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Pontos de Partida, o Blog do Fernando Molica

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janeiro 2009 Archives

Mais do mesmo

separador Por Fernando Molica em 30 de janeiro de 2009 | Link | Comentários (5)

Aquele time da Gávea deveria ser logo declarado campeão carioca de 2009. Foi escandalosamente favorecido nos dois jogos até agora realizados, até os rubro-negros admitem isso. Seria mais simples que, em nome da tranqüilidade da cidade, do choque de ordem, qualquer coisa assim, que o título fosse logo para as mãos deles. Com o campeonato definido, haveria um torneio, uns amistosos entre todas as equipes. Algo que pudesse ser disputado em condições mais ou menos honestas. O vencedor seria uma espécie de campeão moral, mas o título já estaria assegurado.

Ah, não custa lembrar: o árbitro do jogo de ontem, contra o Bangu, foi o Djalma Beltrami. Tenente-coronel da Polícia Militar do Rio de Janeiro, ele foi o mesmo que, na final do campeonato carioca de 2007, aos 44 do segundo tempo, marcou um impedimento inexistente do Dodô e ainda o expulsou porque ele completara o lance, fizera o gol. O gol que daria o título ao Botafogo. Bem, o Botafogo, além de ter um gol legítimo anulado, perdeu seu principal atacante, cobrador oficial de pênaltis. Em caso de empate, o título seria disputado... nos pênaltis. Abalalado pelos, digamos, erros do juiz, o time foi para a disputa aos pedaços. A vitória foi do adversário, aquele mesmo time rubro-negro que seria favorecido na Taça Guanabara de 2008 e que venceria de forma absurda seus dois jogos neste início do Carioca de 2009.

Quando terminou o jogo de 2007, eu - que estava no Maracanã - prometi que não mais iria a estádios para ver jogos do Carioca, deixaria de ser cúmplice daquilo. Não consegui cumprir a promessa em 2008, espero ser mais firme em 2009 (de qualquer forma, é difícil escapar dos problemas extra-campo: vale lembrar que, no campeonato brasileiro, os ventos que fazem soar os apitos tendem sempre soprar na direção do Morumbi).



Projeto Lima Barreto

separador Por Fernando Molica em 27 de janeiro de 2009 | Link | Comentários (3)

"Essa expansão do metrô até a a Barra é um absurdo!" - a frase, dita pelo arquiteto e urbanista Sérgio Magalhães, me fez dar um pulo na cadeira. Como assim? Estender o metrô até a Barra me parecia uma solução óbvia. O Sérgio, carioca apaixonado, nascido no Rio Grande do Sul, explicou a razão de sua implicância. O dinheiro para as obras seria muito mais bem empregado na transformação dos trens suburbanos em metrô. Haveria mais conforto, menores intervalos entre os trens. Argumento definitivo: no subúrbio moram uns três milhões de cariocas; na Barra, uns 150 mil.

Conversa vai e vem (estávamos num bar do Jardim Botânico, comemorando o aniversário de um de seus filhos, o amigo Tiago Petrik), desandamos a falar de subúrbio, do abandono absurdo dessa área da cidade. Formulador do Favela-Bairro, professor da FAU-UFRJ, ex-subsecretário municipal de Urbanismo, Sérgio saiu rabiscando papéis que encontrava na mesa, provando como a recuperação dos subúrbios é viável e fundamental para a cidade - não dá para se falar no Rio sem se conceber o diálogo e a convivência entre as zonas Norte e Sul.

No meio da conversa, gritou-se o nome de Lima Barreto, jornalista, escritor, mulato e suburbano de Piedade (meus avós, minha mãe e meus tios moraram na rua batizada com seu nome, lá mesmo no bairro). Sérgio então saiu do bar, foi para casa e, na madrugada de hoje, criou em seu blog Cidade Inteira o Projeto LIma Barreto, um "movimento social pela recuperação dos subúrbios da Zona Norte". Já pedi inscrição no Projeto, quero minha carteirinha. Por Lima Barreto, pelos subúrbios, pelo Rio.


Amor e guerra

separador Por Fernando Molica em 23 de janeiro de 2009 | Link | Comentários (7)

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Os símbolos que marcam a radical mudança na Casa Branca são quase infinitos. Nada menos parecido com Bush do que Obama (ainda bem!). Mas um é particularmente interessante e, talvez, menos óbvio: ao olharmos para o casal Obama temos todos a nítida impressão de que Barack e Michelle gostam de brincar, de fazer suas saudáveis travessuras na cama.

