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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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junho 2009 Archives

Dianne Reeves e Madonna

separador Por Fernando Molica em 19 de junho de 2009 | Link | Comentários (0)

Sei lá por que razão, saí ontem do show da Dianne Reeves fazendo comparações entre a sensualidade exalada pela cantora no palco com a demonstrada por sua conterrânea Madonna (estive na sua apresentação dela no Maracanã). Dianne é mais velha que a colega (vai fazer 53 anos em outubro, Madonna apagará 51 velinhas em agosto), não tem o corpo malhado (ao contrário, suas gordurinhas ficam bem evidentes), não entra no palco como quem sobe num queijo de boate de strip-tease. Não assume, enfim, a postura vou-te-comer da Madonna. Mas, acreditem, Dianne é mais sensual que Madonna - e aqui não farei qualquer comentário sobre as diferenças entre o talento musical de uma e outra, aí também é covardia.

Tentando sistematizar: a sensualidade de Madonna é por demais produzida, siliconada, armada como a de um filme pornô. Tudo ali tem que dar certo, tudo vai dar certo, tudo é preparado para a grande performance. Isso fica evidente nos corpos - da cantora e de seus bailarinos -, nas roupas, nos cenários. Uma espécie de Disneylândia de um sexo que se mostra provocativo, mas, ao mesmo tempo, seguro porque virtual. O importante não é o sexo em si, a trepada, mas a ilusão do sexo ou da trepada. Madonna anda pegando o modelo Jesus? Deve estar, mas o que isso importa? O importante é que todos pensem que eles andam se pegando. O sexo em Madonna não tem a ver com prazer, mas com a lógica de um produto. Pode ser que ela se divirta fazendo todo aquele sexo que diz fazer - assim como é possível que atrizes pornôs gozem em suas performances diante das câmeras. Mas gozar ali não é importante, o importante é que nós - o público - acreditemos que elas estejam gozando. Assim como, na platéia, não sabemos se Madonna está cantando ou se está apenas fazendo mímica.

Já com Dianne é o contrário. A sensualidade tem a ver com sua própria história, uma história parecida com a de todos nós. Uma história - supomos - cheia de percalços, de idas e vindas, de falhas, de amores que deram certo e de amores que não deram em nada. A sensualidade daquela gorducha apertada numa blusa de malha laranja transparece aos poucos, ao longo das belíssimas interpretações, em movimentos de corpo, em um ou outro comentário. A sensualidade surge como conseqüência, não é pensada para protagonizar o espetáculo (até porque a mulher canta pacas e não tem exatamente o corpo de uma stripper). Sensualidade que tem a ver com histórias meio bobas, engraçadas, como a da sua admiração por George Clooney (com quem trabalhou em "Good Night and Good Luck"). Sensualidade quase adolescente quando ela confessa que adora a canção "Just my Imagination" - bonitinha, mas nada comparável a alguns clássicos de seu repertório. Enfim, uma sensualidade que tem a ver com a vida, com algumas daquelas belas histórias que ela canta.

Conclusão? Sei lá. Como disse lá em cima, nem sei porque estou falando sobre isso. Mas desconfio que, além de mandar muito bem no palco, a Dianne deve fazer um estrago em ambientes mais, digamos, restritos.

Obs: caraca! Fui dar uma pesquisada no You Tube e vi que alguém já postou um vídeo pirata da apresentação da Dianne ocorrida ontem. Aí vai o link (ela canta, justamente, "Just my Imagination")


O tal do diploma

separador Por Fernando Molica em 17 de junho de 2009 | Link | Comentários (14)

A derrota da exigência de formação superior específica para o exercício do jornalismo não chega a ser uma surpresa. O placar - 8 a 1 - foi talvez mais elástico do que o previsto, mas o resultado do jogo era previsível. É o desfecho de uma campanha iniciada há cerca de 25 anos pela "Folha de S.Paulo" e que, posteriormente, foi adotada por outras empresas. Mesmo entre a categoria, muita gente boa passou a condenar a limitação para o exercício profissional estabelecida em lei.

