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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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BG

fevereiro 2009 Archives

Como assim?

separador Por Fernando Molica em 27 de fevereiro de 2009 | Link | Comentários (0)

. Vamos ver se eu entendi bem: peixes morreram atolados na lama depois que, por excesso de chuva, um lago secou. Repetindo: um lago secou porque houve excesso de chuva. Somos originais, ninguém pode negar.


Ainda a reforma ortográfica

separador Por Fernando Molica em 27 de fevereiro de 2009 | Link | Comentários (0)

Aquela conversa lançada aqui, sobre a reforma ortográfica e suas conseqüências (com trema), virou matéria na 'Bravo Online'. Para ler a reportagem, clique aqui.


Meu lugar

separador Por Fernando Molica em 13 de fevereiro de 2009 | Link | Comentários (7)

Há um dia e meio que o belíssimo samba "Meu lugar" (Arlindo Cruz e Mauro Diniz) não me sai da cabeça. Já o tinha ouvido outras vezes, em confusas rodas de samba, no meio de muitas cervejas e conversas. Daí que nunca tinha prestado muita atenção nos seus versos, ficava ali só berrando "Madureiraaaaaaaaaaaa!".

Só que anteontem à noite, na festa do Império Serrano no Teatro Rival, Arlindo, um dos convidados, decidiu cantá-lo. Admito: esse coração suburbano ficou impactado pela beleza de letra e música, derrubado ao ouvir "O meu lugar/ É cercado de luta e suor/ Esperança num mundo melhor/ E cerveja pra comemorar".

É tudo muito simples, não há qualquer grandiloqüência, arroubo, drible de efeito. Mas como é bonita essa crônica que tem jeito de tarde quente de sol chapado que se reflete no quarador, cheiro de pão trazido pelo padeiro em cesto de vime colocado à frente da bicicleta, movimento de garotos correndo descalços atrás de uma bola em rua de paralelepípedos, delicadeza de pipa que baila no céu, carinho de avó sentada à porta de casa tomando a fresca no fim da tarde.

"Meu lugar" recupera um subúrbio eterno. É samba enredo que permite a evolução de infinitas alas, que lembram a menina gostosona que morava na outra rua, o sapateiro português da esquina, a feira livre, o Colégio Guarani, a passarela sobre a estação, a vila de 18 casas, a alegria de ganhar bicicleta nova no Natal, os carnavais no River, os blocos de sujo, o santo que baixa na vizinha a cada virada de ano.

Samba que embala carros alegóricos com imagens de meus avós, minhas tias, meus tios, primos, pais, meu irmão - um dos carros, eu vi!, trazia minha própria imagem. Arlindo cantava "Madureiraaaaaaaaaaaaaa!" , e eu, com os olhos suburbanamente molhados, ouvia "Piedadeeeeeeeeeeeeeeee!".

Meu Lugar
Arlindo Cruz e Mauro Diniz

O meu lugar
É caminho de Ogum e Iansã
Lá tem samba até de manhã
Uma ginga em cada andar

O meu lugar
É cercado de luta e suor
Esperança num mundo melhor
E cerveja pra comemorar

O meu lugar
Tem seus mitos e seres de luz
É bem perto de Oswaldo Cruz
Cascadura, Vaz Lobo, Irajá

O meu lugar
É sorriso, é paz e prazer
O seu nome é doce dizer:
Madureira

Ah, que lugar!
A saudade me faz relembrar
Os amores que eu tive por lá, é difícil esquecer
Doce lugar!
Que é eterno no meu coração
Que aos poetas traz inspiração, pra cantar e escrever
Ai, meu lugar!
Quem não viu Tia Eulália dançar?
Vó Maria o terreiro benzer?
E ainda tem jongo à luz do luar
Ah, que lugar!
Tem mil coisas pra gente dizer
O difícil é saber terminar...
Madureira!

Em cada esquina, um pagode, um bar
Em Madureira!
Império e Portela também são de lá
Em Madureira!
E no Mercadão você pode comprar
Por uma pechincha você vai levar
Um dengo, um sonho pra quem quer sonhar
Em Madureira!
E quem se habilita até pode chegar
Tem jogo de ronda, caipira e bilhar
Buraco e sueca, pro tempo passar
Em Madureira!
E uma fezinha até posso fazer
No grupo, dezena, centena e milhar
Pelos sete lados, eu vou te cercar
Em Madureira!


O fascismo dos trotes

separador Por Fernando Molica em 11 de fevereiro de 2009 | Link | Comentários (5)

A idéia do trote sempre me foi estranha. Ouvia falar da prática quando ia a Viçosa, Minas, terra do meu pai. Lá, no início de cada ano letivo, era possível ver muitos carecas pelas ruas - é uma cidade pequena, dominada por uma importante universidade federal. Deve ser por isso que, desde criança, associei a idéia do trote a algo interiorano - como diria o Agamenon, com preconceito, por favor.

Eu não tinha noção disso, mas, na época - finzinho dos anos 60, início dos 70 -, a juventude universitária carioca parecia estar preocupada com tarefas mais relevantes, como a de derrubar a ditadura e implantar o regime socialista pela via revolucionária. Diante de desafios e objetivos mais nobres, a idéia do trote foi envelhecendo, acabou carcomida. Num momento em que jovens eram mortos e torturados seria um absurdo submetê-los a outra forma de tortura e de humilhação. Na prática, não se ouvia falar muito em trote aqui no Rio, pelo menos, no circuito Piedade-Méier.

