que negros, os tais afro-brasileiros, seriam menos brasileiros que os outros. Ninguém fala, por exemplo, em "euro-brasileiros".

Enfim: rola no twitter uma polêmica. O humorista Danilo Gentili, do programa "CQC", fez o seguinte comentário durante a exibição do filme "King Kong" num canal pago (retiro a citação do blog do Maurício Stycer):

"Agora no TeleCine King Kong, um macaco q depois q vai p/ cidade e fica famoso pega 1 loira. Quem ele acha q é? Jogador de futebol?"

No blog do Stycer, o Gentili se defende, diz que o politicamente correto está deixando as pessoas idiotas. Sei não. No caso específico, o Gentili pisou feio na bola, o comentário tem uma nítida conotação racista - independentemente, claro, das intenções de seu autor. Não tenho o menor direito de chamá-lo de racista, é mais correto dizer que foi um palpite infeliz. O humor está acima de tudo? Por que está? Acho que não. Todos temos responsabilidade sobre o que falamos e escrevemos. A tolerância com o humor não pode ser pretexto para a ofensa - e o comentário do Gentili dá margem para a ofensa. Insisto: o politicamente correto tem lá muitos exageros, mas acho bom que, hoje em dia, sejam menos comuns piadas racistas e sexistas. Não deixa de ser bom que palavras como "judiar" tenham sido praticamente banidas.

Claro que o limite é tênue - palavras como "preto" e "judeu" podem ou não ser usadas de forma discriminatória. Depende de quem as fala, de como as fala e, principalmente, de quem as ouve. Nos casos em que ocorre a velha disputa entre o pé que pisa e aquele que é pisado, tendo a ficar com este último. A sensibilidade de quem se julgou ofendido deve ser sempre levada em conta (e, por falar nisso, será que anões não gostam de ser chamados de anões?).


Copa de Literatura Brasileira

separador Por Fernando Molica em 24 de julho de 2009 | Link | Comentários (6)

O ponto da partida foi selecionado para participar da terceira edição da Copa de Literatura Brasileira, uma competição baseada no Tounament of Books, inventado por uma revista americana em 2005. A proposta da Copa é curiosa - 16 romances lançados no ano anterior disputam jogos no esquema mata-mata de torneios de futebol. Os, digamos, jogos, são decididos por um juiz, um sujeito que lê os dois livros e decide qual é o melhor. A cada rodada, a metade dos participantes é eliminada.

A aparente banalidade da brincadeira - afinal, livros não foram feitos para jogar entre si - traz um componente interessante. Em primeiro lugar, puxa os livros para um campo mais arejado, menos contaminado pelo bolor que volta e meia exala de discussões literárias. Trata-se de uma Copa, não de um prêmio, de uma honraria. O vencedor da Copa não recebe nada além do título de vencedor - não há prêmios em dinheiro, troféus, sequer batatas.

É claro que os critérios de julgamento são variados, volta e meia alguns resenhistas deixam transparecer algum grau de rancor e, vá lá, preconceito. Mas a vantagem é que, na Copa, ao contrário do que acontece nos prêmios tradicionais, tudo isso fica explícito. Os críticos, de alguma forma, também são julgados, têm que deixar claro os critérios pelos quais deram a vitória a A e não a B. Seus textos são publicados e criticados pelos torcedores.

Parece engraçado dizer isso, mas, na Copa, os julgadores são obrigados a ler os livros. O que pode parecer óbvio nem sempre acontece nos prêmios - um dos mais prestigiados do país faz uma seleção de finalistas com base nas opiniões de centenas de críticos e acadêmicos. Até pelo volume de gente que participa da seleção, é impossível que todos leiam todos os livros. Nem as editoras teriam como enviar tantos exemplares para todo mundo. Ou seja: muitos dos livros escritos são eliminados sem que sequer tenham sido lidos.

