Diálogo Norte-Sul (meu nome é Creuza)
A eleição do Rio fornece um mote para que seja aprofundada uma boa discussão sobre a cidade, mais especificamente, sobre a divisão Norte-Sul, subúrbios x Zona Sul. Essa discussão sempre foi meio emperrada pelos estereótipos: de um modo geral, o subúrbio é visto apenas como sinônimo de lugar de gente boa, alegre, casas-simples-com-cadeiras-na-calçada, ou como algo ameaçador, fonte da violência, do funk, do ih-vamos-invadir.
Esses são os aspectos visíveis, exemplos do bem e do mal: a boa convivência na feijoada da Portela, os olhos de horror para a confusão, no entardecer dos domingos de verão, no ponto final do 484, no Posto 6. E que atire o primeiro prato de farofa o morador da Zona Sul que nunca pensou em exilar todos aqueles sujeitos barulhentos no Piscinão de Ramos.
As falas desastradas de Gabeira e sua exploração um tanto quanto exagerada e oportunista são um fato político, relacionado ao processo eleitoral. Mas existe uma constatação maior: a cidade está, mais do que nunca, claramente dividida. Assumidamente dividida, eu diria. Isto fica bem explícito ao compararmos os gráficos de votação das extremidades, Zona Sul e Zona Oeste.
Mas como eu ia dizendo lá em cima. A eleição mostrou que existe uma relação mal resolvida. De um lado, uma Zona Sul arrogante até quando tenta ser solidária e abraça um projeto que aponta para um futuro, digamos, europeu, de civilidade e de convivência. Mas que tem um porta-voz que, em um ato falho, vocaliza que, no fundo, acha que o Rio termina no Túnel Rebouças (algo como "não vou governar só para o Rio de Janeiro").
No outro lado há um subúrbio ressentido, que não aparece no mapa, como frisou Chico Buarque no seu último CD. Lembro que, quando era criança, ficava irritado ao não ler nos jornais informações sobre os bailes de carnaval que ocorriam na minha vizinhança, no subúrbio. Os jornais só citavam os da Zona Sul, era como se nós não existíssemos. Mesmo assim, o subúrbio já se viu mais integrado à Zona Sul e que, hoje, se sente cada vez mais discriminado. Um subúrbio empobrecido e feio - na minha infância, Piedade era um bairro muito mais bonito do que hoje, mais conservado, cuidado. Morar no subúrbio não era uma condenação, mas (com o perdão da rima), uma opção. Uma alternativa para quem não queria se submeter ao ritmo e à lógica da Zona Sul.
Só que, ao longo dos anos, os investimentos públicos foram sendo concentrados à beira-mar, aplicou-se muito dinheiro para refazer o que estava pronto na Zona Sul - enquanto isso, ainda há ruas não-urbanizadas, não calçadas, no além-túnel. Os efeitos das ondas de recessão foram maiores no subúrbio, muitas empresas fecharam, a violência por lá é mais evidente. Os governantes sabem que a opinião pública é mais organizada na Zona Sul - por aqui moram jornalistas, artistas, políticos. As escolas e os hospitais públicos são melhores nesta parte da cidade.
Deu no que deu: o voto suburbano foi também um voto ressentido. Temo que esta eleição possa aprofundar essa divisão: uma parcela mais reacionária da Zona Sul pode se sentir mais liberada para um discurso preconceituoso e, mesmo, racista. Na campanha, o prefeito agora eleito tratou de ressaltar a divisão, buscou se beneficiar dela. Agora ele tem o desafio de tentar diminuir os antagonismos - até porque ele sabe que dá para ganhar a eleição sem a Zona Sul, mas é muito complicado governar sem ela (é só perguntar para a ex-governadora Rosinha).
Só para ilustrar, aí vai um trecho de uma paródia de "Como uma deusa" cantada, há alguns anos, numa peça-show aqui na Zona Sul, na Gávea, acho. Ela ajuda a entender as dificuldades na relação Norte-Sul.
"Meu nome é Creuza/
Só ando de trem/
E os vale que o Edmílson dá/
Me levam além.
Tão perto das Sendas/
tão longe do Freeway..."














Leandro, acho melhor não: eu teria que ir para outro município na hora de visitar meus parentes em Piedade ou ver os jogos do Botafogo.
abraços.