Pode parecer óbvio que isso ocorra num casal ainda jovem, mas, em se tratando de presidência dos Estados Unidos, não é. Pelo contrário: Bush-filho fez uma clara opção por fazer a guerra e não o amor. Durante seus mandatos, a lógica puritana-religiosa foi fomentada; risíveis e mesmo irresponsáveis campanhas pró-virgindade ganharam estímulo, houve um freio na prevenção de DSTs. A abstinência sexual passou a ser o modelo ideal para os jovens, muitos faziam declarações públicas de preservação de sua suposta pureza. Claro que não deu certo, até mesmo a filha adolescente da candidata a vice do McCain apareceu grávida.

Nada nas aparições públicas do casal Bush permitia imaginar que os dois fizessem na cama algo além de orar. Talvez o então presidente fosse edipiano - e seria assustador lembrar do rosto da mamãe Barbara Bush na hora das preliminares. No máximo, George W. poderia chegar nos ouvidinhos da patroa e comentar algo como "hoje nós f. com os iraquianos...".

Já Barack e Michelle trocam selinhos, olhares e abraços ousados em público, andam de mãos dadas, riem enquanto dançam (num daqueles infindáveis bailes da noite da posse, Michelle parecia dar um pito no maridão que, pelo jeito, havia falado alguma pequena sacanagem ao seu ouvido). Ok que tudo isso pode ser jogada de marketing, um reforço da imagem de mudança. Mas é inegável admitir que houve uma evolução que permite uma arejada naquele ambiente pesado e bélico da Casa Branca - como é impossível não admitir que esse tipo de comportamento gera sinais mais relaxados para a sociedade como um todo, deve ajudar a diminuir a taxa de malucos por aquelas bandas.

Enfim, como se dizia lá pelo fim dos anos 60 e início dos 70, que os Obama façam amor e não a guerra. O mundo agradecerá (como diz meu amigo Aydano: que sejam felizes!).


Os suspeitos de sempre

separador Por Fernando Molica em 22 de janeiro de 2009 | Link | Comentários (6)

Reportagem publicada hoje, 22/1, na página C5 do "Estadão", dá uma nova roupagem para a teoria do Cesare Lombroso, aquele italiano que, no século 19, formulou uma relação entre características físicas de seres humanos e suas tendências para cometer crimes.

A matéria dá a entender que torcedores de um certo time de futebol são chegados à delinqüência. O colega (um ótimo repórter, veterano na cobertura policial em São Paulo) achou que valeria a pena destacar, logo na abertura da reportagem, o time de coração de um sujeito que foi preso acusado de participar do seqüestro de uma equipe da Globo em 2007. A matéria começa assim:

"O flamenguista Sérgio Moura da Silva, de 27 anos, foi preso por policiais do Departamento Estadual de Narcóticos (Denarc) na segunda-feira."


O sorvete de Paes

separador Por Fernando Molica em 10 de janeiro de 2009 | Link | Comentários (2)

Caro prefeito Eduardo Paes: ameaçar cobrar taxas de blocos de rua no Rio é pior do que pedir sorvete em açougue, como fez seu antecessor. Comparar o carnaval de rua carioca com o baiano é como comparar os foguetes do Hamas com o poderio bélico de Israel - não dá para ignorar as diferenças de peso entre os dois.

Ao contrário do que ocorre na Bahia, os blocos daqui não são empresas, não representam atividade econômica organizada. Lá em Salvador, um abadá chega a custar R$ 1.890,00 (preço para pular no Camaleão por três dias; o, digamos, one-day-abadá sai por R$ 840,00). Aqui no Rio não há corda separando foliões oficiais de não-oficiais, ninguém precisa comprar a camiseta (que custa uns R$ 15,00/R$ 20,00) para brincar. O dinheiro com as camisetas e com os patrocínios é usado com aluguel de carro de som, pagamento de bateria e contratação de seguranças. E só.

Quem ganha dinheiro com o Carnaval de rua é o município, que arrecada mais, que tem sua economia movimentada pela vinda de gente de todos os lugares. Os blocos tiraram o Carnaval do Rio de um impasse, já que a festa estava praticamente reduzida ao desfile das escolas de samba - um espetáculo deslumbrante, mas que é caro e oferece reduzidas possibilidades de participação e audiência.

O Carnaval de rua carioca é o que talvez melhor representa o povo que vive por aqui. É algo que nos traduz, que nos revela. Algo democrático, aberto a todos. A prefeitura só tem a lucrar com esta festa se agir de maneira correta. Basta conversar com os blocos, negociar itinerários e tempo de desfile, criar esquemas de trânsito que impeçam a paralisação da cidade. E, claro, cabe à prefeitura instalar banheiros químicos pela cidade - um investimento muito pequeno em relação aos benefícios que a festa traz para todos nós.