Alguns fatores foram decisivos para a vitória. O Ministério Público, autor da iniciativa de questionar a exigência do curso específico, soube usar uma tese canhestra, porém de grande impacto: a liberdade de expressão não poderia ser limitada. O argumento é falho, quem exerce o jornalismo sabe que não somos pagos para dar opinião. O decreto-lei hoje derrubado não impedia que profissionais de outras áreas se manifestassem em jornais e revistas. É só conferir as páginas de opinião para se comprovar isso.

A "Folha", além de levantar a lebre, teve também uma grande sacada ao batizar a campanha. O jornal não falava em formação profissional específica, mas em diploma. Soube reduzir o assunto a um aspecto cartorial, à posse de um canudo. Ter ou não ter o papel passou a ser a questão. Explorou também o caráter supostamente discriminatório da exigência, um argumento falacioso: universidades foram feitas para democratizar conhecimento. Não sei se eu, suburbano, filho de um contador e de uma dona de casa, teria conseguido chegar a uma redação de jornal se não tivesse cursado uma faculdade específica. A exigência legal - não apenas ela, claro - ajudou a profissionalizar o exercício do jornalismo, a democratizar suas portas de entrada. A formação que tive na universidade não chegou perto do ideal, mas foi a melhor que poderia ter tido, era a única - formal ou informal - que estava ao meu alcance. Não era parente ou amigo de jornalistas, não tinha qualquer pistolão. O curso universitário serviu como uma credencial para que eu pudesse ser recebido na primeira redação em que entrei para pedir um estágio. Isso ocorreu comigo e com muitos e muitos colegas.

A questão corporativa foi muito explorada. Isto, como se apenas os jornalistas tivessem essa postura. Em nenhum momento, se questionou a exigência de formação específica superior, assegurada por lei, para o exercício de outras profissões. Há reserva de mercado para arquivistas, economistas, profissionais de relações públicas, bibliotecários, secretários executivos, economistas domésticos. E, claro, para advogados: de acordo com Estatuto dos Advogados, criado pela própria corporação e que virou lei, uma pessoa não formada em direito não poderá sequer fazer a prova da OAB que o habilitaria a conquistar o direito de advogar. Mas não ouvi ninguém falando em acabar com a exigência de diploma para secretários executivos ou economistas domésticos.

Um bom argumento também foi o da vocação, como se não houvesse médicos, engenheiros, químicos e advogados vocacionados. No caso dos jornalistas, a vocação seria suficiente para um bom profissional. Não faltam, claro, exemplos de ótimos jornalistas não-formados em universidades. Pessoas vocacionadas, que tiveram sim uma formação específica, dentro das redações. Um processo ainda mais restritivo que o dos cursos de jornalismo. A universidade, insisto, democratizou essas oportunidades.

Nessa questão da vocação, o curioso é que só se falava nos grandes jornalistas sem-diploma. Nos ótimos exemplos de grandes profissionais que nunca cursaram jornalismo. Profissionais que se constituem mais em exceção do que em regra. Os defensores do fim do curso específico não trataram dos picaretas que enchiam redações, dos repórteres graneiros, coniventes com a polícia, com os políticos que lhes permitiam acumular o emprego no jornal com uma sinecura em alguma repartição pública. Nelson Rodrigues - um grande jornalista sem-diploma - soube retratar muito bem alguns dos péssimos profissionais com que conviveu. Insisto também: a exigência do curso específico ajudou no processo de profissionalização da imprensa exigido pelo próprio desenvolvimento social.

A goleada no Supremo também pode - desconfio - ser atribuída à crescente má vontade do judiciário com os jornalistas. Antes intocáveis, juízes, desembargadores e ministros de tribunais superiores passaram também a ser alvo de matérias. O relator do caso no STF, ministro Gilmar Mendes, foi um dos que tiveram muitas atitudes questionadas por jornalistas. Pode ser - pode, é apenas uma ilação - que isso tenha contribuído para a goleada. Juízes devem ser justos, mas sempre serão humanos.