Enfim, até por suas precariedades e pelo seu caráter meio amadorístico (amador aqui no melhor sentido da palavra), a Copa é divertida, ajuda a trazer os livros para a vida, estimula discussões - as brigas nas caixas de comentários tendem a ser apaixonadas, muitas e muitas caneladas são distribuídas. É bom, apesar das eventuais injustiças, ver que livros podem gerar tantas emoções.


Lula, Collor e Miriam Cordeiro

separador Por Fernando Molica em 17 de julho de 2009 | Link | Comentários (3)

OK, política é assim mesmo, é preciso engolir sapos, garantir a governabilidade, acordos são feitos com inimigos e não amigos, problemas pessoais não podem interferir nos interesses nacionais. Tá certo, tá certo. Mas há algumas questões muito complicadas: esses carinhos entre o Lula e o Collor ultrapassam o limite do razoável. Há 20 anos, no último dia da campanha eleitoral, o Collor colocou no ar um depoimento de uma ex-namorada do Lula, a Miriam Cordeiro, mãe de uma filha do petista. Uma filha - Lurian - cuja existência havia sido revelada, meses antes, em reportagem do Luiz Maklouf Carvalho.

No depoimento, a Miriam desancava com o Lula. Dizia que ele, ao saber da gravidez, sugeriu que ela abortasse. Depois, afirmava que ele era racista, que não gostava de negros. O tal depoimento sujou a eleição de 89, gerou indignação, protestos, o cacete a quatro. No debate - aquele famoso último debate da campanha - o Lula sequer cumprimentou o Collor. A Miriam Cordeiro foi espezinhada, jornais garantiam que ela tinha recebido uma boa grana para dar o tal depoimento. A mulher passou a viver escondida de jornalistas. A vida dela se transformou num inferno.

E eis que, 20 anos depois, Lula e Collor parecem amigos de infância. Sei não, é muito esquisito. Será que eles conversam sobre o episódio? Será que já há clima para um churrasco que reúna Lula, Collor, Renan, Cleto Falcão, D. Marisa, Lurian e, claro, Miriam Cordeiro? Rende uma bela matéria. Bem, aí vai o link para o depoimento de Miriam: www.youtube.com/watch?v=_JQVLKpBzn0 .


O Rei e eu

separador Por Fernando Molica em 12 de julho de 2009 | Link | Comentários (10)

Há quase 30 anos, no início dos anos 80, eu era repórter da sucursal Rio do Estadão e fiz matéria sobre o lançamento de um disco e de um show do Roberto Carlos. Naquela época, RC dedicava-se a gravar alguns de seus piores discos, cheios de bolerinhos chatos e repetitivos. Ivone Kassu, já então assessora de imprensa de Roberto, me ofereceu um lugar na platéia na noite de estréia do novo show, no Canecão. Agradeci, mas não fui.

Poucos anos depois, em 1985, eu cobria o primeiro Rock in Rio e participei de uma entrevista improvisada de RC - ele tinha ido a Jacarepaguá assistir à apresentação de Erasmo Carlos. Cheguei perto do sujeito, cumprimentei-o - e tremi como jamais voltaria a tremer diante de um entrevistado. Afinal, estava diante do meu ídolo de infância, do autor e intérprete de canções que sabia de cor (sei até hoje). Canções que ajudam a pontuar minha história. Bem, naquele dia soube que nunca poderia negar a presença do Rei na minha vida. Melhor assim: não tenho o menor pudor de, volta e meia, chorar ao ouvir algumas de suas músicas.

Rei: se não me engano, foi o Chacrinha que começou a chamar Roberto Carlos de "Rei da Juventude". Com o tempo, o "da juventude" foi sumindo, até porque RC tratou de adaptar seu repertório ao envelhecimento de seu público. A rebeldia de algumas e importantes canções foi dando lugar à crônica de acontecimentos domésticos, ao lugar-comum de um amor intenso e onipresente. Mas, a essa altura, Roberto já conquistara um lugar cativo no nosso imaginário - e passou a ser simplesmente "o Rei". Daí vem a pergunta, por que afinal a designação colou? Temos um outro rei, o Pelé. Mas este é o "rei do futebol", reina apenas sobre um determinado aspecto da vida. RC, não: ele é o Rei.