Em tempo: li, durante a campanha, que o então candidato Eduardo Paes costumava freqüentar micaretas e que tais. Ok, deve ter se divertido. Mas garanto que teria se divertido mais em um de nossos blocos, cantando e sambando pelas ruas da nossa querida cidade.



Pretinha e seu dono são encontrados

separador Por Fernando Molica em 10 de janeiro de 2009 | Link | Comentários (2)

Parem as máquinas! A repórter Amanda Pinheiro e o fotógrafo André Luiz Mello encontraram o menino - chamado de L. - e sua cachorrinha, a Pretinha. A história, muito triste, pode ser lida hoje em "O Dia".


Pretinha

separador Por Fernando Molica em 09 de janeiro de 2009 | Link | Comentários (5)

Não gosto de cachorro. Sei que dizer isso pega mal, muita gente vai virar a cara pra mim, achar que eu não mereço a festinha que um quadrúpede desses um dia fez pra mim. Mas não gosto. Deve ser trauma de infância, causado, talvez, pelos pastores alemães que viviam numa casa bem na entrada da vila em que eu morava, em Piedade. O líder da matilha era um tal de Zorba, que passava as madrugadas uivando. Se não me engano foi ele que unhou ou mordeu meu avô, que tinha ido abrir o portão que permitia o trânsito de carros na vila. O vô Mário ficou de costas para o portão da casa dos cachorros e, nhac!, levou uma zorbada nas costas.

Talvez implique mesmo com os donos de cachorros, seres apaixonados por esses bichinhos mais compráveis do que boa parte dos políticos brasileiros. Basta dar alguma comida, um pouco d'água, que qualquer cãozinho se transforma num fiel companheiro - mesmo se for tratado às patadas. Melhor amigo do homem? Sim, o melhor que o dinheiro - pouco dinheiro que seja - pode comprar. Compreendo as razões de quem ama seu totó, os cães podem ser bons companheiros, mas às vezes acho que quem se liga de forma excessiva e quase-doentia a esses bichos tem alguma dificuldade para se relacionar mais profundamente com os iguais, os humanos (outra ressalva: admito que a humanidade também não ajuda muito, ô raça!).

Mas, é claro, os cachorros têm o direito de serem bem-tratados (principalmente aqueles que não me mordem, lambem ou colocam patas sobre as minhas calças). Não quer dizer também que eu não me comova com cenas como a da Pretinha e seu dono. Pra quem não leu "O Dia" de terça passada: na véspera, a prefeitura do Rio fazia uma operação chamada Choque de Ordem, um vareio nas irregularidades urbanas (tem trabalho para uns 200 anos). Lá na Tijuca os fiscais levaram para a van um garoto de 13 anos que vivia nas ruas e deixaram de fora a cadelinha dele, a Pretinha. A bichinha, coitada, fez de tudo para ir junto, ficou pulando ao lado da janela em que estava seu dono, estendeu patinha para ele, um negócio muito comovente. Tudo teria passado batido se a Isabela Kassow, ótima fotógrafa lá do jornal, não tivesse - aos prantos, como confessaria depois - registrado as cenas, que foram parar lá na coluna, no "Informe do Dia".

A repercussão foi absurda, muita gente telefonou para o jornal, mandou e-mails. Todo mundo protestou contra a separação da dupla, reclamou da insensibilidade dos fiscais. Todos estavam com pena do garoto e da Pretinha - a convivência certamente tornava menos dura a difícil vida dos dois. A história virou até editorial de "O Dia" - um texto que ressaltava a dificuldade de aplicar choques quando na ponta da linha há seres humanos e não apenas prédios. Hoje, sexta, o jornal publica reportagem sobre a busca de Pretinha, nossa musa (levado para um abrigo, o menino fugiu, também está desaparecido).

Enfim, sou insuspeito para defender cães e seus donos. Mas não dá para negar que a história é espetacular, emocionante. Que é preciso mais cuidado para não se destruir laços afetivos, ainda mais quando se trata de uma criança que vive nas ruas. Nesta nossa cidade tão violenta e cruel, esses meninos e meninas são geralmente vistos com desconfiança, desprezo - e até mesmo ódio (muita gente defendeu a chacina da Candelária, há alguns anos). Mas o afeto entre o menino e Pretinha derrubou preconceitos, revelou o óbvio: aquele garoto é, enfim, um garoto. Um menino que vive nas ruas, que tem certamente uma vida barra-pesada, mas que não deixa de ser menino. Um menino que tem direito a uma vida melhor. O Estado, um dos responsáveis por seu abandono, ainda conseguiu piorar as coisas ao separá-lo de sua cachorrinha. Enfim, aplausos para o menino e para Pretinha, a cadelinha que resgatou, aos olhos de todos nós, a humanidade daquele garoto. Não é pouca coisa.


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