As entidades representativas dos jornalistas também têm um papel relevante no resultado da votação. Elas, em momento algum, reconheceram a, de um modo geral, péssima qualidade dos cursos de formação profissional. Aferraram-se à defesa ampla, geral e irrestrita do diploma (sim, adotaram a denominação patronal para a questão) e não tiveram jogo de cintura para reconhecer os sinais de mudança. Mudança na correlação de forças e na própria sociedade. A internet confundiu os papéis, os jornalistas perderam o monopólio de informar - ninguém precisa de registro profissional para abrir um blog. Esse fenômeno foi ignorado. Procurou-se apenas bater pé pelo diploma e, se possível, ampliar sua exigência para outras funções nas redações. Pior: há alguns poucos anos, a Fenaj apresentou um projeto de criação de um conselho profissional mais preocupado em punir jornalistas do que em incentivar a qualificação e o bom exercício profissional. Não podia dar certo.

A Fenaj e os sindicatos de jornalistas também erraram ao não admitir a possibilidade de criação de cursos de pós-graduação que possibilitassem a concessão do registro de jornalista a profissionais formados em cursos superiores de outras áreas. Isso seria benéfico para a categoria, para os veículos, para o público. Isso também contribuiria para pressionar os cursos de graduação em jornalismo, que perderiam assim seu monopólio.

E agora? Acho que haverá poucas mudanças nas redações sérias. Por pior que sejam as faculdades de jornalismo, é melhor contratar alguém que, pelo menos, se mostre animado em seguir uma profissão tão esquisita e que já domine alguns de seus fundamentos. Em seu livro "Os jornais podem desaparecer?", Philip Meyer diz que, nos Estados Unidos, 79% (cito de cabeça) dos jornalistas que trabalham em redação são formados em jornalismo. Muitas faculdades de jornalismo devem fechar - o que é ótimo, a maioria nem deveria ter sido aberta.

Imagino que as consequências mais graves ocorrerão no serviço público. Com a desregulamentação absoluta, pode ser que voltemos à situação criada há alguns poucos anos, por esta mesma ação agora julgada em definitivo: qualquer pessoa - quer uma, mesmo que analfabeta - tinha o direito de requerer seu registro de jornalista. Se a lógica permanecer, será fácil preencher vagas de jornalistas com os apadrinhados da vez - isso, insisto, principalmente no serviço público: empresários não gostam de jogar dinheiro pela janela.

Enfim, não vejo grandes motivos para lamentar ou comemorar. Acho que teremos uma experiência interessante pela frente. E torço para que a sociedade brasileira - e aí incluídos seus meios de comunicação - se mostre disposta a lutar contra outras reservas de mercado no país. Até para não pegar mal, para não parecer perseguição.


Ética e democracia nas arquibancadas

separador Por Fernando Molica em 08 de junho de 2009 | Link | Comentários (2)

Isso talvez ajude a explicar as discretas, senão medíocres, participações do Botafogo nos últimos campeonatos e torneios. Pesquisa do Ibope encomendada pela agência Blinder revela que os alvinegros são (somos), entre os torcedores dos times cariocas, os mais solidários e os que mais se dizem ligados a alguns princípios éticos. Vejamos alguns trechos da pequisa, publicada, domingo passado, por "O Globo".

. 47% dos torcedores do Vasco concordam com a frase "O mundo é dos mais espertos". Entre tricolores e rubro-negros, os percentuais de concordância são, respectivamente, 40% e 38%. Entre os que torcem pelo Botafogo, o percentual é de 33%.

. 40% de vascaínos e flamenguistas aceitam a seguinte formulação: "Eu me preocupo primeiro comigo, depois com os outros". O percentual de tricolores que se identificaram com esta definição foi de 35%; de alvinegros, 34%.

. Outra frase: "As pessoas deveriam ajudar mais a resolver os problemas sociais". Entre os rubro-negros, a concordância é de 83%; entre vascaínos e tricolores, o percentual sobe um pontinho, 84%. Já no caso dos alvinegros, o índice dispara para 93%.