Entre na faculdade em 79, duas semanas antes da posse do Figueiredo, que seria o último presidente do ciclo militar. No primeiro dia de aula houve uma espécie de trote: um vetereano, o Fernando Brito - que mais tarde se tornaria mais brizolista que o Brizola - entrou na nossa sala de aula, disse que era professor de filosofia, falou um monte de barbaridades e elencou uma bibliografia obrigatória de uns 15 itens - alguns livros em inglês, francês e - creio - em alemão. A brincadeira não durou muito. Depois, fomos convidados - sem qualquer ameaça física, sem qualquer humilhação - a fazer o que eles chamavam de "pedágio": tivemos que tentar empurrar para motoristas exemplares de alguma revista de poesia editada pelos alunos da faculdade. Em troca, recebíamos moedas que, uma hora depois, ajudaram a financiar uma roda de cerveja. Ninguém foi pintado ou teve a cabeça raspada.

Mas o trote voltou: deve ser por falta do que fazer (derrubar a ditadura, por exemplo). De uns anos pra cá, essa manifestação fascista ganhou força e recomeçou a fazer vítimas. Pior, os casos se tornaram mais graves, até mortes já foram registradas. É difícil imaginar o que gera o trote: talvez uma necessidade animalesca de se impor, de mostrar força, de compensar na humilhação ao outro algum outro tipo de impotência, de frustração sexual - sei lá. Sei que isso - repito - é fascismo puro e como tal não pode ser tolerado, principalmente em um ambiente universitário. Campus universitário não é filial da Baronetti, aquela boate do Rio onde jovens volta e meia caem na porrada.

O trote é ilegal - sua tolerância e admissão se constituem em outro crime. Autonomia universitária é o cacete: a polícia e o MP têm obrigação de reprimir a prática e de punir seus autores e seus cúmplices (diretores e donos de faculdade). Não se pode tolerar o fascismo.


Blocos de guerra

separador Por Fernando Molica em 06 de fevereiro de 2009 | Link | Comentários (1)

A radicalização em disputas para a escolha de sambas de blocos ameaça uma das mais divertidas brincadeiras criadas no Rio nos últimos anos. Explico: ninguém ganha nada ao vencer um desses concursos. Fatura-se apenas uma duvidosa glória, conquista-se também o prazer de ver milhares de pessoas cantando uma música que você ajudou a fazer.

Em alguns casos, os compositores têm direito a beber cerveja de graça durante o desfile. Não conheço ninguém que tenha conseguido arrastar uma colombina graças a uma dessas vitórias, mas é possível que isso já tenha acontecido. Bem, as glórias terminam por aí - pelo menos para quem acha que vencer disputa de samba de bloco é apenas vencer disputa de samba de bloco. Falo com algum conhecimento de causa: ganhei duas vezes, perdi várias.

O bom mesmo não é a disputa, mas fazer o samba. Juntar um grupo de amigos e passar horas bebendo, inventando frases e sacanagens. Ou seja, o que vale a pena é brincar. Trata-se de uma atividade lúdica, quase infantil, disputada com a gana que se dedica a uma boa pelada de fim de semana. É algo que tem a força de uma pelada e, ao mesmo tempo, a consciência de sua desimportância. Fazer samba é também uma forma de render homenagem ao Rio, à sua história, à sua tradição - a uma tradição que precisa sempre ser renovada para não ficar encastelada, cheia de pó.

Mas repito: só vale a pena fazer isso brincando. E, nos últimos anos, a brincadeira tem começado a ficar séria demais. Jurados têm deixado de sorrir, de sambar: ficam compenetrados, sérios, assumem o ar de quem participa de uma banca de pós-gradução. Torcidas uniformizadas são montadas, uniformes e camisetas para grupos de competidores se tornais comuns, gritos de guerra - vâmulá! vâmuganharessaporra! - têm sido ouvidos.

A generosidade entre vencedores e vencidos acaba sendo substituída por uma postura arrogante, que reforça a Vitória assim, com V maiúsculo, que tenta ganhar bafos de epopéia. O prazer de impingir derrotas parece, em alguns casos, ser maior do que o prazer de ganhar. A possibilidade de vencidos subirem no carro de som para ajudar a cantar o samba dos vencedores - isso já aconteceu - parece ter se acabado.

Combinemos: sambas de bloco podem ser legais, engraçados, criativos. Mas, de um modo geral, não são obras fadadas a conquistar um lugar na eternidade. Quase todos cheios de lugares-comuns, nas letras e nas melodias, esses sambas têm, desde o nascedouro, uma espécie de prazo de validade: são feitos para durarem por duas, três, quatro horas - o tempo de um desfile. Podem ganhar uma vida extra na memória de seus compositores, na de um ou outro folião. Mas tudo se acaba numa imaginária quarta-feira.

O carnaval prescinde de jurados, de gritos de guerra, de vamuláporra. Pegando carona em Bosco/Blanc, não ponham cordas - nem mesmo virtuais - no meu bloco, nem que seja no meu bloco do eu sozinho, no bloco dos meus amigos. Cordas que só existem para quem decide se submeter a elas. Por enquanto - e espero que eu tenha juízo de renovar esse por enquanto ao longo dos próximos carnavais - eu pulo fora da cordas, das disputas, dos jurados, dos gritos de guerra. Vale lembrar: isso é apenas carnaval. Aos vencedores, os confetes.


BG
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