Nas monarquias modernas, o rei representa a nação, um - questionável - conjunto de valores que simboliza um povo: seus ideais, seus compromissos, suas expectativas. O rei é uma espécie de protetor simbólico, está acima dos partidos, da política. Um rei reflete e personaliza aquilo que julgamos ser. Essa identificação é tão forte que o regime, um tanto quanto anacrônico, continua mantido em vários países europeus, um sinal de sua relevância.

Roberto Carlos, de alguma forma, nos representa. Chico Buarque é o que gostaríamos de ser; Roberto Carlos é mais o que somos: meio bregas, sentimentalóides, pouco politizados, mais ligados a valores familiares que aos comunitários. Como Rei, é capaz de absorver nossas contradições e divergências: manda tudo pro inferno e pede para Nossa Senhora cuidar de seu coração. Suas canções de amor ajudam a integrar corações de um país tão desigual, passam por cima de contradições sociais, servem de trilha sonora para dor-de-corno de ricos e pobres ("A saudade vai chegar/e por favor, meu bem/Me deixe pelo menos só te ver passar/Eu nada vou dizer, perdoa se eu chorar").

Não disse uma palavra sequer contra a ditadura militar - no ótimo livro Roberto Carlos em detalhes, Paulo Cesar de Araújo mostra que RC nem tinha muita noção do que se passava (como grande parte de seus súditos, vale lembrar). Talvez achasse melhor não saber de nada. Mas, rei, comovido com o sofrimento do exilado Caetano Veloso, compôs a doce "Debaixo dos caracóis do seus cabelos". A música não é um libelo contra a ditadura - o rei fica acima de governos -, mas uma manifestação de solidariedade com um exilado. Que se danem as estruturas de governo de ocasião, um rei tem que zelar por seus súditos. O que vale é o sentimento: um rei fica acima das paixões cotidianas, cuida do simbólico, do não-palpável, do "povo", da "nação".

Vários episódios de sofrimento pessoal - o acidente na infância que lhe gerou a amputação de uma perna, a cegueira quase completa do filho, a paixão e morte de Maria Rita - reforçaram sua ligação com um povo que gosta de se ver solidário, que procura explicar num suposto excesso de sentimento sua incapacidade de construir e vivenciar estruturas mais impessoais - republicanas. Rezar pela recuperação do filho ou da mulher do rei é assim mais relevante do que se envolver numa luta institucional. RC não condena nossas limitações, ele as entende. Ele, de alguma forma, também é assim, gente como a gente.

Convencido de sua condição de rei, Roberto estabeleceu algumas regras. A mais inacreditável delas é o silêncio em torno do acidente que o mutilou. Um silêncio curioso, já que o fato é de conhecimento de todos. De Pelé já foi cobrado engajamento contra o racismo; ninguém jamais pediu o apoio de RC à luta das pessoas com deficiência. Uma palavra do Rei bastaria para que todas as cidades brasileiras facilitassem a vida de cadeirantes, cegos e de todos que precisam de apoio para compensar algum tipo de deficiência (ao admitir que tinha TOC, RC aliviou a vida de muita gente, quebrou o estigma da doença, fez com que muitos passassem a se tratar). Mas ninguém fala nada sobre a história da perna - todos estão mudos. RC, digamos, não politizou sua mutilação, brasileiramente a trata como algo pessoal, íntimo. O curioso é a cumplicidade de todos em relação a isso, nenhum jornalista toca no assunto, trata-se de um tabu, o rei mandou.

No livro, Paulo Cesar quebrou o tabu, detalhou o acidente. E Roberto lançou sobre ele sua fúria real. A biografia é espetacular, emocionante, foi escrita por um fã: se o livro tem algum defeito é o de não aprofundar algumas críticas a Roberto (chega a ser um pouco condescendente com o cara). Mas RC não quis nem saber. Rei está acima disso, não pode ser biografado em detalhes (perdão pelo trocadilho). Num gesto absolutista, Roberto tratou de dar um jeito de impedir a circulação do livro. Um absurdo, claro, mas que é compreensível pela lógica monárquica. Roberto, de alguma forma, acha que um rei não pode ser tratado de acordo com valores republicanos.