Bem, é claro que os resultados podem ser questionados. Nem sempre quem se diz ético se comporta como tal. De qualquer forma, fico orgulhoso com o resultado. Mas, sei não, temo que esses números confirmem uma tendência, um sentimento que tem me angustiado. No fundo, temo que nós, alvinegros, estejamos ficando meio velhos, meio fora do compasso, do ritmo do jogo que tem sido jogado. O que, diga-se de passagem, não chega a ser ruim. Há um momento em que é bom dizer que não se quer mais brincar.

O jogo - o futebol e tudo que o cerca - tem ficado meio avassalador: a mesma pesquisa revela que torcedores do rubro-negro representam inacreditáveis 58% da população carioca (não faz muito tempo, o percentual era de 50%). Isso, mais do que uma preferência clubística, revela uma lógica que segue na direção de um pensamento único, de uma hegemonia que zomba de quem não faz parte dela. Outro dia, um amigo escritor, gaúcho recém-chegado ao Rio, se dizia assustado com os flamenguistas que praticamente o constrangiam a adotar a simpatia pelo rubro-negro. "Aqui no Rio, você tem que ser Flamengo", diziam.

Sei não, a história revela que a tendência à unanimidade nunca dá certo, sempre deságua em algum fascismo. A diversidade - de idéias, de comportamentos, de visões de mundo - é que produz um certo equilíbrio. Somos todos arrogantes e vaidosos demais, tendemos ao autoritarismo, precisamos do contraditório para segurarmos nossas pontas. Pior, em grupo somos mais propensos à covardia, à prática de humilhar o diferente, aquele que não se enquadra, que se recusa a entrar na corrente pra frente.

Em resumo: a avalanche rubro-negra é uma ameaça à democracia.

Obs: o amigo gaúcho, colorado de coração, adotou o Botafogo aqui no Rio.


As novas máquinas

separador Por Fernando Molica em 04 de junho de 2009 | Link | Comentários (2)

O acidente com o avião da Air France me fez lembrar da participação do escritor argentino César Aira na Flip de 2007. Ele, de cara, leu um texto bem interessante sobre uma característica das máquinas modernas, computadorizadas. Em linhas gerais, disse que, pela primeira vez na história da humanidade, era impossível descobrir o segredo de uma máquina apenas com sua desmontagem.

Explico: o funcionamento de um velho fusca ou de um fogão tradicional está explícito em suas peças, na lógica de sua montagem e de seu encaixe. Um bom mecânico é capaz de desmontar um fusca, peça a peça, e explicar como aquilo funciona - carburador, platinado, câmbio. E, em tese, teria capacidade de remontar o carrinho.

A automação complicou esse processo: se eu desmontar este computador em que escrevo, encontrarei apenas fios e circuitos. Não há, aqui dentro desta máquina, nada que sugira suas diversas finalidades - neste momento, servir de suporte para este texto. Bem diferente, portanto, da máquina de escrever que eu cheguei a utilizar em redações de jornais: era um instrumento mecânico, movido por minhas mãos. O apertar de uma tecla movia algumas peças e, uma delas, ia de encontro a uma fita que carimbava um sinal gráfico numa folha de papel.

Os aviões antigos, como o Electra, seriam como as máquinas de escrever. Um bom mecânico saberia explicar como aquele negócio funcionava e voava. Era um mecanismo emprenhado de uma lógica visível e reconhecível, mais, digamos, humana. Já o Airbus, moderno e todo computadorizado, trabalha em um outro patamar. Trata-se de uma máquina que não confia nos seres humanos, que se quer melhor que seus criadores. É mais sensível, razoável, inteligente - capaz de analisar cada situação para tomar decisões mais corretas e equilibradas. É uma máquina que corrige o ser humano, que duvida de suas ordens: se um comandante quiser jogar o avião contra uma montanha, os sistemas do Airbus o impedirão. É programado para evitar atitudes radicais. O problema é que, volta e meia, é preciso ser radical para se salvar um avião.

