El Cid
Ontem, em meio à apuração de notas sobre a eleição aqui do Rio, fiquei triste ao saber da morte recente do publicitário Cid Pacheco, um dos meus melhores professores da ECO, a Escola de Comunicação da UFRJ. Pode parecer meio esquisito eu, jornalista, colocar um publicitário na lista dos melhores professores - mas não é.
Tive dois períodos de aulas com o Cid - o segundo deles, por opção. O cara era genial, ajudou a quebrar alguns dos meus preconceitos sobre publicidade, opinião pública, poder da mídia em geral. Lembro que, naquele início de anos 80, todos entusiasmados com a perspectiva de eleições para governadores, o Cid, que adorava sacanear aquele bando de simpatizantes de partidos de esquerda, provocou, num evidente e proposital exagero:
- Vocês ficam aí animados com eleições, mas quem manda no governo não é o governador, é aquela velhinha que, na repartição, deixa o público esperando enquanto come sanduíche de mortadela com guaraná na frente de todo mundo.
Foi o Cid que mostrou com clareza que a propaganda não antecipava nada, apenas pegava carona em hábitos e tendências da sociedade. Lembro que ele costumava defender anúncios que exploravam a sensualidade de mulheres e que, volta e meia, ainda causavam algum protesto:
- Isso (um anúncio, digamos, de jeans com uma mulher meio pelada) só é possível porque estavamos numa sociedade que aceita isso (e mostrava um exemplar da revista "Manchete" de carnaval, cheia de fotos de mulheres e travecos de peitos de fora).
Foi o Cid também que balançou o coreto (caramba, tô ficando velho. Ninguém aí deve saber o que é um coreto!) de algumas normas sobre hierarquia na produção cultural - de certa forma, ainda cultivávamos uma certa herança de um pensamento típico do CPC da UNE, aquela história de levar a supostamente boa cultura ao povo.
- Todo mundo tem o direito de gostar do que bem entender. Não adianta você dar um quadro do Mabe pro sujeito que quer um quadro com um laguinho, um barquinho e um pôr-do-sol. O cara tem o direito de gostar de um quadro com laguinho, barquinho e pôr-do-sol!
Nem sempre eu concordava com tudo o que o Cid dizia. Mas o cara cumpriu muito bem o papel de desarrumar idéias, de quebrar parâmetros. Num universo tão cheio de certezas como aquele - ainda discutíamos, e como!, a opção revolucionária para a ascensão do proletariado ao poder -, foi muito bom ter sido aluno do Cid. O mais engraçado - soube ontem - que nos últimos anos de vida, o cara foi pra Venezuela, virou marqueteiro do Hugo Chávez. Grande Cid!














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