Obs: eu, que desprezei o convite para o show de RC no início dos anos 80, recorri até a um cambista no sábado passado. No fim das contas, fiquei com ingressos comprados por um amigo que, na última hora, foi convidado por um dos patrocinadores. Tô devendo uma boa grana pro cara.


O humor do Pimentel

separador Por Fernando Molica em 09 de julho de 2009 | Link | Comentários (0)

Uma ótima chance para quem quer investir no humor - a matéria-prima abunda por aqui, mas a técnica é importante para aprender a desenvolver os temas e conseguir o efeito desejado. O grande Luís Pimentel - jornalista, escritor, ex-editor do Caderno B do JB, de "Bundas", do "Pasquim21"; autor-roteirista de programas como Chico Anísio Show - vai dar (êpa!) uma oficina de texto de humor no EspaçoTelezoom, no Leblon. O curso teve uma aula inicial mas começa com força no próximo dia 13. Mais informações neste link aqui e nos telefones (21) 34351617 e 34351588.


O curso do Torres

separador Por Fernando Molica em 06 de julho de 2009 | Link | Comentários (0)

Começa amanhã, na Casa do Saber do Rio, o curso Para gostar de ler (e escrever) romance. O professor é o ótimo Antônio Torres, autor de alguns dos mais importantes romances da literatura contemporânea brasileira (Essa terra, Um táxi para Viena d'Áustria, Meu querido canibal) vencedor de prêmios como o Machado de Assis (da ABL) e o Zaffari & Bourbon. Um escritor generoso, que adora transmitir seus conhecimentos. Mais detalhes, aqui.


Talese constrangido; um Lobo bonzinho

separador Por Fernando Molica em 04 de julho de 2009 | Link | Comentários (0)

Curioso: na sessão da tarde de hoje, o Gay Talese estava bem mais travado que na coletiva de anteontem. Teve pressa em encerrar o encontro, chegou a mostrar o relógio para o mediador, o jornalista Mário Sérgio Conti. Talvez tenha ficado incomodado com algumas - relevantes - questões apontadas. Pareceu desconfortável ao responder sobre até que ponto a exposição de questões pessoais não seria prejudicial à sua obra, se essa opção não poderia ser de alguma forma comparada à lógica que traz às ruas a intimidade das tais celebridades (no seu próximo livro, vai falar de seus 50 anos de casamento e até de traições cometidas por ele e pela mulher).

Já o velho Lobo Antunes teve uma noite de quase-Chico Buarque. No início parecia rabugento, depois pareceu tomar gosto pela festa. Falou da importância de escritores brasileiros na sua formação, fez vários comentários sobre o ofício do escritor:

. "O bom é quando a mão fica feliz";

. "Não existe profundidade, mas superfícies superpostas";

. "Escrever é impossível, se trabalha com coisas, como as emoções, que existem antes das palavras";

. "Há palavras que existem para não ser usadas. Advérbios de modo, adjetivos".

Meu coração alvinegro ficou particularmente feliz com o exemplo que ele usou para definir a necessidade de se ter emoção e razão na escrita:

. "Quem quer escrever tem que ter Garrincha e Didi dentro de si."

No fim, foi aplaudido de pé. Emocionado - sério, o gajo parecia estar a chorar - voltou ao microfone, agradeceu "o carinho, a ternura e a generosidade" e completou com um "que Deus lhes proteja". Apesar da cara de mau, o Lobo tem coração de manteiga, ó pá.


O nosso Chico

separador Por Fernando Molica em 04 de julho de 2009 | Link | Comentários (0)

Como era previsto, Chico Buarque foi recebido como Chico Buarque na Flip. Gritos, correria, tietagem explícita. Chegou a Paraty pouco antes de sua apresentação para evitar o excesso de festa. No fim da sessão, teve que ser cercado de seguranças para chegar ao local dos autógrafos.