Como diz o jargão jornalístico, as causas do acidente ainda são desconhecidas. Mas os jornais já aventam a possibilidade de problemas no sistema do avião. Em algum momento, a máquina pode ter gritado para seus, em tese, comandantes: "Segura aí, tô fora". Ou seja, a máquina pode ter dado pau. Isso, a dez mil metros de altura. E aí, cabe a dois seres humanos a responsabilidade de domar um aparelho construído para não ser dominado, para desconfiar dos homens. Segura, peão.


Obs: há muitos anos, uma falta repentina de luz no início da noite fez apagar todos os textos que estavam sendo escritos pelos repórteres da Sucursal Rio da Folha. O meu texto, inclusive. Houve uma gritaria, todos reclamamos, xingamos. Nisso, o Janio de Freitas, que então resistia aos computadores, saiu de sua sala sorridente, brandindo as laudas preenchidas em sua máquina de escrever. De sacanagem, ainda comentou em voz alta que, no caso dele, a falta de luz não causara a perda de qualquer informação.


Meu último trema

separador Por Fernando Molica em 03 de junho de 2009 | Link | Comentários (4)

Para ressaltar "as línguas faladas dentro da Língua", Marcelo Moutinho e Jorge Sá-Reis, organizadores do Dicionário amoroso da língua portuguesa, optaram por não seguir as normas do novo acordo ortográfico. Os contos e poemas dos autores de países de quatro continentes foram publicados do jeito que mais parece traduzir a maneira que cada um tem de falar e pensar.

Antes que um protesto de características saudosistas, a decisão de Moutinho e de Sá-Reis reforça um ponto básico de toda essa discussão em torno do acordo. Até que ponto a diversidade ameaça uma unidade, no caso, a da língua portuguesa? Arrisco dizer que seria o contrário: a diversidade - de sotaques, de expressões, de jeitos de falar - até colabora para a formação de uma unidade dinâmica, corajosa, capaz de exprimir diversidade dentro de um conjunto que não pára de absorver mudanças.

Insisto num ponto que já levantei aqui. As diferenças ortográficas em nada impediam a leitura de autores do lado de lá do Atlântico. Mais, tornavam a aventura ainda mais saborosa, divertida. O grave é que o tal acordo procura formalizar uma maneira inédita de escrever o português. Não se buscou uma unidade em torno de consensos já existentes. Partiu-se para a criação de uma novilíngua que tenta construir pontes desnecessárias e que ajudam a enfear a paisagem.

Falou-se na necessidade de uma única norma culta, que preservasse o idioma, que facilitasse sua difusão internacional. É até engraçado falar em preservação numa época em que todos falam entre si, que as formas de comunicação estão tão acessíveis. Ao longo dos séculos, o português foi implantado nos confins da África e da Amazônia e soube resistir ao isolamento, à possibilidade de criação de dialetos. Falamos todos a mesma língua, não seria agora que, já bem grandinha, ela iria se perder.

Sei não, fico meio comovido ao ler, no meu conto que integra o Dicionário, a palavra "conseqüências": foi talvez a última vez que terei conseguido imprimir um trema em um livro. Talvez, só de sacanagem, dê o nome de Müller a algum futuro personagem. Os caras do acordo, afinal, decidiram respeitar o trema dos nomes próprios.


Tim Lopes - por Bruno, seu filho

separador Por Fernando Molica em 02 de junho de 2009 | Link | Comentários (2)

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O dia de hoje, 2 de junho, marca mais um aniversário do assassinato de um dos mais competentes jornalistas que conheci, o queridíssimo Tim Lopes, morto em 2002 quando fazia uma reportagem na Vila Cruzeiro. Seu filho, o também jornalista Bruno Quintella, com quem tive o prazer de trabalhar na Globo, acaba de me enviar um belíssimo texto sobre seu pai. Fico honrado - e emocionado pacas - em publicá-lo. Aí vai, é a melhor homenagem que se pode fazer ao nosso colega.


Hoje eu poderia escrever mais uma vez sobre violência. Sobre tráfico de drogas e de armas. Também poderia discorrer ideias ou pensamentos criticando a política de segurança do estado - ou a falta dela. Muros da discórdia.

Ou falar de assassinatos e torturas. Crimes e mortes.

