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A dor inquestionável

separador Por Fernando Molica em 04 de abril de 2009 | Link | Comentários (0)

Ainda não comprei a última "Piauí", mas soube que na revista há uma entrevista com um ex-preso político que atribui à hoje ministra Dilma Rousseff a responsabilidade por sua prisão e tortura durante a ditadura. Parece não se tratar de um depoimento rancoroso, um ajuste de contas: ele, Natanael Barbosa, reconheceria que a então militante tinha sido muito torturada e, ultrapassado determinado limite, colaborou para sua prisão.

A entrevista já repercute em alguns blogs, onde a coragem de Dilma é questionada e, sua suposta fraqueza - física e, mesmo, de caráter - é comemorada. Quem faz isso comete uma covardia, uma canalhice. Pior - não sei se é o caso - é quando colaboradores da ditadura questionam atitudes de quem foi torturado. Não se pode transformar vítimas - por maiores que tenham sido seus erros - em algozes. Criminosos são os torturadores, não os que foram torturados.

Quando escrevi "O Homem que morreu três vezes" (Record, 2003), me deparei com uma dúvida: na pesquisa, tive acesso a depoimentos obviamente arrancados sob tortura e que acabaram incorporados a processos da Justiça Militar. E aí, o que fazer? Seria correto usar esse material? Na introdução do livro, explicitei essas dúvidas:

Até que ponto utilizar este tipo de informação não faz do pesquisador um cúmplice tardio do torturador? Seria razoável expor confissões e indicações que só foram feitas em uma tentativa de se escapar de uma dor insuportável? Mas como ignorar o que foi dito e que serviu de base para outros fatos?

Decidi então usar os tais depoimentos à polícia como fontes secundárias, de referência. O mais importante seria encontrar aquelas pessoas e ouvir suas versões para os episódios que me interessavam. No caso dos mortos, os depoimentos seriam usados em suas linhas mais gerais. Evitei expor detalhes que permitissem acusações tardias, a velha história de se definir quem teve "bom" ou "mau" comportamento durante as sevícias. Concluí que não seria possível medir nem julgar a dor de quem passou pela tortura.


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