Mais do que admiração pelo artista, compositor de canções espetaculares e autor de, pelo menos, um ótimo livro ("Budapeste"), mais do que atração pelo galã sessentão, arrisco dizer que havia, na overdose de carinho, uma manifestação por um sujeito que representa o que temos de melhor. Num Brasil tão castigado de escândalos e sacanagens, Chico é um referencial de qualidade, de competência, de genialidade e de caráter. Sempre deixou explícitas suas posições, sempre procurou manter reservas sobre sua vida pessoal - a tal da evasão de privacidade não consta de seu repertório.

Ontem, ao concluir sua fala, deu mais um exemplo de que não abre mão de sua história, de seus compromissos. Se deu ao trabalho de manifestar apoio a uma manifestação de caiçaras - moradores da região - que protestavam contra a construção de um condomínio em Paraty. Um condomínio que expulsou trabalhadores de suas terras, que privatizou praias. Pouco antes, uma pequena passeata percorrera o centro de Paraty, ninguém deu muita bola pra ela, que até atrapalhou quem, na Tenda do Telão, acompanhava uma sessão. Pois: o Chico deu bola pros caras, levou a causa para sua apresentação. Sabe que o Brasil moderno que gera eventos como a Flip é o mesmo Brasil que ainda convive com tantas situações injustas e arcaicas. Sabe que problemas não podem ser esquecidos. E é também por isso que gostamos tanto dele.


Na Flip - Talese e Lobo Antunes

separador Por Fernando Molica em 03 de julho de 2009 | Link | Comentários (0)

IMG_0057.JPG
Já escrevi no blog sobre a convivência entre o jornalista e o escritor, o tal do teclado que nos une e nos separa. Ontem, aqui em Paraty, acompanhei as entrevistas coletivas de dois grandes craques - e, admito, ídolos: o jornalista americano Gay Talese e o romancista português António Lobo Antunes. Dois ótimos encontros.

A conversa com o Talese foi emocionante. Aos 77 anos, o sujeito ficou de pé durante mais de uma hora, falou com muito carinho e entusiasmo de seu trabalho, do seu jeito de apurar. Na era da internet, em que mesmo estudantes de jornalismo adoram mandar questionários por e-mail, o cara repetia que o repórter "tem que estar lá", tem que ir atrás do fato, de seus personagens. "Não vá ao Google, vá aos locais", insistiu.

Elegantíssimo, filho de um alfaiate, Talese deu outros dois bons conselhos para os jornalistas presentes à entrevista: seja educado e esteja sempre bem vestido. Afinal, de uma forma metafórica ou não, repórteres sempre batem à porta dos outros e é preciso deixar claro que quem está ali não é um "ladrão ou alguém que vá pedir dinheiro ao entrevistado", concluiu.

Já Lobo Antunes é cáustico, irônico. Faz um certo ar blasé, de quem não está muito aí para festivais literários, para encontros com jornalistas. Mas é outro que esbanja entusiasmo pelo que faz, seu ofício é exercido com seriedade e disciplina. Fez uma bela defesa dos livros e da leitura e não poupou elogios a escritores brasileiros como Paulo Mendes Campos, João Ubaldo Ribeiro e José Cândido de Carvalho. Ao longo da entrevista, soltou várias frases de efeito - algumas irônicas, outras melancólicas:

. "Não há doenças, há falta de educação da natureza" (ele é médico);

. "Quem tem que ser inteligente é o livro, não o escritor. Se livros fossem publicados anonimamente poupavam-se muitos problemas";

. "Os livros que gosto foram feitos só para mim";

. "Escrever é empurrar nuvens para fazê-las chover em sua propriedade";

. "A morte de livros me dói mais do que a morte de algumas pessoas, como políticos e banqueiros. É claro que algumas mortes me doeram muito, como a de Garrincha".

.


BG
© Todos os direitos reservados. Todos os textos por Fernando Molica, exceto quando indicado. Antes de usar algum texto, consulte o autor. créditos do site    Clique para ver os créditos do site