Falar sobre impunidade, redução de pena, progressão de regime, guerra de tribunais e tribunais de guerra. Legitimação do estado democrático de direito ou sua proclamação, ainda que tardia. Censura à imprensa por parte do governo. Censura à imprensa por parte do tráfico - ou da milícia. Relembar casos do jornalista Tim Lopes, da equipe de reportagem do jornal "O Dia" e do bravo fotógrafo André Az, por exemplo. Ou do crescente número de mulheres grávidas vítimas da violência. Filhos que morrem dentro das mães: mães que morrem dentro dos filhos.

Também não seria novidade levantar outras questões, como o inferno que viveram agora - ou vivem - moradores de Copacabana e do Leme. Isso era coisa do subúrbio e zona norte, claro, fora Rocinha. Poderia reverenciar os últimos feitos em comunidades como o Batan, Cidade de Deus, Santa Marta, Chapéu-Mangueira. Vila Cruzeiro?

Não, não vou tocar nesse assunto. Nem deveria, porque estamos cansados da violência, vivemos em eterno estado de ressaca moral, ou melhor, ressaca social. São comerciantes, empresários, policiais, taxistas, jornaleiros, jornalistas, fotógrafos: trabalhadores. São chefes de família. Nem todos são pais, mas todos são filhos. A violência não escolhe profissão nem cartáter. A violência, sim, é indiscutivelmente democrática.

Mas não. Hoje quero falar do meu pai. Não do jornalista Tim Lopes. Mas do pai Tim Lopes. Alguém mais sente essa falta? Não. Ninguém. A saudade é imensa e, há sete anos, todo mês de junho é assim. A temperatura é mais amena, mas o frio é sempre maior. O silêncio do outono fala mais alto. Lembro da minha infância, correndo pela redação do Jornal do Brasil, de O Dia. Dos almoços de domingo, dos jogos do Vasco no Maracanã, ainda quando começavam às cinco da tarde. "Olha, vai de calça, senão não dá pra entrar na tribuna de honra do Maraca" ou " aquele ali é Touguinhó, puta jornalista" ou ainda "Ih, o Aydano tá ali... Foge, foge, porque ele é flamenguista". O convite "Quer entrar em campo? Niltinho (fotógrafo) vai te colocar na boa, cola com ele, vai, vai" e a ideia sugestiva: "Vamos de ônibus, porque se formos de táxi, não vai rolar grana pro lanche no intervalo do jogo". E íamos, pai e filho, em direção ao Maracanã, eu de boné e calça num calor de fevereiro: "Se você vai de boné, mermão, não pode sentar na janela. Vai dar mole? Nego do lado de fora leva logo na mão grande. Fica esperto" - advertia ele, temendo pela minha falta de malandragem, coisa de quem foi criado nesse feudo social chamado Zona Sul.

Lembro dos almoços em botequins, cafés da manhã em padarias, da praia no Posto 8, da festa junina da Mangueira, do sítio de Saracuruna, do pôr do sol no Arpoador, dos passeios pelo calçadão, das viagens, da mesada, das matérias que vi nascer em mesas de bar - e depois estampadas na primeira página dos jornais. Outras que abriam o Jornal Nacional, ou ainda, as reportagens "do boa noite do JN. Vê lá, filhote, creditozinho do teu pai." E eu via, porque não sabia ainda que vaidade e orgulho eram coisas diferentes.

O jornalista Tim Lopes era o meu pai? Não. O meu pai era o jornalista Tim Lopes. Como filho e também jornalista, não é fácil separar uma coisa da outra. Não que devamos desvencilhá-las, mas acho que sinto mais falta de um do que de outro. Não convivi com o jornalista Tim Lopes nas redações. Ouço as histórias, imagino os detalhes, como teria sido, como ele teria reagido em determinada situação, como conseguiu aquela entrevista. É como se percorresse um caminho de volta ao passado, sem nunca tê-lo vivido, mas que é trilhado pela saudade dos amigos e pela memória das matérias. Ler reportagens antigas, ou ainda ouvir "você é filho do Tim? Ô rapaz, teu pai certa vez...", me fazem ficar mais perto dele, do jornalista. Nunca vou saber como seria, mas posso ter uma ideia de como foi. Mas não em relação ao pai. Essa é a saudade que dilacera o homem.