Caríssimo: claro que a situação é mais complexa. Mas, se pegarmos um trem - meio real, meio imaginário - na direção sul-centro-norte-oeste vamos verficar que a mancha verde vai se diluindo aos poucos. O esquema sul-norte é apenas uma tradução possível, que tenta resumir outros embates (níveis de renda, de escolaridade). Não quero fazer juízo de valor, apenas uma constatação. E acho que o Rio é singular inclusive nisso - a cidade é mais hierarquizada, chega ao ponto de ter uma muralha natural que separa a zona mais nobre das outras.
PS: costumo dizer que fui suburnano até os 15 anos, quando me mudei pro Méier. No Méier dava até pra sentir cheiro de maresia.
Eis os dados que obtive no site do TRE-RJ e do Raio X da Eleição, do UOL.
Zona Central
Paes - 50,2%
Gabeira - 49,8%
Zona Sul
Paes - 29,4%
Gabeira - 70,6%
Zona Norte
Paes - 51,6%
Gabeira - 48,4%
Zona Oeste
Paes - 57,5%
Gabeira - 42,5%
Os bairros do entorno do Méier e de Del Castilho elegeram Gabeira. Ao contrário do que a grande imprensa alardeou, a vitória de Paes na Zona Norte não foi tão significativa assim. A paridade foi impressionante e Paes ganhou em bairros como Olaria, Marechal Hermes, Anchieta, Madureira e suas adjacências. Tijuca, Maracanã, Vila Isabel e adjacências elegeram Gabeira. A grande diferença aparece mesmo na Zona Oeste como você registrou no texto. Foi ali que o Paes ganhou. O que parece claro na geografia do voto é que o subúrbio próximo votou em Gabeira. Já o Subúrbio distante votou em Paes, fazendo coro com a Zona Oeste. Boa parte dos 42% que Gabeira conseguiu na Zona Oeste são da Barra da Tijuca, onde ele chegou a atingir 70% na Zona Eleitoral 119.
Então, eu acho que a cidade está partida, mas a forma é mais complexa do que o esquema Zona Norte vs. Zona Sul. Pois há uma Zona Norte (Tijuca, Méier, Del Castilho etc.) fazendo coro com a Zona Sul, pelo menos no voto do segundo turno. E uma Zona Norte (Olaria, Madureira, Mal. Hermes.) fazendo coro com a Zona Oeste. A cidade está partida em quantos pedaços? A pergunta é complicada... a resposta, então... me parece mais ainda...
Registrei, sobre o pleito, isso aqui:
http://geografiassuburbanas.blogspot.com/2008/10/sobre-o-resultado-das-eleies-no-rio.html
Abraços!
Então, Fernando, vou radicalizar. Sugiro dividirmos o Rio de Janeiro em dois Estados? Rio de Janeiro do Norte e Rio de Janeiro do Sul. A Tijuca, onde moro, ficaria na do sul, claro, pois não temos trem. Junto com a grande Tijuca - Grajaú, Vila Isabel... A Barra seria sul e Jacarepaguá, norte. Já estamos divididos mesmo... Eu voto a favor!
Vão me chamar de elitista, mas assim não teríamos que aturar esses Paes e Babus da vida!
Abraço,
Leandro
Pois eu já acho que o recorte mais relevante aí é o da formação. Neste ponto, sim, a diferença foi grande. E me fez lembrar do livro "A cabeça do brasileiro", do sociólogo Alberto Carlos Almeida. Tendo cada vez mais a concordar com ele.
É expressivo sim, Moutinho. Mas a Zona Norte em que Gabeira venceu é a parte mais elitizada do além-túnel: Tijuca, Grajaú, Ilha do Governador por aí - onde não tem trem. Nas áreas suburbanas, o Gabeira perdeu. Quando se fala genericamente Zona Oeste se inclui Barra e Jacarepaguá, o que distorce a análise. Na Zona Oeste, digamos, clássica (Bangu, Realengo, Campo Grande), o Paes teve 61,93% e o Gabeira, 38,07%. Na Zona Sul, Gabeira teve 70,88% contra 29,12%. A disparidade é muito grande, os votos tiveram fronteira. Até acho surpreendente a votação do Gabeira em alguns bairros, mas ele perdeu. Por pouco, mas perdeu. Mas meu objetivo maior não é discutir a questão eleitoral, mas a cidade, a percepção de Zona Sul e subúrbio. Acho que isso foi decisivo e é mais importante, para a política e, principalmente, para a vida nessa nossa queridíssima cidade.
Abração.
Curioso, fui ver o Luis Salem sábado e ele cantou essa música (rs). Mas discordo um pouco dessa análise sobre a eleição. Gabeira teve 45% dos votos na Zona Oeste e venceu na Zona Norte. Isso não é expressivo?