Todo dia o meu pai morre, porque acordo com ele vivo. Ouço suas palavras, me divirto com suas gargalhadas, me assusto com suas broncas em voz baixa, suas risadas desordenadas, seu olhar de criança. Mas no final do dia, acabo lembrando que ele não está mais aqui. Que não volta mais. Que nunca mais meu pai vai me dar um pito ou um abraço apertado, ou vai dizer: "meu filho, que orgulho! você agora é jornalista". O que dá coragem de seguir em frente, é que todo dia meu pai, depois de morrer nasce mais forte, dentro de mim. E começo a entender: nunca me deixou. Sinto sua presença mesmo sem saber quando nem onde. Não saber, mas sentir.

O amor de pai e filho não cabe em palavras nem lágrimas. Elas são apenas afluentes da saudade. O amor de filho aumenta a cada dia. E todo mês de junho, entre o dia de morte de meu pai e o dia do meu nascimento, separados por dez dias, me sinto mais próximo dele. Não porque vou ficando mais velho, mas porque vou me tornando mais homem, açoitado pela crueldade da morte, mas fortalecido pelo sofrimento da vida.

A primeira vez que andei sozinho na rua devia ter uns sete anos. Desci do antigo apartamento de meu pai, na Rua Jangadeiros, e fui à lanchonete da esquina comprar caldo de cana e pastel de queijo. Tudo era aventura: até apertar o botão do elevador. Atravessei a rua, estiquei a mão com o dinheiro e fiz o pedido. Lembro que comi em pé, só, olhando do balcão para a janela onde meu pai me fitava cuidadoso, mas desviava o olhar de quando em quando, para que eu tivesse a ligeira sensação de que estava sozinho no mundo. Aí, quando o flagrava me olhando de volta, ele acenava discretamente, esticando o polegar da mão direita e arriscava um assovio malandro, que só eu reconheceria. Ele sorria, sei porque enxergava seus dentes de longe. Talvez porque estivesse sorrindo com o coração. Estávamos felizes. E depois de limpar a boca com as costas da mão, me dirigi de volta pra casa, cheio de pose, aos sete anos, pensando: a rua é um palco onde tudo pode acontecer. Mal sabia eu que já era jornalista naquele tempo.

Hoje sinto que estou andando pela primeira vez não na rua, mas na vida. E meu pai me olha de outro lugar e não da janela do apartamento. Ainda ouço o assovio malandro, lembrando feliz daquele tempo. Esse Tim Lopes não morreu.

E toda vez que volto pra casa, fecho os olhos, e consigo vê-lo esticando o polegar, sorriso malandro e penso: o coração é um palco onde tudo pode acontecer.


As festas

separador Por Fernando Molica em 02 de junho de 2009 | Link | Comentários (0)

1. Mais do mesmo: o insuportável processo de compra de ingressos para a Flip virou uma espécie de tradição. Talvez, um dia, nos lembremos disso como da lama que ameaçava nos engolir na primeira edição do Rock in Rio - sim, eu fui. Pior, cobri. Mas, na boa: é quase inacreditável constatar que os caras conseguem trazer o McEwan, o Coetzee, o Lobo Antunes, o Gay Talese - e não conseguem articular um sistema decente para a venda dos ingressos.

2. Para lembrar: hoje, na Travessa de Ipanema, a partir das19h30, lançamento do Dicionário amoroso da língua portuguesa. Estarei lá - devo chegar um pouquinho mais tarde, é preciso fechar a coluna antes - com o Moutinho (organizador), Antônio Torres, Flávio Izhaki, Heloisa Seixas, Antonio Cícero, Armando Freitas Filho, Marcelino Freire, Ondjaki, Adriana Lisboa, Alexei Bueno, Tatiana Salem Levy e Henrique Rodrigues. Fundamental: nada de vinho branco. Teremos vinho verde, cerveja, caldinho de feijão e bolinho de bacalhau. Inté.


BG
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